Thursday, March 16, 2006

29. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

9.

A porta principal do St. James Hospital. Apenas duas
escadas e uma rampa a separavam de uma rua larga
que rasga um pequeno jardim com dois acessos - um
de entrada e outro de saída de veículos.
Bronco Vale aguarda que Linda Marlowe traga o carro
do parque de estacionamento, enquanto o dr. Kildaire,
de mãos nos bolsos da impecável bata branca, fita um
horizonte distante, próprio de íntimos e profundos
pensamentos, não se apercebendo de que a recepcionista
o comia com os olhos, já que não o poderia fazer com
outras partes físicas.
Vale não estava particularmente atento, mas um
reflexo de vidraça, num dos prédios em frente, deu-lhe
o alerta. Atirou-se ao chão e rolou para junto de uma
ambulância vazia estacionada um pouco mais à frente.
A bala bateu no passeio, fez um ricochete no Sol bemol
da terceira oitava e quebrou um dos amplos vidros
laterais do hospital.
Já várias pessoas se aproximam, estupidamente
curiosas (roxas de curiosidade), quando segundo tiro
partiu, de outro ponto do quarteirão, acertando na anca
direita de Bronco. Este, apesar das dores intensas,
coitado, consegue apontar a arma para a janela de onde
partira o primeiro tiro, do outro lado da rua. Mas seria
inútil. Estava deserta.
Os roxos de curiosidade ficaram brancos-cal de medo e
desapareceram, alguns soltando gazes.
O detective, com incalculável esforço, conseguiu içar-se
para a cabina da ambulância e, assim, proteger-se do
segundo atirador.
Silêncio sólido, pesado, daqueles mesmo que se ouvem.
À porta do hospital, alguns maqueiros e um perneta de
muletas, espreitavam a cena. Deliciados, os sacanas. Mas
nisto o perneta vai até ao meio da rua e, tansformando
uma das muletas em metralhadora, aponta para o prédio
e faz com a boca rá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
A recepcionista aproveitava-se da confusão para se
agarrar nervosa ao braço do dr. Kildaire, encostando-
-lhe o mamilo esquerdo, como se de um berbequim se
tratasse. O parvo nem dava por isso.
Como um aviso final, terceira bala furou o chapéu de
Bronco, caído no passeio, a dois passos do perneta. Um
discurso concludente.
Linda Marlowe chegou então, conduzindo o seu carro
azul-marinho chamado Ford. Estava boa, boa, boa.
Com o Kildaire já recomposto, Linda e o médico
correram para a ambulância onde, sentado de lado,
Bronco Vale gemia e sangrava. Tiraram-no, com a
ajuda dos dois maqueiros e o detective voltou a entrar
no hospital.
A recepcionista, que já tinha arquivado o processo do
detective e agora, com um mamilo mais pequeno que o
outro, abriu a gaveta e retirou, de novo, aquele modesto
sobrescrito que dizia apenas Bronco C. Vale.
Preencheu novo impresso e olhou para o corredor, com
ar infeliz. Ao longe, as costas do dr. Kildaire marcavam
a dignidade e a competência, a caminho do elevador.
Linda Marlowe segurava na mão do detective que
seguia na maca. Com dores.
Jane, a recepcionista, deu uma palmada no balcão de
recepção com tanta força que parecia um tiro. Depois
sentou-se. O que havia ela de fazer? Entretanto, o
perneta caíra desamparado no meio da rua.
------------------
(de Ed B. Silverman)

Wednesday, March 15, 2006

28. O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

8.

Maureen acendeu segundo cigarro. Não estava nervosa,
apenas apreensiva. As mulheres, às vezes, estão também
apreensivas.
Bone, esse sim, estava nervoso e demonstrava-o,
passeando de um lado para o outro e do outro para o um
da pequena sala.
O televisor estava desligado, mas Maureen sabia que
faltavam 15 minutos para que o canal 27 ("Crime, só
crime"), transmitisse uma nova série policial.
- Não deverias ter cá vindo - afirmou Maureen em tom
coloquial.
- Pois não... mas alguns telefonemas podem estar sob
escuta. É coisa que ainda não consegui saber.
- Estão a ir mais longe na investigação?
- Penso que sim... o problema é começar a estar fora da
jogada, não a podendo controlar. Pode ser impressão
minha, mas parece que me afastaram das investigações.
E ficaram a olhar. Umas vezes um para o outro.
Ela: Teria sido ele a encomendar a gargantilha?
Este bastardo nunca prestou para nada. Está
cheio de medo. Teria sido ele? Deveria ter feito
o Hamlet falar. Só faltam dez minutos para o
filme.
- Queres beber alguma coisa?
- Em tua casa?! Nem penses!
Maureen sorriu apenas com a boca, mostrando uma bela
dentadura branca. Autêntica.
- Não tenhas medo, Bone. Não mato os amigos.
- Não estarei cá para confirmar...
- Como queiras, mas senta-te. Vou buscar uma bebida
para mim.
Ela: Já não me serve para nada. Não está dentro
das investigações e está quase a borrar-se de
medo. Um merdas! Por acaso nem fui eu que o
meti nisto... foi o loudo do Boyle Mariote. Estará
com medo de mim e, por isso, encomendou a
gargantilha? Olhem pr'aquela cara...
- Quantos dias faltam, Maureen?
- Bem sabes que dez.
- É muito. Talvez não tenha sido boa ideia a explosão
daqueles vinte agentes e não creio que devamos agora
limpar vinte barmen.
Ele: Ela não pode saber que fui eu... o Hamlet não
iria falar... Esta gaja está nas calmas... E se ela
sabe? Não posso tomar nada cá em casa... pelo
sim pelo sim. Dói-me a barriga... Isto vai acabar
mal... pois... podes beber à vontade... a droga
está contigo... que bom traseiro... continua boa
como milho... Mas se isto der certo, que bela
vida! Milionário... América do Sul... gajas
melhores que ela... e menos esquivas, raios a
partam! E não está nervosa, a filha da puta! Nas
calmas... e eu com uma sede...
- Já te disse para te sentares. Ainda me fazes um buraco
na alcatifa.
- Às vezes este plano assusta-me... é demasiado grande
para mim.
- Desde o início que conheces o esquema. Aceitaste-o e...
também não és novo nisto. Boyle tem tudo pronto e, como
sabes, testado. A morte dos agentes foi necessária e foi,
também, o primeiro passo para o ultimato. Dentro de dez
dias o ultimato seguirá com o primeiro pedido: quinhentos
biliões de dólares, colocados numa conta especial no
estrangeiro. Sabes isto tudo. É só para ouvires falar em
milhões?! Biliões?!
- Maureen... às vezes olho para ti e penso como ficaste
diferente... não eras assim... Não odiavas a humanidade.
Ela ficou parada com o copo na mão. Em segundos
visualizou o filme da sua vida e dos seus desencontros.
Sempre andou desencontrada. Sempre se colocou na fila
que não andava, ou que andava mais devagar que as
outras. Mas sempre deu tudo - o que tinha e o que,
muitas vezes, não tinha. E, com uma certa ironia,
respondeu:
- Fui traída, meu filho. Passa adiante, se tens mais coisas
para dizer. Se não tens, rua.
- Bem... não te irrites.
Ficaram-se mirando sem qualquer amizade.
- Já estão prontos os passaportes?
E ela com enfado:
- Já. Na altura própria serão distribuidos. Boyle tem tudo
pronto. Depois, por cada dia que demorem a pôr o
dinheiro no estrangeiro, explodirá uma pessoa, de
preferência escolhida, seleccionada.
- Vai morrer ainda muita gente.
- Não queres ficar milionário? Alguma vez te importou o
resto? Morrer pessoas... - a ironia de Maureen era
cortante -, tu nunca amaste ninguém na vida. Eu já. Tu
odeias tudo e todos mas, no fundo... Olha, no fundo
somos puros: não temos nem consciência nem moral.
Mas não nasci assim; tu sim. (Lá se foi o filme.) Quantas
pessoas matas por dia com essa porra da droga? Quantos
miúdos drogas por dia? Quantos?
- Bem... eu...
- És um refinado filho da puta! Eu nasci pura e com
esperança na vida. E tu? "Ai vai morrer muita gente".
Que queres dizer? Que te importas? Nasceste deformado
e hás-de morrer deformado.
Bone explodiu, em linguagem, claro.
- Vai à merda mais o discurso! Vamos é localizar o Bronco
Vale. O espertinho está a andar por aí.
- E então, menino Bone?! Ein? Que estás à espera?
Esmaga-o. Ou queres que também seja eu a ir à sua
procura?
Bone levantou-se e voltou a passear de um lado para o
outro. Sentia que Maureen tinha razão e sentia ainda que
deveria dar-lhe motivos de mais confiança nele.
Olharam-se com rancor. Bone gostaria de ter força para
dominar aquela mulher, mas sempre fora um fraco, um
pau-mandado, um merdas. Reconhecia-o, o que já era uma
virtude.
- Onde guardaste o produto?
Maureen olhou-o de viés.
- Não sabes?
- Sei o que me disse o Boyle.
- E o que te disse o Boyle?
Bone pensou que ela estava a gozá-lo, mas não estava.
- Bem... que te tinha dado as garrafas, foi o que ele disse e
que tu saberias muito bem o que fazer delas.
- Pronto. Está respondido, não está?
Bone passeou pela sala, enquanto Maureen bebia e o
observava sem interesse. Maureen resolveu acrescentar
que as tinha todas seladas num local altamente secreto
e que utilizara apenas um pequeno frasco que o Boyle lhe
dera... para as emergências e que, mesmo esse, estava no
cofre de um banco. A quase totalidade, claro...
- Olha: sempre tomo uma bebida, Maureen. Bem... tens
razão. Ando demasiadamente nervoso. Esta história de
ter sido retirado da investigação...
Maureen foi à cozinha e trouxe uma bebida para Bone,
voltando a encher o seu copo.
- Faço-te companhia.
Beberricaram. Outra vez.
Maureen estava agora descontraída.
- Como calculas, Bone, também não é muito agradável
passar aqui os dias e as semanas à espera... o Boyle está
cada vez mais louco... (Vai-te embora!)
- Tens falado com ele?
(Onde é que este gajo quer chegar?)
- Falei ontem. Ou, melhor: foi ele que ligou para mim.
- O que é que ele queria?
Maureen não gostava mesmo de Bone. Era um merdas
que ela detestava. Resolveu então cultivar esse ódio.
- Saber se tu, Bone, te estavas a portar bem. Diz que tu
és instável e que temos de te trazer debaixo de olho.
- Instável?! Mas que porra é essa? Eu? Instável?! Não
tenho dado provas de...
- Entende-te com ele e não me chateies...
Bone bebeu o resto da bebida.
- Bem... até breve, Maureen.
- Adeus, Bone.
Bone saiu de cabeça baixa.
Logo que a porta se fechou, Maureen correu para o
televisor. Ligou-o no canal 27. O filme já ia a meio.
Maureen sorriu e acabou a sua bebida. Em seguida,
tirou cuidadosamente o olho de vidro e meteu-o dentro
de uma taça com um líquido esbranquiçado.
------------
(do livro de Ed B. Silverman)

Monday, March 13, 2006

27. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

7.

Com cinco dias de violentíssimo regime, Bronco
Vale parecia mais novo. Deixara de fumar e de beber.
As refeições eram boas e a horas certas. Algumas
rugas tinham desaparecido e o nariz parecia menos
afilado. Estava, pois, um amor de rapaz.
A visitante habitual fazia-lhe companhia.
- Sairei amanhã, sra. Marlowe...
- Chame-me linda.
- ...e continuarei a investigação.
- Não quer desistir?
- Agora não. Agora vai ela começar... parece-me.
De olhos baixos, como se informasse que, em
miúda, tivera bexigas benignas, Linda disse:
- Edgar... o meu falecido marido, deixou-me um
razoável seguro de vida, além da pensão da Polícia
e tenho ainda parte da herança de minha mãe.
- Está a propor-me um dote?- disse com fina ironia.
- Estou só a dizer-lhe que... já liquidei a conta do
hospital.
- Bem... essa conta será descontada nos meus
honorários.
- Acho bem. Virei então buscá-lo amanhã.
- Claro que tem carro?
- Claro que tenho. Bem... adeus, senhor Vale.
- Adeus Linda. Até amanhã.
Quando a sra. Marlowe chegou à porta, esta abriu-se
de repente. O'Hara, com a sua barulhenta perna de
pau, entrou friorento. Afastou-se, segurando
gentilmente a porta para ela sair, o que Linda fez
baixando a cabeça num mudo agradecimento.
O'Hara, esfregando a mão natural na artificial, para
a aquecer, desabafou:
- Bela mulher, caramba!
- Hum-Hum.
- Quem é? Posso saber?
- Pode. Uma linda mulher.
- Tá bem, Bronco.
E sentou-se na cadeira onde estivera Linda Marlowe,
colocando a perna de pau num dos ferros da cama.
Acendeu um cigarro (depois daquelas manobras
todas que já explicámos) apesar de um pequeno
desenho informar ser proibido fumar.
- Então? - perguntou no tom mais grave da sua voz.
- Mais um dia e pronto, O'Hara.
E ficaram a olhar um para o outro. Até que o
deficiente físico, de pála posta, perguntou:
- Olhe lá. O que é que você descobriu?
- Hum... não sei ainda. Só sei que você está a deitar
a cinza sobre a camiza e para o chão.
- Pois estou. Palre lá.
- Passo aqui horas a pensar e não chego a lado
nenhum. Mas diga-me uma coisa, O'Hara,
ou melhor, duas. Primeira: por que não foi você a
aparecer no "Quatro de Espadas", quando o Ralph
explodiu? Segunda: a sua visita é oficial ou veio
ver-me porque é muito meu amigo e etc.?
- Primeira resposta: eu não estava na Central.
Encontrava-me em Brooklin, com uma merda
qualquer. Um gajo que matou a mulher, batendo-lhe
com a cabeça na panela da comida... aliás, eu teria
feito o mesmo... quando vi a porcaria do guisado de
carneiro que ela lhe fez... Só soube do Ralph pelo
rádio do carro. Quanto à minha visita, pode crer que
não é oficial, nem por estar preso de amores por si.
- Então, se não é oficial, vem cá tirar uns quantos
nabos da púcara.
- Não. Estou de férias e... sou curioso. Chega-lhe a
explicação ou quer com mais molho?
- Ok. Não há razão para lhe esconder o pouco que
obtive. Comecei por percorrer todos os bares e
dancings com a fotografia de Edgar Marlowe.
- Porquê ele e não outro qualquer?
- Isso é cá comigo.
- Tá bem. Mas nós já tínhamos feito tudo isso.
- Pois já, mas com métodos diferentes e com tipos
muito menos capazes que eu.
- Sempre admirei os gajos modestos, Bronco. Até
me vêm as lágrimas aos olhos.
- Ao olho, quer você dizer.
O'Hara rosnou:
- A minha vontade era dar-lhe com a perna de pau
num joelho.
- Você, com a idade, está a perder o senso de humor.
O'Hara deitou para o chão a beta, ajeitou a pála e
esperou. Não lhe convinha incompatibilizar-se agora
com o detective.
- Tá bem. Conte lá o resto.
- Bem... ao fim de trinta e tal bares, encontrei no
"Devils'" um barman que reconheceu o agente e que
se lembra duma gaja muito boa que estava com ele.
Não consegue descrevê-la bem, mas notou que tem um
olhar estranhamente fixo. Se ela voltar a aparecer,
telefonará... se já não o fez. Ele deve ter assistido ao
tiro e tudo o mais.
- Estranho, esse tiro. Uma arma antiga, mas segura.
Uma arma de profissional.
O'Hara sabia que tinha de dar alguma coisa em troca.
- Os jornais não a referiram.
- Pois não, Bronco. Uma Magnum .357, com cano de
três polegadas e meia. Muito usada pelos profissionais
do crime, como você, tão bom detective como se diz,
deve saber.
- E não costumam falhar...
- Logo, Bronco, não era um profissional...
Ficaram os dois a pensar até que Bronco disse:
- Oiça, O'Hara. - E fixou-o bem no seu único olho. - O
barman não telefonou, nem mandou recado a ninguém,
enquanto lá estive. Só a Polícia poderia saber... algumas
vezes pareceu-me estar a ser seguido...
- Quer você dizer que foi a Polícia que o baleou?
- Restam-me poucas dúvidas... e a si?
- Curioso...
- Curioso digo eu! Pensava que você iria dar pulos e
chamar-me filho da puta, como já o fez Rockfeller e,
afinal, diz calmamente, "curioso"!
- Oiça, meu rapaz. Não vale a pena contrariar o óbvio.
Quando você sair, quero estar consigo à conversa, em
sua ou em minha casa.
- Você está de férias, velho?
- Já lhe disse que sim. Sabe onde moro?
- Sei... se ainda é aquela mansarda... pior que a minha.
- É a mesma. Espero lá por si amanhã, para jantar.
- Arre! A Polícia enfia-me um balázio no corpo e, em
seguida, o célebre Chefe da Brigada de Homicídios
oferece-me de jantar! Começo a sentir que sou gente
crescida!
- Claro que não é, Bronco. É um puto pouco esperto,
mas sério. É só.
- Obrigado pelo piropo... velho.
- Velho era o preservativo que o seu pai utilizou quando
o concebeu... deve ter-se rasgado e entraram também
alguns fungos...
............
(Ed B. Silverman é também autor do livro Crime Craker.)

27. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

7.

Com cinco dias de violentíssimo regime, Bronco
Vale parecia mais novo. Deixara de fumar e de beber.
As refeições eram boas e a horas certas. Algumas
rugas tinham desaparecido e o nariz parecia menos
afilado. Estava, pois, um amor de rapaz.
A visitante habitual fazia-lhe companhia.
- Sairei amanhã, sra. Marlowe...
- Chame-me linda.
- ...e continuarei a investigação.
- Não quer desistir?
- Agora não. Agora vai ela começar... parece-me.
De olhos baixos, como se informasse que, em
miúda, tivera bexigas benignas, Linda disse:
- Edgar... o meu falecido marido, deixou-me um
razoável seguro de vida, além da pensão da Polícia
e tenho ainda parte da herança de minha mãe.
- Está a propor-me um dote?- disse com fina ironia.
- Estou só a dizer-lhe que... já liquidei a conta do
hospital.
- Bem... essa conta será descontada nos meus
honorários.
- Acho bem. Virei então buscá-lo amanhã.
- Claro que tem carro?
- Claro que tenho. Bem... adeus, senhor Vale.
- Adeus Linda. Até amanhã.
Quando a sra. Marlowe chegou à porta, esta abriu-se
de repente. O'Hara, com a sua barulhenta perna de
pau, entrou friorento. Afastou-se, segurando
gentilmente a porta para ela sair, o que Linda fez
baixando a cabeça num mudo agradecimento.
O'Hara, esfregando a mão natural na artificial, para
a aquecer, desabafou:
- Bela mulher, caramba!
- Hum-Hum.
- Quem é? Posso saber?
- Pode. Uma linda mulher.
- Tá bem, Bronco.
E sentou-se na cadeira onde estivera Linda Marlowe,
colocando a perna de pau num dos ferros da cama.
Acendeu um cigarro (depois daquelas manobras
todas que já explicámos) apesar de um pequeno
desenho informar ser proibido fumar.
- Então? - perguntou no tom mais grave da sua voz.
- Mais um dia e pronto, O'Hara.
E ficaram a olhar um para o outro. Até que o
deficiente físico, de pála posta, perguntou:
- Olhe lá. O que é que você descobriu?
- Hum... não sei ainda. Só sei que você está a deitar
a cinza sobre a camiza e para o chão.
- Pois estou. Palre lá.
- Passo aqui horas a pensar e não chego a lado
nenhum. Mas diga-me uma coisa, O'Hara,
ou melhor, duas. Primeira: por que não foi você a
aparecer no "Quatro de Espadas", quando o Ralph
explodiu? Segunda: a sua visita é oficial ou veio
ver-me porque é muito meu amigo e etc.?
- Primeira resposta: eu não estava na Central.
Encontrava-me em Brooklin, com uma merda
qualquer. Um gajo que matou a mulher, batendo-lhe
com a cabeça na panela da comida... aliás, eu teria
feito o mesmo... quando vi a porcaria do guisado de
carneiro que ela lhe fez... Só soube do Ralph pelo
rádio do carro. Quanto à minha visita, pode crer que
não é oficial, nem por estar preso de amores por si.
- Então, se não é oficial, vem cá tirar uns quantos
nabos da púcara.
- Não. Estou de férias e... sou curioso. Chega-lhe a
explicação ou quer com mais molho?
- Ok. Não há razão para lhe esconder o pouco que
obtive. Comecei por percorrer todos os bares e
dancings com a fotografia de Edgar Marlowe.
- Porquê ele e não outro qualquer?
- Isso é cá comigo.
- Tá bem. Mas nós já tínhamos feito tudo isso.
- Pois já, mas com métodos diferentes e com tipos
muito menos capazes que eu.
- Sempre admirei os gajos modestos, Bronco. Até
me vêm as lágrimas aos olhos.
- Ao olho, quer você dizer.
O'Hara rosnou:
- A minha vontade era dar-lhe com a perna de pau
num joelho.
- Você, com a idade, está a perder o senso de humor.
O'Hara deitou para o chão a beta, ajeitou a pála e
esperou. Não lhe convinha incompatibilizar-se agora
com o detective.
- Tá bem. Conte lá o resto.
- Bem... ao fim de trinta e tal bares, encontrei no
"Devils'" um barman que reconheceu o agente e que
se lembra duma gaja muito boa que estava com ele.
Não consegue descrevê-la bem, mas notou que tem um
olhar estranhamente fixo. Se ela voltar a aparecer,
telefonará... se já não o fez. Ele deve ter assistido ao
tiro e tudo o mais.
- Estranho, esse tiro. Uma arma antiga, mas segura.
Uma arma de profissional.
O'Hara sabia que tinha de dar alguma coisa em troca.
- Os jornais não a referiram.
- Pois não, Bronco. Uma Magnum .357, com cano de
três polegadas e meia. Muito usada pelos profissionais
do crime, como você, tão bom detective como se diz,
deve saber.
- E não costumam falhar...
- Logo, Bronco, não era um profissional...
Ficaram os dois a pensar até que Bronco disse:
- Oiça, O'Hara. - E fixou-o bem no seu único olho. - O
barman não telefonou, nem mandou recado a ninguém,
enquanto lá estive. Só a Polícia poderia saber... algumas
vezes pareceu-me estar a ser seguido...
- Quer você dizer que foi a Polícia que o baleou?
- Restam-me poucas dúvidas... e a si?
- Curioso...
- Curioso digo eu! Pensava que você iria dar pulos e
chamar-me filho da puta, como já o fez Rockfeller e,
afinal, diz calmamente, "curioso"!
- Oiça, meu rapaz. Não vale a pena contrariar o óbvio.
Quando você sair, quero estar consigo à conversa, em
sua ou em minha casa.
- Você está de férias, velho?
- Já lhe disse que sim. Sabe onde moro?
- Sei... se ainda é aquela mansarda... pior que a minha.
- É a mesma. Espero lá por si amanhã, para jantar.
- Arre! A Polícia enfia-me um balázio no corpo e, em
seguida, o célebre Chefe da Brigada de Homicídios
oferece-me de jantar! Começo a sentir que sou gente
crescida!
- Claro que não é, Bronco. É um puto pouco esperto,
mas sério. É só.
- Obrigado pelo piropo... velho.
- Velho era o preservativo que o seu pai utilizou quando
o concebeu... deve ter-se rasgado e entraram também
alguns fungos...
............
(Ed B. Silverman é também autor do livro Crime Craker.)

Friday, March 10, 2006

26. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

24.

- Entre! - rugiu Rockefeller.
O'Hara cumprimentou e sentou-se. Estava com um ar
abatido e preocupado. O olho são estava cansado, com
olheiras. A mão artificial, a enluvada, pendia-lhe ao
longo do corpo. Parecia, se possível, vinte anos mais
velho, ou seja, parecia guardar dentro de si 128 anos.
Como sempre, colocou a perna de pau sobre a secretária
do Inspector-Chefe, apesar do desagrado deste. E disse:
- Bronco Vale descobriu qualquer coisa.
- Mande-mo já cá.
- Está ainda no hospital.
- Mas o que é que ele descobriu, O'Hara?
- Ele também não deve saber... é apenas um indício, não
chega a ser uma pista. Vou hoje falar com ele.
E ficaram os dois calados a ruminar coisas. O olhinho de
O'Hara rolava como a bola de uma roleta.
- O que há mais, O'Hara? Desembuche! Você está com
mau especto.
- Que puta de piada! - disse baixinho. E depois acendeu
um cigarro, pensando nas palavras que utilizaria, como
iria abordar assunto tão delicado. Mas, acender um
cigarro para O'Hara era divertidíssimo. Com a mão boa,
colocava o maço entre os dedos falsos da mão má.
Apertava os dedos da mão má, com os dedos da mão
boa. Depois, com os dedos da mão boa, retirava um
cigarro que colocava entre os lábios e, depois, procurava
o isqueiro com a mão boa e acendia-o. Só então retirava,
com a mão boa, o maço de cigarros da mão má.
Repetimos: divertidíssimo.
- Passei este fim-de-semana nos arquivos. Pedi ao
Morris para ficar comigo. Como é solteiro como eu,
passámos praticamente 48 horas a mexer em velhos
papéis, alguns processos, consoante nos íamos
lembrando. Sem qualquer ideia prévia, percebe?
- Percebo.
- Ah sim?! Óptimo. Entre muitos, folheámos o processo
"Tiphany's". Tem 13 anos de poeira e de esquecimento
em cima. Lembra-se dele?
- Vagamente. As pérolas, não é? Ainda era adjunto do
Chefe da Brigada de Homicídios.
- Pois.
O'Hara apagou o cigarro e acendeu outro, repetindo o
ritual, enquanto o Inspector-Chefe aproveitava a
oportunidade para soltar uns ventos traseiros,
suavemente. Andava assim há uns dias. Nervos, talvez.
- Desembuche, homem!
- Já lá vai. Deve estar lembrado de que foi um
espectacular roubo de jóias, copiando um esquema
praticado em França e já esquecido, principalmente
aqui. Esse esquema correu alguns países, se não estou
em erro. Vou abrir a janela...
- Deixe-se estar onde está... bem... Metia um general,
parece-me...
O'Hara deixou a cinza cair sobre a camisa, fechou o olho
bom e coordenou as ideias.
- Metia. Um general com motorista fardado.
- Conte lá... - e lá foi mais um vento...
- Numa manhã, um general, fardado a rigor, cheio de
medalhas, apeou-se frente ao "Tiphany's", entrou e,
dizendo que a sua filha única ia casar dentro de duas
horas, queria comprar um colar de pérolas como
prenda de casamento. Escolheu e adquiriu o mais caro.
Depois descobriu que, ao mudar de farda, não trouxera
o livro de cheques. O gerente propôs mandar-lhe o colar
a casa. Aqui o general diz não valer a pena, chama o
motorista, um cabo aviador, e dá-lhe instruções para
que lhe traga o livro de cheques e entregue à esposa o
estojo com o colar de pérolas. O gerente aceitou de bom
grado a solução e o grande carro negro seguiu com o colar
e o cabo aviador.
- Estou a ver.
- Pois. O general aguarda, passeando de um lado para o
outro, fumando um grosso charuto. Ar cagão, claro,
como o de todos os generais. Cerca de dez minutos
depois, um carro da polícia com a música a tocar, pára
ruidosamente à porta da joalharia. Um inspector e dois
detectives, de pistola em punho, prontas a disparar,
entram pelo estabelecimento adentro, atiram-se ao
general, batem-lhe desalmadamente e algemam-no.
O general estava uma lástima: cheio de sangue e todo
rasgado. O chefe do grupo explica ao então
esparvoado gerente que a Interpol já andava há muito
atrás do gajo, por roubos idênticos efectuados noutros
países e que uma segunda brigada procedia à prisão
dos outros pilantras. Que à tarde o gerente poderia ir à
Central levantar o colar e apresentar queixa. E sairam
todos, com o general a reboque, cheio de sangue e...
até hoje. Pertencia tudo à quadrilha.
- Foi isso exactamente. Lembro-me agora. Foi isso, foi.
- E nunca foram apanhados. O processo continua aberto.
- Mas para que está p'raí a contar-me essa história toda,
O'Hara? Farto de histórias estou eu.
- Bem... Nos autos e declarações, chamou-nos a atenção,
a mim e ao Morris, a descrição do detective que entrou
em primeiro lugar, de arma na mão. Descrição feita pelo
gerente. Trouxe uma cópia. Quer ouvir?
- Tá bem. Se tem de ser... se acha que é importante...
- É importante, porra!
- Tá bem. Leia lá isso.
- "Um metro e setenta e cinco. Mais magro do que gordo.
Entre 21 e 25 anos, mas alguns cabelos brancos", talvez
pintados. "Zigomas salientes e, o dedo que premia o
gatilho, ligeiramente torto." Os gerentes, principalmente
os de joalharias, têm de ser psicólogos e possuir um
grande poder de observação. Até memória fotográfica.
O'Hara calou-se, olhando para Rockfeller. Durante a sua
lengalenga, o Inspector tinha passado de vermelho lagosta
ao cinzento concha de amêijoa.
- Porra para isto! - exclamou baixinho. E O'Hara disse:
- A ficha de Bone diz que nasceu há 36 anos... e pouco se
sabe da sua vida entre, digamos, os 18 e os 22... a não ser
ter tido um romance com uma miúda de 17 ou 18 anos
anos, ainda prima afastada.
- Como raio soube você isso?
- Pelo Morris, que tem memória elefantina e que se
recorda de alguns comentários que mais tarde os colegas
faziam na messe, quando Bone ainda estagiava.
Rockfeller estava verdadeiramente surpreso. Pegou
distraído no cachimbo. mas pô-lo de parte. Acendeu então
um cigarro. Lentamente. Como convinha a um inspector-
-geral, fosse de que merda fosse. Bufou, para cima, o fumo
e perguntou:
- Qual é a sua proposta, O'Hara?
- Considero este assunto muito sério. Proponho-lhe que me
autorize, oficialmente, a entrar de férias. Sozinho começarei
a investigar este assunto.
Rockfeller pensou. Considerou. Reconsiderou.
- De acordo. Mas tome cuidado... não rebente também você
por aí. Mas, se tiver que rebentar, que não seja nas nossas
instalações. Como sabe, foi tudo pintado há dois meses.
- Pegue lá o meu requerimento. Peço-lhe apenas que me
afecte um carro com condutor, mas não o do Comando.
- Isso nem parece seu, O'Hara! É muito arriscado. Férias
com carro da Polícia?! Nem pensar! Acho melhor você
alugar um carro com condutor, claro. Aí numa agência
qualquer, mas que não tenha negócios connosco. Depois
arranjarei maneira da tesouraria pagar a conta...
- A sua ideia é, realmente, melhor. Muito melhor do que
a minha. Bem, vou indo.
- Vá dando notícias. Boas férias, O'Hara...
Mancando, O?hara saiu do gabinete, não se despediu de
ninguém e foi até à rua, fumando calmamente.
Saiu pela porta lateral. Junto ao passeio esperava-o um
carro particular com motorista sem farda. Cor preta.
O'Hara entrou.
- Acha bem, senhor? - perguntou o jovem motorista.
- Muito bem. É este mesmo o tipo de carro que eu tinha
ontem pedido à agência. - E sorriu com o olhinho bom
cheio de lágrimas de gozo e de malícia.

(do livro de Ed B. Silverman)
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Wednesday, March 08, 2006

23. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

5.

Num pequeno quarto do St. James Hospital, Bronco Vale, com
o ombro direito ligado, dormitava. Sentada junto ao leito, a
sra. Marlowe lia o Wall Street Journal.
Eram cinco da tarde e o quarto estava superaquecido.
Bronco abriu um olho e depois o outro, focando.
- Olá... - disse debilmente.
- Boa tarde, senhor Bronco Vale - e dobrou calmamente o
jornal.
- Para quem? - perguntou ele.
- Dói-lhe muito?
- Só quando me rio, segundo a velha piada.
- Pelos vistos, descobriu alguma coisa...
- Hum... acho que sim... mas é uma ponta muito frágil. Talvez
dê e talvez não.
Ela ajeitou-lhe a almofada e a roupa da cama, sem que
houvesse necessidade, claro. Estava tudo direitinho, como em
qualquer clínica de telenovela ou de série.
- Já estava quase a desistir... se não fosse o tiro, já teria
abandonado este caso...
A sra. Marlowe voltou a sentar-se. Estava um espanto. Bem
vestida e bem pintada. Apenas apresentava um ar cansado
ou, talvez, apreensivo.
- Senhor Bronco.
- Sim?
- Desculpe... ter-lhe chamado covarde.
Via-se claramente que ela fazia um esforço pois pedir desculpa,
não era bem de seu natural feitio. Ela mandava - não pedia
desculpa, ou por favor. Feitios de certas mulheres, o que
havemos de fazer? Mas agora actuava de maneira diferente.
Bronco sorriu levemente, tentando ser irónico:
- Chamou? Não me recordo. Devo ainda estar sob o efeito da
anestesia.
Ela pegou na carteira, no jornal e levantou-se, olhando-o quase
com piedade - ou seria já ternura?
- Precisa de alguma coisa?
- Não. O dr. Kildere não me deixa fumar, nem beber. Dentro de
dois ou três dias sairei... estou cheio de calmantes... adeus sra.
Marlowe... não me traga flores; basta-me a sua presença...
E fingiu adormecer, sorrindo interiormente. Aquela frase tinha
sido dita há muito tempo por Charles Boyer.
Linda ficou ainda uns segundos olhando-o. Depois saiu
elegantemente, com um lúbrico olho de Bronco pousado
interesseiramente no seu traseiro.
O tal olho lúbrico de Bronco estava enorme, parecia o de um
robalo ao se aperceber da presença de um tubarão.

(do livro do o mesmo nome de Ed B. Silverman)
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Tuesday, March 07, 2006

O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

4.

O pequeno bar-dancing "Devil's" estava praticamente às escuras,
pelo menos para quem vinha do exterior. Faltavam ainda duas
horas para abrir.
Tal como se vê nos filmes e se lê nos livros bem escritos
(ao contrário deste), ao fundo, um barman magro e com aspecto
hepático, limpava copos cuidadosamente. Apesar de algumas
janelas estarem abertas, os cheiros a tabaco, perfume, álcool e
suor mantinham-se no ar - ou fariam já parte das cortinas e dos
móveis. Distante, ouviam-se ruídos de águas, risos e cantorias -
a equipa da higiene procedia à limpeza dos sanitários.
Bronco Vale aproximou-se do balcão, deu o clássico jeito à aba do
chapéu (Henry Fonda) e disse, em tom coloquial:
- Olá, Mike.
- Chamo-me Joe, chui.
- Tenho um grande amigo que se chama Mike, é barman e já foi
chui.
Joe continuou a esfregar vigorosa e conscienciosamente o copo,
como se estivesse só e imerso nos seus mais profundos
pensamentos e como se aquele copo fosse o Santo Graal.
Ainda delicado, Bronco perguntou:
- Ainda é cedo pra me servir um uísque?
- Um chui não bebe em serviço.
- Precisamente por isso é que quero beber um uísque.
- Se eu até dou água aos cães...
E serviu-lhe um uísque, rigorosamente aviado, acrescentando
imediatamente:
- Dois e vinte... sem a fanfarra a tocar.
Bronco colocou três notas de um dólar no balcão e bebeu um
gole.
- Guarde o troco.
- Para quê?! Já comprei ontem um par de atacadores...
O detective colocou um nota de cinco sobre as primeiras. Joe
arrumou na garrafa, mirando, através do espelho, aquele
pindérico e avaliando quanto lhe poderia sacar.
Bronco tirou de um bolso interior uma fotografia e colocou-a
sobre as notas.
- Entre 17 de Novembro e 24 de Dezembro, não veio cá este
gajo?
- Já foi há muito tempo e a minha memória é fraquíssima,
chui. No último 25 de Dezembro, os vizinhos tiveram de me
apresentar a minha mãe... já não me lembrava dela, veja lá!
A própria mãe! Uma santa.
O detective bebeu o resto do uísque, guardou a foto e, quando
ia a pegar no dinheiro, Joe disse entredentes:
- Deixa ficar os carcanhóis.
Bronco conteve o gesto retirante.
- Isso. Esse gajo veio cá por esses dias... Fixei-o porque me
pediu uma água mineral... há cada um... uma água mineral!
Aqui! Neste antro de putas!
- Sozinho?
- Com uma borboleta que... espere! Ela é que quis a água
mineral... ele pediu um "uísque fraquinho". E não repetiram.
Bons clientes... como os chuis...
- Como era ela?
- Com seis e oitenta o taxímetro pára.
Bronco tirou outra nota de cinco, colocando-a sobre as irmãs.
Joe fê-las desaparecer num bolso do avental a uma velocidade
estraordinária, e disse, figindo rebuscar na memória:
- Uma mulher boa, pr'aí com trintas e tais, mas parecendo
vinte e tais. Boa de peito. Alourada... Hum... nunca mais cá
voltaram... Não devem ter gostado do estilo dos nossos
cinzeiros.
- Ela tinha alguma particularidade? Bexigas? Dedos a menos,
falsas mamas?
Joe recordou-se. Os olhos brilharam-lhe com a recordação.
Observou Bronco: admitia poder ainda sacar-lhe mais cinco ou
mesmo dez. Mas percebeu que não sacaria mais nada. Bronco,
apesar de tudo, também percebera.
- Bem...
- Se a informação for boa, levas mais cinco...
- Só vendo.
- Só ouvindo.
- Tá bem. Eles estiveram aqui encontados ao balcão. Não se
sentaram. Parecia um encontro para combinar qualquer coisa,
um programa ou coisa assim. Por isso é que me lembro... se a
minha mãe estivesse sempre aqui encostada ao balcão,
lembrar-me -ia dela sempre...
O detective acendeu um cigarro e deu a entender que se ia
embora. E o Joe a tentar mais cinco:
- A gaja olhava para mim de uma maneira estranha - disse
depressa -, uma coisa esquisita... um olhar um tanto fixo.
Devia estar já pedrada...
Levou mais cinco dólares.
- Ok, Joe. Se ela cá voltar, telefona-me. Tens aqui o meu
número. Uma das grandes ficará à tua espera.
- Ok, chui.
- Há quanto tempo saiste da grelha?
- Hum... dois anos... droga... Nada de importância... um
descuido. Agora estou limpo, chui.
- Ok, Joe.
Bronco saiu do "Devil's" e levou imediatamente um tiro no
ombro direito (1).

(1) - Na correspondência já citada, o autor nota, na
primeira parte desta sua novela, a falta de tiros e, em
contrapartida, excesso de sangue. Julgamos que tenta,
a partir de agora, equilibrar estes dois elementos. (N.E.)

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Wednesday, March 01, 2006

21. Bronco Vale

Há já um grupo de fãs do detective particular Bronco Vale.
Alguns e-mails fazem disso prova. Até decisão em contrário,
vou continuar com esta novela de Ed B. Silverman deixando
para mais tarde outras leituras de livros.

3.
Quando os agentes e a equipa técnica se foram embora, Bronco,
Mike e o Inspector-Chefe Rockfeller sentaram-se a uma mesa,
à entrada da porta, onde o cheiro era quase nulo.
Nessa manhã, Rockfeller estava impecavelmente vestido (calça,
casaco, colete, cachecol, chapéu e sobretudo). Parecia um
abastado banqueiro ou um advogado com êxito. Encontrava-se
na fase "Perry Mason", cuja série tinha recomeçado apenas há
três dias (Canal 75, do qual "espremendo o telecomando, sai
sangue"). Curiosamente, identificava-se mais com o advogado
do que com o promotor e lambia o ecrã quando aparecia a Della
Street. Coisas...
- Como poderá chamar-se? - perguntou o Inspector - "O Caso
da Bomba Humana" ou "O Caso da Mulher Com Um Olho de
Vidro" ou, ainda, "O Caso da Loira Explosiva"?
- Ela é loira? - perguntou Mike, que gostava muito das loiras.
- Ainda não sei bem... trabalhamos neste caso noite e dia. Bem...
conte lá a sua história, Bronco. (Suspirou.) Estes trabalhos
seriam muito mais interessantes com uma miúda engraçada
como secretária.
- Para que quer uma miúda engraçada se já tem o O'Hara? -
disse Mike, atrasando a conversa.
- Bem... se você não fosse um herói da guerra e não se tivesse
reformado como major, mandava-o à merda.
- Pronto, Inspector. Já não se pode dizer uma piada? O que quer
tomar? Por conta da casa, claro.
- Pode dar-me um gin fizz cortado.
- Mas que raio é isso? Ácido sulfúrico com uma gema de ovo e
muito gelo... para cortar?...
- Não. Deixe. Continue, Bronco.
- Continuo o quê?
- Disse-lhe para contar a sua história, não disse?
- Disse. Mas depois começou a falar de miúdas e de bebidas...
- Comece já. Ou prefere na Central?
- Bem... Não tenho muito para contar. Telefonei ao Ralph e
pedi-lhe que viesse aqui tomar um copo comigo. Dei-lhe meia
hora. Quando cheguei, estava ele nos lavabos e, depois, pum!
Mike viu-se na obrigação de esclarecer:
- Ele chegou, Inspector-Chefe, pediu um uísque e...
- ...duplo...
- ...pois, uísque duplo e foi para os lavabos, abrindo a braguilha,
não foi assim. Quem pediu um uísque duplo foste tu, Bronco. O
Ralph pediu um uísque simples.
Bronco Vale condescendeu:
- Deve ser isso.
O Inspector-Chefe rosnou:
- Siga!
- Onde é que eu estava?
- Estavas na braguilha - disse Bronco.
- Eu? Na braguilha? Que queres insinuar, sacaninha?
- Alto aí!!! - Berrou Rockfeller. - Conte lá a sua versão e
deixe-se de merdas!
- Calma, Chefe. Não é caso para tanta irritação. Foi assim:
o Ralph chegou, pediu um uísque simples - ouviste, Bronco? -.
e foi para os lavabos abrindo a braguilha. Cerca de dois
minutos depois entrou o Bronco. Olhe: tenho ali a sua carteira
e partes do relógio. Uma recordação para a viúva, claro. Que
eu tenho um bar mas não sou um impedernido; tenho coração
como...
- Cale-se! - rosnou outra vez o Inspector-Chefe, que olhou
fixamente para Bronco Vale e perguntou muito devagar,
devagariiiinho...
- Que queria você do Ralph?
- Eu? Bem, não é segredo. Queria combinar com ele irmos
amanhã bem cedinho, apanhar flores silvestres e oferecê-las
à Igreja de São Bernardo, para a missa do meio-dia.
Mike Hook bateu com os ganchos, dando palmas metálicas,
interessantíssimas.
- Você sempre me saiu um bom filho da puta!
- Cuidado, Inspector. Olhe que tenho aqui uma testemunha.
- Quem, eu?! Não ouvi nem vi nada! - disse candidamente
Mike Hook, enquanto coçava o interior de uma orelha com
um dos ganchos.
Bronco, só para chatear, continuou:
- Não acredita mas, quando eu era puto, o padre da Igreja de
S. Bernardo, o Reverendo Bing Crosby, dava-me bolinhos...
- Ai dava?!... E ao Ralph também, claro...
- Sabe, Inspector, o Ralph sempre teve mais jeito do que eu
para colher flores e organizar os ramos. Veja lá que até sabia
o nome delas todas.
- E agora explodiu! - disse Mike, só para dizer qualquer coisa.
- Muito bem, Bronco. Já percebi. Mas se o encontro a
atrapalhar, por entre as pernas dos meus homens, terá um
enterro de primeira classe. Saco-lhe a licença mas, antes,
havemos de ter uma interessante conversa...
E saiu, deixando Bronco e Mike olhando tristemente para os
copos vazios.
- Bem, Bronco. Tenho de arranjar uns gajos para limpar e
reparar tudo isto. Uns dias fechado. O que vale é que tenho
seguro.
- E eu tenho e ir falar com a Verónica.
- Ela já sabe?
- Não, mas com o meu telefonema de há pouco deve ter
ficado desconfiada. Tenho de lá ir antes da Polícia.
- Pois é: tens de lá ir antes da Polícia.
- Mike.
- Hum...
- Por que não quiseste servir de testemunha quando ele me
chamou de filho da puta e começou a fazer chantagem?
- Tenho um bar, como vês. Tenho um bar, cujo dono, eu,
fecha às horas que entende e recebe os clientes que quer.
A Polícia nunca gostou da tropa e vice-versa, em qualquer
parte do mundo. E, mais vingativo que um elefante, só um
chui.
- Bem, Mike, trás lá a garrafa. Não, duas. Acabei de poupar
100 dólares.
- Bronco...
- Hum...
- O que é que o Ralph andava a investigar?
- Tu já sabes, malandro. Queria ser herói, descobrir tudo e
sair com o retrato nos jornais... essas merdas... e por conta
própria.
- E tu, Bronco?
- Eu o quê?
- Andas com algum caso?
- Agora tenho um caso para resolver: quem irá apanhar as
flores para a Igreja de S. Bernardo e para o meu querido
Reverendo Bing Crosby?
- E se em vez de ires apanhar flores, fosses apanhar no cu?
- Neste país já não se pode ser crente e amigo da sua
paróquia... que porra esta!
Pegou no saco com as duas garrafas, acenou a Mike e saiu.
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Tuesday, February 28, 2006

20. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

2.
O "Quatro de Espadas"era um pequeno bar situado quase à
esquerda da Vesey com a Greenwich. O dono, um inválido
de guerra com cerca de 35 anos, usava ferros cromados em
vez de mãos mas, com eles, conseguia fazer quase tudo.
A sua clientela era principalmente constituída por detectives
particulares e de companhias de seguros e ainda por ex-agentes
da secreta militar, alguns antigos colegas de Mike Hook, o
proprietário.
Bronco Vale entrou enregelado, mas com a segurança que dá
ter no bolso 250 dólares verdadeiros.
- Olá, Mike.
- Viva, Bronco. De quanto precisas desta vez?
- Tenho massa, obrigado. Dá-me um uísque duplo e
embrulha-me uma garrafa para levar. Podes ir preparando
também um copo para o Ralph. Estou à espera dele.
- Já chegou. Chegou há momentos. Foi aos lavabos, mas levou
o scotch com ele, por causa das moscas...
E pronto. Uma porta voou, partindo o espelho da parede de
entrada. Só depois chegou o estrondo de uma violenta
explosão nos lavabos.
Mike e Bronco correram, tropeçando em dois clientes
completamente atónitos e surdos, estendidos no chão. Pararam
à porta do urinol.
O mesmo espectáculo de sempre. A mesma porcaria. Ralph
desintegrara-se. Um cheiro pestilento, misto de fossa e de
amoníaco, invadia já todo o bar.
Mike, manejando com destreza os ganchos, conseguiu apanhar
do chão a carteira e parte do relógio de pulso de Ralph. Havia
sangue, miolos e trampa por todos os lados. Repugnante.
Bronco esforçava-se por conter os vómitos. Um detective e,
ainda por cima, dos duros, dos autênticos, não vomita.
Ligeiramente tonto, dirigiu-se à cabine telefónica, enquanto
gritava para os clientes mais próximos:
- Calem-se aí, seus merdas. Parecem galinhas assustadas.
Marcou e esperou, passando por vários intermediários e, cada
vez com mais agonias e vómitos.
- Inspector- Chefe Rockfeller? Bronco... Vá você... ou melhor,
venha cá você com os seus rapazinhos, ao "Quatro de Espadas".
Tem cá os restos de um gajo seu conhecido.
E desligou.
- Mike: que não entre nem saia ninguém.
- Não nasci ontem - respondeu o dito.
Bronco bebeu de um só trago o seu uísque duplo e correu para
a rua, onde vomitou, acertando num cão que urinava,
placidamente, para uma boca de incêndio. O cão ficou chateado.
Nesta cidade já não se podia mijar à vontade.
Bronco regressou mais aliviado, mas a tossir. Voltou para a
cabine telefónica e, após várias tentativas, consegiu o contacto.
- Verónica? Bronco. Agora não tenho tempo. Diz-me só se o
Ralph andava com alguma investigação. O quê?! Louco!
Completamente louco!!! (Respirou fundo, ouvindo.) Calma,
Verónica. Deixa tudo o que estiveres a fazer e vai para casa.
Passarei por lá mais tarde. Coragem, miúda.
Assim mesmo: "miúda". Paternal, amigo, mas duro como um
calhau. Gibraltar.
- Mike, dá-me outro uísque.
- Para beber ou para vomitar?
- Para beber, porra!
- Desculpa, mas se fosse para vomitar, dava-te de uma marca
que tenho aqui e que é muito mais barata.
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Sunday, February 26, 2006

O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

Entramos agora na segunda parte desta novela de Ed B.
Silverman, em que aparece o célebre detective Bronco Vale,
o homem que resolvia crimes e atraía balas dispersas ou
distantes. Silverman continua ridicularizando os livros
policiais, utilizando obviamente a sua estrutura.

2ª.Parte
1.
O detective particular Bronco Vale, depois de lhe ter dado uma
vista de olhos, amachucou o jornal e atirou-o contra o
bengaleiro.
A neve caía. A única janela do seu gabinete estava branca. Num
canto da sala, um pequeno aquecedor eléctrico, velho e ferrugento,
tentava vencer o frio, mas sem resultado - nada denotava o seu
honesto mas asmático esforço.
Bronco abriu a última gaveta da sua velha secretária e, tremendo
de frio, retirou uma garrafa ainda meia de uísque. Serviu-se
generosamente pelo gargalo. Tossiu. Voltou a beber e tornou a
tossir.
Mais um mês sem um único cliente. Tinha já dois meses de renda
em atraso, não só no escritório como também no apartamento
e ingeria apenas uma refeição por dia, no "Joho", aquela
espelunca infecta na 38ª.
Acendeu um cigarro e começou a limpar a arma, como via fazer
nos filmes, ou seja, não limpar nada. Passando apenas um pano
amarelo e olhando sem interesse para o interior do cano. Apenas
um ritual.
Tremeu novamente de frio e voltou a ter um novo e violento
ataque de tosse. Emborcou, mais uma vez, umas avantajadas
goladas de uísque. Olhou para a garrafa. Como o nível da garrafa
baixava! O processo de evaporação deveria ser mais rápido no
uísque do que nos outros líquidos. Quanto mais caro,
mais evapora; isto é uma grande porra. E uma grande verdade.
Foi então que, fulminantemente, entrou na pequena sala a
garota mais sexy que Bronco já vira nos dias da sua vida.
Bem, garota já não era muito. Coisa aí para os 25 anos estimados
e aconchegadinhos.
Vestia um pesado casaco forrado a pele de chinchila e, na cabeça,
um gorro da mesma pele a condizer. Uns elegantes botins
vermelhos davam-lhe um toque final, não de distinção, mas de
sábia elegância. Sob o casaco, adivinhavam-se interessantes e
variadas curvas.
E falou. Ela falava! Não demasiadamente alto. Não
demasiadamente baixo. No volume certo e com um timbre meio
grave. No registo com que começam algumas oratórias de Bach.
- Se já bebeu tudo, poderá atender-me - disse, fria como aquela
manhã de Janeiro.
Bronco, reflectindo que tinha a defender uma imagem, não só na
América como no mundo, levantou-se lentamente, como já tinha
visto uma vez fazer ao velho Gary Cooper e foi sacudir a única
cadeira "extra" do escritório. Pegou depois no jornal e deitou-o
para o cesto dos papéis. E, com um gesto sóbrio, convidou-a a
sentar-se e voltou para o seu lugar. Tudo feito pausadamente.
Não te excites, sacana.
- Obrigada. Sou Linda Marlowe. Senhora Marlowe e sou viúva.
Bronco Vale continuou a devorá-la. Fazia os possíveis para não
se babar. Passara-lhe completamente o frio. Até sentia um pouco
de calor em certas partes do corpo.
- O seu nome foi-me indicado por um amigo. Chama-se Bronco
Vale, não chama?
- Chamo.
- Ele disse-me que você não era muito inteligente, mas que
compensava essa falha natural com a honestidade e a
perseverança.
- E que mais?
- Mais nada.
- São cinqienta dólares por dia, fora as despesas e cinco dias
adiantados.
Até a tosse me ajuda...
Voltou a ter um violento ataque de tosse. Bebeu outro golo de
uísque e ofereceu, estendendo o braço, a garrafa à sra. Marlowe,
enquanto limpava a boca com as costas da mão direita.
- Não bebo, obrigado. Pelo menos a esta hora... e muito menos
pela garrafa...
Com gestos rápidos, a sra. Marlowe abriu a carteira, retirando
uma pequena bolsa para notas, com cantos arredondados em
ouro. Contou 250 dólares e depositou-os na secretária, em frente
dele.
- Sra. Marlowe. Eu ainda não disse que aceitava o trabalho.
- Pois não, senhor Vale. Mas vai aceitar pois está nas últimas.
- O seu amigo também lhe disse isso?
- Não, senhor Vale. Mas qualquer pessoa, olhando para si, vê
imediatamente que não come uma refeição decente há, pelo
menos, dez anos.
- Diga lá.
- O quê?
- Diga lá o que quer de mim.
A sra. Marlowe abriu de novo a carteira, retirando um recorte de
jornal. Abriu-o, endireitou-o com a mãozinha direita esticada e
enluvada e entregou-o ao detective.
- Leia.
Bronco Vale deu-lhe apenas um rápido olhar.
- Eu sei. É o comunicado oficial da morte dos vinte agentes da
Polícia do Estado de Nova Iorque.
- Leia então o primeiro nome da lista.
- Hum. Edgar Marlowe, agente de 1ª. classe, 28 anos de idade,
casado e sem filhos.
- Era o meu marido.
- Já percebi.
- Quero que descubra quem o assassinou.
Bronco olhou bem para dentro dos olhos da sra. Marlowe.
- Só?
- Só.
Resignado, Bronco apontou para o maço de notas e respondeu
baixinho:
- Pode guardá-lo.
- Não aceita?
- Oiça. Neste momento o assassino do seu marido e de mais
dezanove, fora os civis, anda a ser procurado por toda a
Polícia metropolitana, pela Brigada de Homicídios, pelo FBI e
pela CIA. A esta equipa juntaram-se ainda uns cretinos
professores da Escola Superior da Polícia e três inspectores
reformados.
- E daí?
- Eles nada conseguiram ainda. Nada. Absolutamente nada. E
vou ser eu, o brilhante detective particular, de baixo QI, a
descobrir tudo! Passe Bem, senhora Marlowe.
Ela, com ar duro e cerrando os dentes, latiu:
- Covarde!
Perco a grana e ainda sou insultado?
Bronco, com meio sorriso e calmamente, como já tinha visto
fazer ao velho James Cagney, bebeu o resto da garrafa e,
atirando-a para o cesto dos papéis, ergueu o seu metro e
oitenta, contornou a secretária, levantou pelos sovacos a sra.
Marlowe, virou-se e ferou-lhe duas violentas palmadas no
traseiro, acto mais que simbólico, já que o espesso casaco
forrado impedia qualquer dano em tão bom material.
Linda Marlowe, afogueada mas aparentemente calma, voltou
a sentar-se. Os olhos só transmitiam ira. Uma enorme ira mas
também uma forte determinação. Sibilou:
- Está satisfeito?
Bronco tossiu, aparentemente indiferente. Um duro! Só visto.
- Não me retiro já porque, realmente senhor Vale, me disseram
que obtinha resultados. Na vida, só me interessam os
resultados.
Bronco sentou-se. Acendeu um cigarro e, por entre o fumo,
mirou-a com admiração. Um longo silêncio os envolveu.
- Não quer, ao menos, tentar?
Quis ser ordinário, para quebrar a força de vontade e a
determinação daquela mulher:
- Dormir consigo?
- Não, senhor Vale. Tente investigar durante cinco dias e, depois,
desista. Mas só depois. Não o cansará muito.
Levantou-se, ajeitou o casaco e, já com a porta aberta para sair,
disse depreciativamente:
- ... e, entretanto, compre umas garrafas de uísque, por minha
conta, claro.
A porta fechou-se suavemente.

Bronco Vale sorriu. Achava que a cena tinha sido muito boa.
Qualquer autor policial a gostaria de ter escrito. Não tinha fugido,
nem no gesto nem na palavra, ao guião. Meteu o dinheiro no bolso
esquerdo do sobretudo e a arma na sovaqueira de cabedal. Depois
da arma entrar na bainha, deu-lhe mais um toque aconchegante
com as pontas dos dedos, quase terno.
Tossiu, escarrou para o cesto dos papéis, pegou no telefone e
marcou. Mas, antes, aspirou como qualquer rafeiro, o perfume da
base da cadeira. Era suave e altamente excitante. Esta era a
mulher dos seus sonhos deste os 13 anos de idade e, ainda por
cima, viúva e com dinheiro. Parecia...
- Ralph? Bronco. Preciso de ti. Vinte e cinco por dia. Está bem para
ti? Dentro de meia hora no "Quatro de Espadas", ok?
Desligou o aquecedor e saiu, sem fechar a porta da rua. Para quê?
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Monday, February 20, 2006

18. O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

13.
No dia 2 de Janeiro, no salão nobre da Câmara Municipal,
efectuou-se uma reunião em que participaram inspectores, o
procurador-geral da República, o Mayor, directores do FBI e
da CIA, dirigida pelo Governador do Estado.
Não foi permitida a presença, na sala, de jornalistas.
Nathaniel B. Clark (NBC na intimidade), Governador do
Estado de Nova Iorque, abriu a sessão da maneira esperada,
pois tendo, nos começos da sua carreira, sido chefe das
relações públicas de uma importante agência de publicidade,
sabia conduzir com gentileza, por vezes exagerada, os assuntos,
os problemas e as reuniões.
Endireitando os punhos da camisa, que estavam direitos,
começou dizendo, com um sorriso, que logo emendou:
- Muito obrigado pela vossa presença, estimados senhores.
Pedi-vos o enorme sacrifício de abandonarem os seus afazeres,
neste começo do ano, a fim de, comigo, se analisar o problema ou
o caso das explosões humanas.
Estava dado o ponto da agenda. O silêncio era total. NBC olhou
à volta satisfeito e continuou em tom dramático:
- Ainda no ar pairam os gritos de alegria e os brindes de mais
uma passagem de ano; ainda sentimos em nós o carinho e os
votos dos nossos entes queridos; ainda recordamos com felicidade
as prendas que nos ofereceram, e já aqui nos encontramos,
indissoluvelmente ligados ao nosso dever de cidadãos e de
responsáveis pelo bem-estar e segurança do povo americano.
(Breve pausa.) Está connosco neste momento o pensamento do
Presidente, que, do seu rancho, telefonou apoiando a nossa decisão
e reunião. Assim, estimados amigos, entremos imediatamente na
matéria, para aproveitar bem o tempo que nos é pago pelo povo
contribuinte. (Breve pausa.) Queira fazer o favor, Mayor.
O Mayor, John Feltcher, estava profundamente descontente.
Há anos que fazia parte do seu interesse e quotidiano, os flashes,
microfones, as câmaras de televisão. E agora, em assunto tão
importante, nada! Numa reunião tão prometedora, com um
assunto que já apaixonava toda a América.
Com o seu treino, caseiro e público, disse o Mayor:
- Obrigado, Governador. Como sabem, 23 pessoas morreram,
em dois meses, de explosão e, infelizmente, não sabemos o que
nos espera no futuro. Das 23 pessoas, 20 eram nossos agentes,
dedicados e íntegros policiais, pelo que tomo a liberdade de pedir
a todos um minuto de silêncio, em sua honra e memória.
"Porra! - pensou NBC - Isto devia ter sido dito por mim! Foi
um grande trunfo! Porra! Porra! Mas como não me lembrei eu
do sacana do minuto de silêncio?! É de belo efeito, humano e
tudo e a besta do Feltcher é que fica com as honras! O meu
secretário é uma besta, também."
Quando toda a assistência se voltou a sentar, o Mayor pediu
ao Inspector-Chefe Rockfeller que fizesse o ponto da situação,
ao que este acedeu, metendo o cachimbo no bolso (estava na
faze Maigret).

- Temo-nos esforçado, noite e dia, para resolver este
problema. Sabemos que, por detrás das explosões, há uma
esbelta mulher, que usa um olho de vidro. Contudo, ainda não
encontrámos ninguém que a tenha visto. Até agora só tem
efectuado contactos telefónicos e, como sabem, não podemos
pôr todos os telefones de Nova Iorque em escuta.
E o Governador:
- Se ninguém ainda a viu, como sabe o Inspector-Chefe que
ela é uma esbelta mulher?
"Esta foi bem metida, caramba!" . Pensou NBC.
- Bem... É uma boa pergunta, Governador. O'Hara, por que
é que você me disse que ela era uma esbelta mulher?
-O'Hara, com o seu único olho, fulminou o Inspector-Chefe.
- EU nunca disse que ela era uma esbelta mulher.
- Se não foi você, foi o detective Bone.
- Eu?! Pois se nunca a vi! Tanto pode ser esbelta, como
torta, velha, zarolha... perdão, Chefe O?hara... não queria de
modo algum magoá-lo... referir-me ao seu olho...
- Eu quero que você se lixe!
- Governador - era o homem da CIA.
- Sim, Mafiarelli, fale - condescendeu NBC.
- Julgo que os colegas da Polícia aqui reunidos não nos
poderão dar mais informações do que as que já temos.
Também a CIA fez algumas investigações, mas sem qualquer
resultado. Não sabemos se é um assassino, se uma quadrilha,
se parte da América se do exterior e, mais, nem sabemos
sequer quais são os seus objectivos. Permito-me perguntar:
intentam apenas lançar o pânico ou são experiências para uma
acção mais ampla e nacional?
- Mais ampla e nacional? Explique-se melhor, Mafiarelli.
- OK, Governador. Vamos supor que há um produto que
misturado, por exemplo, com o uísque, provoca aquelas
tremendas explosões. Ora, as mortes até agora ocorridas,
podem ter sido apenas ensaios desse tal produto.
- Mas... 23 ensaios?!
- Sim, senhor. Suponha que, depois de testado, o produto
será lançado secretamente num popular calmante ou, até,
numa boa marca de pastilhas elásticas. Começarão então as
pessoas a explodir às milhares por dia, em todo o país. E, se
o produto explodir com a mistura de Coca-cola, serão às
centenas de milhar. Num mês morrerá mais de 50% da
população americana, principalmente na faixa etária mais
jovem.
- Com que fim? Objectivos? - perguntou o Governador.
- Chantagem, possivelmente. Paramos com as mortes se
nos derem não sei quantos biliões de dólares...
Fez-se um pesado silêncio. A CIA tinha mostrado a sua
habitual capacidade de raciocínio e de antevisão dos factos.
Que seria da América sem a CIA? Era a muda interrogação
de todos os presentes.
- Sim, Mac, diga.
Era o homem do FBI, que não queria ficar atrás.
- Eu e o Mafiarelli temos trocado algumas impressões e,
pela nossa parte, investigámos a entrada de estrangeiros,
sua proveniência, especialidade, fins, etc. Dos 256 mil
entrados nos últimos seis meses, para este Estado, só dois
são químicos de grande craveira: um romeno e um búlgaro.
Fizeram as suas conferências e foram-se embora. Mas podem
ter deixado a fórmula com algum agente local. Seria
facílimo. Estes dois químicos estão a ser vigiados por colegas
da CIA nos respectivos países.
- Obrigado, Mac. Pôs o problema muito bem. Mafiarelli:
houve alguns resultados práticos?
- Isso é com o Mac.
- Pois, é comigo. Com o romeno, nada, Governador. Apenas
o búlgaro, segundo um dos nossos agentes naquele país, tem
andado muito feliz nos últimos tempos. Ri por tudo e por
nada, dá gargalhadinhas, como se contasse a si próprio boas
piadas e até dá pequenos pulinhos na rua. Conhecem o género...
Continuaremos a investigar.
- Muito bem. Muito obrigado, Mafiarelli e Mac. Como
sempre, as vossas agências funcionam. Alguns dos presentes
deseja acrescentar alguma coisa? Não? Bem. Temos agora de
preparar a comunicação para os órgãos de comunicação. Que
sugere, Mayor?
Delicadamente, Feltcher pronunciou-se.
- Como todos sabemos, o Governador estará mais apto para
expôr o ponto da situação aos jornalistas. Contudo, permito-me
sugerir que a teoria da CIA não deva ser divulgada. Seria o
pânico. Só o Presidente deverá ser informado dela. Entretanto,
proponho que sejam considerados rigorosamente confidenciais
os trabalhos que estão a ser efectuados pela CIA e pelo FBI.
Todas as pessoas presentes deverão guardar o maior sigilo.
"Segunda vez! Este gajo já está a chatear-me! Quem
deveria ter focado o aspecto da confidencialidade, era eu!
Merda para isto. Bastardo!"
- Muito bem, Mayor. De acordo. E, agora, Inspector-Chefe,
pode mandar entrar os jornalistas.
- Quem eu?! Que vá o Bone. Eu sou um inválido perneta.
- Sim, Chefe O'Hara.
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Aviso

Com o capítulo que agora se seguirá, fica completa a primeira
parte da novela de Ed B. Silverman A Mulher Com Um Olho de
Vidro. Na segunda parte assiste-se ao aparecimento do
grande detective Bronco Vale, curiosa figura que tem a
particularidade de o seu corpo ser uma espécie de íman que
atrai qualquer bala que ande perto a cirandar.
Como não vou estar à escrita até à próxima 6ª.Feira, fica já
completa a primeira parte da dita novela.
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Sunday, February 19, 2006

17. O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

12.
De 17 de Novembro a 24 de Dezembro explodiram, nas mais
diversas situações, vinte agentes da Brigada de Homicídios da
Polícia de Nova Iorque.
Os jornais e as televisões fizeram grande alarde do acontecimento
e o Mayor pretendeu realizar um funeral colectivo, para mostrar
ao país como os seus homens, mal remunerados e sempre
criticados, morrem com honra no cumprimento do dever.
O problema que então se levantou foi o do ridículo de 20 urnas a
desfilar nas ruas sem nada lá dentro, vazias. A ideia foi então
posta de parte mas, em compensação, a 27 de Dezembro, uma
lei municipal obrigava a ter a bandeira a meia haste em todos os
organismos públicos, até ao dia 28, ao meio-dia.
Entretanto deu-se o Natal - inevitavelmente as pessoas e as
criaturas ficaram todas boazinhas, graças a Deus Nosso Senhor e,
também inevitavelmente, dá-se a passagem do ano que, desta
vez, foi a 31 de Dezembro, repleta de crimes, bebedeiras, fomes
e banquetes, beijinhos, beijocas, facadas, tiros e bofetões - enfim,
assinalou-se o evento com muita dignidade, principalmente nos
templos e nas associações de ajuda aos pobrezinhos, aos
esfomeadinhos, aos sem-abrigo, aos alcoólicos anóninos, aos
seropositivos, às mães solteiras, aos porto-riquenhos, aos
animais e aos drogados também. Houve ainda uma centena
de suicídios sem qualquer importância - uns pobres da merda já
fartos. Outros conseguiram aguentar os rigores da neve, da fome
e do abandono e lá transitaram para o ano e década seguintes,
com a bênção do Senhor e do Presidente e respectiva esposa. Neste
período de oito dias, morreram assassinadas à dentada, facada,
por enforcamento, veneno para os ratos, por balas de diversos
calibres e por asfixia, uma centena e meia de criaturas.
Quanto aos nossos heróis, O'Hara andava sempre com a pála no
olho, por via do frio áspero que varria a cidade e Rockfeller passava
por uma crise de identificação pessoal - havia poucos filmes policiais,
nesta época, nas televisões. Tudo sinos e pessoas boazinhas e
estrelinhas no céu. Uma chatice!
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Ouvendo...

Dança Comigo
Fico sempre impressionado com a capacidade de
Catarina Furtado interromper o ritmo de qualquer
espectáculo. Está tudo a correr normalmente, com
cadência, e ela, pensando que a beleza é tudo, corta
de maneira inconsciente, claro, essa cadência.
Ontem, no "Dança Comigo" (RTP1), houve ainda
um momento hilariante, para mim, que foi quando
se pôs muito séria para anunciar a votação
telefónica. Que parolice! A revelação! Agora!
Chiu!, que se vai anunciar ao mundo a vacina da
gripe das aves!!!
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Thursday, February 16, 2006

16. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)

11.
Os importantes porteiros dos importantes hotéis são,
normalmente, além de impotentes sexuais - ou por isso mesmo -,
vingativos, ácidos e prepotentes, para alguns. Cordeirinhos
risonhos, subservientes e restejantes, para os grandalhões. Isto
consta dos livros. Por isso, quando O'Hara saiu, disse:
- Vossa Excelência não gostou da suite real?
- Não. Não tem bidé espelhado.
- Saiba Vossa Excelência que bidé espelhado é só para a Princesa
Carolina do Mónaco.
- E para a puta da tua mãe.
E O'Hara entrou no carro, olhando para o relógio.
- Para a Rua 35.
- É para já, Chefe.
O motorista arrancou a grande velocidade.
Como se estivesse a falar do estado do tempo, foi dizendo:
- Falaram da Central.
Como O'Hara nada dissesse nem mostrasse interesse, somou:
- Não era nada de especial. Somente o Inspector-Chefe que
queria saber onde estava.
- O que é que respondeste?
- A verdade, Chefe. No Waldorf, possivelmente no bar.
- Muito bem. Como adivinhaste?
- Desculpe que lhe diga, Chefe, mas as minhas qualidades ainda
não foram devidamente apreciadas pela corporação. Tenho, na
verdade, capacidades imaginativas e deductivas... eu...
- Encosta aí junto desse prédio velho. É aí. Não atendas mais a
Central, se chamarem.
- Muito bem, Chefe. Quem manda, manda. Quem obedece,
lixa-se.
- Que queres dizer com isso, agente de terceira?
- Nada, Chefe. Desculpe lá. Estava nervoso. Ando nervoso. A
minha mulher está grávida de oito meses.
- És tu o pai?
- Ó cum raio!
- Calma! Deixa-te estar aí ou vai tomar uma bebida. Mas não
me devo demorar.
Quase a chorar, respondeu:
- Sim, Chefe...
O'Hara bateu à porta da velha casa.
Três minutos depois, Archie Goodwin entreabriu a porta,
mantendo o fecho de segurança.
- O'Hara.
- Oh! Chefe! Por que veio tão cedo?...
E foi retirando o fecho e abrindo completamente a porta.
- ...Oh que raiva!
- Diz, Archie, meu pequeno...
- Ainda não acabei de embrulhar a sua prenda de Natal.
Faltou-me a fita e o Fritz ainda não teve tempo de ir à rua
comprar mais.
- O que é hoje o almoço?
- Narcejas recheadas com uvas descascadas, com batata
frita palha em ninhos, cheios de azeitonas e pickles cortados
aos bocadinhos. Acompanha salada de tomate francês,
sem cebola.
- Nada mau.
- Pois... para quem o comer. O que não é o seu caso.
- Olha, rapaz. Quero falar com o Nero Wolf, o teu dono.
Archie Godwin introduziu a visita na sala de espera e
dirigiu-se para o gabinete de trabalho. Eram onze horas da
manhã e Nero Wolf descera naquele preciso momento da
estufa de orquídeas.
- Está na sala o deficiente físico que dá pelo nome de Chefe
O'Hara. Diz que quer falar consigo e mostrou interesse no
almoço. Já não anda de muletas. Infelizmente está melhor.
- Recebo-o mas não lhe dou almoço.
- Porquê? Se me é permitido perguntar.
- Não estou para o ver, a si, a cortar-lhe as narcejas. E
também não gosto de ver comer com as mãos... com uma
mão. Mande-o entrar e tome notas.
Goodwin assim fez. Foi à sala e trouxe O'Hara. No pequeno
percurso, foi envenenando:
- O maior génio da criminologia contemporânea vai recebê-lo
mas não conte com o almocinho. Ele não gosta de polícias à
mesa. Tem um raio de um feitio... diz que um chui à mesa lhe
faz azia...
Goodwin apontou para o dadeirão vermelho.
- Como está, Wolf - perguntou O'Hara sentando-se e pegando
na perna de pau com duas mãos e colocando-da sobre uma
cadeira à sua direita. Ficou todo torto mas isso era lá com ele.
- Tem cerca de 15 minutos para dizer o que deseja. Depois
tenho afazeres na cozinha.
- Muito bem.
O'Hara preparava-se então para levantar a pála, quando Wolf
deu um berro.
- Alto aí! Deixe esse trapo onde está!
Goodwin, divertidíssimo, sentado à sua secretária, já abrira o
bloco e tomava notas: horas, pessoa, dia, tipo sanguíneo, partido,
calosidades, etc.
- Bem... - disse O'Hara em voz baixa. - Esta visita, Wolf, não é
oficial. A minha ideia é conversar consigo sobre as explosões das
pessoas. Não sei se tem acompanhado o caso...
- Não lhe dou de almoço, mas quer tomar uma cerveja?
- Pode ser.
E Wolf tocou para Fritz, que imadiatamente apareceu com uma
bandeja transportando cervejas e copos.
- Uma cerveja para o senhor O'Hara. Como estão as narcejas?
- Um pouco secas - respondeu Fritz, olhando de lado para O'Hara.
- Não deite manteiga, Fritz. Um pouco apenas de sumo de tomate
com três gotas de piri-piri e de limão.
- Sim, senhor - e saiu.
O'Hara bebeu logo metade da cerveja. Um sôfrego. E, tendo um
guardanapo na bandeja, preferiu limpar a boca com a mão sã.
- Pois Wolf, as pessoas vão explodindo.
Wolf exercitava os beiços para dentro e para fora e parecia tentar
captar os aromáticos odores da cozinha.
- Hum... Tenho lido, mas não posso aconselhá-lo, senhor O'Hara.
- Eu não sou o Cramer nem o Rockfeller.
- Ainda bem para si. Mas, se me permite explicar-lhe, sou um
cultivador de orquídeas que, por vezes, é solicitado a investigar
um ou outro caso... que aceito, se me interessar. Este interesse
representa, também, ter um cliente e um certo aumento da
conta bancária que o Archie Goodwin tanto se esforça por manter
em condições de cumprir com as necessidades desta casa. Logo,
neste caso, para o aconselhar, precisaria de ter um cliente. E
você não é um cliente. Você é um, como se diz? Ajude-me, Archie.
- Um pendura - respondeu ele.
- Um pendura - repetiu Wolf.
- Tem razão, Wolf. Pensei apenas que houvesse uma certa
solidariedade entre aqueles... aqueles que lutam contra o crime...
mas vejo que não há... nem cerveja já há...
Nero Wolf quase sorriu. Voltou a tocar para o Fritz e pediu mais
cerveja. Depois continuou:
- O'Hara. De qualquer modo, sem compromisso e rigorosamente
confidencial, posso adiantar que você está perante um grupo e um
assassino. É um gang organizado e especializado. Aliás, devo
dizer-lhe - e longe de mim a intenção de ofendê-lo sob o meu
tecto -, que o assunto seria resolvido por mim em precisamente
24 horas.
- Modesto... - rosnou baixinho Goodwin.
- O quê?! - urrou O'Hara.
- É evidente que tem direito absoluto à dúvida. Se me arranjar um
cliente e, repare bem, se eu estiver interessado, resolverei o
problema num dia... tratando à mesma das orquídeas, às horas
para elas estabelecidas.
- Wolf... você é um figurão vaidoso.
Archie baixou a cabeça para não o verem sorrir.
- Não quer mais nada? Nem cerveja?
- Não, Wolf.
- Archie, acompanhe o senhor O'Hara.
Goodwin assim fez.
- Para onde lhe envio a prenda?
- Não me foda...
Goodwin despediu-se cordatamente de O'Hara, colocando o fecho
de segurança e voltou para o gabinete de trabalho.
Revolveu os apontamentos. Abriu e fechou as gavetas. Destapou e
tapou a máquina de escrever. Abriu o cofre e voltou a fechá-lo.
Levantou o telefone e pousou-o de novo.
- Diga... - ordenou Wolf com ar cansado.
- Ninguém duvida de que, quando quer trabalhar, o que, aqui
para nós é raro, consegue ter esse intelecto pronto a resolver os
problemas...
- Temos algum cliente?
- Não, senhor, mas...
- Então vou ver como está o almoço.
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(do livro com o mesmo nome, de Ed B. Silverman)

Wednesday, February 15, 2006

15. O Farol

- Quando é que é a minha vez, mãe?- Perguntou o miúdo
com alguma ansiedade.
- A próxima.
E arrumou os pratos no armário de madeira com portas de
rede. O miúdo ficou a olhar para o fogo e a imaginar a sua
futura aventura se não mesmo glória.
O pai chegou, entrou, fechou a porta e encaminhou-se para o
fogo, sem nada dizer. Bateu com as sapatorras no chão. Soprou
nas mãos geladas. Olhou para a mesa e pediu comida. Foi
então que o miúdo disse:
- Eu sou o próximo.
- Eu sei - disse o pai olhando para o prato da comida que a
mulher lhe punha na mesa.
A torcida do candeeiro a petróleo foi erguida mais um pouco.
Ouvia-se o pai a comer e o fogo também uma a uma as
achas com que era alimentado periodicamente.
***
Há trezentos anos já que Erris Head se chamava Erris Head.
Os seus habitantes viviam da pesca e de algum milho plantado
nos parcos e pedregosos terrenos de Leste. Havia dois moinhos
e algumas espécies animais: porcos, cabritos, coelhos e galinhas.
Nos Invernos agrestes das marés brabas, morriam muitos
pescadores por Erris Head não ter um farol. Zona de escolhos
e de pequenas rochas pontiagudas submersas, os barcos
desfaziam-se antes de entrar naquela pequena reentrância da
costa. Muitos barcos e homens se perdiam e a população, não
o dizendo explicitamente, lastimava mais a perca dos primeiros
que dos segundos - os homens só interessavam à família, mas
os barcos pertenciam à comunidade e fazer um novo levava anos.
Resolveram então construir uma lanterna grande e um farol.
Das terras de Leste carrearam enormes pedras que foram
colocando umas sobre as outras. mesmo na ponta de Erris Head.
Mulheres, homens e crianças ajudaram, entre gritos, pragas e
silêncios. Faltavam cerca de três semanas para a aspereza do
Inverno e o vento já se anunciava com rajadas sacanas,
principalmente durante a noite.
Quando a torre, espécie de menir gigante, ficou pronta, o filho de
McFee, com cerca de catorze anos, levou até lá acima a lâmpada
com óleo de peixe, acendeu-a, desceu e ficaram todos em redor a
olhar para cima. O pai sorriu para o filho.
Pelos desentendimentos do destino, o Inverno começou três
semanas mais cedo e, nessa mesma noite, a lâmpada apagou-se
e caiu, bem como se desmoronou todo aquele menir tão
laboriosamente construído.
Na semana seguinte todos repetiram as mesmas operações,
os mesmos gritos, as mesmas imprecações e os mesmos sorrisos.
No domingo, ao final do dia, o aglomerado de pedras e a enorme
e amolgada lâmpada marcavam novamente presença útil na
pontinha de Erris Head. E todos acenaram de satisfação com a
cabeça pela grande obra realizada.
Que durou três dias.
Ventos fortíssimos e ondas de oito metros varreram, na terceira
madrugada, Erris Head e o menir gigante mais a lâmpada
condizente se destroçaram e, por infeliz acaso, um barco
desfez-se nos rochedos e dois dos cinco homens que nele iam
morreram - pelo menos desapareceram, pois mais ninguém os
viu. No Purgatório deveriam estar, pois eram maus, brutos e
gananciosos, segundo afirmava aquele povo que era mau, bruto
e ganancioso.
***
Reunidos na taverna decidiram então que não seriam mais
utilizadas pedras e que tudo se resolveria com um pouco de
sacrifício e de boa-vontade.
Com a concordância geral, todas as noites "o farol" seria formado
por rapazes dos oito aos catorze anos, os mais velhos em baixo,
os mais novos em cima, o último dos quais segurava a lâmpada
assente sobre a cabeça de um deles. Assim ficavam desde o
entardecer ao alvorecer e era já uma honra pertencer ao grupo
do farol.
Por vezes, em noites bravias, desfazia-se parte da pirâmide
humana, mas logo se recompunha. As ondas vinham e
açoitavam-nos. O frio gelava-os. O vento abanava-os, mas a sua
determinação e honra alicerçavam o farol, para que este marcasse
presença acautelar nas noites frias, brumosas ou tempestuosas
de Inverno.
Algumas crianças morriam todos os Invernos de hipotermia,
outras de pneumonia, mas nunca mais se perdeu um barco.
(do livro Scrabble)

Tuesday, February 14, 2006

14. O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

10.
O'Hara olhou pensativamente para o seu motorista, um
agente há pouco saído das rondas nocturnas.
- Pr'á onde, Chefe? - Perguntou o há pouco saído das
rondas nocturnas.
- Olha, vamos para a Park Avenue e depois paras mesmo
à porta do Waldorf, só para chatear.
- Waldorf?! Recebeu uma herança, Chefe?
- Põe-te a caminho, se não quem te dá uma boa herança,
que nunca mais esquecerás, sou eu.
E lá partiram os dois a mirarem-se pelo rectrovisor.
O porteiro olhou desconfiado para a primeira coisa que saiu
do carro: a perna de pau, esticadinha, firme e tudo. Quando ia
a reclamar, ouviu uma voz grave e profunda murmurar:
- Cala-te Jack. Vai para a casota e rói um osso.
Com a dignidade da farda e do posto, o porteiro responde,
solene, qual guarda da rainha, em Londres:
- Muito bom dia, Excelência. Os aposentos reais aguardam
Vossa Excelência. É a suite cor-de-rosa.
- E se fosses levar no cu?
- As sugestões da Polícia são, por vezes, difíceis de cumprir.
Mas, quando Vossa Excelência for para a colina da saudade,
com um pé para a frente, já que o outro é de madeira, levar-
-lhe-ei crisântemos e uma saudação final.
O'Hara deixou passar tanta indignidade, insulto e ironia e
entrou no hotel mancando, obviamente.
Na recepção foi simples: mostrou a carteira com o crachat
e a identificação e perguntou o número da suite. Informaram-
-no logo, logo. O'Hara tinha a pála levantada.
No elevador, o ascensorista de serviço tentava olhar para
o tecto ou para o chão, mas não, não conseguia tirar a vista
daquela órbita vermelha, que parecia o cu de um macaco velho.
Ao primeiro batimento, George abriu a porta.
- Chamo-me O'Hara e sou da Polícia. O velhote pode receber-
-me? Preciso de falar com ele.
George detestava os Estados Unidos e a sua falta de respeito
pelos verdadeiros valores hierárquicos. Por isso replicou em
tom baixo e frio:
- O senhor Hercule Poirot é uma pessoa idosa, não é um
"velhote". Mas... tentarei ver se o poderá receber. Faça o favor
de entrar e de se sentar... - e, olhando para a perna de pau,
acrescentou: - se puder...
Com exagerada dignidade, George dirigiu-se para a segunda
sala da suite alugada por Poirot. Fechou cuidadosamente a meia
porta de comunicação, enquanto mirava, de lado, o perneta.
Poirot escrevia pacientemente, cofiando ocasionalmente o
bigode. Sobre a secratária, fumegante, uma chávena de chocolate
olhava para ele, com significativo tédio.
- O'Hara? Não conheço. Irlandês, talvez...
- Se me permite, senhor...
- Diga, George.
- O senhor que está lá fora não é um cavalheiro.
- Ah! É, como se diz, um... travesti...
- Não, não. É um homem... mas não é um cavalheiro.
- Bien... quer dizer, George, que é da Polícia? Então tenho a
obrigação de o receber.
George, patenteando bem o seu desagrado, retirou-se, para
logo introduzir o visitante.
Hercule Poirot levantou-se para o receber e indicou, com
um gesto amplo, um cadeirão, em frente da sua secretária.
- Queira sentar-se, senhor...
- O'Hara, Chefe da Brigada de Homicídios.
- Faça o favor de dizer.
- Bem. Soube que estava em Nova Iorque e gostaria de
trocar algumas impressões consigo sobre um caso...
- Como deve saber, já me reformei há alguns anos e...
mon chèr ami, vim aos Estados Unidos efectuar vinte
conferências sobre tema bem diferente da criminologia.
- Ah!
- Partirei amanhã para Ohio, onde pronunciarei a
segunda conferência, sob o tema aliciante de "a influência
dos sufixos xé e xinho na civilização assírio-caldaica".
- Muito interessante, mas...
Como sabe, na linguagem corrente, digamos a não
erudita, não cultivada, descobrimos, nos seus pormenores,
verdadeiras pistas culturais. Assim, quando dizemos...
- Desculpe, senhor Poirot, mas tenho quase os minutos
contados e, como não está receptivo a uma consulta, retiro-
-me, OK?
- Un moment. De qualquer modo, sempre gostaria de o
ouvir. É o mínimo que posso fazer por um... bien... confrade.
- Obrigado.
- Et bien...
Por certo já leu alguma coisa sobre as explosões...
- Mais oui! Oui! e não sei onde o homem chegará com
bombas cada vez mais fortes, mais potentes, mais...
- Não estou a falar dessas bombas, mas sim de pessoas
que explodem. Pum! Já está. Explodiu. Tudo em bocadinhos
pequeninos...
- Ah oui! Li uma reportagem ontem num dos vossos
enfadonhos jornais. Muito interessante... quando li,
lembrei-me imediatamente daquele caso das "pílulas
digestivas"... já foi há vinte anos, pardon, vinte e cinco anos.
O assassino oferecia uma pílula digestiva à vítima, após uma
lauta refeição e, horas mais tarde, quando ela fazia um
gesto brusco, caiam-lhe as duas mãos ou... bien, se fosse um
homem, os órgãos sexuais.
- E se fosse mulher?
- Os seios. Muito interessante.
- Nunca ouvi falar dessas pílulas... nem nesse caso mas,
na verdade, há uma certa analogia.
- E agora, que já tem os crimes solucionados, agradecia
que me deixasse continuar a preparar a minha segunda
conferência.
- Os crimes solucionados?!!! Qual solucionados?!!!
- Agradeço-lhe, senhor O'Hara, que não grite.
- Desculpe lá.
- Bien. Já sabe como as pessoas podem ser levadas, bem
contra sua vontade, a explodir; procure os químicos que
preparam as pílulas... ou os líquidos. É fácil, como vê.
- Eu... eu... bem... está bem... muito obrigado... até
breve... adeus...
- Muito bom dia, senhor O'Hara e não se esqueça.
- Esquecer?! Esquecer de quê, senhor Poirot?
- Cherchez la femme.

Sunday, February 12, 2006

13. A mulher com um olho de vidro (cont.)

9.
Uma hora mais tarde, entrou pesadamente no seu gabinete
o Inspector-Chefe Rockfeller. Apresentava nessa manhã um
estranho ar. Camisa aberta, gravata fora do sítio, barba por
fazer. Parecia que tinha dormido vestido, tapando-se com um
guarda-fato. Na mão esquerda, uma ponta de cigarro
amachucada.
- Entre.
- Bom dia, patrão.
- Bom dia, Bone. Trate-me por inspector.
- Muito bem, inspector.
- Tem aí um fósforo?
E acendeu a beata.
- Então o instector já não gosta de cachimbo?
- Não. Dá-me cabo dos dentes.
- É verdade, é. Olhe, a minha avó, que fumava cachimbo de
loiça, um dia...
- Olhe, Bone. Mais uma explosão. Um tipo chamado Hamlet,
colaborador de uma firma de importações e de exportações, a
Tom & Jerry, Killers. Gente séria.
- Ouvi o noticiário. Vim mais cedo por causa disso. Poderia
precisar de mim. A Brigada, que foi para o local, ainda não
regressou. Telefonaram apenas a pedir pinças e saquinhos de
plástico.
- Hum... Que pensa destes casos, Bone, destas explosões?
- Vamos ver. E sentou-se, sem prévia permissão, o que
parece não ter incomodado o Inspector-Chefe Timoteo
Rockfeller.
- Dê-me outro fósforo.
- Pode ficar com a carteira. Tenho mais na minha secretária.
- Não, não. É sua. Quando precisar, peço-lhe.
- Tá bem, inspector. Quanto ao caso, vejamos pelo ângulo das
vítimas. A primeira era um visitante búlgaro que, além de fazer
contrabando de cassetes vídeo, estava ligado a certos segredos
especiais e aos raios lazer.
- Até aí sei eu.
- É só para fazer uma revisão da matéria de facto.
- Continue, Bone. Vai muito bem.
- A segunda, um detective particular pouco conhecido, meio
apanhado da cuca, que parecia andar à cata de qualquer coisa.
Há testemunhas que o viram a seguir esse Gustav. Até ao
momento, não sabemos quem era o cliente do detective.
- Nem iremos saber.
- Pois não. Bem... até aqui as coisas rimam, têm uma certa
lógica. Mas a explosão deste Hamlet não entra no puzzle. Só se...
- Só se.... o quê?
- Talvez tivesse sido um erro ou... uma experiência.
- Onde estava esse Hamlet ontem à noite, digamos entre as
vinte e as vinte e quatro horas?
- Não se sabe. Quando vier o Chefe O'Hara teremos mais
qualquer coisa, não acha?
Neste momento tocou o telefone. O Inspector atendeu.
- Rockfeller. Muito bem. Venha até aqui. - E desligou, tentando
entortar o olho esquerdo, como vira fazer ao detective televisivo.
- Dê-me um fósforo, Bone.
- Acabaram-se. Eu vou buscar mais carteiras.
- Não é preciso. Entre! Entre O'Hara.
O Chefe da Brigada de Homicídios, Eugene O'Hara era um
possante descendente de irlandeses e, obviamente, um seu
antepassado fora grumete do "Mayflower" ou, talvez até,
ajudante de timoneiro.
O'Hara possuía uma vigorosa perna de pau, resultado final
de uma bala e depois ferida gangrenada, e ainda uma mão
metálica, enluvada a cabedal preto. Uma pála na vista esquerda
completava a figura descuidada do simpático detective.
O'Hara sentou-se e colocou cuidadosamente a perna de pau
sobre a secretária de Rockfeller. Em seguida levantou a pála e
mirou os circunstantes com uma vermelha e repelente cama ocular,
o que os obrigou, repugnados, a desviar a vista.
E começou a falar, com um timbre idêntico ao de Boris Christoff.
- Uma porcaria aquilo tudo! Não há nada como um estrangula-
mento. Muito mais asseado. Muito mais higiénico. Sim, tá bem, ficam
os olhos esbugalhados e a língua de fora, rôxa e tudo, mas sempre é
mais limpo que isto. Tudo borrado e um cheiro a fossa, que até agonia
os piolhos da cabeça.
- Tem um fósforo, O'Hara? Obrigado. Agora dê-me os factos, antes
de fazer o relatório.
- Bem... o gajo explodiu e não há hipótese de autópsia. Não ficámos a
saber o que tinha no estômago ou nos intestinos. Nada. Pelos noticiários
já sabem o principal. A cabine do elevador foi para o caneco e há dois
tipos feridos. Um levou com uma dentadura num olho e uma velha ia
matando um puto de dez anos com uma cabeçada. Está nos cuidados
intensivos.
- A velha?
- Não, o puto.
E, ao dizer isto, baixou a pála, talvez por causa do frio que vinha da
janela. E continuou:
- Tenho o Williams a investigar a vida desse gajo, desse Hamlet. Ah!
A tia já apareceu a pedir o corpo. Qual corpo?! Desfeito em partículas de
meio milímetro. Ainda tentámos com pinças, mas não deu nada que se
visse... nem cem gramas.
- Posso fazer uma pergunta? - Pediu o Bone, olhando para o inspector.
- Pode, mas dê-me primeiro um fósforo. Ah! Você já não tem fósforos.
Obrigado O'Hara. Fale, Bone.
- Chefe O'Hara: já conseguiu saber com quem contactou ontem, e nos
dias anteriores, esse Hamlet? Com quem jantou e coisas assim?
- Meu filho - replicou rápido O'Hara. - Ainda você andava de cueiros
e já eu era sargento. Percebe?! É isso que estamos agora a investigar.
Espalhei vinte agentes pelos dancings de demais antros, com inctruções
para encontrar uma mulher com um olho de vidro.
- Vinte agentes, todas as noites, nos cabarés?! - Explodiu Rockfeller. -
Vai ser uma conta bonita!
- Talvez não. Consultei o ficheiro de todos os nossos homens e escolhi
dois abstémios, um ulcerado duodenal, um hepático e outro com um
princípio de cirrose; e os restantes só bebem cerveja. Distribuí também
recadinhos pelos informadores habituais. Agora é só esperar. Há sempre
uma fase nas investigações em que não há trabalho; é só esperar.
Percebeu, menino Bone?
- Sim, senhor.
- O'Hara, dê-me outro fósforo, por favor.
- Que raio! Você apaga os cigarros de propósito? Já ultrapassou a fase
do cachimbo?!
E assim terminou aquela reunião.
E Rockfeller já conseguia entortar o olho esquerdo.
Impecavelmente.

Friday, February 03, 2006


Miguel














O corpo de Miguel, magro, esquálido, sujo e míseras vestes,
apareceu naquela manhã a dormir na rede do armazém. Comprido
como um espargo silvestre, homem adulto isso via-se, roncava
suavemente quando um dos irmãos abriu a porta do armazém de
peixe. Parecia até que o ronronar do motor que fazia frio para uma
câmara frigorífica, se harmonizava com o respirar profundo do
Miguel.
Teotónio, o irmão mais novo, que rondava meio século de
escamas, peixes, caldeiradas, cervejolas, mariscos e demais
atavios, entreténs e histórias de lobisomens - histórias de árabes,
claro, que estamos agora no Algarve -, quedou-se a olhar para
aquila cena.
Chegou-se à rede, estendida entre duas prateleiras, e olhou
para o figurante, nu da cintura para cima e quase também assim
da cintura para baixo.
E não fez mais nada! Para vagabundo e malandro, malandro e
meio. Pega num remo e vai disto. Porrada no Miguel! Que se
levanta de susto e de pecado, e foge porta fora antes que o remo,
em remada mais valente, lhe acertasse na cabeça ou noutras
partes mais sensíveis. Mas correu pouco, pois do outro lado era o
cais e a água da ria que permitia a entrada de traineiras para a
descarga.
O Miguel berrava e o Teotónio gritava "Vagabundo", quando
chega o Agostinho, o mais velho, e tudo fica claro.
O Miguel aparecera não se sabe de onde, na tarde anterior,
cheio de fome e esfarrapado, andara por ali e por além, carregara
umas tecas, rira sem dentes, mastigara umas coisas fritas e
ficou-se, estafado, sentado à porta do Jaime - nome do
ex-sacristão, actual proprietário da cervejaria Cristal. O pai do
Teotónio e do Agostinho viu, deu-lhe uns dinheiros poucos,
dinheiros de uma só mão, perguntou coisas e depois disse que ele
podia ficar no armazém a dormir. "E passas a trabalhar só para
mim, ouviste? Quando os barcos vierem, só de mim recebes
ordens e... porrada quando a mereceres." Mas, na altura, só o
irmão mais velho soube deste trato.
E aquele beldruegas sem passado, mal falando - esguio, magro
e pobre de espírito -, passou a andar sempre atrás do velho. A
dois metros de distância. E com muita ternura o seguia,
pois mesmo que provocado pelos pescadores, nada dizia - bufafa
com a boca e não despregava os olhos das costas do velho
marítimo.
O Teotónio e o Agostinho também lhe criaram amizade. Uma
vez um deles deu-lhe umas calças mas, no dia seguinte, deixou
de se preocupar em acrescentar uma camisa; as calças estavam
todas rotas e antigas como as primeiras.
Como sempre acontece nas terras pequenas, o Miguel foi o
meio-louco aceite pela população, que o disfrutava mas que
também o acarinhava com palavras e comida.
Um dia o velho morreu e aqui começa outra história. Por
aqui deveríamos ter começado, mas não foi assim que
aconteceu. Paciência.
*
Um dia ouvimos os sinos a badalar e vimos o Miguel a
correr, já de si louco e ainda mais se possível, esbracejando, a
caminho do cemitério. E vimos também as pessoas
afastarem-se para lhe darem caminho, sem risos ou ironia
de olhar ou de gesto. Que teria acontecido ao Miguel?
À noite, o Teotónio contou-nos que o Miguel não podia
ouvir as sinetas do cemitério, quando alguém ia a enterrar.
Corria por ali acima e só parava junto à campa do velho que
lhe dera porrada, abrigo, pão e talvez o único quinhão de
ternura que recebera na vida.
E ali se punha, entre as campas do cemitério. Olhos loucos
atentos, mirando os que entravam e saíam, para que ninguém
pisasse a sepultura do seu amigo. De início, houve umas
tentativas de provocação mas o Miguel, de braço comprido e
alma maior, tais lapadas deu nos catraios que tudo ficou por
bem no futuro.
Onde estivesse, com teca de peixe às costas ou não,
ouvindo as sinetas partia à desfilada e deixava o carrego para
quem o quisesse. Sepultura do velho amigo ninguém pisava.

(do livro Histórias do Arco-da-Velha-1
ilustração de Octávio Clérigo)

Ouvendo...

Não é gralha; é um neologismo para ver e ouvir, que é o que nos
acontece frente à televisão.
Sobre o spot da televisão de que falámos, a RTP já emendou o
erro, retirando o "sento".
Sem querer tirar ao telespectador o prazer de ir descobrindo o
enredo da telenovela "O Segredo", posso adiantar que o seu eixo
é o desaparecimento, da escola primária, quando todos os intérpretes
eram meninos, de uma gramática da língua portuguesa, que se
pensa ter sido levada para o Brasil. Quando, já adultos, reparam que
têm falhas estruturais no idioma pátrio, mandam um enviado
especial ao país irmão para procurar o ladrão e recuperar a obra.
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