Por razões diversas não me tem sido possível estar
convosco neste blog. Como não tenho trabalho, o
meu tempo livre é muito diminuto.
"LendoLivros" também pode ser "LendoJornais", Numa
edição do Jornal do Fundão, encontrei esta peça sem
assinatura, de que gostei e, por isso, transcrevo:
"O paternalismo descabido de
um Portugal que não é exemplo
Achei piada à forma como vários "sectores" do nosso
país abordaram o jogo Portugal-Angola. Por alma de
quem é que temos de ser tão paternalistas com os
"palancas negras"? Portugal foi um dos piores colonialistas
da história mundial. Tivemos jeito para descobrir, é
verdade, mas depois não soubemos fazer o nosso trabalho.
Demos a língua e o futebol mas esquecemo-nos do resto.
Quando saímos das ex-colónias, nada ficou - só mesm0 a
miséria. Não os ensinámos nem ajudámos a crescer. Por
isso, não entendo por que motivo ainda hoje alguns
portugueses falam de Angola como um país irmão. Estou
certo de que mais de metade da população lusa vê em Angola
apenas um simples país africano, com os mesmos problemas
de muitos outros países africanos. Não vi nenhum angolano
dizer que somos povos irmãos. Porque será? Talvez porque
eles não têm uma visão tão romântica da situação. São mais
realistas. Nós é que temos a mania de nos armarmos em
irmãos mais velhos quando não temos qualidades para isso
(...)"
Wednesday, June 21, 2006
Monday, May 22, 2006
TEMOS BANDEIRA
Aquela bandeira estava realmente bonita. Aquelas
mulheres portuguesas esmeraram-se e os organiza-
dores também. Ficou bonita, vistosa e já vamos entrar
no Guiness. Ou seja: temos bandeira não temos e voz.
Aquela Portugesa nunca teve tanta desafinação. De
pôr as mãos nos ouvidos. Enfim, já todos sabemos que
não se pode ter tudo.
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mulheres portuguesas esmeraram-se e os organiza-
dores também. Ficou bonita, vistosa e já vamos entrar
no Guiness. Ou seja: temos bandeira não temos e voz.
Aquela Portugesa nunca teve tanta desafinação. De
pôr as mãos nos ouvidos. Enfim, já todos sabemos que
não se pode ter tudo.
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Friday, May 19, 2006
FESTIVAL DA CANÇÃO
Vocês viram ontem o festival da canção? Quando será que
os portugueses se convencem que, com amadorismos, não
se deve lá ir? De um modo geral, todas as canções eram
fracas: não traziam nada de novo - nem em melodia nem
em harmonia. Mas foram muito bem interpretadas. As
quatro beldades portuguesas foram apenas isso. Hoje já
não chega ter duas pernas espectaculares para ganhar
seja o que for. Curiosamente, as quatro tinham a voz
mal colocada, mas uma delas então, era um horror. Se os
responsáveis por este tipo de eventos pensa que pode
disfarçar este amadorismo com fatos bonitos e marcações
vistosas, engana-se. Os juris dos outros países sabem
perfeitamente detectar o amadorismo, até porque este
cheira. E à distância. Os telespectadores votantes dos
outros países também, pois não estão habituados a ver
os canais generalistas portugueses.
Depois vi a Revolta dos Pastéis de Nata. Apesar de
pensarem que têm mais graça do que na verdade têm,
dei o tempo por bem ocupado já porque conheci uma menina
que apresentaram como atriz já de corrículo feito. Com uma
dicção pobre e uma permanente preocupação com o cabelo.
Em Portugal ela pareceu só está preocupada com três
ou quatro que lhe podem tirar o lugar; se fosse no Brasil,
estaria preocupada com, pelo menos, duzentas, a dizer
bem e com bom jogo fisionónico. Em Portugal não é
preciso dizer que se tem um olho para se ser rei; basta
dizer que se tem. Como os outros são cegos...
Tudo isto afinal não é para rir.
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os portugueses se convencem que, com amadorismos, não
se deve lá ir? De um modo geral, todas as canções eram
fracas: não traziam nada de novo - nem em melodia nem
em harmonia. Mas foram muito bem interpretadas. As
quatro beldades portuguesas foram apenas isso. Hoje já
não chega ter duas pernas espectaculares para ganhar
seja o que for. Curiosamente, as quatro tinham a voz
mal colocada, mas uma delas então, era um horror. Se os
responsáveis por este tipo de eventos pensa que pode
disfarçar este amadorismo com fatos bonitos e marcações
vistosas, engana-se. Os juris dos outros países sabem
perfeitamente detectar o amadorismo, até porque este
cheira. E à distância. Os telespectadores votantes dos
outros países também, pois não estão habituados a ver
os canais generalistas portugueses.
Depois vi a Revolta dos Pastéis de Nata. Apesar de
pensarem que têm mais graça do que na verdade têm,
dei o tempo por bem ocupado já porque conheci uma menina
que apresentaram como atriz já de corrículo feito. Com uma
dicção pobre e uma permanente preocupação com o cabelo.
Em Portugal ela pareceu só está preocupada com três
ou quatro que lhe podem tirar o lugar; se fosse no Brasil,
estaria preocupada com, pelo menos, duzentas, a dizer
bem e com bom jogo fisionónico. Em Portugal não é
preciso dizer que se tem um olho para se ser rei; basta
dizer que se tem. Como os outros são cegos...
Tudo isto afinal não é para rir.
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FESTIVAL DA CANÇÃO
Vocês viram ontem o festival da canção? Quando será que
os portugueses se convencem que, com amadorismos, não
se deve lá ir? De um modo geral, todas as canções eram
fracas: não traziam nada de novo - nem em melodia nem
em harmonia. Mas foram muito bem interpretadas. As
quatro beldades portuguesas foram apenas isso. Hoje já
não chega ter duas pernas espectaculares para ganhar
seja o que for. Curiosamente, as quatro tinham a voz
mal colocada, mas uma delas então, era um horror. Se os
responsáveis por este tipo de eventos pensa que pode
disfarçar este amadorismo com fatos bonitos e marcações
vistosas, engana-se. Os juris dos outros países sabem
perfeitamente detectar o amadorismo, até porque este
cheira. E à distância. Os telespectadores votantes dos
outros países também, pois não estão habituados a ver
os canais generalistas portugueses.
Depois vi a Revolta dos Pastéis de Nata. Apesar de
pensarem que têm mais graça do que na verdade têm,
dei o tempo por bem ocupado já porque conheci uma menina
que apresentaram como atriz já de corrículo feito. Com uma
dicção pobre e uma permanente preocupação com o cabelo.
Em Portugal ela pareceu só está preocupada com três
ou quatro que lhe podem tirar o lugar; se fosse no Brasil,
estaria preocupada com, pelo menos, duzentas, a dizer
bem e com bom jogo fisionónico. Em Portugal não é
preciso dizer que se tem um olho para se ser rei; basta
dizer que se tem. Como os outros são cegos...
Tudo isto afinal não é para rir.
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os portugueses se convencem que, com amadorismos, não
se deve lá ir? De um modo geral, todas as canções eram
fracas: não traziam nada de novo - nem em melodia nem
em harmonia. Mas foram muito bem interpretadas. As
quatro beldades portuguesas foram apenas isso. Hoje já
não chega ter duas pernas espectaculares para ganhar
seja o que for. Curiosamente, as quatro tinham a voz
mal colocada, mas uma delas então, era um horror. Se os
responsáveis por este tipo de eventos pensa que pode
disfarçar este amadorismo com fatos bonitos e marcações
vistosas, engana-se. Os juris dos outros países sabem
perfeitamente detectar o amadorismo, até porque este
cheira. E à distância. Os telespectadores votantes dos
outros países também, pois não estão habituados a ver
os canais generalistas portugueses.
Depois vi a Revolta dos Pastéis de Nata. Apesar de
pensarem que têm mais graça do que na verdade têm,
dei o tempo por bem ocupado já porque conheci uma menina
que apresentaram como atriz já de corrículo feito. Com uma
dicção pobre e uma permanente preocupação com o cabelo.
Em Portugal ela pareceu só está preocupada com três
ou quatro que lhe podem tirar o lugar; se fosse no Brasil,
estaria preocupada com, pelo menos, duzentas, a dizer
bem e com bom jogo fisionónico. Em Portugal não é
preciso dizer que se tem um olho para se ser rei; basta
dizer que se tem. Como os outros são cegos...
Tudo isto afinal não é para rir.
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Wednesday, May 17, 2006
E esta hein?!
Diz Albert Ronald Morales no seu livro Frutoterapia,
"A hora da refeição é uma cerimónia; comer em paz,
sem cólera e sem desgostos sentimentais, é muito
recomendável para evitar transtornos digestivos."
Fico a pensar em que estado se encontram milhões de
famílias que auferem o salário mínimo e se sentam à
mesa olhando para o carapau. Quando o há.
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"A hora da refeição é uma cerimónia; comer em paz,
sem cólera e sem desgostos sentimentais, é muito
recomendável para evitar transtornos digestivos."
Fico a pensar em que estado se encontram milhões de
famílias que auferem o salário mínimo e se sentam à
mesa olhando para o carapau. Quando o há.
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Monday, May 15, 2006
Lendo Livros
Obrigado João e LL pelos vossos comentários. Espero os da Milu.
Folheando livros destaquei este pensamento:
"Como pode ser assim tão generosa a vida, que fornece uma
compensação tão sublime à mediocridade?", de Umberto Eco.
É esta a frase que devemos apor ao ecrã dos nossos televisores.
Amanhã há mais.
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Folheando livros destaquei este pensamento:
"Como pode ser assim tão generosa a vida, que fornece uma
compensação tão sublime à mediocridade?", de Umberto Eco.
É esta a frase que devemos apor ao ecrã dos nossos televisores.
Amanhã há mais.
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Saturday, May 13, 2006
Há cada coisa!
Estou a ler um livro que em breve será lançado no
mercado português pela editora A Esfera dos Livros,
intitulado Frutoterapia, nutrição e saúde. Este
interessante e útil livro diz que abusando-se da
romã, poderá duplicar a visão. Vou ver bem como
se faz e experimentar, para quando receber a pensão
de reforma ingerir a quantidade certa de romãs.
Julgam que estou a brincar? Não estou. Mais vale
andar iludido mas feliz por meia hora, do que ser
realista e infeliz durante um mês inteiro. Elementar,
meu caro Watson.
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mercado português pela editora A Esfera dos Livros,
intitulado Frutoterapia, nutrição e saúde. Este
interessante e útil livro diz que abusando-se da
romã, poderá duplicar a visão. Vou ver bem como
se faz e experimentar, para quando receber a pensão
de reforma ingerir a quantidade certa de romãs.
Julgam que estou a brincar? Não estou. Mais vale
andar iludido mas feliz por meia hora, do que ser
realista e infeliz durante um mês inteiro. Elementar,
meu caro Watson.
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SÉRIO PEDIDO DE AJUDA
Algum dos meus leitores poderá indicar-me onde se
compra o papel higiénico preto que agora se anuncia?
Como não tenho roupa dessa cor, preciso do papel
para o transformar em lenço do pescoço nos dias 22 e 23.
Obrigado pela ajuda.
compra o papel higiénico preto que agora se anuncia?
Como não tenho roupa dessa cor, preciso do papel
para o transformar em lenço do pescoço nos dias 22 e 23.
Obrigado pela ajuda.
Friday, May 12, 2006
Coisas...
Coloquei aqui um texto que desapareceu.
Mas prometo agora que já temos o Simplex e o Choque Tecnológico, dar mais tempo ao blog.
Desculpem amigos e inimigos.
A.B.M.
Mas prometo agora que já temos o Simplex e o Choque Tecnológico, dar mais tempo ao blog.
Desculpem amigos e inimigos.
A.B.M.
Tuesday, April 25, 2006
41. Cravos
Hoje vou comemorar o 25 de Abril, com cravos e companheiros alentejanos.
Viva o 25 de Abril! Sempre!
Álvaro
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Viva o 25 de Abril! Sempre!
Álvaro
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Saturday, April 22, 2006
40. NOTÍCIA
Aos meus 3 - leitores -3, informo que até 3ª.Feira
não há nada para ninguém.
Não fiquem assim, caramba! Não é caso para isso.
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não há nada para ninguém.
Não fiquem assim, caramba! Não é caso para isso.
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Friday, April 21, 2006
39. CICLO PREPARATÓRIO
Emília não reparou no degrau e tropeçou. Naquela penumbra
era natural. Natural principalmente para quem entra nervoso
e desconhece a casa.
Ao fundo, uma zona negra onde se adivinham espelhos por via
dos reflexos. Há sempre reflexos na escuridão dos espelhos.
- A menina...
A voz veio da escuridão, à direita do degrau. A voz de homem.
Mas uma voz sem timbre - se tal é possível. Uma voz sem
manifestação de interesse ou de interrogação.
- Procuro a dona Marta... Está?
Agora sim, havia algo na voz. Talvez ironia fedorenta, antiga.
- Realmente ela vive aqui.
Do fundo dos espelhos, a dona Marta atira, rouca:
- Vem cá.
Emília avança cuidadosamente por entre cadeiras e mesas.
Começa a enxergar melhor. Dona Marta, ali sentada, fuma e
bebe qualquer coisa. Talvez água, pensa Emília.
- Senta-te, rapariga.
E aguarda. Ritual costumeiro, sabido.
- Venho recomendada pela minha prima... chama-se também
Emília das Neves.
- Senta-te, já te disse.
Os copos - os da voz sem interesse -, continuam a tocar-se
como chocalhos, lá atrás, talvez mais longe do que a Emília
pensava.
- Queres, então, ficar connosco?
- Sim, minha senhora.
- Dona Maria.
- Sim, dona Maria.
- Então ouve com atenção. Digo-te apenas uma vez... pois tenho
mais que fazer...
E os copos a chocalhar.
- Vais para minha casa, tomas banho e pedes roupa à Rita.
- Sim...
- Vens para cá todas as noites. Das nove às três da manhã.
Todas as noites, percebes? Todas.
- Sim, dona Maria.
- Não há períodos, nem enxaquecas, nem dores de barriga,
nem caganeiras, nem nada. Percebes?
- Sim, dona Maria.
- Receberás mil por dia. Ou mais, se alternares.
- Tenho a mala à entrada da porta. Acha que não a vão
roubar?
- O Joaquim já a trouxe para dentro.
- Qual Joaquim?
- Podes alternar?
- Minha senhora... dona Maria... não sei o que é...
- Se também beberes, receberás uma percentagem sobre
o consumo da mesa, mais cem escudos por cada garrafa
de champanhe nacional e quatrocentos pelo francês. Em
cada coquetel ganhas cinquenta escudos.
- Não estou habituada... fico tonta.
- Não ficas. Os coqueteles são sumos de fruta. Quanto ao
champanhe, nunca bebas mais do que uma taça, mesmo
que venham várias garrafas para a mesa. Não é, Joaquim?
Da entrada formicada, uma voz distante, dolente,
indiferente, atravessou a sala:
- É sim, dona Maria.
- A Rita ensina-te, pois a tua prima já cá não está. Mas vê
lá se fixas - e olha desconfiada para a Emília -, fizeste a
quarta classe? Bem, não interessa. Ouve com atenção.
Quando vier uma garrafa - que tu pedes -, dizes que queres
dançar. Dá cá um fósforo.
- Não tenho. Não fumo, dona Maria.
- Passarás a fumar. Ouve. Quando vier uma garrafa, dizes que queres
dançar. Tropeças ligeiramente na mesa e o champanhe das
taças entorna-se. Pedes desculpa e vai dançar.
Esta rapariga é uma desastrada. Nunca soube fazer nada.
Só pensa em trapos e nas merdas para pôr na cara. Não
arreanjou casamento mas já teve de fazer um aborto. Com
um soldado, vejam lá...
Ó meu querido pai! Pai! Meu quweido pai!
- O Joaquim arranja o frapê com água e gelo. O empregado de
mesa, o criado, quando abre a garrafa, entorna dentro do frapê
um terço, a pretexto de tirar a espuma. Se conseguires mandar
vir segunda garrafa, o truque do encontrão na mesa já não
serve. Pedes licença e vais ao tualete... sabes o que é?...
- Sei, sim...
- Então, vais ao tualete e pedes à dona Conceição, a velha que lá
está, um rolo de papel higiénico, tiras um bom bocado, dobras e
metes entre as mamas. Por estas e por outras, não podes vir
com camisolas de gola alta.
- Pois não.
- Sempre que levares a taça à boca, entornas para o papel
higiénico, isto no meio de risos, de festas e de apalpões. Quando o
papel já estiver ensopado, voltas ao tualete e mudas. O que é?
- Sempre deve escorrer algum pela barriga abaixo...
- Escorre trezentos ou mais escudos...
- Sim dona Maria...
- Se o cliente é dos bons, o Joaquim faz-te sinal. Começas a
fingir-te bêbeda e a dizer disparates. Os homens gostam que as
mulheres digam disparates, asneiras... excita-os...
- Sim, senhora... dona Maria.
- Mantém-te sempre a segurar a taça, a rodá-la entre os dedos.
Sempre que ele se virar ou esteja distraído a aparpar-te,
despejas a taça no frapé. Por isso o balde vai sempre meio de
água. Mas voltas imediatamente a servir-te. Olha: convém
dares à dona Conceição uma muda completa. Todas têm.
- Já chega por hoje.
- Cala-te Joaquim!
Nem ruídos de copos, nem de ventoinhas, nem de cadeiras,
nem de mesas, nem de conversas ou de risos ou de música,
nada. Silêncio.
- E quando me apetecer... realmente... beber um copo?
- Fazes contas com o Joaquim, vais à tua vida, procuras a
tua prima e bebes um copo onde muito bem entenderes,
mas não voltas cá mais. Ah! Não podes sair antes das três.
Depois dessa hora é contigo...
- Sim, senhora... dona Maria. Quando começo?
- Hoje à noite. Vai ter com a senhora Rita. Ela diz-te o
resto. Vai lá.
Emília levantou-se e a dona Maria olhou-a mansamente,
sem curiosidade. Era apenas mais uma.
- Dê-me a minha mala, senhor Joaquim, se faz favor...
- Amanhã vais conhecer o patrão.
- Não é ela?
- Não. O patrão é pior. Adeus, Emília, até logo.
- Até logo, senhor Joaquim.
(Do livro "Histórias do Arco-da-Velha1" - Ed. do autor,
1996)
era natural. Natural principalmente para quem entra nervoso
e desconhece a casa.
Ao fundo, uma zona negra onde se adivinham espelhos por via
dos reflexos. Há sempre reflexos na escuridão dos espelhos.
- A menina...
A voz veio da escuridão, à direita do degrau. A voz de homem.
Mas uma voz sem timbre - se tal é possível. Uma voz sem
manifestação de interesse ou de interrogação.
- Procuro a dona Marta... Está?
Agora sim, havia algo na voz. Talvez ironia fedorenta, antiga.
- Realmente ela vive aqui.
Do fundo dos espelhos, a dona Marta atira, rouca:
- Vem cá.
Emília avança cuidadosamente por entre cadeiras e mesas.
Começa a enxergar melhor. Dona Marta, ali sentada, fuma e
bebe qualquer coisa. Talvez água, pensa Emília.
- Senta-te, rapariga.
E aguarda. Ritual costumeiro, sabido.
- Venho recomendada pela minha prima... chama-se também
Emília das Neves.
- Senta-te, já te disse.
Os copos - os da voz sem interesse -, continuam a tocar-se
como chocalhos, lá atrás, talvez mais longe do que a Emília
pensava.
- Queres, então, ficar connosco?
- Sim, minha senhora.
- Dona Maria.
- Sim, dona Maria.
- Então ouve com atenção. Digo-te apenas uma vez... pois tenho
mais que fazer...
E os copos a chocalhar.
- Vais para minha casa, tomas banho e pedes roupa à Rita.
- Sim...
- Vens para cá todas as noites. Das nove às três da manhã.
Todas as noites, percebes? Todas.
- Sim, dona Maria.
- Não há períodos, nem enxaquecas, nem dores de barriga,
nem caganeiras, nem nada. Percebes?
- Sim, dona Maria.
- Receberás mil por dia. Ou mais, se alternares.
- Tenho a mala à entrada da porta. Acha que não a vão
roubar?
- O Joaquim já a trouxe para dentro.
- Qual Joaquim?
- Podes alternar?
- Minha senhora... dona Maria... não sei o que é...
- Se também beberes, receberás uma percentagem sobre
o consumo da mesa, mais cem escudos por cada garrafa
de champanhe nacional e quatrocentos pelo francês. Em
cada coquetel ganhas cinquenta escudos.
- Não estou habituada... fico tonta.
- Não ficas. Os coqueteles são sumos de fruta. Quanto ao
champanhe, nunca bebas mais do que uma taça, mesmo
que venham várias garrafas para a mesa. Não é, Joaquim?
Da entrada formicada, uma voz distante, dolente,
indiferente, atravessou a sala:
- É sim, dona Maria.
- A Rita ensina-te, pois a tua prima já cá não está. Mas vê
lá se fixas - e olha desconfiada para a Emília -, fizeste a
quarta classe? Bem, não interessa. Ouve com atenção.
Quando vier uma garrafa - que tu pedes -, dizes que queres
dançar. Dá cá um fósforo.
- Não tenho. Não fumo, dona Maria.
- Passarás a fumar. Ouve. Quando vier uma garrafa, dizes que queres
dançar. Tropeças ligeiramente na mesa e o champanhe das
taças entorna-se. Pedes desculpa e vai dançar.
Esta rapariga é uma desastrada. Nunca soube fazer nada.
Só pensa em trapos e nas merdas para pôr na cara. Não
arreanjou casamento mas já teve de fazer um aborto. Com
um soldado, vejam lá...
Ó meu querido pai! Pai! Meu quweido pai!
- O Joaquim arranja o frapê com água e gelo. O empregado de
mesa, o criado, quando abre a garrafa, entorna dentro do frapê
um terço, a pretexto de tirar a espuma. Se conseguires mandar
vir segunda garrafa, o truque do encontrão na mesa já não
serve. Pedes licença e vais ao tualete... sabes o que é?...
- Sei, sim...
- Então, vais ao tualete e pedes à dona Conceição, a velha que lá
está, um rolo de papel higiénico, tiras um bom bocado, dobras e
metes entre as mamas. Por estas e por outras, não podes vir
com camisolas de gola alta.
- Pois não.
- Sempre que levares a taça à boca, entornas para o papel
higiénico, isto no meio de risos, de festas e de apalpões. Quando o
papel já estiver ensopado, voltas ao tualete e mudas. O que é?
- Sempre deve escorrer algum pela barriga abaixo...
- Escorre trezentos ou mais escudos...
- Sim dona Maria...
- Se o cliente é dos bons, o Joaquim faz-te sinal. Começas a
fingir-te bêbeda e a dizer disparates. Os homens gostam que as
mulheres digam disparates, asneiras... excita-os...
- Sim, senhora... dona Maria.
- Mantém-te sempre a segurar a taça, a rodá-la entre os dedos.
Sempre que ele se virar ou esteja distraído a aparpar-te,
despejas a taça no frapé. Por isso o balde vai sempre meio de
água. Mas voltas imediatamente a servir-te. Olha: convém
dares à dona Conceição uma muda completa. Todas têm.
- Já chega por hoje.
- Cala-te Joaquim!
Nem ruídos de copos, nem de ventoinhas, nem de cadeiras,
nem de mesas, nem de conversas ou de risos ou de música,
nada. Silêncio.
- E quando me apetecer... realmente... beber um copo?
- Fazes contas com o Joaquim, vais à tua vida, procuras a
tua prima e bebes um copo onde muito bem entenderes,
mas não voltas cá mais. Ah! Não podes sair antes das três.
Depois dessa hora é contigo...
- Sim, senhora... dona Maria. Quando começo?
- Hoje à noite. Vai ter com a senhora Rita. Ela diz-te o
resto. Vai lá.
Emília levantou-se e a dona Maria olhou-a mansamente,
sem curiosidade. Era apenas mais uma.
- Dê-me a minha mala, senhor Joaquim, se faz favor...
- Amanhã vais conhecer o patrão.
- Não é ela?
- Não. O patrão é pior. Adeus, Emília, até logo.
- Até logo, senhor Joaquim.
(Do livro "Histórias do Arco-da-Velha1" - Ed. do autor,
1996)
Wednesday, April 19, 2006
38. CORREIO DOS LEITORES
Olá, amigos.
Devo possuir o único blog no mundo com dois leitores. Dois.
Um homem e uma mulher. O que é notável. Esfalfei-me
para lhes dar uma novela de Ed B. Silverman, mas não posso
dar-vos a segunda. Tem um problema técnico que ainda não
sei resolver. A tradução da terceira novela está a meio... há
três anos. Mas, para vocês dois, todos os sacrifícios são poucos.
Um abraço, amigos
O editor.
Devo possuir o único blog no mundo com dois leitores. Dois.
Um homem e uma mulher. O que é notável. Esfalfei-me
para lhes dar uma novela de Ed B. Silverman, mas não posso
dar-vos a segunda. Tem um problema técnico que ainda não
sei resolver. A tradução da terceira novela está a meio... há
três anos. Mas, para vocês dois, todos os sacrifícios são poucos.
Um abraço, amigos
O editor.
Saturday, April 15, 2006
37. O caso da mulher com um olho de vidro (final)
18.
Com as persianas devidamente ajustada, o sol entrava
suavemente pelo quarto de Bronco Vale, no St. James
Hospital. O mesmo hospital. O mesmo quarto.
Na cadeira habitual, a sra. Marlowee vigiava as
reacções do detective. Ele estava, nesse momento,
a sair de uma calma sesta.
- Como se sente?
- Melhor... fisicamente.
- Correu tudo bem, Bronco. O dr. Kildaire diz que são
dez dias para convalescer e recuperar.
- Correu tudo mal, Linda.
- Não percebo. O que é que correu mal, para além do
tiro?
Bronco Vale pensou. Pensou devagar. Talvez, nesse
momento, fosse um verdadeiro homem.
- Sou realmente um puto pouco esperto, como disse
o Chefe O'Hara. E, os pouco espertos, putos ou não,
é que decidem sobre a vida dos outros.
- Calma, Bronco.
- Pois claro, Linda. Calma.
- Chegou a ler os jornais?
- Sim, A enfermeira teve a atenção de me trazer dois.
Maureen, aliás Lys Anderson, explodiu no carro
celular, a caminho da prisão. No dia seguinte foi a vez
de Boyle. Eu... eu vou ser condecorado.
- Não se canse, Bronco.
- Rockfeller continua apanhado da cabeça. Tem um
problema de pituitária, tudo lhe cheira mal. Ficou com
a pituitária destruída... parece.
Silêncio. Linda, por hábito, ajeita a saia sobre os
joelhos.
- Ficámos sós, Bronco.
- Para quê? Para que o puto pouco esperto volte a
matar amigos que querem ser felizes?
Como sempre, Linda só compreendia o que lhe
convinha.
- Deixe essa profissão, Bronco. Deixe de ser detective
e de defender uma personalidade que não corresponde
verdadeiramente à sua.
E, com determinação, levanta-se, curva-se sobre a
cama e beija-o ternamente na boca. O beijo de uma
mulher para um homem. Um beijo adulto, um pouco
sôfrego, talvez.
- Porra! - exclamou da porta o dr. Kildaire, voltando
a fechá-la apressadamente.
(Final da novela de Ed. B. Silverman)
Com as persianas devidamente ajustada, o sol entrava
suavemente pelo quarto de Bronco Vale, no St. James
Hospital. O mesmo hospital. O mesmo quarto.
Na cadeira habitual, a sra. Marlowee vigiava as
reacções do detective. Ele estava, nesse momento,
a sair de uma calma sesta.
- Como se sente?
- Melhor... fisicamente.
- Correu tudo bem, Bronco. O dr. Kildaire diz que são
dez dias para convalescer e recuperar.
- Correu tudo mal, Linda.
- Não percebo. O que é que correu mal, para além do
tiro?
Bronco Vale pensou. Pensou devagar. Talvez, nesse
momento, fosse um verdadeiro homem.
- Sou realmente um puto pouco esperto, como disse
o Chefe O'Hara. E, os pouco espertos, putos ou não,
é que decidem sobre a vida dos outros.
- Calma, Bronco.
- Pois claro, Linda. Calma.
- Chegou a ler os jornais?
- Sim, A enfermeira teve a atenção de me trazer dois.
Maureen, aliás Lys Anderson, explodiu no carro
celular, a caminho da prisão. No dia seguinte foi a vez
de Boyle. Eu... eu vou ser condecorado.
- Não se canse, Bronco.
- Rockfeller continua apanhado da cabeça. Tem um
problema de pituitária, tudo lhe cheira mal. Ficou com
a pituitária destruída... parece.
Silêncio. Linda, por hábito, ajeita a saia sobre os
joelhos.
- Ficámos sós, Bronco.
- Para quê? Para que o puto pouco esperto volte a
matar amigos que querem ser felizes?
Como sempre, Linda só compreendia o que lhe
convinha.
- Deixe essa profissão, Bronco. Deixe de ser detective
e de defender uma personalidade que não corresponde
verdadeiramente à sua.
E, com determinação, levanta-se, curva-se sobre a
cama e beija-o ternamente na boca. O beijo de uma
mulher para um homem. Um beijo adulto, um pouco
sôfrego, talvez.
- Porra! - exclamou da porta o dr. Kildaire, voltando
a fechá-la apressadamente.
(Final da novela de Ed. B. Silverman)
Monday, April 10, 2006
36. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)
17.
Eram nove e meia da manhã quando Eugene O'Hara subiu
de elevador até ao apartamento de Maureen. Levava a
arma destravada, no amplo bolso do sobretudo.
Maureen acabara de se arrumar. Uma camisola branca de
malha, de gola alta, e umas calças de veludo vermelho,
justas ambas ao corpo, realçavam a sua silhueta. A casa
cheirava ao café da manhã, acabado de fazer. Acendeu um
cigarro e pegou na TV News.
O toque da campainha não a incomodou. Foi atender
indiferente.
- Quem é?
- Eugene O'Hara
Abriu.
Especado, olhando-a fixamente com um só olho, estava
O'Hara.
Maureen sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Uma pequena
vertigem levou os seus pensamentos, em turbilhão, a
uma rápida sequência de infância, adolescência e presente.
O coração acelerou. "Oh não! Não pode ser! Como é
possível?!"
A muito custo, o polícia disse, como em segredo:
- Ainda me chamo Eugene - e estendeu a mão humana.
Maureen cada vez mais perturbada, pegou nela
carinhosamente e puxou-o para dentro de casa.
Olharam-se atónitos.
- Finalmente, querido! Óh, meu Deus! Não pode ser! Não
acredito! Não é verdade! Essas coisas não acontecem...
não há milagres...
E, esquecendo-se de fechar a porta, abraçou-se a O'Hara,
passando-lhe as mãos pela cabeça e pelas costas, com
inexcedível carinho, mas também um certo sentido de
posse.
- Lys, meu amor - murmurou O'Hara, com voz rouca. -
Lys... sempre andei perdido... sempre andei perdido
sem ti...
Maureen, aliás Lys Anderson, fechou a porta de entrada
e ajudou o detective a despir o sobretudo.
- Querido. Soube que tinhas ficado estropiado no
Vietnam, mas ninguém me soube dizer mais nada. Cheguei
a falar com o adjunto do secretário de estado da Defesa.
Tratou-me e falou como se tivesses deixado de existir.
Fez-se um silêncio total à tua volta. Sofri tanto...
- Um atentado à bomba. Não vim directamente para os
Estados Unidos. Por questões de segutança, fiquei alguns
anos em Inglaterra. Combinação entre as suas secretas.
- Anda, meu querido, senta-te.
Ainda confuso, sentindo a irrealidade do momento,
sentou-se no sofá e estendeu a perna de pau sobre uma
cadeira.
- Porquê O'Hara? Ouvi falar do "Chefe O'Hara"... nunca
imaginaria que fosses tu.
- Trabalhei na contra-espionagem. Parece que fiz algumas
coisas de jeito, pelo que há vários sócios que me apagarão
com todo o prazer. O departamento sugeriu uma longa
estadia em Inglaterra e que usasse o apelido de meu avô.
Que desaparecesse da circulação. Assim... sem um olho,
sem perna e sem mão, será difícil reconhecerem-me... e
não penso que ainda andem à minha procura... acabou tudo.
Saí da agência e ingressei na Polícia... para mais segurança.
- Conheci-te logo.
- Não foi pela vista que me conheceste; foi pelo coração.
- Pela vista... como podes observar, também eu tive um
problema.
- Conta-me, Lys, meu amor.
- Espera, querido. Temos tanto que dizer um ao outro...
vamos tomar um café, meu amor...
Lys pouco demorou na cozinha. O café da manhã já estava
pronto. Durante estes breves momentos, O'Hara
murmurava apenas : "Ó meu Deus! Ó meu Deus!"
Ela trouxe uma bandeja com duas chávenas e um globo de
vidro de café. A bandeja tremia-lhe nas mãos. Serviram-se,
sorrindo um para o outro, como dois parvos adolescentes.
- Fui operada, após o acidente com o carro. O vidro da
frente estilhaçou-se e um pedaço cortou-me uma vista.
Nada se pôde fazer. Coloquei, então, este olho artificial.
De início incomoda, mas depois o hábito faz o resto.
- Quase que não se nota, Lys. Precisamente na mesma cor e
formato do outro, do bom.
- Queres experimentar, Eugene?
- Pôr o teu olho? Posso?
- O meu não. Anda cá.
Pegou-lhe na mão e levou-o para o quarto. De um pequeno
armário, retirou uma bonita caixa envernizada. Abriu-a.
Dentro, sobre veludo branco, uma colecção de olhos de
várias cores e tamanhos. Parecia uma multidão curiosa
a espreitar para Lys e para o polícia.
- Nem sempre temos os olhos da mesma cor. Há suaves
tonalidades que cambiam consoante a nossa disposição
e a luz do dia. Com esta colecção, estou sempre mais apta
a escolher.
- Mas... e os tamanhos?
- Bem... se bebemos um pouco mais, à noite, no outro dia
temos os olhos maiores...
O'Hara retirou um olho, levantou rapidamente a pála e
colocou-o na cavidade ocular, mirando-se no espelho do
toucador. Estava com um olho castanho e outro verde-
-escuro. Ou melhor, o castanho vigiando curiosamente
o verde-escuro.
- Esse não te fica bem, querido. Experimenta este
castanho.
-Áh! - exclamou O'Hara, mirando-se novamente ao
espelho.
Parecia verdadeiramente outro homem. Quae não se
notava a diferença entre o olho verdadeiro e o falso,
excepto quando se olhava para um dos lados e o outro
se recusava a acompanhar o parceiro. O'Hara
endireitou-se, cresceu e abraçou fogosamente Lys.
Beijaram-se como há quinze anos, com extremo ardor
e primaveril juventude.
- Eugene, meu amor... - balbuciou ternamente Lys, mas
logo se recompôs.
- Pronto, Eugene. Vamos para a sala. Temos de falar...
anda, querido.
Regressaram, arfando, para a sala, devorando-se
mutuamente, cada um com o seu olho são.
O'Hara sorriu da ideia.
- Lys. Se na rua, fores sempre do meu lado direito,
poderemos vermo-nos perfeitamente, já que o meu olho
falso é o esquerdo e o teu é o direito...
Lys riu-se também, sem complexos; já os ultrapassara
há muito.
Fez-se então o silêncio que ambos temiam. O café, nas
chávenas, esperava.
- Eugene.
- Sim.
- Vieste prender-me?
- Vim.
- Acreditas no bem, na moral, na humanidade, em
ideologias políticas, na fraternidade, no amor, na Cruz
Vermelha, na UNICEF...
- Talvez... mas menos que antigamente.
Em tom calmo e baixo continuou:
- Quantos mataste no Vietnam, entre agentes e inocentes,
entre soldados e civis indefesos?
O'Hara atravessava agora a pior crise da sua vida.
- Lys, peço-te...
- Querido. Tem coragem e encara a verdade da vida,
frontalmente. Quantos? Quantos mataste?
- Dezenas... talvez centenas... não sei.
- E a que título? Com que direito? E, possivelmente, alguns
com as tuas próprias mãos.
O'Hara tremeu e baixou a cabeça, caindo-lhe no tapete o
olho artificial.
- Não podes ter lágrimas nos olhos, Eugene. Terás de fazer
exercícios com a pálpebra e semicerrar os olhos. Ensinar-te-ei
se... houver tempo e ainda quiseres.
- Eu quero-te, Lys. Sempre te quis. Depois de ti, não houve
mais ninguém na minha vida.
- Então esperamos o quê? Agora já falámos. Já sei o que queria
saber. E tu? Também já sabes tudo...
E começou a despir-se, sem pressa, mas com adulta
determinação. Peça a peça, até ficar nua. Um belo e ainda
jovem corpo de mulher.
- Eugéne. Não estamos a três dias da tua partida para a
guerra. Somos mais adultos agora e mais experientes.
O'Hara levantou-se com dificuldade. A perna de pau
escorregara juntamente com o tapete. Equilibrou-se e cobriu
Lys com o seu corpo. Abraçaram-se e beijaram-se com
fúria, numa bebedeira de desejo. De amor.
No chão, o olho castanho de O'Hara parecia divertidíssimo.
Só ao segundo toque ouviram a campainha da porta.
O'Hara teve reflexos mais rápidos do que Lys. Deu-lhe o
sobretudo e atirou as peças de roupa de Lys para debaixo
do sofá. A cena não enganava ninguém, mas estava mais
composta, segundo o pensamento de Eugene O'Hara.
Foi abrir a porta, enquanto Lys vestia o amplo sobretudo.
Bronco Vale, de mãos dolentes repousando nos bolsos,
sorria para O'Hara.
- Posso entrar?
E entrou, apesar de ninguém o ter convidado. Tirou o chapéu
e cumprimentou, irónico:
- Viva, Maureen. É Maureen, não é? Não imaginava que
fosse tão bonita... apesar desse velho sobretudo, que julgo
pertencer aqui ao Chefe O'Hara. A propósito: Já lhe deu
ordem de prisão?
- Sente-se, Bronco... se puder.
- Posso, de lado. Mas não me quero sentar.
- Como chegou até aqui?
Lys, sentada numa ampla almofada e apertando ao corpo o
sobretudo, olhava para um e para o outro, aparentemente
calma.
- Segui o seu percurso. Falei com o cego que me deu o
nome. Depois foi fácil. A ordem que me deu pelo telefone,
para eu estar quieto, não era para respeitar, como deve ter
calculado. Os crimes estão esclarecidos. O Bone explodiu
no gabinete do Inspector-Chefe. Julgo que era um dos
implicados.
- Continue...
- No seu apartamento encontraram-se elementos que
levarão, talvez neste momento, à prisão de um químico
chamado Boyle e que mora no Bronx. Bone passava droga e,
ultimamente, parecia andar muito assustado.
- Já sabia tudo isso, Bronco.
- Ah já?! Agora sou eu que lhe digo "curioso"...
E de novo o silêncio. Lys olhava agora fixamente para
O'Hara. Esperava, de maãos nos bolsos do sobretudo.
- Então, Chefe. Leva-a ou não?
O'Hara respirou fundo e disse, baixinho:
- Não.
- Não sei se estou a perceber.
- Julgo que está a perceber. Eu e ela vamos desaparecer
da circulação... recuperar quinze anos da nossa vida.
Recuperá-la completamente.
- Não, Chefe. Não vão desaparecer. Tenho obrigação de a
prender. Depois já não é comigo.
- Não, Bronco Vale. Você apenas quer é o nome nos joanais
e nas televisões. Você continua a ser um puto que pouco
ou nada sabe da vida. Julga que sabe, lá por ter andado na
guerra, mas não sabe. Todos os homens que andaram na
guerra julgam saber mais do que os outros, como se a
guerra fosse uma universidade. Também andei na guerra
e não sei nada. Vocês também não sabem mais, por vezes
até sabem menos.
Olhou com ternura para Lys e continuou:
- Neste caso, vai ficar quietinho e voltar para o seu
escritório. Os crimes acabaram. Já não há Bone e o
químico não se deixará prender. De Maureen não há
rasto, nem qualquer denúncia ou documento ou prova. Só
há você, que vai ser um bom menino e esquecer o que viu
e que encontrou Maureen.
- Porquê?
- Porque assim será melhor para a minha vida e... para
a dela.
- Já se esqueceu dos seus agentes mortos?
- Linda Marlowe já não teria esquecido o marido?
- Velho esperto! Por acaso já está a esquecer... já não tenho
cliente para representar. Mas, quer você deixe quer não,
vou levar a dama comigo... e agora.
Três factos se passaram então em fracções de segundo: dois
movimentos e um disparo.
Bronco faz um gesto na direcção a Lys, ao mesmo tempo que
O'Hara avança, colocando-se à sua frente, para o impedir de
continuar e recebendo, nas costas, a bala que Lys endereçara,
com determinação, ao detective particular.
O'Hara cai, devagar, segurado pelos braços de Bronco. Lys
abraçase no chão a O'Hara, enquanto Bronco permanece
estupidificado, sem saber o que fazer.
- Querido! Meu amor!
- Lys... minha amante antiga... não vou morrer... esse estúpido...
não vai destruir a nossa... felicidade... o nosso encontro, a
nossa vida...
Estremece nos braços de Lys, junto ao seu corpo nu, golfando
sobre ele o seu sangue quente. O'Hara morre.
Lys gritou. Não um grito histérico, ou de medo, ou de vingança.
Apenas um grito, como se lhe tivessem partido as cordas
ocultas da vida. Levanta-se então lentamente. Mete a mão no
bolso do sobretudo e volta a disparar, caindo-lhe o olho
artificial, devido às lágrimas.
Bronco, atónito com toda aquela cena, não teve reflexos para
impedir ou para fugir ao disparo, que lhe atravessou o ombro
direito e o derrubou, a um metro de O'Hara.
-----------
(De Ed B. Silverman. Termina amanhã a novela.)
Eram nove e meia da manhã quando Eugene O'Hara subiu
de elevador até ao apartamento de Maureen. Levava a
arma destravada, no amplo bolso do sobretudo.
Maureen acabara de se arrumar. Uma camisola branca de
malha, de gola alta, e umas calças de veludo vermelho,
justas ambas ao corpo, realçavam a sua silhueta. A casa
cheirava ao café da manhã, acabado de fazer. Acendeu um
cigarro e pegou na TV News.
O toque da campainha não a incomodou. Foi atender
indiferente.
- Quem é?
- Eugene O'Hara
Abriu.
Especado, olhando-a fixamente com um só olho, estava
O'Hara.
Maureen sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Uma pequena
vertigem levou os seus pensamentos, em turbilhão, a
uma rápida sequência de infância, adolescência e presente.
O coração acelerou. "Oh não! Não pode ser! Como é
possível?!"
A muito custo, o polícia disse, como em segredo:
- Ainda me chamo Eugene - e estendeu a mão humana.
Maureen cada vez mais perturbada, pegou nela
carinhosamente e puxou-o para dentro de casa.
Olharam-se atónitos.
- Finalmente, querido! Óh, meu Deus! Não pode ser! Não
acredito! Não é verdade! Essas coisas não acontecem...
não há milagres...
E, esquecendo-se de fechar a porta, abraçou-se a O'Hara,
passando-lhe as mãos pela cabeça e pelas costas, com
inexcedível carinho, mas também um certo sentido de
posse.
- Lys, meu amor - murmurou O'Hara, com voz rouca. -
Lys... sempre andei perdido... sempre andei perdido
sem ti...
Maureen, aliás Lys Anderson, fechou a porta de entrada
e ajudou o detective a despir o sobretudo.
- Querido. Soube que tinhas ficado estropiado no
Vietnam, mas ninguém me soube dizer mais nada. Cheguei
a falar com o adjunto do secretário de estado da Defesa.
Tratou-me e falou como se tivesses deixado de existir.
Fez-se um silêncio total à tua volta. Sofri tanto...
- Um atentado à bomba. Não vim directamente para os
Estados Unidos. Por questões de segutança, fiquei alguns
anos em Inglaterra. Combinação entre as suas secretas.
- Anda, meu querido, senta-te.
Ainda confuso, sentindo a irrealidade do momento,
sentou-se no sofá e estendeu a perna de pau sobre uma
cadeira.
- Porquê O'Hara? Ouvi falar do "Chefe O'Hara"... nunca
imaginaria que fosses tu.
- Trabalhei na contra-espionagem. Parece que fiz algumas
coisas de jeito, pelo que há vários sócios que me apagarão
com todo o prazer. O departamento sugeriu uma longa
estadia em Inglaterra e que usasse o apelido de meu avô.
Que desaparecesse da circulação. Assim... sem um olho,
sem perna e sem mão, será difícil reconhecerem-me... e
não penso que ainda andem à minha procura... acabou tudo.
Saí da agência e ingressei na Polícia... para mais segurança.
- Conheci-te logo.
- Não foi pela vista que me conheceste; foi pelo coração.
- Pela vista... como podes observar, também eu tive um
problema.
- Conta-me, Lys, meu amor.
- Espera, querido. Temos tanto que dizer um ao outro...
vamos tomar um café, meu amor...
Lys pouco demorou na cozinha. O café da manhã já estava
pronto. Durante estes breves momentos, O'Hara
murmurava apenas : "Ó meu Deus! Ó meu Deus!"
Ela trouxe uma bandeja com duas chávenas e um globo de
vidro de café. A bandeja tremia-lhe nas mãos. Serviram-se,
sorrindo um para o outro, como dois parvos adolescentes.
- Fui operada, após o acidente com o carro. O vidro da
frente estilhaçou-se e um pedaço cortou-me uma vista.
Nada se pôde fazer. Coloquei, então, este olho artificial.
De início incomoda, mas depois o hábito faz o resto.
- Quase que não se nota, Lys. Precisamente na mesma cor e
formato do outro, do bom.
- Queres experimentar, Eugene?
- Pôr o teu olho? Posso?
- O meu não. Anda cá.
Pegou-lhe na mão e levou-o para o quarto. De um pequeno
armário, retirou uma bonita caixa envernizada. Abriu-a.
Dentro, sobre veludo branco, uma colecção de olhos de
várias cores e tamanhos. Parecia uma multidão curiosa
a espreitar para Lys e para o polícia.
- Nem sempre temos os olhos da mesma cor. Há suaves
tonalidades que cambiam consoante a nossa disposição
e a luz do dia. Com esta colecção, estou sempre mais apta
a escolher.
- Mas... e os tamanhos?
- Bem... se bebemos um pouco mais, à noite, no outro dia
temos os olhos maiores...
O'Hara retirou um olho, levantou rapidamente a pála e
colocou-o na cavidade ocular, mirando-se no espelho do
toucador. Estava com um olho castanho e outro verde-
-escuro. Ou melhor, o castanho vigiando curiosamente
o verde-escuro.
- Esse não te fica bem, querido. Experimenta este
castanho.
-Áh! - exclamou O'Hara, mirando-se novamente ao
espelho.
Parecia verdadeiramente outro homem. Quae não se
notava a diferença entre o olho verdadeiro e o falso,
excepto quando se olhava para um dos lados e o outro
se recusava a acompanhar o parceiro. O'Hara
endireitou-se, cresceu e abraçou fogosamente Lys.
Beijaram-se como há quinze anos, com extremo ardor
e primaveril juventude.
- Eugene, meu amor... - balbuciou ternamente Lys, mas
logo se recompôs.
- Pronto, Eugene. Vamos para a sala. Temos de falar...
anda, querido.
Regressaram, arfando, para a sala, devorando-se
mutuamente, cada um com o seu olho são.
O'Hara sorriu da ideia.
- Lys. Se na rua, fores sempre do meu lado direito,
poderemos vermo-nos perfeitamente, já que o meu olho
falso é o esquerdo e o teu é o direito...
Lys riu-se também, sem complexos; já os ultrapassara
há muito.
Fez-se então o silêncio que ambos temiam. O café, nas
chávenas, esperava.
- Eugene.
- Sim.
- Vieste prender-me?
- Vim.
- Acreditas no bem, na moral, na humanidade, em
ideologias políticas, na fraternidade, no amor, na Cruz
Vermelha, na UNICEF...
- Talvez... mas menos que antigamente.
Em tom calmo e baixo continuou:
- Quantos mataste no Vietnam, entre agentes e inocentes,
entre soldados e civis indefesos?
O'Hara atravessava agora a pior crise da sua vida.
- Lys, peço-te...
- Querido. Tem coragem e encara a verdade da vida,
frontalmente. Quantos? Quantos mataste?
- Dezenas... talvez centenas... não sei.
- E a que título? Com que direito? E, possivelmente, alguns
com as tuas próprias mãos.
O'Hara tremeu e baixou a cabeça, caindo-lhe no tapete o
olho artificial.
- Não podes ter lágrimas nos olhos, Eugene. Terás de fazer
exercícios com a pálpebra e semicerrar os olhos. Ensinar-te-ei
se... houver tempo e ainda quiseres.
- Eu quero-te, Lys. Sempre te quis. Depois de ti, não houve
mais ninguém na minha vida.
- Então esperamos o quê? Agora já falámos. Já sei o que queria
saber. E tu? Também já sabes tudo...
E começou a despir-se, sem pressa, mas com adulta
determinação. Peça a peça, até ficar nua. Um belo e ainda
jovem corpo de mulher.
- Eugéne. Não estamos a três dias da tua partida para a
guerra. Somos mais adultos agora e mais experientes.
O'Hara levantou-se com dificuldade. A perna de pau
escorregara juntamente com o tapete. Equilibrou-se e cobriu
Lys com o seu corpo. Abraçaram-se e beijaram-se com
fúria, numa bebedeira de desejo. De amor.
No chão, o olho castanho de O'Hara parecia divertidíssimo.
Só ao segundo toque ouviram a campainha da porta.
O'Hara teve reflexos mais rápidos do que Lys. Deu-lhe o
sobretudo e atirou as peças de roupa de Lys para debaixo
do sofá. A cena não enganava ninguém, mas estava mais
composta, segundo o pensamento de Eugene O'Hara.
Foi abrir a porta, enquanto Lys vestia o amplo sobretudo.
Bronco Vale, de mãos dolentes repousando nos bolsos,
sorria para O'Hara.
- Posso entrar?
E entrou, apesar de ninguém o ter convidado. Tirou o chapéu
e cumprimentou, irónico:
- Viva, Maureen. É Maureen, não é? Não imaginava que
fosse tão bonita... apesar desse velho sobretudo, que julgo
pertencer aqui ao Chefe O'Hara. A propósito: Já lhe deu
ordem de prisão?
- Sente-se, Bronco... se puder.
- Posso, de lado. Mas não me quero sentar.
- Como chegou até aqui?
Lys, sentada numa ampla almofada e apertando ao corpo o
sobretudo, olhava para um e para o outro, aparentemente
calma.
- Segui o seu percurso. Falei com o cego que me deu o
nome. Depois foi fácil. A ordem que me deu pelo telefone,
para eu estar quieto, não era para respeitar, como deve ter
calculado. Os crimes estão esclarecidos. O Bone explodiu
no gabinete do Inspector-Chefe. Julgo que era um dos
implicados.
- Continue...
- No seu apartamento encontraram-se elementos que
levarão, talvez neste momento, à prisão de um químico
chamado Boyle e que mora no Bronx. Bone passava droga e,
ultimamente, parecia andar muito assustado.
- Já sabia tudo isso, Bronco.
- Ah já?! Agora sou eu que lhe digo "curioso"...
E de novo o silêncio. Lys olhava agora fixamente para
O'Hara. Esperava, de maãos nos bolsos do sobretudo.
- Então, Chefe. Leva-a ou não?
O'Hara respirou fundo e disse, baixinho:
- Não.
- Não sei se estou a perceber.
- Julgo que está a perceber. Eu e ela vamos desaparecer
da circulação... recuperar quinze anos da nossa vida.
Recuperá-la completamente.
- Não, Chefe. Não vão desaparecer. Tenho obrigação de a
prender. Depois já não é comigo.
- Não, Bronco Vale. Você apenas quer é o nome nos joanais
e nas televisões. Você continua a ser um puto que pouco
ou nada sabe da vida. Julga que sabe, lá por ter andado na
guerra, mas não sabe. Todos os homens que andaram na
guerra julgam saber mais do que os outros, como se a
guerra fosse uma universidade. Também andei na guerra
e não sei nada. Vocês também não sabem mais, por vezes
até sabem menos.
Olhou com ternura para Lys e continuou:
- Neste caso, vai ficar quietinho e voltar para o seu
escritório. Os crimes acabaram. Já não há Bone e o
químico não se deixará prender. De Maureen não há
rasto, nem qualquer denúncia ou documento ou prova. Só
há você, que vai ser um bom menino e esquecer o que viu
e que encontrou Maureen.
- Porquê?
- Porque assim será melhor para a minha vida e... para
a dela.
- Já se esqueceu dos seus agentes mortos?
- Linda Marlowe já não teria esquecido o marido?
- Velho esperto! Por acaso já está a esquecer... já não tenho
cliente para representar. Mas, quer você deixe quer não,
vou levar a dama comigo... e agora.
Três factos se passaram então em fracções de segundo: dois
movimentos e um disparo.
Bronco faz um gesto na direcção a Lys, ao mesmo tempo que
O'Hara avança, colocando-se à sua frente, para o impedir de
continuar e recebendo, nas costas, a bala que Lys endereçara,
com determinação, ao detective particular.
O'Hara cai, devagar, segurado pelos braços de Bronco. Lys
abraçase no chão a O'Hara, enquanto Bronco permanece
estupidificado, sem saber o que fazer.
- Querido! Meu amor!
- Lys... minha amante antiga... não vou morrer... esse estúpido...
não vai destruir a nossa... felicidade... o nosso encontro, a
nossa vida...
Estremece nos braços de Lys, junto ao seu corpo nu, golfando
sobre ele o seu sangue quente. O'Hara morre.
Lys gritou. Não um grito histérico, ou de medo, ou de vingança.
Apenas um grito, como se lhe tivessem partido as cordas
ocultas da vida. Levanta-se então lentamente. Mete a mão no
bolso do sobretudo e volta a disparar, caindo-lhe o olho
artificial, devido às lágrimas.
Bronco, atónito com toda aquela cena, não teve reflexos para
impedir ou para fugir ao disparo, que lhe atravessou o ombro
direito e o derrubou, a um metro de O'Hara.
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(De Ed B. Silverman. Termina amanhã a novela.)
Thursday, April 06, 2006
35. O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)
16.
Linda Marlowe esperava-o já com a porta aberta.
- Entre, Bronco.
Isto enquanto a ambulância seguia em silêncio.
- Olá, Linda.
- Entre, tire essa bata e ponha-se à vontade.
A pequena sala estava cuidadosamente decorada, com
sofás confortáveis, uma estante repleta de livros,
quadros nas paredes, um pequeno aquário iluminado e
um discreto bar, perto de uma das janelas. Uma alcatifa
cor de mostarda cobria o chão. Sobre três pequenas
mesas e no bar, várias jarras com flores, por certo
gentileza para saudar o visitante, no clássico estilo
"diga-o com flores". As cortinas semicerradas, davam
uma luz acolhedora ao ambiente.
- Sente-se, Bronco.
- Tenho de me estender... sobre este lado...
- Estenda-se e descontraia-se. Isso. Agora vou servir-lhe
um uísque. Fraquinho, claro, por causa dos antibióticos.
- Que gosto terá?
Bronco sentou-se de lado, encostando-se a dois
almofadões de veludo.
Linda dominava-se quase bem; estava nervosa e
excitada.
Preparara a recepção com cuidado, não faltando ainda os
aperitivos e a alta-fidelidade sussurrando um trecho
suave.
Na gaveta da cómoda, no seu quarto, dormia uma foto
12 por 18 de Edgar Marlowe, com uma dedicatória
simples: Para a minha adorada Linda. Teu Edgar.
Sorria, o estúpido.
- Quer com mais gelo?
- Está bem assim, Linda.
Bebeu e acendeu um cigarro.
Linda sentou-se num pequeno tamborete e ajeitou a
saia.
- Tenho um recado para si. O Chefe O'Hara disse que
estava suspenso o convite para jantar e que mais tarde
falaria consigo.
O detective continuou a bebida. Linda, que, como já
dissemos, ocultava mal o nervosismo, acrescentou:
- E eu... eu queria, quero pedir-lhe para parar com as
investigações... acho que é inútil, quero dizer, para quê?
Edgar morreu. Ninguém lhe dará de novo a vida.
Levantou-se e foi servir-se também de uma bebida.
- Linda. Não tenciono desistir.
- Oiça-me. Eu amava Edgar. Edgar morreu. Não quero
que me atinja uma segunda morte...
Foi interrompida pela campainha do telefone.
- Linda Marlowe.... Sim, Chefe. Um momento. - É para
si, Bronco. É o Chefe O'Hara. Deixe-se estar. Levo aí o
telefone.
E levou mesmo. Gentilmente.
- Olá, velho. Já estava a achar muito milho papar-lhe
um jantar no seu requintado apartamento de solteiro...
não arranjou dinheiro para a comida? Foi?
E ficou à escuta, cada vez mais sério. Fez sinal a Linda
para lhe servir mais uísque e continuou a escutar,
soltando ocasionais monossílabos.
- Compreendo, Chefe. Quando chega a altura de receber
os louros, correm-se com os mastins de terceira. OK. mas
não vou parar. Pois... Dê-me um tiro e fica tudo resolvido.
E desligou, pensativo.
- Tome, Bronco.
E Linda meteu-lhe o copo na mão, pegou no seu e
sentou-se de novo no tamborete.
- Eles não vão desistir, Bronco. Não deveria andar por aí.
Preparei tudo para que possa cá ficar... já que não tem
ninguém para tomar conta de si...
- Obrigado mas não posso.
- As flores e tudo o mais foi em sua honra, em sua
intenção e... não bebia um uísque desde que o Edgar...
Começou a chorar suavemente, sem ruído; só as
lágrimas caindo pelas suas belas e pálidas faces. O
choro de uma mulher que sabia dominar-se.
- Desculpe, Linda... Amei muito uma mulher e perdi-a.
Pensava nela agora, sem conseguir recordar-me já das
suas feições. Como esquecemos depressa as feições...
Linda esboçou um leve sorriso por entre as lágrimas.
- Essa imagem de dureza, mesmo de rudeza, é só
aparente. Vi isso quando o conheci...
Bronco baixou os olhos candidamente, sorveu outro
gole e confessou:
- Uma defesa?! Talvez. Uma vida dura, numa
profissão dura e cruel. Não tive família. O resto foi
trabalho ordinário, rasteiras e guerra. O Governo
deu-me gratuitamente um curso completo de assassino.
O único curso superior que tenho. Sei matar de várias
maneiras e estilos, com vários utensílios e sem eles. Sou
formado.
E restou, entre eles, o silêncio pesado das recordações.
A tarde caía. As sombras invadiam já a sala e um turpor,
misto de drogras e de álcool, invadiu Bronco Vale.
Linda desligou a alta-fidelidade e, do seu quarto, trouxe
uma manta, cobrindo com cuidado o detective que,
entretanto, adormecera no amplo sofá. E ficou de pé,
olhando-o, não com amor, mas com uma certa ternura,
quase desejando-o.
-----------------
(De Ed. B. Silverman)
Linda Marlowe esperava-o já com a porta aberta.
- Entre, Bronco.
Isto enquanto a ambulância seguia em silêncio.
- Olá, Linda.
- Entre, tire essa bata e ponha-se à vontade.
A pequena sala estava cuidadosamente decorada, com
sofás confortáveis, uma estante repleta de livros,
quadros nas paredes, um pequeno aquário iluminado e
um discreto bar, perto de uma das janelas. Uma alcatifa
cor de mostarda cobria o chão. Sobre três pequenas
mesas e no bar, várias jarras com flores, por certo
gentileza para saudar o visitante, no clássico estilo
"diga-o com flores". As cortinas semicerradas, davam
uma luz acolhedora ao ambiente.
- Sente-se, Bronco.
- Tenho de me estender... sobre este lado...
- Estenda-se e descontraia-se. Isso. Agora vou servir-lhe
um uísque. Fraquinho, claro, por causa dos antibióticos.
- Que gosto terá?
Bronco sentou-se de lado, encostando-se a dois
almofadões de veludo.
Linda dominava-se quase bem; estava nervosa e
excitada.
Preparara a recepção com cuidado, não faltando ainda os
aperitivos e a alta-fidelidade sussurrando um trecho
suave.
Na gaveta da cómoda, no seu quarto, dormia uma foto
12 por 18 de Edgar Marlowe, com uma dedicatória
simples: Para a minha adorada Linda. Teu Edgar.
Sorria, o estúpido.
- Quer com mais gelo?
- Está bem assim, Linda.
Bebeu e acendeu um cigarro.
Linda sentou-se num pequeno tamborete e ajeitou a
saia.
- Tenho um recado para si. O Chefe O'Hara disse que
estava suspenso o convite para jantar e que mais tarde
falaria consigo.
O detective continuou a bebida. Linda, que, como já
dissemos, ocultava mal o nervosismo, acrescentou:
- E eu... eu queria, quero pedir-lhe para parar com as
investigações... acho que é inútil, quero dizer, para quê?
Edgar morreu. Ninguém lhe dará de novo a vida.
Levantou-se e foi servir-se também de uma bebida.
- Linda. Não tenciono desistir.
- Oiça-me. Eu amava Edgar. Edgar morreu. Não quero
que me atinja uma segunda morte...
Foi interrompida pela campainha do telefone.
- Linda Marlowe.... Sim, Chefe. Um momento. - É para
si, Bronco. É o Chefe O'Hara. Deixe-se estar. Levo aí o
telefone.
E levou mesmo. Gentilmente.
- Olá, velho. Já estava a achar muito milho papar-lhe
um jantar no seu requintado apartamento de solteiro...
não arranjou dinheiro para a comida? Foi?
E ficou à escuta, cada vez mais sério. Fez sinal a Linda
para lhe servir mais uísque e continuou a escutar,
soltando ocasionais monossílabos.
- Compreendo, Chefe. Quando chega a altura de receber
os louros, correm-se com os mastins de terceira. OK. mas
não vou parar. Pois... Dê-me um tiro e fica tudo resolvido.
E desligou, pensativo.
- Tome, Bronco.
E Linda meteu-lhe o copo na mão, pegou no seu e
sentou-se de novo no tamborete.
- Eles não vão desistir, Bronco. Não deveria andar por aí.
Preparei tudo para que possa cá ficar... já que não tem
ninguém para tomar conta de si...
- Obrigado mas não posso.
- As flores e tudo o mais foi em sua honra, em sua
intenção e... não bebia um uísque desde que o Edgar...
Começou a chorar suavemente, sem ruído; só as
lágrimas caindo pelas suas belas e pálidas faces. O
choro de uma mulher que sabia dominar-se.
- Desculpe, Linda... Amei muito uma mulher e perdi-a.
Pensava nela agora, sem conseguir recordar-me já das
suas feições. Como esquecemos depressa as feições...
Linda esboçou um leve sorriso por entre as lágrimas.
- Essa imagem de dureza, mesmo de rudeza, é só
aparente. Vi isso quando o conheci...
Bronco baixou os olhos candidamente, sorveu outro
gole e confessou:
- Uma defesa?! Talvez. Uma vida dura, numa
profissão dura e cruel. Não tive família. O resto foi
trabalho ordinário, rasteiras e guerra. O Governo
deu-me gratuitamente um curso completo de assassino.
O único curso superior que tenho. Sei matar de várias
maneiras e estilos, com vários utensílios e sem eles. Sou
formado.
E restou, entre eles, o silêncio pesado das recordações.
A tarde caía. As sombras invadiam já a sala e um turpor,
misto de drogras e de álcool, invadiu Bronco Vale.
Linda desligou a alta-fidelidade e, do seu quarto, trouxe
uma manta, cobrindo com cuidado o detective que,
entretanto, adormecera no amplo sofá. E ficou de pé,
olhando-o, não com amor, mas com uma certa ternura,
quase desejando-o.
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(De Ed. B. Silverman)
Thursday, March 30, 2006
34. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)
15.
Bronco Vale estava pronto pra sair. Tivera alta. Vestia
bata branca de enfermeiro e utilizava o pequeno
disfarce dos óculos escuros.
Nas traseiras do St. James Hospital, uma ambulância
aguardava, com o motor a trabalhar. Bronco não podia
arriscar-se a levar o último tiro da sua vida. Assim, o
esquema tinha sido preparado pelo Chefe O'Hara, com
a colaboração da direcção do hospital.
- Então? - perguntou O'Hara ao dr. Kildaire. - Você
está melhor?
- Conhece o orifício que existe no meio das nádegas,
no sítio onde as costas perdem o nome?
O'Hara afastou-se para assistir à saída de Bronco
e para melhor vigiar as cercanias. Tinha o pistolão no
bolso do sobretudo, pronto a fazer fogo. Era um
profissional.
O dr. Kildaire, fumando nervosamente, quedou-se,
no passeio, a ver partir a ambulância.
Qual das câmaras é que estaria a captá-lo naquele
momento?
O'Hara despediu-se:
- Tome Vallium, Kildaire.
Ele não ouviu.
-------------------
De Ed B. Silverman.
Nota: só na próxima 3ª.Feira haverá outro
capítulo. O penúltimo.)
Bronco Vale estava pronto pra sair. Tivera alta. Vestia
bata branca de enfermeiro e utilizava o pequeno
disfarce dos óculos escuros.
Nas traseiras do St. James Hospital, uma ambulância
aguardava, com o motor a trabalhar. Bronco não podia
arriscar-se a levar o último tiro da sua vida. Assim, o
esquema tinha sido preparado pelo Chefe O'Hara, com
a colaboração da direcção do hospital.
- Então? - perguntou O'Hara ao dr. Kildaire. - Você
está melhor?
- Conhece o orifício que existe no meio das nádegas,
no sítio onde as costas perdem o nome?
O'Hara afastou-se para assistir à saída de Bronco
e para melhor vigiar as cercanias. Tinha o pistolão no
bolso do sobretudo, pronto a fazer fogo. Era um
profissional.
O dr. Kildaire, fumando nervosamente, quedou-se,
no passeio, a ver partir a ambulância.
Qual das câmaras é que estaria a captá-lo naquele
momento?
O'Hara despediu-se:
- Tome Vallium, Kildaire.
Ele não ouviu.
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De Ed B. Silverman.
Nota: só na próxima 3ª.Feira haverá outro
capítulo. O penúltimo.)
Tuesday, March 28, 2006
33.O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)
| 13. Naquela noite o canal 76 ("Este é o calibre 76. Carregue no telecomando e mate a sua vizinha"), tinha anunciado uma nova série, escrita por Ed McBain e passada numa esquadra de polícia, com um detective chamado Steve Carella. Rockfeller aninhou-se para assistir. No momento exacto da transmissão, depois de cento e dezoito comerciais, toda a sua zona ficou às escuras. Um corte geral de energia. Rockfeller acabou a lata de cerveja. Foi até à janela. Abriu as cortinas. Tudo negro. Só ao longe algumas luzes vermelhas nos telhados dos arranha-céus, pontinhos marcando presença. Viu pois em negrume a sua cidade. Quando sentiu lágrimas nos olhos, dirigiu-se para o seu quarto, para se deitar. É tão triste, sofredora e abnegada a vida de um inspector- -chefe! 14. Na manhã seguinte Rockfeller estava deprimido, apesar da neve se ter derretido durante a noite e o dia se apresentar menos agreste, quase ameno, com o Sol como deve ser. Percorreu o longo corredor até ao seu gabinete, resmungando quando o saudavam. Resmungou ainda quando viu quem o esperava: Bone. - Bom dia, senhor. - Hum... entre. Entraram. Rockfeller deixou-se cair na sua ampla cadeira e apontou para a outra, na sua frente. Era uma ordem. Bone sempre atento compreendeu-a. Quando abriu a boca para falar, soou a campainha do telefone. - Rockfeller - disse o dito, com evidente enfado. E ficou escutando, cada vez mais interessado. Pronunciou uns quantos monossílabos e terminou, dizendo: - Bem trabalho, O'Hara. Mate-a! Nada de julgamentos. Mate-a, mas antes que denuncie a pandilha toda - e desligou. Bone ficou pálido. Muito pálido. - Afinal, Bone, o que quer de mim? Bone atrapalhou-se. Tossiu e, em seguida, acendeu um cigarro. - Bem, Inspector. Estive a rever todo o processo das explosões e não encontrei qualquer ponta, qualquer pista. Só vi que nos faltava a informação sobre o tal cientista búlgaro. - Ah! Esse! Sem interesse. Nem fiz a nota para o processo. O agente descobriu que ele andava aos pulinhos, sempre contente e a rir, porque a irmã e o cunhado, que vivem na Alemanha, jogaram em nome dele num concurso qualquer, tendo ganho um milhão de marcos. Não tem nada a ver com o nosso caso. Mas você está doente, Bone. Está cada vez mais pálido. - Sim... realmente não me sinto lá muito bem... E, mal acabou esta frase, um violentíssimo estrondo abalou as paredes, partiu os vidros das janelas, atirou ao chão o Inspector-Chefe e fez voar a porta do gabinete. Quase imeditamente, a sereia de alarme do edifício desatou num desalmado berreiro de alerta, para que todas as portas exteriores fossem fechadas. O gabinete e Rockfeller estavam irreconhecíveis. Bocadinhos de Bone tinham-se espalhado por toda a sala, como confetti de várias cores, com predominância para o magenta e o rosa-truta, para além do castanho, claro. O Inspector batera com a cabeça no chão e perdera os sentidos. Contudo, a secretária tinha-o protegido um pouco. Vários detectives e agentes acorreram olhando, da entrada, para aquela tremenda imagem de destruição. Alguns retiraram-se para vomitar. Uma porcaria pegada. Um escalracho. Uma vergonha e um nojo aquilo tudo. Merda por todos os lados. E um cheio pestilento. Os repórteres não se fizeram esperar, mas foram impedidos de entrar e não havia ainda qualquer comunicado oficial. Contudo, a edição do meio-dia do Brooklin Herald informava em manchete, que uma bomba, colocada pelos comunistas, tinha destruído, quase na totalidade, o edifício da Central da Polícia, havendo já 18 mortos e 127 feridos, dos quais dois detidos e ainda uma criancinha de colo. Após a primeira assistência médica, Rockfeller recolheu a uma clínica psiquiátrica, com distúrbios e profundas depressões verticais. O assunto assumiu, claro, cariz nacional. Nathaniel B. Clarck (NBC na intimidade partidária e familiar, como já se informou o leitor), Governador, ligou para a Casa Branca. Após vários contactos conseguiu o que queria. O secretário, nas suas memórias mais tarde publicadas ("My Life with the President"), referenciou o diálogo pormenoriza- damente. "- É grave, senhor. - Na própria Central? - Na própria! - Que medidas tomou? - perguntou o senhor. - Todas. - Os meus assessores acreditam que a mão da foice e do martelo é que accionou tudo isto. - Talvez a Nicarágua, senhor. - Mas os problemas com o Médio Oriente já estão praticamente solucionados, ou em via disso. - Mas a Nocarágua não é no Médio Oriente, senhor. - Ah não?! Pois claro que não. É na África Austral. Silêncio. - Está? - Estou, senhor. - Mobilize todas as forças. Não esquecendo as agências. - Muito bem, senhor. - Ponha-me ao corrente a qualquer hora do dia ou da noite. - Muito bem, senhor." E desligaram. ---------------------- (de Ed. B. Silverman) |
Saturday, March 25, 2006
32. O caso da mulher com um olho de vidro (cont.)
| 12. Mesmo à esquina da 72 com a Nona Avenida, há vários anos que um cego monta a sua banca, com ou sem autorização da Polícia. A neve, na última semana, fizera com que este diligente comerciante em nome individual, só exercesse a actividade por breves períodos, preferencialmente à tarde. Ou por maldade inqualificável do fornecedor ou por pessoal sofisma, entre canetas esferográficas, alguns livros, revistas e atacadores, apresentava bolsas de preservativos, os quais, quando lhe apetecia, anunciava como balões. E vendia. Naquela tarde o Sol conseguiu animar-se um pouco por volta das três pelo que, vinte minutos após este regalo, já o vendedor cego se encontrava instalado, protegendo-se do frio com um amplo gorro soviético e botas de plástico amarelas; como abafo geral, um velho sobretudo militar, que vira já bons tempos e talvez francesas. O'Hara, enterrando a perna de pau na leve camada de neve, já o aguardava, bufando hálito quente para as duas mãos, aquecendo obviamente uma e enferrujando a outra. Pelo sim, pelo não, comprou um "balão" e atirou-se à conversa. - Sou da Polícia. - Já percebi... pelo cheiro. - Hum...Há uma senhora que mora aqui no West Side e que o cumprimenta amistosamente. Fez isso na última quinta-feira. - Há muitas senhoras que me vêm cumprimentar. Sou cego mas não sou impotente. - Lá isso não sei. - Mas sei eu. E tenho muita saída. Os cegos nunca podem fazer prova. Um cego, no tribunal, não pode virar-se para o juiz e afirmar, com o dedo apontando, que foi com aquela dama que dormiu na noite de 35 de Outubro. O advogado largar-se-ia a chorar no ombro do cliente. "Balões!Balões!" - Tá bem, tá bem. - Como é essa senhora? - É alta, dizem que bonita e parece que também tem um problema num olho. - Ah! Essa! "Esferos! Esferos quase dados! Promoção de Inverno: quem comprar duas leva um balão de graça! Ajudem o ceguinho!" - Conheces então a senhora? - Mais ou menos. - Fala-me do "mais". O cego, através dos negros óculos, parecia fixar-se muito para além de O'Hara, como se ele ali não estivesse especado, mesmo à sua frente. O'Hara, por sua vez, estava quase a perder a calma. - Só posso falar do "menos" pois ela não é dessas, nem mãe de qualquer polícia. É estupidamente séria. - E gritou bem alto, mesmo para a cara de O'Hara: "-Ajudem o ceguinho, que nem sabe o que é uma árvore de Natal, coitadinho! Nunca viu um pinheiro aceso... nem apagado. Nunca viu os Reis Magos... nem a estrela. Ajudem o ceguinho!" - Então? - rosnou O'Hara. - Então o quê? - rosnou o cego. - Fala-me dela. - Bem... Conversa às vezes comigo sobre o estado do tempo, uma vez por mês compra-me uma caneta e todas as semanas a TVNews. Quer uma, chui? - Não, obrigado. Quero apenas saber onde mora. - "Ajudem o ceguinho, que não vê a mãe desde que nasceu!" Por acaso sei onde mora, mas não digo. Só à porrada! - Não te vou dar porrada! - É pena. Estou cheio de frio... sempre aquecia. "Balões! Balões para o menino e para a menina! Balões!" Mas para que é que quer a morada?, pode um cego perguntar? "Balões!" O'Hara já estava farto da conversa, mas era fundamental para a investigação que a levasse a bom termo. No cego estava o eixo de toda a investigação. Tentando mostrar-se afável, com a sua voz grave, bordou uma história. - Bem. Encontrámos num cais o cadáver de um velho. Entre a papelada, há referências a uma filha que tem um olho de vidro. Era só para confirmar. Se for ela, tenho de lhe comunicar a triste notícia e pedir-lhe a identificação oficial do morto. - E, nesses papéis - perguntou o cego cheio de gozo -, não havia nada a dizer o nome da família e a morada da filhinha?... - Não... quase nada se lia por causa da água.. estavam todos molhados... Uma avozinha friorenta, com o netinho pela mão, de fugida, apressadinha, pede um balão. O cego dá-lhe uma carteirinha, recebe o dinheiro, passa-o lentamente pelos dedos e guarda-o num bolso do militar sobretudo. - "Que se divirtam muito!" - desejou. - "Ajudem o ceguinho!" Muito bem, sargento. Você tem imaginação, mas só deve convencer a sua mãezinha, na hipótese de a ter conhecido. O'Hara estava gelado e farto. O seu temperamento foi superior a todos os considerandos e interesses. - Ouve, meu cego da merda. Ou me dizes onde ela mora ou vais dentro e tão cedo não venderás a ponta de um corno, percebes? Meto-te numa instituição cá dos meus conhecimentos e nunca mais verás a luz do dia! - Claro, sargento, sou cego! E ficaram os dois mudos, um ruminando vinganças, o outro imaginando como se defenderia do ataque seguinte, - Falas ou não falas? - Oiça, sargento. Digo-lhe o nome e você procura, e acabou-se! Ou, então, vamos para a porrada. Um jornalista meu amigo havia de gostar. Título de primeira página: "Sargento da Polícia bate desalmadamente num pobre cego!". Ein? Que bela manchete! "Canetas!" - És um bom espertalhaço! - Como poderia ser de outra maneira? Já me teriam roubado a mercadoria, o dinheiro e até a bengala, que este mundo só tem ladrões e polícias. Os cegos tentam viver no meio. "Canetas! Canetas!" - Deixa-te de filosofias baratas. Diz lá o nome. - E vai-se embora? Promete que se vai embora? A sua presença prejudica o negócio e a minha reputação. - Vou. - Vai mesmo?! A sério? - Porra, vou! - Então chama-se Maureen. Três blocos para sul. Adeus sargento. - Eu não sou sargento, cego! - E quem lhe disse que eu era cego? Almirante de recolha de corpos? O'Hara atirou a bolsinha dos "balões" para a banca do cego e seguiu em direcção à 96. O cego apanhou facilmente a bolsinha, conferiu se estava intacta e atacou imediatamente a promoção de Inverno. - "Canetas! Dadas! Absolutamente dadas! Ajudem o ceguinho que nem braile sabe!" Isto tudo, continuando a olhar para O'Hara, que se afastava manquejando. ---------------- (de Ed. B. Silverman) |
Monday, March 20, 2006
31. O Caso da mulher com um olho de vidro (cont.)
| 11. O dr. Kildaire saía do quarto de Bronco Vale, quando O'Hara, vindo do elevador, o abordou mancando. - Como está ele, doutor? - Está vivo. - Isso sei eu. E quando poderá sair? - Amanhã, depois, às onze e um quarto, ao pôr-do-sol, de madrugada, se quiser! - respondeu o médico em tom brusco. - Estou a chateá-lo? O célebre médico respirou fundo e desabafou com violência: - Está! A merda do seriado da televisão deu cabo da minha vida! - E, imitando a voz que os adultos fazem parvamente quando falam com crianças, disse: - O dr. Kildaire é uma simparia; o dr. Kildaire tem um coração de ouro; o dr. Kildaire é altamente responsável; o dr. Kildaire estuda cada caso com uma profundidade catedrática; o dr. Kildaire é profundamente humano. Que porra! - Calma aí, homem! - Está aí dentro uma gaja, no quarto do seu amigo que, quando me viu, revirou os olhos e ficou em transe. Pegou-me nas mãos e disse: "Salve-o, dr. Kildaire! Só o senhor o pode salvar!" Porra! Apenas um tiro na grande rabada. - Pare lá com isso, homem! Vá a um psiquiatra ou faça uma cura de repouso, mas não me lixe a cabeça! O dr. Kildaire acendeu um cigarro (também é proibido fumar nos corredores do St, James Hospital). Mais calmo, perguntou: - Afinal, quem é você e o que quer? - Chamo-me Eugene O'Hara e sou Chefe da Brigada de Homicídios de Nova Iorque. - e mostrou a identificação. - E que mais? - Preciso do Bronco cá fora, rapidamente. - Quer assistir a uma cena da tal série de televisão? Quer? Dê atenção. Compõe a bata e o cabelo, faz um suave sorriso amistoso, untuoso, tipo cardeal aos domingos e, em voz baixa, culta, controlada, diz: - Quanto ao paciente seu amigo, examinei o orifício de entrada e o de saída. Como sabe, meu caro amigo, o de saída é maior do que o de entrada. Examinei a força dos músculos das pernas, a fim de verificar se o nervo ciático tinha ficado lesionado, se tinha a sensibilidade intacta. E tinha. Não foi lesada qualquer estrutura nervosa importante. Fiz a excisão da ferida, exploração e lavagem do trajecto. Coloquei um dreno seco, de borracha, tipo Penrose. Está com uma cobertura antibiótica, analgésicos e repouso absoluto. Nada de cuidado. - Tá bem, doutor, tá bem! Só falta agora uma enfermeira loira e muito boa a pedir-lhe, como se falasse com Deus, para ir com urgência ao segundo piso. O dr. Kildaire recompõe-se, tornando-se naturalmente chato. - Amanhã já pode sair. Agora é só descanso. Perdeu muito pouco sangue; só andou dez metros até aqui. Levar um tiro à porta de um hospital é altamente conveniente. Sai muito mais barato. - Vou lá dentro falar com ele. - Falar com ele? Tente. Até aqui se ouve o gajo a ressonar. Não ouve? Além de zarolho, maneta e perneta também é surdo? - E se o doutor fosse à merda?! Kildaire pareceu não ter ouvido. Seguiu pelo corredor abanando a cabeça. O'Hara também abanou a cabeça, como quem diz "caso perdido" e entrou. A sra. Marlowe, sentada na única cadeira existente no quarto, fechou o livro e olhou para o visitante. Depois, suavemente, aveludadamente, alcatifadamente, disse: - Amanhã já poderemos falar com ele, Chefe O'Hara. - Então conhece-me? - Conheço e por isso lhe baixei a cabeça num cumprimento outro dia. O senhor era o chefe do meu marido, Edgar Marlowe. - É a viúva! Ele explodiu, não foi? Não se aproveitou mesmo nada! Uma porcaria tudo aquilo. Trampa por todos os lados... como há pessoas que cheiram tão mal por dentro! Linda Marlowe deslizou da cadeira e caiu no chão. Estava desmaiada. Bronco Vale continuava a ressonar placidamente. Mancando, O'Hara saiu à procura de uma enfermeira, virou no corredor à esquerda e deu de caras, de novo, com o dr. Kildaire que falava, calmo, com uma jovem e esbelta senhora, a quem pegava bondosamente nas mãos. - Sra. Morris. Tudo sairá bem. A operação é muito simples. Venha ao meu gabinete para lhe explicar tudo em presença das radiografias. - Siiim, senhoooor doutoooooor. --------------------------- (Da novela de Ed B. Silverman) |
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