Wednesday, February 15, 2006

15. O Farol

- Quando é que é a minha vez, mãe?- Perguntou o miúdo
com alguma ansiedade.
- A próxima.
E arrumou os pratos no armário de madeira com portas de
rede. O miúdo ficou a olhar para o fogo e a imaginar a sua
futura aventura se não mesmo glória.
O pai chegou, entrou, fechou a porta e encaminhou-se para o
fogo, sem nada dizer. Bateu com as sapatorras no chão. Soprou
nas mãos geladas. Olhou para a mesa e pediu comida. Foi
então que o miúdo disse:
- Eu sou o próximo.
- Eu sei - disse o pai olhando para o prato da comida que a
mulher lhe punha na mesa.
A torcida do candeeiro a petróleo foi erguida mais um pouco.
Ouvia-se o pai a comer e o fogo também uma a uma as
achas com que era alimentado periodicamente.
***
Há trezentos anos já que Erris Head se chamava Erris Head.
Os seus habitantes viviam da pesca e de algum milho plantado
nos parcos e pedregosos terrenos de Leste. Havia dois moinhos
e algumas espécies animais: porcos, cabritos, coelhos e galinhas.
Nos Invernos agrestes das marés brabas, morriam muitos
pescadores por Erris Head não ter um farol. Zona de escolhos
e de pequenas rochas pontiagudas submersas, os barcos
desfaziam-se antes de entrar naquela pequena reentrância da
costa. Muitos barcos e homens se perdiam e a população, não
o dizendo explicitamente, lastimava mais a perca dos primeiros
que dos segundos - os homens só interessavam à família, mas
os barcos pertenciam à comunidade e fazer um novo levava anos.
Resolveram então construir uma lanterna grande e um farol.
Das terras de Leste carrearam enormes pedras que foram
colocando umas sobre as outras. mesmo na ponta de Erris Head.
Mulheres, homens e crianças ajudaram, entre gritos, pragas e
silêncios. Faltavam cerca de três semanas para a aspereza do
Inverno e o vento já se anunciava com rajadas sacanas,
principalmente durante a noite.
Quando a torre, espécie de menir gigante, ficou pronta, o filho de
McFee, com cerca de catorze anos, levou até lá acima a lâmpada
com óleo de peixe, acendeu-a, desceu e ficaram todos em redor a
olhar para cima. O pai sorriu para o filho.
Pelos desentendimentos do destino, o Inverno começou três
semanas mais cedo e, nessa mesma noite, a lâmpada apagou-se
e caiu, bem como se desmoronou todo aquele menir tão
laboriosamente construído.
Na semana seguinte todos repetiram as mesmas operações,
os mesmos gritos, as mesmas imprecações e os mesmos sorrisos.
No domingo, ao final do dia, o aglomerado de pedras e a enorme
e amolgada lâmpada marcavam novamente presença útil na
pontinha de Erris Head. E todos acenaram de satisfação com a
cabeça pela grande obra realizada.
Que durou três dias.
Ventos fortíssimos e ondas de oito metros varreram, na terceira
madrugada, Erris Head e o menir gigante mais a lâmpada
condizente se destroçaram e, por infeliz acaso, um barco
desfez-se nos rochedos e dois dos cinco homens que nele iam
morreram - pelo menos desapareceram, pois mais ninguém os
viu. No Purgatório deveriam estar, pois eram maus, brutos e
gananciosos, segundo afirmava aquele povo que era mau, bruto
e ganancioso.
***
Reunidos na taverna decidiram então que não seriam mais
utilizadas pedras e que tudo se resolveria com um pouco de
sacrifício e de boa-vontade.
Com a concordância geral, todas as noites "o farol" seria formado
por rapazes dos oito aos catorze anos, os mais velhos em baixo,
os mais novos em cima, o último dos quais segurava a lâmpada
assente sobre a cabeça de um deles. Assim ficavam desde o
entardecer ao alvorecer e era já uma honra pertencer ao grupo
do farol.
Por vezes, em noites bravias, desfazia-se parte da pirâmide
humana, mas logo se recompunha. As ondas vinham e
açoitavam-nos. O frio gelava-os. O vento abanava-os, mas a sua
determinação e honra alicerçavam o farol, para que este marcasse
presença acautelar nas noites frias, brumosas ou tempestuosas
de Inverno.
Algumas crianças morriam todos os Invernos de hipotermia,
outras de pneumonia, mas nunca mais se perdeu um barco.
(do livro Scrabble)

Tuesday, February 14, 2006

14. O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

10.
O'Hara olhou pensativamente para o seu motorista, um
agente há pouco saído das rondas nocturnas.
- Pr'á onde, Chefe? - Perguntou o há pouco saído das
rondas nocturnas.
- Olha, vamos para a Park Avenue e depois paras mesmo
à porta do Waldorf, só para chatear.
- Waldorf?! Recebeu uma herança, Chefe?
- Põe-te a caminho, se não quem te dá uma boa herança,
que nunca mais esquecerás, sou eu.
E lá partiram os dois a mirarem-se pelo rectrovisor.
O porteiro olhou desconfiado para a primeira coisa que saiu
do carro: a perna de pau, esticadinha, firme e tudo. Quando ia
a reclamar, ouviu uma voz grave e profunda murmurar:
- Cala-te Jack. Vai para a casota e rói um osso.
Com a dignidade da farda e do posto, o porteiro responde,
solene, qual guarda da rainha, em Londres:
- Muito bom dia, Excelência. Os aposentos reais aguardam
Vossa Excelência. É a suite cor-de-rosa.
- E se fosses levar no cu?
- As sugestões da Polícia são, por vezes, difíceis de cumprir.
Mas, quando Vossa Excelência for para a colina da saudade,
com um pé para a frente, já que o outro é de madeira, levar-
-lhe-ei crisântemos e uma saudação final.
O'Hara deixou passar tanta indignidade, insulto e ironia e
entrou no hotel mancando, obviamente.
Na recepção foi simples: mostrou a carteira com o crachat
e a identificação e perguntou o número da suite. Informaram-
-no logo, logo. O'Hara tinha a pála levantada.
No elevador, o ascensorista de serviço tentava olhar para
o tecto ou para o chão, mas não, não conseguia tirar a vista
daquela órbita vermelha, que parecia o cu de um macaco velho.
Ao primeiro batimento, George abriu a porta.
- Chamo-me O'Hara e sou da Polícia. O velhote pode receber-
-me? Preciso de falar com ele.
George detestava os Estados Unidos e a sua falta de respeito
pelos verdadeiros valores hierárquicos. Por isso replicou em
tom baixo e frio:
- O senhor Hercule Poirot é uma pessoa idosa, não é um
"velhote". Mas... tentarei ver se o poderá receber. Faça o favor
de entrar e de se sentar... - e, olhando para a perna de pau,
acrescentou: - se puder...
Com exagerada dignidade, George dirigiu-se para a segunda
sala da suite alugada por Poirot. Fechou cuidadosamente a meia
porta de comunicação, enquanto mirava, de lado, o perneta.
Poirot escrevia pacientemente, cofiando ocasionalmente o
bigode. Sobre a secratária, fumegante, uma chávena de chocolate
olhava para ele, com significativo tédio.
- O'Hara? Não conheço. Irlandês, talvez...
- Se me permite, senhor...
- Diga, George.
- O senhor que está lá fora não é um cavalheiro.
- Ah! É, como se diz, um... travesti...
- Não, não. É um homem... mas não é um cavalheiro.
- Bien... quer dizer, George, que é da Polícia? Então tenho a
obrigação de o receber.
George, patenteando bem o seu desagrado, retirou-se, para
logo introduzir o visitante.
Hercule Poirot levantou-se para o receber e indicou, com
um gesto amplo, um cadeirão, em frente da sua secretária.
- Queira sentar-se, senhor...
- O'Hara, Chefe da Brigada de Homicídios.
- Faça o favor de dizer.
- Bem. Soube que estava em Nova Iorque e gostaria de
trocar algumas impressões consigo sobre um caso...
- Como deve saber, já me reformei há alguns anos e...
mon chèr ami, vim aos Estados Unidos efectuar vinte
conferências sobre tema bem diferente da criminologia.
- Ah!
- Partirei amanhã para Ohio, onde pronunciarei a
segunda conferência, sob o tema aliciante de "a influência
dos sufixos xé e xinho na civilização assírio-caldaica".
- Muito interessante, mas...
Como sabe, na linguagem corrente, digamos a não
erudita, não cultivada, descobrimos, nos seus pormenores,
verdadeiras pistas culturais. Assim, quando dizemos...
- Desculpe, senhor Poirot, mas tenho quase os minutos
contados e, como não está receptivo a uma consulta, retiro-
-me, OK?
- Un moment. De qualquer modo, sempre gostaria de o
ouvir. É o mínimo que posso fazer por um... bien... confrade.
- Obrigado.
- Et bien...
Por certo já leu alguma coisa sobre as explosões...
- Mais oui! Oui! e não sei onde o homem chegará com
bombas cada vez mais fortes, mais potentes, mais...
- Não estou a falar dessas bombas, mas sim de pessoas
que explodem. Pum! Já está. Explodiu. Tudo em bocadinhos
pequeninos...
- Ah oui! Li uma reportagem ontem num dos vossos
enfadonhos jornais. Muito interessante... quando li,
lembrei-me imediatamente daquele caso das "pílulas
digestivas"... já foi há vinte anos, pardon, vinte e cinco anos.
O assassino oferecia uma pílula digestiva à vítima, após uma
lauta refeição e, horas mais tarde, quando ela fazia um
gesto brusco, caiam-lhe as duas mãos ou... bien, se fosse um
homem, os órgãos sexuais.
- E se fosse mulher?
- Os seios. Muito interessante.
- Nunca ouvi falar dessas pílulas... nem nesse caso mas,
na verdade, há uma certa analogia.
- E agora, que já tem os crimes solucionados, agradecia
que me deixasse continuar a preparar a minha segunda
conferência.
- Os crimes solucionados?!!! Qual solucionados?!!!
- Agradeço-lhe, senhor O'Hara, que não grite.
- Desculpe lá.
- Bien. Já sabe como as pessoas podem ser levadas, bem
contra sua vontade, a explodir; procure os químicos que
preparam as pílulas... ou os líquidos. É fácil, como vê.
- Eu... eu... bem... está bem... muito obrigado... até
breve... adeus...
- Muito bom dia, senhor O'Hara e não se esqueça.
- Esquecer?! Esquecer de quê, senhor Poirot?
- Cherchez la femme.

Sunday, February 12, 2006

13. A mulher com um olho de vidro (cont.)

9.
Uma hora mais tarde, entrou pesadamente no seu gabinete
o Inspector-Chefe Rockfeller. Apresentava nessa manhã um
estranho ar. Camisa aberta, gravata fora do sítio, barba por
fazer. Parecia que tinha dormido vestido, tapando-se com um
guarda-fato. Na mão esquerda, uma ponta de cigarro
amachucada.
- Entre.
- Bom dia, patrão.
- Bom dia, Bone. Trate-me por inspector.
- Muito bem, inspector.
- Tem aí um fósforo?
E acendeu a beata.
- Então o instector já não gosta de cachimbo?
- Não. Dá-me cabo dos dentes.
- É verdade, é. Olhe, a minha avó, que fumava cachimbo de
loiça, um dia...
- Olhe, Bone. Mais uma explosão. Um tipo chamado Hamlet,
colaborador de uma firma de importações e de exportações, a
Tom & Jerry, Killers. Gente séria.
- Ouvi o noticiário. Vim mais cedo por causa disso. Poderia
precisar de mim. A Brigada, que foi para o local, ainda não
regressou. Telefonaram apenas a pedir pinças e saquinhos de
plástico.
- Hum... Que pensa destes casos, Bone, destas explosões?
- Vamos ver. E sentou-se, sem prévia permissão, o que
parece não ter incomodado o Inspector-Chefe Timoteo
Rockfeller.
- Dê-me outro fósforo.
- Pode ficar com a carteira. Tenho mais na minha secretária.
- Não, não. É sua. Quando precisar, peço-lhe.
- Tá bem, inspector. Quanto ao caso, vejamos pelo ângulo das
vítimas. A primeira era um visitante búlgaro que, além de fazer
contrabando de cassetes vídeo, estava ligado a certos segredos
especiais e aos raios lazer.
- Até aí sei eu.
- É só para fazer uma revisão da matéria de facto.
- Continue, Bone. Vai muito bem.
- A segunda, um detective particular pouco conhecido, meio
apanhado da cuca, que parecia andar à cata de qualquer coisa.
Há testemunhas que o viram a seguir esse Gustav. Até ao
momento, não sabemos quem era o cliente do detective.
- Nem iremos saber.
- Pois não. Bem... até aqui as coisas rimam, têm uma certa
lógica. Mas a explosão deste Hamlet não entra no puzzle. Só se...
- Só se.... o quê?
- Talvez tivesse sido um erro ou... uma experiência.
- Onde estava esse Hamlet ontem à noite, digamos entre as
vinte e as vinte e quatro horas?
- Não se sabe. Quando vier o Chefe O'Hara teremos mais
qualquer coisa, não acha?
Neste momento tocou o telefone. O Inspector atendeu.
- Rockfeller. Muito bem. Venha até aqui. - E desligou, tentando
entortar o olho esquerdo, como vira fazer ao detective televisivo.
- Dê-me um fósforo, Bone.
- Acabaram-se. Eu vou buscar mais carteiras.
- Não é preciso. Entre! Entre O'Hara.
O Chefe da Brigada de Homicídios, Eugene O'Hara era um
possante descendente de irlandeses e, obviamente, um seu
antepassado fora grumete do "Mayflower" ou, talvez até,
ajudante de timoneiro.
O'Hara possuía uma vigorosa perna de pau, resultado final
de uma bala e depois ferida gangrenada, e ainda uma mão
metálica, enluvada a cabedal preto. Uma pála na vista esquerda
completava a figura descuidada do simpático detective.
O'Hara sentou-se e colocou cuidadosamente a perna de pau
sobre a secretária de Rockfeller. Em seguida levantou a pála e
mirou os circunstantes com uma vermelha e repelente cama ocular,
o que os obrigou, repugnados, a desviar a vista.
E começou a falar, com um timbre idêntico ao de Boris Christoff.
- Uma porcaria aquilo tudo! Não há nada como um estrangula-
mento. Muito mais asseado. Muito mais higiénico. Sim, tá bem, ficam
os olhos esbugalhados e a língua de fora, rôxa e tudo, mas sempre é
mais limpo que isto. Tudo borrado e um cheiro a fossa, que até agonia
os piolhos da cabeça.
- Tem um fósforo, O'Hara? Obrigado. Agora dê-me os factos, antes
de fazer o relatório.
- Bem... o gajo explodiu e não há hipótese de autópsia. Não ficámos a
saber o que tinha no estômago ou nos intestinos. Nada. Pelos noticiários
já sabem o principal. A cabine do elevador foi para o caneco e há dois
tipos feridos. Um levou com uma dentadura num olho e uma velha ia
matando um puto de dez anos com uma cabeçada. Está nos cuidados
intensivos.
- A velha?
- Não, o puto.
E, ao dizer isto, baixou a pála, talvez por causa do frio que vinha da
janela. E continuou:
- Tenho o Williams a investigar a vida desse gajo, desse Hamlet. Ah!
A tia já apareceu a pedir o corpo. Qual corpo?! Desfeito em partículas de
meio milímetro. Ainda tentámos com pinças, mas não deu nada que se
visse... nem cem gramas.
- Posso fazer uma pergunta? - Pediu o Bone, olhando para o inspector.
- Pode, mas dê-me primeiro um fósforo. Ah! Você já não tem fósforos.
Obrigado O'Hara. Fale, Bone.
- Chefe O'Hara: já conseguiu saber com quem contactou ontem, e nos
dias anteriores, esse Hamlet? Com quem jantou e coisas assim?
- Meu filho - replicou rápido O'Hara. - Ainda você andava de cueiros
e já eu era sargento. Percebe?! É isso que estamos agora a investigar.
Espalhei vinte agentes pelos dancings de demais antros, com inctruções
para encontrar uma mulher com um olho de vidro.
- Vinte agentes, todas as noites, nos cabarés?! - Explodiu Rockfeller. -
Vai ser uma conta bonita!
- Talvez não. Consultei o ficheiro de todos os nossos homens e escolhi
dois abstémios, um ulcerado duodenal, um hepático e outro com um
princípio de cirrose; e os restantes só bebem cerveja. Distribuí também
recadinhos pelos informadores habituais. Agora é só esperar. Há sempre
uma fase nas investigações em que não há trabalho; é só esperar.
Percebeu, menino Bone?
- Sim, senhor.
- O'Hara, dê-me outro fósforo, por favor.
- Que raio! Você apaga os cigarros de propósito? Já ultrapassou a fase
do cachimbo?!
E assim terminou aquela reunião.
E Rockfeller já conseguia entortar o olho esquerdo.
Impecavelmente.

Friday, February 03, 2006


Miguel














O corpo de Miguel, magro, esquálido, sujo e míseras vestes,
apareceu naquela manhã a dormir na rede do armazém. Comprido
como um espargo silvestre, homem adulto isso via-se, roncava
suavemente quando um dos irmãos abriu a porta do armazém de
peixe. Parecia até que o ronronar do motor que fazia frio para uma
câmara frigorífica, se harmonizava com o respirar profundo do
Miguel.
Teotónio, o irmão mais novo, que rondava meio século de
escamas, peixes, caldeiradas, cervejolas, mariscos e demais
atavios, entreténs e histórias de lobisomens - histórias de árabes,
claro, que estamos agora no Algarve -, quedou-se a olhar para
aquila cena.
Chegou-se à rede, estendida entre duas prateleiras, e olhou
para o figurante, nu da cintura para cima e quase também assim
da cintura para baixo.
E não fez mais nada! Para vagabundo e malandro, malandro e
meio. Pega num remo e vai disto. Porrada no Miguel! Que se
levanta de susto e de pecado, e foge porta fora antes que o remo,
em remada mais valente, lhe acertasse na cabeça ou noutras
partes mais sensíveis. Mas correu pouco, pois do outro lado era o
cais e a água da ria que permitia a entrada de traineiras para a
descarga.
O Miguel berrava e o Teotónio gritava "Vagabundo", quando
chega o Agostinho, o mais velho, e tudo fica claro.
O Miguel aparecera não se sabe de onde, na tarde anterior,
cheio de fome e esfarrapado, andara por ali e por além, carregara
umas tecas, rira sem dentes, mastigara umas coisas fritas e
ficou-se, estafado, sentado à porta do Jaime - nome do
ex-sacristão, actual proprietário da cervejaria Cristal. O pai do
Teotónio e do Agostinho viu, deu-lhe uns dinheiros poucos,
dinheiros de uma só mão, perguntou coisas e depois disse que ele
podia ficar no armazém a dormir. "E passas a trabalhar só para
mim, ouviste? Quando os barcos vierem, só de mim recebes
ordens e... porrada quando a mereceres." Mas, na altura, só o
irmão mais velho soube deste trato.
E aquele beldruegas sem passado, mal falando - esguio, magro
e pobre de espírito -, passou a andar sempre atrás do velho. A
dois metros de distância. E com muita ternura o seguia,
pois mesmo que provocado pelos pescadores, nada dizia - bufafa
com a boca e não despregava os olhos das costas do velho
marítimo.
O Teotónio e o Agostinho também lhe criaram amizade. Uma
vez um deles deu-lhe umas calças mas, no dia seguinte, deixou
de se preocupar em acrescentar uma camisa; as calças estavam
todas rotas e antigas como as primeiras.
Como sempre acontece nas terras pequenas, o Miguel foi o
meio-louco aceite pela população, que o disfrutava mas que
também o acarinhava com palavras e comida.
Um dia o velho morreu e aqui começa outra história. Por
aqui deveríamos ter começado, mas não foi assim que
aconteceu. Paciência.
*
Um dia ouvimos os sinos a badalar e vimos o Miguel a
correr, já de si louco e ainda mais se possível, esbracejando, a
caminho do cemitério. E vimos também as pessoas
afastarem-se para lhe darem caminho, sem risos ou ironia
de olhar ou de gesto. Que teria acontecido ao Miguel?
À noite, o Teotónio contou-nos que o Miguel não podia
ouvir as sinetas do cemitério, quando alguém ia a enterrar.
Corria por ali acima e só parava junto à campa do velho que
lhe dera porrada, abrigo, pão e talvez o único quinhão de
ternura que recebera na vida.
E ali se punha, entre as campas do cemitério. Olhos loucos
atentos, mirando os que entravam e saíam, para que ninguém
pisasse a sepultura do seu amigo. De início, houve umas
tentativas de provocação mas o Miguel, de braço comprido e
alma maior, tais lapadas deu nos catraios que tudo ficou por
bem no futuro.
Onde estivesse, com teca de peixe às costas ou não,
ouvindo as sinetas partia à desfilada e deixava o carrego para
quem o quisesse. Sepultura do velho amigo ninguém pisava.

(do livro Histórias do Arco-da-Velha-1
ilustração de Octávio Clérigo)

Ouvendo...

Não é gralha; é um neologismo para ver e ouvir, que é o que nos
acontece frente à televisão.
Sobre o spot da televisão de que falámos, a RTP já emendou o
erro, retirando o "sento".
Sem querer tirar ao telespectador o prazer de ir descobrindo o
enredo da telenovela "O Segredo", posso adiantar que o seu eixo
é o desaparecimento, da escola primária, quando todos os intérpretes
eram meninos, de uma gramática da língua portuguesa, que se
pensa ter sido levada para o Brasil. Quando, já adultos, reparam que
têm falhas estruturais no idioma pátrio, mandam um enviado
especial ao país irmão para procurar o ladrão e recuperar a obra.
-----------------------------------

Thursday, February 02, 2006

12. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

7.
Eram onze da noite quando Maureen, com grande surpresa, ouviu
a campainha da porta. O canal 38 (o "sempre acção"), estava a
transmitir um interessante filme policial, com um detective, um
tenente desleixado, que parecia dormir com a gabardina, sempre sem
fósforos, com os cigarros soltos e amachucados nos bolsos e
ligeiramente estrábico.
- Quem é?
- Hamlet, o justiceiro.
Contrariada, abriu a porta. Mas logo se recompôs.
- Caramba, Hamlet. Há mais de três anos que não te via. Estás a
ficar careca.
E ele entrando:
- Tu, em contrapartida, continuas óptima. Boa, boa como a brisa da
Primavera... o perfume das flores... a elegância das garças.... a...
- Tira as mãos!
- Os gestos das mãos são a ênfase do sentimento, da paixão, da
oratória... e também, por vezes, do ódio.
- Deixa ficar a ênfase sossegadinha, está bem?!
- Mal. Como eu gosto da ênfase!
- Se gostas, guarda-a num cofre. Queres um copo?
- Óbvio, senhora.
Maureen desligou, com mágoa, o televisor e foi à cozinha preparar
dois uísques com gelo.
Beberricaram como velhos amigos.
Voltaram a beberricar como velhos amigos, mas mirando-se.
Maureen ainda queria apanhar o final do filme, por isso atacou:
- Que queres, afinal?
- Recebi uma estranha encomenda: uma gargantilha para ti.
Maureen riu-se, aparentemente deliciada.
- Já vão aí?! - desabafou baixinho. - Já?!
- Pois é.
- E o que dizem os teus patrões?
- Estão fora de cena. Não entram neste acto. Estão nos camarins...
- Tencionas mesmo apagar-me?
- Ainda não sei. Está em jogo o meu crédito junto do clero e da
nobreza. Quanto ao povo, quero que ele se lixe.
Maureen acendeu, com mão firme, dois cigarros, oferecendo um
a Hamlet. Em seguida, fazendo realçar as curvas das ancas, pegou
nos copos e foi enchê-los de novo na cozinha. Hamlet pensava
intensamente.
- Olha, Hamlet - disse Maureen, regressando da cozinha -, dá-me
vinte e quatro horas. Talvez eu decida desaparecer definitivamente.
Se tal acontecer, não haverá o mínimo rasto. Não terás problemas.
Hamlet, de tanto pensar, já tinha dores de cabeça.
Maureen continuou:
- Também tenho uma missão... mas falarei primeiro com os meus
chefes.
- Tu não tens chefes...
- Há alguém que não o tenha? Até os presidentes, até os
secretários-gerais da ONU... até Jesus Cristo...
- E os reis...
- Acaba a bebida e sai. Preciso de pensar e de fazer alguns
telefonemas, como compreenderás.
- Em breves instante se decidem os destinos, como o irregular
voo das andorinhas...
- Pois...
Quando Hamlet saiu, Mareen correu para o televisor e voltou a
ligá-lo. Já estava no fim, com o tenente estrábico a desmascarar
o assassino, um professor universitário que vivia numa piscina,
rodeado de miúdas curvilíneas por todos os lados e mais uma
mansão à volta.

8.
Às oito da manhã do dia seguinte, no elevador que transportava
ao 27º. piso, onde se instalava a firma Tom & Jerry, Killers, Ltd.,
o senhor Hamlet, este explodiu.
Vários passageiros ficaram feridos e o elevador quase totalmente
destruído. Um dos feridos vomitou, provocando um curto-circuito
no selector, que começou a arder. Um outro ferido, distribuidor de
correio, apresentava uma vista empapada em sangue, devido a ter
sido atingido pela placa dentária superior de Hamlet.
Quando levou com a placa no olho direito, largou o saco do
correio que atingiu uma velhinha num pé. Esta, que já estava semi-
morta, caiu para a frente dando uma cabeçada num puto ranhoso
que, antes da explosão, mascava pastilha elástica.
Uma porcaria aquilo tudo.
Um nojo. Trampa e berros por todos os lados.
-------------------------------

Ouvindo...

Passagem de um spot publicitário a uma telenovela chamada
"O Segredo", na RTP1:
- Não te sentes muito só?
- Não sento.
-----------------------------------

Wednesday, February 01, 2006

11. Retalho da vida de Yakamoto e de seu filho nº.5

Às seis e meia da manhã, como habitualmente, Yakamoto
saiu de casa e foi preparar o animal e a carroça para ir a
Yokogawa, no distrito de Hiroshima, onde trabalhava a meias
com um cunhado um belo naco de arrosal.
Nesse dia 6 de Agosto de 1945, tal como nos dias anteriores,
depois de ter ordenadamente tratado da carroça e do animal,
reentrou em casa e pegou no quinto filho, de três anos de idade,
Mitsau-Ka, e levou-o ainda embrulhado no cobertor. Levava
sempre o mais pequeno da família para ele se habituar àquela
vida. Yakamoto não sabia se aquela vida era boa ou má. Era a
sua vida; mais nada.
Mas havia também outra razão para levar o seu quinto filho.
Mitsau-Ka, apesar do nome favorecente, nascera com mau
signo. Já tinha sofrido tantos acidentes como um rapaz de
quinze anos. Não pela sua ordem mas ao sabor da memória,
Mitsau-Ka já tinha caído de uma mesa ao chão, já tinha levado
com uma bilha na cabeça, já tinha ficado no meio do fogo que
preparava o jantar, já tinha partido uma perna, os dois braços e
três dedos, já tinha furado um ouvido e cortado parte da língua.
Notavam-se estas cicatrizes pelo seu comportamento. Não dizia
coisa-com-coisa, chamava mãe ao pai e pai ao irmão mais velho,
atirava com a comida à cara dos outros quatro irmãos e era
considerado, em familiar silêncio conivente e de amor, como
doido.
Ia pois com o pai para deixar que aquele pobre lar fosse pobre
sim, mas calmo, pelo menos nas horas de virtude, que são aquelas
em que os homens não se põem a fazer coisas em cima das
mulheres.
A caminho para Yokogawa, o pai deu-lhe a beber um pouco de
chá que trazia numa garrafa. Mitsau-Ka meteu três golos na boca,
bebeu dois e espargiu o outro para a cara do pai. Depois urinou nos
calções e readormeceu.
Acordou, cerca das oito e vinte, quando já estavam a entrar em
Yokogawa, com um enorme clarão que tudo iluminou. Foram
derrubados da carroça com o impacto da explosão. O estrondo, de
violência celeste, veio mais tarde. E foi também mais tarde que
Yakamoto soube que toda a família morrera e que ele e o quinto
filho tinham apanhado cerca de 20% de radiações malignas.
Depois, no hospital, começou a compreender o que isso queria dizer.
Até isto aconteceu a Mitsau-Ka.
(do livro Scrabble)
---------------------------------------

Tuesday, January 31, 2006

10 - O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

6.
Bone morava na Avenida Iorque, perto da Ponte Queensboro,
num luxuoso apartamento de solteiro. Eram já nove e meia da
noite quando chegou, mas sabia exactamente o que o esperava.
Sentados em cadeiras e almofadas, vários jovens conversavam,
alguns fumavam e todos bebiam Coca-cola.
Muito bem educadinhos, saudaram em coro:
- Muiiito boooa noiiite, senhooor Cheeefe!
- Hoje tenho muita pressa. Vamos rápido às contas.
O mais velho, talvez 14 anos registados na igreja do bairro,
adiantou-se.
- Está tudo aqui - e entregou a Bone um saco de plástico. -
Fornecemos os clientes habituais e o Sigesmundo Freud engatou
mais três: uma professora de instrução primária, uma lésbica
contorcionista e um dos adjuntos do Mayor. A semana rendeu quase
o mesmo: oito mil cento e trinta e dois.
- Muito bem. Freud vai ser promovido a Intermediário de
Primeira. Retirem a vossa percentagem e levem da cozinha as
Colas, as pastilhas elásticas e os Playboys. Há um exemplar para
cada. Amanhã não há distribuição. Venham cá na sexta buscar as
doses habituais para o fim-de-semana, mais as dos três novos clientes.
Freud estava nervosíssimo. Tinha doze anos muito louros e uma
fisionomia que lembrava um apito. Adiantou-se e disse:
- Estou com um problema, Chefe.
- Qual é? - Perguntou Bone, distraído com mais altos assuntos.
- Um adjunto do Mayor quer ter relações comigo.
- Isso é contigo e com ele. A América é um país livre e democrata.
- Pois, Chefe.
Quando as encantadoras crianças saíram, Bone, sem ligar ao saco
com o dinheiro, pegou no telefone. Na dúvida, consultou as Páginas
Amarelas. Sim, lá estava a empresa Tom & Jerry, Limitada. Marcou.
Uma suave voz feminina respondeu:
- Tom and Jerry Killers, Limitada. Uma empresa ao seu serviço a
qualquer hora do dia ou da noite.
- Boa noite, Ofélia.
- Alooouuuu.... ossinho querido.... (1)
- Liga-me ao Hamlet.
- Sim... amoooor...
Esperou apenas três segundos.
- Tá?! Hamlet?
- Sim...
- Preciso falar-te. Tenho um problema. Aliás, explica-se em poucas
palavras.
- Palavras... palavras... palavras...
- Ouve, porra! Ouve!
- Ouvir e encontrar o infinito das coisas...
- Tá bem. Quero comprar uma gargantilha para uma pequena
deliciosa.
- E o rei, fazendo o câmbio com cuidado, disse: "Dez mil dólares."
- Espera, Hamlet. Vais fazer essa encomenda de borla, percebes?
Nem um cêntimo.
- Era o que eu previa. Lastimável! E quem é a tua querida?
- A mulher com um olho de vidro.
- Tá... bem, mas é a última cena do último acto. Já paguei o
suficiente em dor e sacrifícios, como diria a rainha, ao ver Polónio
trespassado.
- Adeus, Hamlet.
- Ofendeste gravemente a minha honra.
Click.
__________
(1) - No original "dear little bone".
_______________________________________
***
Leitor: os seus comentários serão bem-vindos.
(Está bem assim, Milu?)
-+-+-+-+-+-+-+-+-+-+-+-+-+-+-++-+-+-+-+-+-+

Friday, January 27, 2006

* Quem tem interesse sentimental (ou outro) por Moçambique,
aconselho uma visita periódica ao blog do jornalista moçambicano
Machado da Graça: http://ideiasdebate.blogspot.com/
* De vez em quando é de ler o blog:
http://bomba-inteligente, blogspot.com/

Wednesday, January 25, 2006

9. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

4.
Nessa noite o canal 14 transmitiu um filme com um
inspector da Judiciária francesa chamado Mallet, ou
Montê, ou Maigret, uma coisa assim.
Um homem ranhosamente humano. No fundo feli -
císsimo por não ter filhos e ser casado com uma atrasa-
da mental.
Amante das árvores e dos diversos estados do tempo,
poderia bem ter ido para meteorologista. Um caso per-
dido. Um piegas, que gostava mais dos criminosos e de
copinhos de calvados do que da esposa. Se não fosse ins-
pector de crimes, já tinha por certo sido internado numa
clínica psiquiátrica.
E o Rockfeller a comê-lo com os olhos, reclinado num
dos sofás da sua sala. Que bom ser Gillet, ou Maigret ou
lá o que era!

5.
O Inspector-Chefe Rockfeller entrou calmamente no
seu gabinete, tirou o sobretudo, sentou-se e acendeu o
cachimbo. Pegou então no telefone para pedir sandes e
cerveja recordando-se, porém, que eram apenas nove da
manhã. Mas do outro lado responderam. Então perguntou:
- O Bone está com algum trabalho? Não? Então que
venha falar comigo.
- Sim, senhor.
- Oiça. A partir de hoje é "sim, patrão".
- Mas... o meu patrão é a cidade de Nova Iorque...
- O seu patrão sou eu. Se não acredita, pode passar pela
tesouraria, receber os dias que trabalhou e procurar outro
emprego. Quer?
- Não... patrão.
Desligou satisfeito. Levantou-se e foi até à janela, mirar
inteligentemente a paisagem. Um pensador. Um honen pro-
fundo. Um homem que ia ao fundo das questões e das almas.
Aquela gentinha que transitava lá em baixo pelo cais eram
seres amorfos, inferiores, sem preocupações existenciais.
Uns merdas, portanto.
Uma pancada na porta interrompeu os seus profundos
pensamentos.
- Entre - disse com ar cansado e, saindo lentamente da
posição de observador do mundo circundante, virou vagaro-
samente a cabeça, em virtude desta se encontrar repleta de
problemas.
- Mandou-me chamar?
- Mandei.
Sentou-se também lentamente, como se o seu peso tivesse
autentado com o cargo e responsabilidade. Pegou no cachimbo
e permitiu, paternalista:
- Sente-se, Bone.
- Obrigado - ele sentou-se.
- Você é filho de um médico legista, não é?
- Sim, senhor.
- E como vai a Mary, a sua encantadora mulher?
- Bem, muito obrigado, senhor inspector. Acabou com apro-
veitamento o curso de decoração de jardins interiores. - E
pensou, deliciado, que era solteiro.
- Óptimo, óptimo. Mandei-o chamar... bem... que tem agora
entre mãos?
- Droga e roubo de tecnologia de ponta. Nada de urgente.
- Encarregue-se, então, do "caso da mulher com um olho de
vidro". O arquivo tem todos os dados. Diga ao Morris que fui
eu que autorizei a consulta.
- O capitão Morris e a maior parte dos colegas não se apre-
sentou hoje ao serviço... ainda. Estiveram, estivemos ontem
numa farra até às tantas.
- Quem fez anos desta vez?
- Bem...
- Foi alguém promovido sem meu conhecimento?
- É que comemorámos o rebentamento do Tell.
- Hum... percebo... quando sair, diga ao guarda aí de fora
para me ir buscar uns cachorros e duas cervejas... o dia
promete.
- Sim, senhor.
- Preferia que me chamasse patrão.
- Sim, patrão.
Que puta!

Monday, January 23, 2006

8. Por entre os ulmeiros

O meu quarto tem uma parede totalmente ocupada por uma
paisagem de ulmeiros, o que lhe empresta uma maior profundidade.
Ela está coberta com um papel que a minha senhoria não se recorda
se veio da Suíça se dos Estados Unidos da América.
Quando vim ver o quarto para "alugar a um estudante", como rezava
o anúncio do jornal, com serventia de cozinha e de casa de banho, fiquei
imediatamente preso à paisagem da parede. Não me recordo bem se fui
respondendo à senhora em termos convenientes, mas sei que o aluguei
imediatamente. E logo fiquei ansioso por me mudar para lá, sem qualquer
outra explicação a não ser aquela parede. A minha idade e a seriedade do
meu comportamento devem ter determinado a rápida aceitação da minha
candidatura a inquilino.
Agora é aqui que passo grande parte do meu tempo, a descansar, a
olhar para a paisagem ou a ler.
A paisagem representa o Outono. Há, para venda, segundo a senhoria,
as quatro estações do ano, mas ela tinha decidido comprar o Outono talvez
por se conjugar melhor com a sua actual idade e estado de espírito. Do outro lado
da paisagem, na parede em frente dela, está a minha cama. No centro uma mesa
redonda onde, por vezes, como e estudo. A disposição do quarto é, pois, assim:
quando se entra, à esquerda está a paisagem ocupando, do chão ao tecto, toda a
parede. Em frente uma janela de correr com varanda envidraçada, seguida de
parede. À direita a cama, encostada a um pequeno roupeiro. Na parede onde habita
a porta, encontra-se uma pequena mesa com um receptor de televisão e uma
aparelhagem de rádio e de cêdês. Por cima uma estante. A janela de correr,
que dá para uma varanda, tem vidros duplos, o que me permite receber os ruídos
distantes de maneira diluída, quase divina, adivinhatória.
Aqui construí o meu universo. Com apenas três disciplinas para fazer, a fim de
completar tardiamente um curso iniciado há vinte anos, a fatia grande do tempo é
passada no quarto onde, suave mas diariamente, vai crescendo a minha solidão.
Uma solidão tão física, tão sólida, tão concreta que, muitas vezes, para me
movimentar, tenho de a empurrar para que me deixe passar em paz e sem
atritos e feridas inúteis.
Vivo aqui vai já para dez anos. Aluguei o quarto para um ano e três disciplinas
universitárias e fui-me deixando ficar para contentamento dos três: da senhora, de
mim e do quarto que, agora, já está calmo e sem muitas vibrações negativas. Julgo
mesmo que começou a gostar de mim a partir do momento em que afirmei alugá-lo.
Como o vale entre os seios de uma mulher, os ulmeiros descem por duas ravinas
e encontram-se em baixo, num estreito carreiro - talvez um leito já seco de ribeira.
As folhas, nas extremidades das ramadas, apresentam-se com aquele castanho-
-dourado tão belo, quando o Sol está prestes a pôr-se ou a erguer-se. A perspectiva
está num plongé não muito pronunciado, o que atira o caminho para um fundo
invisível, indescoberto. Um caminho que vem ao nosso encontro mas do qual não
divisamos a procedência. Parece e é o términus natural das duas colinas acastanhadas
pela terra e pelas folhas dos ulmeiros. Pela claridade entre as ramadas, adivinha-se
que o Sol estará à direita, para lá da nossa visão e os seus raios atravessam os
intervalos entre os ramos, diminuindo de intensidade para Oeste, já que considero
que o Norte se encontra ao centro, entre a parede e o tecto. E o Sol emerge de Oriente
todas as manhãs quando acordo. E ali fica, a meio caminho. Não indiferente; apenas
aguardando.
Deitado a ler, tenho sempre perante mim aquela paisagem grandiosa e vivida.
Habituei-me muito a ela e, à noite, já não fecho totalmente as cortinas, para que ela
receba a ténue claridade que vem do exterior. Fico deitado horas e horas a olhar para
esta paisagem. É uma atracção a que não desejo fugir; pelo contrário, pretendo
entregar-me a ela de corpo e alma. A nossa identificação foi total quando, num dia de
forte ventania no exterior, os ulmeiros começaram a abanar ligeiramente e eu vi algumas
folhas caírem por entre as ramadas e sobre o caminho. Contrariado, pensei no trabalho
que iria ter no dia seguinte para recolher todas aquelas folhas velhas, antes mesmo de
ter compreendido que os ulmeiros abanavam com o vento, apenas para me saudar.
Muitas vezes, deitado, olho para o fundo impronunciado do carreiro e imagino
ver a minha vizinha atravessar a parede para me cumprimentar e perguntar como vão
os estudos, pois eu sabia já que alguém viria um dia por aquele caminho estreito por
entre os ulmeiros. Sabia e aguardava. Todas as noites esperava que tal acontecesse.
Foram muitas em que não me dormi, esperando. Uma noite ocorreu-me dar um pouco
de música àquela paisagem tão identificada comigo, que já estava interiorizada, que já
pertencia ao meu passado e presente, sem contudo lhe adivinhar o futuro. Procurei e
encontrei As quatro estações, de Vivaldi, interpretação da Orquestra de Câmara de
Wurttemberg, dirigida por Jorg Faerber. Coloquei o Outono. Deitei-me a olhar a
paisagem e começaram todos a aparecer. Os dançarinos, eles e elas, a bailar pelas
colinas abaixo, de maneira festiva e alegre. E continuei a ver os bêbados a dormir e
depois os caçadores, num allegro bem sentido. Coloquei outra vez a suite e fui ter com
os bailarinos, os bêbados e com os caçadores e diverti-me com eles, e bebi com eles,
tanto que o dia nasceu comigo a dormir sobre o tapete do quarto. Inexplicavelmente,
não havia em qualquer lugar vestígios daquela orgia nem da caçada.
E o que eu esperava, já com ansiedade, aconteceu então.
A partir daquela noite festiva, comecei a ser visitado por vários amigos e familiares.
Estou deitado a ler e oiço um pequeno restolho e passos ligeiros pelo caminho, olho e
vejo quem se aproxima, me cumprimenta e pára para falar comigo. Algumas pessoas
vêm para me ralhar e atezanar a tranquilidade. Umas falam de amor. Outras não.
Algumas vêm apenas para conversar ou ver-me. Uma noite pensei: "de que maneira
me verão? Que imagem lhes estarei a dar?" Então agora, quando alguém chega,
sento-me na cama frente aos ulmeiros. Assim ficarei mais educado, mais civilizado a
falar-lhes. Passo também as mãos pelo cabelo; ajeito-me.
E veio quem eu esperava, para me dizer, sorridente, que bem sabia que nunca me
formaria em Medicina, pois que não era muito inteligente. Que sempre fora um
medíocre e que nem para enfermeiro teria perfil, quanto mais médico. E veio, mas esse
uma única vez, um velho contar-me histórias mais falsas que as juras de Judas,
fazendo-se humor e gargalhada. Perante o meu esguardo, retirou-se afirmando que eu
estava na mesma. Que esperava ele? Que fosse outro? Possivelmente.
Aproveito muitas vezes estas visitas para mandar recados. Ou melhor, tenho sempre
mandado o mesmo: que digam ao meu avô, o marinheiro, que morreu varado pela fome,
que venha falar comigo. Mas ninguém sabe dele. Não perco porém a esperança. Sei que
ele há-de vir um dia. Possivelmente até já terá vindo, mas não reconheceu no corpo,
no bigode, nas rugas e no cabelo branco, o rapazinho magro e feioso que ele sentava no
colo, enquanto contava histórias dos Mares do Sul, de Hiroshima e de uns homens
chamados bolkivistas.
Por vezes, quando oiço barulho no caminho, abro um olho e vejo quem está lá. Por
duas ou três vezes já aconteceu voltar a fechá-lo, fingindo dormir, pois tal companhia
não me alegraria, nem me retiraria da solidão em que me encontro.
Nos últimos dias, como é natural, tenho-me preparado para acompanhar os amigos
que me vêm ver. Aguardo o momento oportuno para sair da cama e meter pés ao
caminho na sua companhia, subindo o carreiro e descobrir, finalmente, onde ele se
espraia: numa clareira florida ou num pântano.
Aguardo uma noite amena, luminosa e suave. Porei então o Outono e, com o Allegro
da caçada, partiremos, de braços dados, caminho arriba, sem nada nos bolsos nem
reservas no espirito. Talvez apenas a esperança de encontrar o meu avô e que ele me
sente de novo no seu colo.
(do livro Scrabble)

Friday, January 20, 2006

7. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)


3.
Estava o Inspector-Chefe Rockfeller
limpando cuidadosamente o nariz com o
mindinho da mão esquerda, quando o
avisam pelo telefone, que o detective
particular Tell desejava falar-lhe.
- Mande entrar essa besta - ordenou
gentilmente.
Guilherme Tell entrou, sentou-se,
cruzou uma perna sobre a outra e acendeu
um cigarro. Tudo calmamente. Cuidadosamente.
- Guilherme Tell... que nome! - Rosnou o Inspector Rockfeller.
- Que quer, amigo Tim. O meu pai gostava muito de música...
- Bem... Uma coisa é positiva: você teve um pai e, pelos vistos,
conheceu-o! Mas, o que quer daqui?!
Tell ia a afagar o bigode quando se recordou que o tinha rapado no
mês anterior.
Rockfeller estava óptimo. Na noite anterior tinha visto na televisão
uma série policial e gostara do estilo do inspector televisivo. Estava
agora a tentar copiar a sua dureza, a sua agressividade.
- Recebi uma chamada telefónica de uma mulher que diz ter um olho
de vidro.
- Coitadinha...
- Pois...
E Tell, já nervoso, continuou:
- Disse apenas que a segunda pessoa que rebentaria seria eu.
- Óptimo! Óptimo! Até que enfim! Deus é grande! E justiceiro...
Aleluia!
E Tell magoado:
- Custa-me ver como os velhos amigos me tratam...
- "Velho amigo" era o seu tio! Pronto! Já me deu o recado. Agora
pire-se, que tenho mais que fazer.
- E eu?!
- Você, Tell? Vá actualizar o seguro de vida e reservar espaço na
"Colina da Saudade"... se sobrar alguma coisa de si.

Nessa noite Tell afogou as mágoas num cabaré italiano inqualificável,
dançando e bebendo com uma bela mulher, de trinta e tal anos, mas de
olhar um pouco fixo. Às seis da manhã do dia seguinte, em plena rua 43,
Guilherme Tell rebentava estrondosamente, sujando tudo.
Uma porcaria.
_______________________

Thursday, January 19, 2006

6. A mais pequena história "Sobre Música"

O operário da fundição, com gesto preciso e extrema precaução,
acabou o êmbolo da espoleta, pequena peça que vai actuar no fulminante
e este no percurtor da granada.
Acabou, nesse dia, a peça 12 617.
É uma peça bonita e reluzente, bem torneada, de forma elegante.
Poderia ser o pistão de uma trompete, mas no Iraque há cada vez menos trompetistas.
(do livro Histórias do Arco-da-Velha - 1)
_______________________

Tuesday, January 17, 2006

5 - O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

2.
Guilherme Tell fritava, naquela amena manhã, os seus habituais doze ovos de pomba, início de um pequeno-almoço tardio. Aos amigos e colegas dizia que, para manter a forma, comia todas as manhãs doze ovos, mas esquecia-se de clarificar que os ovos eram de pomba e fritos.
O telefone tocou. Fez um ar de enfado, como já tinha visto na televisão a certos heróis e atendeu, enquanto o café derramava, abundante e espumoso, da cafeteira para o fogão e deste para o sobrado.
- Tou!
- Hoje serás tu. A mulher do olho de vidro não perdoa. Rebentarás como o Gustav. Pum! - Voz de homem.
- E se tu fosses merda?!
Click. Desligaram.
Tell vestiu-se, comeu os ovos e arrumou a velha browning na sovaqueira. Assim mesmo.
________________
(Do livro de Ed B. Silverman)

Monday, January 16, 2006

O LENÇO

História para ser lida às crianças, à noite, para elas adormecerem melhor e reconfortadas pela bondade e justiça humanas, mais eficaz que uma oração, um copo de leite ou uma mezinha.
Pode ser lida pelo pai, pela mãe ou pelos dois em conjunto, o que dará melhor e mais profundo ensinamento sobre o amor entre os homens de boa-vontade.
___________________
O pintor estava no Castelo de S. Jorge com a filha, tentando vender um quadro aos turistas que por ali pasmavam.
Ele tinha o direito de estar com a filha aos sábados e domingos, pois a ex-mulher ficara com a tutela alegando que ele era um desgraçado sem rendimentos fixos ou ambulantes. Ela era advogada e mexeu bem os cordeleis com os colegas e juízes e assim ficou com a miúda que agora, neste dia, tem cinco anos já prontos.
O pintor não sabe o que fazer à vida para a melhorar e para poder ficar com a miúda, pois gostam muito um do outro. E isso vê-se bem.
Ela trouxe um lencinho de cor vermelha que a mãe lhe pôs ao pescoço, pois já calculava que o pai não tinha lenço vermelho nem de qualquer outra cor e ali no castelo há sempre um vento de leste, que também pode ser de oeste e a miúda, para agradar ao seu amado pai, colocou o lenço vermelho sobre o canto esquerdo do quadro (uma natureza bastante morta), num arranjo vistoso.
Um casal de pasmas com olhos azuis e cabelos amarelos apontou e o pintor disse cem euros. Eles que não com a cabeça e, por gestos, disseram que não era o quadro que lhes interessava mas o lenço. O pintor, com gestos, disse que o lenço era dele e que não, não, não era para vender, percebem? Que o quadro sim e que, abrindo os dedos da mão direita, poderiam ser cinquenta euros, com a moldura. E os pasmados perguntam se vem o lenço também. O pintor diz que não. A menina já chora. Os pasmados, abanando a cabeça criticamente, vão-se embora olhando o rio lá em baixo.
O pintor não aguenta mais. Dá à miúda o lenço e um beijo.
E atira-se cá para baixo como qualquer sarraceno a fugir dos cristãos.
(do livro Scrabble)
PS - O meu amigo e jornalista Machado da Graça, quando acabou de ler esta estorinha, disse-me não gostar do final. Que seria bem mais razoável e lógico o pintor ter pegado nos turistas e tê-los projectado da muralha lá para baixo, continuando o seu domingo bem-disposto com a filha.

Saturday, January 14, 2006

3 - O caso da mulher com um olho de vidro

Sempre que tiver disponibilidade, colocarei no blog um capítulo do livro policial (título acima) da autoria de Ed B. Silverman. Nada melhor para definir este policial do que ler a nota introdutória com atenção. Espero que goste.
_____________________
Tudo nesta novela parte da imaginação
do autor, o que não significa que algumas
personagens não se pareçam extraordinariamente
com outras da vida real.
Quanto a isto não há nada a fazer.

SOBRE O AUTOR
Como é natural, houve correspondência trocada entre o Editor e o Autor. Dessa correspondência, com remetente de Austin - Texas -, escolhemos as passagens que reproduzimos, pensando que elas melhor enquadram a novela e, obviamente, o relacionamento autor/leitor.
Antes, porém, pensamos não ser despropositado informar o leitor de que Ed B. Silverman se estreou, no campo da ficção, com esta novela, pois julgamos saber ter várias obras publicadas sobre a sua especialidade: antropologia. Estas sem pseudónimo.
(...) "Com este trabalho pretendi escrever uma novela antipolicial, em que as situações ou fossem estereotipadas e/ou ridículas e/ou satíricas. É óbvio que estou farto de autores policiais, com excepção apenas para três contemporâneos e dois clássicos.
"Mas cometi alguns erros, como notará. Na primeira parte:
- sangue a mais e tiros a menos, e
- pouco consumo de uísque.
"Na segunda parte tento rectificar, pois que é básico em cada novela policial, dever haver um consumo mínimo de 18 garrafas de uísque. Meto, pois, uísque e tiros em quantidades compensatórias.
(...)
"Quanto à minha biografia, não lha posso dar. Invente você uma para mim, fazendo-me passar pela redacção de um grande jornal diário, aos 24 anos de idade (o que é quase verdade) e descubra-me uma vida atribulada em várias partes do mundo (o que é quase mentira)."
O editor
_______________
PRIMEIRA PARTE
1.
Maureen, a esbelta de olho de vidro, fechou suavemente a porta do seu apartamento, enquanto Gustav alcançava a rua.
Gustav olhou para um lado e para o outro à procura de um taxi e, nisto, explodiu.
Não, não lhe atiraram com uma bomba. Não fora atingido de fora para dentro, mas de dentro para fora.
Rebentou em milhões de bocadinhos, como se possuísse no estômago uma ogiva nuclear.
Todos vocês sabem que, em vida, não se aproveitava muito do Gustav mas, após o seu rebentamento, nada mesmo, mas mesmo nada se aproveitou dele.
Levaram quinze dias - os bombeiros e a polícia -, a limpar os prédios e as respectivas montras. Uma porcaria pegada. Ah sim, um sapato ficou intacto, infelizmente. Aquando da explosão, o tal sapato fez um percurso em linha recta a um palmo do chão, colhendo, num ouvido, o cachorro da Brown & Sons, a charcutaria da esquina.
(Brown & Sons era para disfarçar; o Brown e os sons eram todos italianos.)
O cachorro ficou completamente surdo. Dias mais tarde morreu atropelado.
_____________

2 - A mais pequena estória sobre crianças

Os pássaros só podem cantar em sossego
antes do despertar da insuportável
espécie humana.
Mal os homens acordam, os passarinhos
não podem terminar, sem sobressaltos, o seu canto.
Lin Yutang
Quando chega a Primavera, os homens cortam os troncos
disponíveis das árvores e deitam-nos para o chão.
Quando chega a Primavera, as crianças escolhem alguns ramos,
com eles fazem fisgas e, com estas, matam os pássaros
que pousam nos troncos livres.
Se os homens na Primavera não cortassem os ramos, as crianças
subiriam às árvores e esganariam os pássaros que não soubesses voar.
Contemos, pois, com a fraca pontaria das crianças.
(do livro Histórias do Arco-da-Velha-1)

Friday, January 13, 2006

O bobo da corte

Habitualmente o bobo da corte está apaixonado pela rainha. O bobo da corte ou é feio, ou anão, ou marreco, ou desdentado, ou disforme ou os cinco predicados juntos.
Ele pretende agradar a uma única pessoa mas, para não se fazer muito notado, dirige-se a todas e ao marido da rainha, o rei que, também habitualmente, lhe bate ou olvida. Há casos na História em que, descobrindo todo o jogo, o rei o manda decapitar. Para se entreter, claro.
O bobo da corte senta-se normalmente aos pés da rainha como um gato ou um cão. E aguarda. Diz parvoices e aguarda. Faz chalaças e aguarda. Mima tudo e todos e olha de lado para a sua senhora a ver se ela ri - aguarda. Faz rimas toscas, dá cambalhotas, mostra a corcunda, ou as gengivas, ou as pernas em arco, para gozar com as suas deformidades e para gozar com os outros - os da corte -, para gozarem todos, enfim. Sublima-se com os seus defeitos físicos e aguarda.
Às vezes a rainha, distraída, deixa cair sobre ele um olhar amistoso e até já houve casos em que lhe passou levemente a mão pela corcunda. Distraidamente, está claro. O bobo da corte, à noite na sua cela, recorda-se dessas pérolas preciosas e chora e bate nas paredes e agonia-se e clama e cospe mágoas por entre as gengivas nuas.
O bobo da corte de todos e a todos responde nada. Diz chalaças. Rebola como um arco de criança, mete os dedos na boca e alarga-a ou tira a cabeleira empoada e, à frente de todos, finge limpar o rabo com ela. A corte aclama, o rei agonia-se, a rainha ri e absolve com esse riso. O frade confessor nada faz ou diz, pois tem medo - já que o bobo da corte sabe sempre de mais e é sempre um infeliz que com tais gestos se vinga. Que o confessor durma com o pajem do rei, ora bem, pajem rima com ninguém e bobo de corte rima com desnorte.
Na noite adulta, o bobo da corte - sério como convém -, despe-se. Tira a cabeleira, os postiços, afaga os artelhos doloridos, limpa as lágrimas de raiva e vai-se a dormir. Deita-se na enxerga estreita e dura. Pelas bandas da cavalaria, na ala Leste, escapa-se um riso breve e fresco e irónico e divertido de donzela. Um cavalho relincha. O confessor, ainda acordado, pede, sem muita convicção, perdão a Deus. A rainha banha os braços e os seios com águas perfumadas. O rei, na sua ala, vai-se entretendo a despir uma aia. Essa.
O bobo vira-se para a parede de pedra e adormece.
(do livro Scrabble)