O Fiat 500 decrépito estava sempre estacionado no mesmo sítio, no largo fronteiro ao Convento de Mafra. Sabia que era o do padre e, soube-o mais tarde também, que ele parava sempre ali não por gostar daquele local, mas sim por falta de gasolina.
Aliás, qualquer observador mais atento veria que as suas vestes eram incrivelmente pobres, russas, passajadas e, sem querer fazer humor, de ver a Deus. Este padre, por minha bondade monsenhor, talvez primo do D. Quixote de Graham Green tinha, no jogo do bilhar francês, um vício vigoroso, que o deveria fazer sofrer mas do qual, aparentemente, não se conseguia livrar, ou era semanalmente absolvido em confissão. Mas isto, claro, na hipótese de ele o considerar um vício e, mesmo que sim, desejar livrar-se por feiura e irrespeito pela profissão. Especulações que nós os seis, milicianos sanguíneos guelrosos e esquerdistas em Mafra, às vezes colocámos como tema de desfastio, à mesa do café.
Pois muitas noites chegava monsenhor, passava por entre as mesas sem que alguém desse por ele, sentava-se na primeira cadeira livre que ao caminho se lhe oferecia e, bebendo um café, punha-se a ver os jogos que se desenrolavam na mesa de bilhar, completamente absorto em tudo o mais que o rodeava para além de Deus.
Por qualquer motivação para nós desconhecida, mas não muito distante da alegria e barulho que caracterizava todas as noites a nossa mesa, monsenhor foi-se colocando cada vez mais próximo de nós. Isso notámos. Ele olhava para o bilhar mas deixava descair um ouvido orientando-o para o nosso lado, por certo necessitando um pouco da nossa juventude e irreverência. Mas não era velho; parecia, isso sim, velho, acabado, estafado, esgotado. Quarenta e tal anos, talvez, para fazer a pé, como soubemos pela empregada da pensão, as diversas freguesias dando a extrema-unção e outros carinhos de seu mister, a qualquer hora do dia ou da noite, ao sol e à chuva e ao frio. Por certo um santo homem com o vício do bilhar e sem dinheiro para o alimentar.
Tinha outro vício ainda que já me esquecia de vos referir: o santo fumava. Muito. Talvez ele poupasse na gasolina para o tabaco e para o bilhar, mas isto já pode ser considerada uma opção maldosa de um ateu, mas a sua fama de bom padre (há padres maus?), dedicado, fraterno, amigo e confidente dos seus paroquianos, fazia a empregada contadora arredondar os olhos negros e aumentar a beleza da sua expressão louçã. “Um santo, é o que lhes digo, meninos! Um santo!”
Uma noite acabei uma partida de bilhar e fiquei sem parceiro. Perguntei a monsenhor se queria jogar mas com uma condição, e ele que sim que sim e qual. Irreverente, talvez deseducado, mas certamente por defesa, disse-lhe que nem ele me falaria de religião nem eu a ele de política. Um trato entre cavalheiros de diferentes credos. Olhou-me bem no fundo dos olhos, talvez procurando-me a alma que, naquelas idades, sei hoje ainda estarem em formação cubista e disse-me com simplicidade: “Está bem.”
Nunca assombrei ninguém a jogar ao bilhar, mas conseguia fazer umas coisas com jeito se estivesse aplicado. Obviamente que lhe propus que fosse “ao perde-paga”. E também obviamente que perdi e que passei a ser o seu parceiro favorito. Entrava no café e já me procurava com os olhos; eu era, bem observadas as coisas, o seu dealer.
E fomos mantendo o nosso trato, poucas frases trocando que não fossem de circunstância, de tabelas, de meteorologia, de efeitos bolísticos, e coisas assim.
E uma noite, na pensão, combinámos ajudar o padre.
Um de nós perguntou se já tínhamos reparado que o Fiat já estava há mais de quinze dias a dormir à sombra protectora do Convento. Alguns que sim. Fomos então comprar uma lata de cinco litros de gasolina e vertê-mo-los no respectivo depósito, enquanto outros vigiavam, não fosse monsenhor ter Espírito Santo de orelha.
O miliciano que verteu a gasolina para o fanado Fiat, ficou com a mão direita molhada, pelo que a todos, espargindo o combustível sobre as nossas fardas enodoadas, nos benzeu: “Eu vos abençoo, meus bons malandros” – disse. Um irreverente acto após uma boa acção.
No dia seguinte à noite, todos queríamos observar o imaculado rosto de monsenhor e, por falta de clareza mental, nos calámos quando ele chegou ao café. Veio, cumprimentou e sentou-se, olhando para a mesa de bilhar. Mas sorria. Ele tinha mesmo Espírito Santo de orelha.
Álvaro Belo Marques
Monday, March 24, 2008
Monday, March 17, 2008
EM BUSCA DO ADAMASTOR
No tempo em que ainda se aprendia Português na Instrução Primária, o nosso livro de leitura para a 4ª. Classe era da autoria de Manuel Subtil, Cruz Filipe, Faria Artur e Gil Mendonça.
Pois não é que ontem a minha irmã, mais velha que eu nove anos e agora com mais de meio século de existência, me saiu a dizer Camões depois do almoço?!
Recordava ela o livro por onde tinha estudado, citando o “Apólogo das Cotovias”, do P. Manuel Bernardes, “A Chegada do Correio”, aquele tão belo texto da “Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Diniz, “A ida para a Escola”, dos contos de Trindade Coelho “Os Meus Amores”, naquele parte tão bonita de “a encomendinha era eu”, “O Estatuário”, do P. António Vieira e ainda, não contente, mas comigo ouvinte atento, disse de cor e com o coração:
“Porém já cinco sóis eram passados
Que dali partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamento os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.”
Ela e Camões falaram novamente do Adamastor.
Foi então que retornámos, de mão dada, a Abril de 1939 quando, assarapantados, embarcámos para a África no António Delfino, uma luxuosa cidade alemã que dava pelo modesto nome de barco.
Tirando aqueles dois dias habituais, em que se prefere morrer a viver em tais agonias baloiçantes, tudo era pasmo encanto, pois de mar só conhecíamos o que se enxerga da Costa da Caparica, lá para as bandas do Pica Galo.
Quando despertámos daquela doença tenebrosa chamada enjoo, estávamos à vista da Madeira. Quer dizer: nós olhávamos para a Ilha e a Ilha olhava para nós.
Depois de termos visto os miúdos a mergulhar para apanhar as moedas que os outros atiravam (nós não, até porque não tínhamos), desembarcámos para, logo no dia seguinte, embarcar noutro casarão a falar inglês, que se chamava Warwick Castle, rumo a Cape Town, como na altura se dizia em português Cidade do Cabo.
Aqui, no Waraick, foi um tempo giro e divertido. O cozinheiro jogava comigo ao pinguepongue, fumava cachimbo e ia-me ensinando algumas palavras que eu, obviamente, esquecia de imediato. Mas numa das primeiras lições, foi-me mostrando tachos, panelas, caixas de comida e dizendo os respectivos nomes em inglês, que eu repetia em português, rapidamente e sem atenção, pois o que eu queria mesmo era jogar pinguepongue. Assim, e não sei como, ficou assente que biscoitos se dizia em português “gelo”. Nem mais. (Infelizmente, penso que ele nunca teve a oportunidade de desfazer esse engano.)
A nossa mãe não regulava bem da saúde, pelo que lhe dava fome nas horas precisas em que não havia refeições – pelo menos na 2ª. Classe, que era o andar onde habitávamos. Mas tal deixou de constituir um problema. Quando lhe dava essas fomes extemporâneas, eu corria à cozinha e pedia "gelo" ao cozinheiro, que logo me atendia com os melhores biscoitos de Sua Majestade.
E lá íamos de vento em popa, que não precisávamos de vento para nada, quando a minha irmã nos disse que nessa noite iríamos ver o Gigante Adamastor.
O entusiasmo do clã foi geral. Ficámos toda a noite a pé, a olhar para o horizonte, à espera do Gigante, que um senhor chamado Imediato tinha prometido que se veria muito bem e que agora estava domesticado por via do desenvolvimento marítimo e da biologia idem. Que estava tão simpático que, por vezes, até se curvava num respeitoso cumprimento aos navegadores, dizia o safado.
Pois cedo nasceu o Sol e de gigante nada. Como nada também aconteceu a um rapaz que catrapiscava de viés a minha irmã e que de português só sabia dizer “caneta de tinta permanente”. Esteve, na conjugação própria, de binóculos assestados para ver ao pormenor a Linha do Equador e de nós se despediu gritando alto “caneta de tinta permaneeeeenteee!”. Tudo gente inteligente, ele e nós, como se depreende.
Tempos depois, já instalados na então Lourenço Marques, soubemos que o Warwick Castle tinha sido torpedeado por um submarino alemão, quase à vista do Brasil e que morrera a quase totalidade da tripulação e dos passageiros.
E foi assim que neste almoço ameno, com base num honesto Bacalhau à Gomes de Sá, eu e a minha irmã recordámos o nosso livro de leitura, a Instrução Primária, Camões e o Adamastor. E a nossa meninice.
Álvaro Belo Marques
(In TempoLivre - Inatel)
Pois não é que ontem a minha irmã, mais velha que eu nove anos e agora com mais de meio século de existência, me saiu a dizer Camões depois do almoço?!
Recordava ela o livro por onde tinha estudado, citando o “Apólogo das Cotovias”, do P. Manuel Bernardes, “A Chegada do Correio”, aquele tão belo texto da “Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Diniz, “A ida para a Escola”, dos contos de Trindade Coelho “Os Meus Amores”, naquele parte tão bonita de “a encomendinha era eu”, “O Estatuário”, do P. António Vieira e ainda, não contente, mas comigo ouvinte atento, disse de cor e com o coração:
“Porém já cinco sóis eram passados
Que dali partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamento os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.”
Ela e Camões falaram novamente do Adamastor.
Foi então que retornámos, de mão dada, a Abril de 1939 quando, assarapantados, embarcámos para a África no António Delfino, uma luxuosa cidade alemã que dava pelo modesto nome de barco.
Tirando aqueles dois dias habituais, em que se prefere morrer a viver em tais agonias baloiçantes, tudo era pasmo encanto, pois de mar só conhecíamos o que se enxerga da Costa da Caparica, lá para as bandas do Pica Galo.
Quando despertámos daquela doença tenebrosa chamada enjoo, estávamos à vista da Madeira. Quer dizer: nós olhávamos para a Ilha e a Ilha olhava para nós.
Depois de termos visto os miúdos a mergulhar para apanhar as moedas que os outros atiravam (nós não, até porque não tínhamos), desembarcámos para, logo no dia seguinte, embarcar noutro casarão a falar inglês, que se chamava Warwick Castle, rumo a Cape Town, como na altura se dizia em português Cidade do Cabo.
Aqui, no Waraick, foi um tempo giro e divertido. O cozinheiro jogava comigo ao pinguepongue, fumava cachimbo e ia-me ensinando algumas palavras que eu, obviamente, esquecia de imediato. Mas numa das primeiras lições, foi-me mostrando tachos, panelas, caixas de comida e dizendo os respectivos nomes em inglês, que eu repetia em português, rapidamente e sem atenção, pois o que eu queria mesmo era jogar pinguepongue. Assim, e não sei como, ficou assente que biscoitos se dizia em português “gelo”. Nem mais. (Infelizmente, penso que ele nunca teve a oportunidade de desfazer esse engano.)
A nossa mãe não regulava bem da saúde, pelo que lhe dava fome nas horas precisas em que não havia refeições – pelo menos na 2ª. Classe, que era o andar onde habitávamos. Mas tal deixou de constituir um problema. Quando lhe dava essas fomes extemporâneas, eu corria à cozinha e pedia "gelo" ao cozinheiro, que logo me atendia com os melhores biscoitos de Sua Majestade.
E lá íamos de vento em popa, que não precisávamos de vento para nada, quando a minha irmã nos disse que nessa noite iríamos ver o Gigante Adamastor.
O entusiasmo do clã foi geral. Ficámos toda a noite a pé, a olhar para o horizonte, à espera do Gigante, que um senhor chamado Imediato tinha prometido que se veria muito bem e que agora estava domesticado por via do desenvolvimento marítimo e da biologia idem. Que estava tão simpático que, por vezes, até se curvava num respeitoso cumprimento aos navegadores, dizia o safado.
Pois cedo nasceu o Sol e de gigante nada. Como nada também aconteceu a um rapaz que catrapiscava de viés a minha irmã e que de português só sabia dizer “caneta de tinta permanente”. Esteve, na conjugação própria, de binóculos assestados para ver ao pormenor a Linha do Equador e de nós se despediu gritando alto “caneta de tinta permaneeeeenteee!”. Tudo gente inteligente, ele e nós, como se depreende.
Tempos depois, já instalados na então Lourenço Marques, soubemos que o Warwick Castle tinha sido torpedeado por um submarino alemão, quase à vista do Brasil e que morrera a quase totalidade da tripulação e dos passageiros.
E foi assim que neste almoço ameno, com base num honesto Bacalhau à Gomes de Sá, eu e a minha irmã recordámos o nosso livro de leitura, a Instrução Primária, Camões e o Adamastor. E a nossa meninice.
Álvaro Belo Marques
(In TempoLivre - Inatel)
Tuesday, March 11, 2008
O AVEJÃO (1)
Um enorme e estranho avejão mira do alto dos céus os homenzinhos cá em baixo. Parece – aos tais homenzinhos –, uma águia gigante, preta e ameaçadora. Mas ela não está totalmente parada, não. Ela caminha lentamente para Sul. Devagarinho. Sinistra na sua quase imobilidade.
Durante a noite o avejão muda de poiso. Podemos acordar com ele sobre o Algarve, albatroz gigante de asas aparadas olhando-nos e lançando os seus malefícios. Por exemplo
Ontem estava sobre S. Sebastião do Escoural. Por acaso cruzei-me com Silva Pinto, que estava na sua rua a apanhar chuva, quando embato no professor Peter, de calções, apesar do tempo, e de boné alentejano sobre a testa. O avejão parou a ver e a ouvir.
- Olá, professor, que faz por aqui?
Sorridente respondeu-me, olhando para cima, para o avejão.
- Estatística, meu caro. Conto pessoas.
Foi assim tal e qual como vos estou a contar. O barco já ia longe quando dou por mim a analisar a cidade vista da barra – tão bonita como qualquer outra, claro. Não havia Sol nesse dia. A sombra do avejão parecia ter aumentado nos últimos tempos e isso notava-se na imprensa e nas notícias da televisão.
- Vai arrancar o Festival da Canção – disse ela toda contente como se lhe tivesse saído o euromilhões.
A dona Margarida voltou-se para a turma, que éramos nós, e disse:
- Sujeito: Festival da Canção. Predicado: arranca. Arranca o quê?
E a turma toda, incluindo o gago do Artur:
- Pregos!
Cinco dias depois o avejão estacionou sobre a capital que ficou mergulhada numa tonalidade cinzenta-clara. Os meteorologistas disseram pela televisão, pois claro, que não era nada, apenas fenómenos atmosféricos sem importância por causa de uma depressão situada no peito dos portugueses continentais, a noroeste do peito dos açorianos insulares.
Os portugueses continuaram a fazer as suas vidinhas, muito preocupados com os respectivos carros enquanto fui dar com o professor Peter sentado com o Fernando Pessoa, os dois a conversar em voz baixa. É evidente que o professor já falava muito bem português, ao contrário do Pessoa. Puxei uma cadeira e sentei-me ao pé deles. Dizia o mestre:
- É como lhe digo meu caro Poeta. Este avejão, esta nuvem negra e enorme, há décadas que esparge o vírus da incompetência. Todos estão aos poucos a atingir esse nível. A democracia virou mediocracia. O Zé Povinho já não faz manguitos e a Amália já morreu.
E o Poeta:
- E o que tenho eu com isso?
- Ó homem, isto é a gente conversar.
Vim-me embora. Que adiantava estar ali a ouvi-los?
Se todos tínhamos atingido já o nível de incompetência, o melhor era comprar casa a 40 anos e, depois de paga e de fome pelo meio, viver nas ruínas. Pois então.
Quando me der na gana escrevo o Avejão (2)
A.B.M.
Monday, March 10, 2008
"PERGUNTAS À LÍNGUA PORTUGUESA"
Com a devida vénia, trascrevemos hoje um delicioso artigo do escritor moçambicano Mia Couto, publicado no semanário "Savana" (Moçambique).
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-daguarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos
simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo.
Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite
em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior
vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-daguarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos
simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo.
Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite
em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior
vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.
Thursday, February 28, 2008
DANIEL MAQUINASSE, O FIEL GUERRILHEIRO
Levávamos já algumas semanas de trabalho quando Daniel Maquinasse me deu a sua primeira lição. Lição de respeito e de dignidade.
Tínhamos à nossa frente, numa ampla mesa rectangular, milhares de fotografias a preto e branco, de vários formatos e tonalidades, sobre Moçambique e a sua guerra de libertação. Sob a orientação de um quadro político superior mas também ele um amante da fotografia e um esteta, fazíamos a selecção das fotos que deveriam figurar no livro do III Congresso.
Como é de prever, a maioria das fotos era comentada para meu esclarecimento. Quando não o faziam livremente e a minha curiosidade apertava, não hesitava em perguntar.
As fotos eram divididas por temas, um monte para cada, levando-nos muitas vezes a seleccionar um e voltar a vê-las para segundas e terceiras escolhas. Pois numa dessas passagens, voltei a deparar com uma bonita e elegante enfermeira, impecável na sua bata branca, sob um alpendre que me pareceu camuflado. Não resisti ao comentário pouco feliz:
- O camarada Maquinasse, apesar de todas as dificuldades na guerrilha, tinha boa assistência médica. Muito boa.
Ele, homem alto e entroncado, forte, pegou na foto, mirou-a (saudade?) e disse-me com uma ponta de censura:
- É mamana. De três filhos.
Sabendo já o respeito do moçambicano pelas mães, um título reverenciado e sempre respeitado, apressei-me a desculpar-me pela minha ignorância.
Primeira lição.
Este trabalho para O Livro do III Congresso continuou por várias semanas, de tarde e de noite, fazendo-nos mais próximos e amigos, como é natural. E um dia perguntei-lhe:
- O camarada Maquinasse com que máquina fotografava os objectivos?
Olhou-me por um momento, vendo onde eu queria chegar. Como na esteira do seu olhar não vislumbrasse maldade ou ironia, respondeu:
- Câmara normal com uma lente 50.
Tive autenticamente um sobressalto.
- Uma 50?!
- Sim, uma 50.
- Mas com essa objectiva, tinha de se colocar a poucos metros dos alvos para sair alguma coisa com utilidade militar… Mesmo junto das tropas e dos quartéis dos militares portugueses. Quase um suicídio…
- É verdade, mas eu não tinha outra…
Um herói, de poucas palavras e muita dignidade. Um guerrilheiro assumido e consciente das suas obrigações e tarefas.
Segunda lição.
Em outro momento de conversa, querendo mostrar o meu “africanismo”, sempre lhe fui contando que em miúdo, quando passava todas as manhãs pela Escola Primária na antiga Lourenço Marques, apanhara matacanha.
- Sabe lá, camarada Maquinasse. Aquilo dói e ao mesmo tempo faz uma comichão dos diabos. Era no dedo grande do pé direito. O mainato, com uma agulha, enquanto me explicava a cirurgia, avisava que deveria haver o cuidado de não rebentar a bolsa para que os bichinhos não se espalhassem pelo pé.
Ele sorria com a explicação. Depois emudeceu. (Agora sei que considerava se devia ou não contar-me.)
– Matacanha… O camarada Belo Marques não sabe o que é matacanha. Eu e quase todos os guerrilheiros estávamos com os pés cheios. Não era só num dedo… era em todos! Quando tínhamos tempo e havia petróleo, encharcávamos os pés… - e continuou a recordar muito sério, como era seu hábito – fazíamos dezenas de quilómetros… quarenta, cinquenta…
- Com matacanha nos pés?!
- Sim. Tínhamos de assentar o calcanhar primeiro… andar nos calcanhares…
- Isso era muito doloroso…
- E com um morteiro ligeiro ao ombro…
Abnegação e sofrimento. Em silêncio, sem alardes.
Terceira lição.
Soube que o Daniel Maquinasse todas as manhãs, de fato de treino, corria na marginal e subia a barreira. Era um bom exercício físico para um jovem, não para o Maquinasse. Como já tinha um certo à-vontade com ele, falei-lhe nisso. Calmo e sério, como sempre, respondeu-me:
- Faço isso, sim. Nunca sei se o camarada presidente vai precisar de mim. Não podemos saber, não é? Sou seu guarda-costas em vários momentos. Não sei se haverá outros e quero estar em forma se ele me chamar.
Na verdade, quando o Presidente Samora fazia férias no Bilene, era o Maquinasse que o acompanhava a nadar, um pouco mais atrás e vigilante.
Fidelidade e respeito.
Quarta lição.
No dia 19 de Outubro de 1986 foi assassinado Samora Machel.
Daniel Maquinasse, o fiel guerrilheiro, morreu com ele.
Álvaro Belo Marques
(In Savana, ssemanário de Moçambique)
Tínhamos à nossa frente, numa ampla mesa rectangular, milhares de fotografias a preto e branco, de vários formatos e tonalidades, sobre Moçambique e a sua guerra de libertação. Sob a orientação de um quadro político superior mas também ele um amante da fotografia e um esteta, fazíamos a selecção das fotos que deveriam figurar no livro do III Congresso.
Como é de prever, a maioria das fotos era comentada para meu esclarecimento. Quando não o faziam livremente e a minha curiosidade apertava, não hesitava em perguntar.
As fotos eram divididas por temas, um monte para cada, levando-nos muitas vezes a seleccionar um e voltar a vê-las para segundas e terceiras escolhas. Pois numa dessas passagens, voltei a deparar com uma bonita e elegante enfermeira, impecável na sua bata branca, sob um alpendre que me pareceu camuflado. Não resisti ao comentário pouco feliz:
- O camarada Maquinasse, apesar de todas as dificuldades na guerrilha, tinha boa assistência médica. Muito boa.
Ele, homem alto e entroncado, forte, pegou na foto, mirou-a (saudade?) e disse-me com uma ponta de censura:
- É mamana. De três filhos.
Sabendo já o respeito do moçambicano pelas mães, um título reverenciado e sempre respeitado, apressei-me a desculpar-me pela minha ignorância.
Primeira lição.
Este trabalho para O Livro do III Congresso continuou por várias semanas, de tarde e de noite, fazendo-nos mais próximos e amigos, como é natural. E um dia perguntei-lhe:
- O camarada Maquinasse com que máquina fotografava os objectivos?
Olhou-me por um momento, vendo onde eu queria chegar. Como na esteira do seu olhar não vislumbrasse maldade ou ironia, respondeu:
- Câmara normal com uma lente 50.
Tive autenticamente um sobressalto.
- Uma 50?!
- Sim, uma 50.
- Mas com essa objectiva, tinha de se colocar a poucos metros dos alvos para sair alguma coisa com utilidade militar… Mesmo junto das tropas e dos quartéis dos militares portugueses. Quase um suicídio…
- É verdade, mas eu não tinha outra…
Um herói, de poucas palavras e muita dignidade. Um guerrilheiro assumido e consciente das suas obrigações e tarefas.
Segunda lição.
Em outro momento de conversa, querendo mostrar o meu “africanismo”, sempre lhe fui contando que em miúdo, quando passava todas as manhãs pela Escola Primária na antiga Lourenço Marques, apanhara matacanha.
- Sabe lá, camarada Maquinasse. Aquilo dói e ao mesmo tempo faz uma comichão dos diabos. Era no dedo grande do pé direito. O mainato, com uma agulha, enquanto me explicava a cirurgia, avisava que deveria haver o cuidado de não rebentar a bolsa para que os bichinhos não se espalhassem pelo pé.
Ele sorria com a explicação. Depois emudeceu. (Agora sei que considerava se devia ou não contar-me.)
– Matacanha… O camarada Belo Marques não sabe o que é matacanha. Eu e quase todos os guerrilheiros estávamos com os pés cheios. Não era só num dedo… era em todos! Quando tínhamos tempo e havia petróleo, encharcávamos os pés… - e continuou a recordar muito sério, como era seu hábito – fazíamos dezenas de quilómetros… quarenta, cinquenta…
- Com matacanha nos pés?!
- Sim. Tínhamos de assentar o calcanhar primeiro… andar nos calcanhares…
- Isso era muito doloroso…
- E com um morteiro ligeiro ao ombro…
Abnegação e sofrimento. Em silêncio, sem alardes.
Terceira lição.
Soube que o Daniel Maquinasse todas as manhãs, de fato de treino, corria na marginal e subia a barreira. Era um bom exercício físico para um jovem, não para o Maquinasse. Como já tinha um certo à-vontade com ele, falei-lhe nisso. Calmo e sério, como sempre, respondeu-me:
- Faço isso, sim. Nunca sei se o camarada presidente vai precisar de mim. Não podemos saber, não é? Sou seu guarda-costas em vários momentos. Não sei se haverá outros e quero estar em forma se ele me chamar.
Na verdade, quando o Presidente Samora fazia férias no Bilene, era o Maquinasse que o acompanhava a nadar, um pouco mais atrás e vigilante.
Fidelidade e respeito.
Quarta lição.
No dia 19 de Outubro de 1986 foi assassinado Samora Machel.
Daniel Maquinasse, o fiel guerrilheiro, morreu com ele.
Álvaro Belo Marques
(In Savana, ssemanário de Moçambique)
Wednesday, February 27, 2008
UM POVO IMBECILIZADO E RESIGNADO...
"Um povo imbecilizado e resignado,
humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo,
burro de carga,
besta de nora,
aguentando pauladas,
sacos de vergonhas,
feixes de misérias,
sem uma rebelião,
um mostrar de dentes,
a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante,
não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim,
que eu adoro,
porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso
da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta (...) Uma burguesia,
cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens
que, honrados (?) na vida íntima,
descambam na vida pública
em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia,
da mentira à falsificação,
da violência ao roubo,
donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...) Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do país,
e exercido ao acaso da herança,
pelo primeiro que sai dum ventre
- como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara
ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (...),
sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes (...)
vivendo ambos do mesmo utilitarismo
céptico e pervertido, análogos nas palavras,
idênticos nos actos,
iguais um ao outro
como duas metades do mesmo zero,
e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"
Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896
GLOSSÁRIO:
SEVANDIJA - PARASITA
VENIAGA - TRAFICÂNCIA
humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo,
burro de carga,
besta de nora,
aguentando pauladas,
sacos de vergonhas,
feixes de misérias,
sem uma rebelião,
um mostrar de dentes,
a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante,
não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim,
que eu adoro,
porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso
da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta (...) Uma burguesia,
cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens
que, honrados (?) na vida íntima,
descambam na vida pública
em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia,
da mentira à falsificação,
da violência ao roubo,
donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...) Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do país,
e exercido ao acaso da herança,
pelo primeiro que sai dum ventre
- como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara
ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (...),
sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes (...)
vivendo ambos do mesmo utilitarismo
céptico e pervertido, análogos nas palavras,
idênticos nos actos,
iguais um ao outro
como duas metades do mesmo zero,
e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"
Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896
GLOSSÁRIO:
SEVANDIJA - PARASITA
VENIAGA - TRAFICÂNCIA
Thursday, February 21, 2008
TAL COMO AS TRÍFIDES
O Dia das Trífides é uma história assustadora. Não se pode esquecer mais. Toda ela. Mas o começo… a dona da casa, na cozinha, que olha distraidamente para as traseiras da casa e tem a sensação de que há qualquer coisa que se mexe, que muda de lugar. Mas, quando olha mais atentamente, não vê nada… sente apenas que o cenário mudou.
São as Trífides que se aproximam. Plantas altas e inteligentes, num figurino próximo de um girassol gigante, que irão perturbar o equilíbrio social (se é que ele existe), do Homem na Terra. Começa por o dominar pelo insólito, pelo medo e, finalmente, pela sua força e unidade. Força consciente, precisa, determinada. As Trífides serão os ditadores inflexíveis e sanguinários, os justiceiros cegos, desde o momento em que se unem. Uma história inquietante de John Windham.
Pois, quer eu queira quer não, estou a ver as Trífides. Todos os dias as vejo. À mesma hora. Da minha janela ampla e rasgada vejo, ao final do dia, a chegada das Trífides, em bandos, aparentemente desorganizados. Não vêm marchando marcialmente, como soldados, alinhados pela esquerda, e de passada firme e rítmica. Não vêm subtilmente, suavemente aos poucos, deslizando, cercando, caminhando pedaço aqui, pedaço ali, palmo a palmo. Não, senhores. As minhas Trífides vêm em bandos desorganizados, mas firmes e determinadas. E não se ocultam, não disfarçam a presença.
Quando o sol começa a recolher-se, entre belos clarões vermelhos, aí chega o bando de crianças rotas, esfarrapadas e, obviamente, esfomeadas, percorrendo o bairro e investigando o conteúdo dos caixotes do lixo. Esqueletos mal cobertos, ventres amplos, olhar astuto (próprio do esfomeado ou do assaltante), miram de longe as vivendas importantes deste meu bairro. Depois disputam aos cães aquele osso de costeleta e, a mim, aquele pedaço de paz consciencial que a todos nos parece assistir, aquando das antigas e remotas sinadas das Trindades. Dominus…
Lá estão elas agora no meu caixote do lixo. Olha a minha lata de cerveja vazia! Olha como a casca do meu queijo de ontem, é alimento daquela pequenina Trífide hoje.
O lixo das pessoas é coisa íntima, recatada. Ninguém gosta de ver o seu lixo devassado. Quando estas Trífides de palmo e meio e barriga inchada mexem no meu lixo, sinto-me nu, roto também e muito vulnerável.
Olha agora a lata vazia de leite condensado! Olha o arroz velho que foi embrulhado num jornal que dizia haver muita fome em África. Era um restinho de arroz de fundo queimado. Mas foi dividido à força pelas Trífides.
E cerro cobardemente as cortinas. Mas oiço-as ainda. Murmurando, discutindo, dividindo aos gritos, raspando, comendo. Com as cortinas fachadas continuo a vê-las, com o seu famélico aspecto, invadindo esta cidade que é menos minha que delas.
É que delas será totalmente um dia, sem benevolências, sem compaixão, sem um sorriso. Tomarão em breve conta desta cidade, não através dos caixotes de lixo, mas através da sua nudez, com fome de uma certa justiça social que, não sabendo o que é, mesmo assim a imporão. Implacavelmente. Quem tem razão, fere. Por vezes mata.
Aguardai, senhores, nos vossos leitos confortáveis e razoavelmente amenos pelas Trífides.
Elas, tal como as de John Windham, estão atentas, à espera.
Agora é o final do dia, em bandos aparentemente desorganizados. Amanhã será logo ao nascer do sol, organizadamente, com a consciência de que têm razão.
É isso.
Senhores dos Acordos, dos Protocolos, das Reuniões, da OUA, dos aviões pessoais, dos diamantes, do gás. Senhores dos fatos feitos em seda italiana, das sociedades anónimas formalizadas à pressa, dos donos dos países partilhados de helicóptero. Senhores das espingardas, das minas pessoais, dos subsídios, dos Gabinetes, dos discursos: durmam agora enquanto não vêm as Trífidas.
Álvaro Belo Marques
São as Trífides que se aproximam. Plantas altas e inteligentes, num figurino próximo de um girassol gigante, que irão perturbar o equilíbrio social (se é que ele existe), do Homem na Terra. Começa por o dominar pelo insólito, pelo medo e, finalmente, pela sua força e unidade. Força consciente, precisa, determinada. As Trífides serão os ditadores inflexíveis e sanguinários, os justiceiros cegos, desde o momento em que se unem. Uma história inquietante de John Windham.
Pois, quer eu queira quer não, estou a ver as Trífides. Todos os dias as vejo. À mesma hora. Da minha janela ampla e rasgada vejo, ao final do dia, a chegada das Trífides, em bandos, aparentemente desorganizados. Não vêm marchando marcialmente, como soldados, alinhados pela esquerda, e de passada firme e rítmica. Não vêm subtilmente, suavemente aos poucos, deslizando, cercando, caminhando pedaço aqui, pedaço ali, palmo a palmo. Não, senhores. As minhas Trífides vêm em bandos desorganizados, mas firmes e determinadas. E não se ocultam, não disfarçam a presença.
Quando o sol começa a recolher-se, entre belos clarões vermelhos, aí chega o bando de crianças rotas, esfarrapadas e, obviamente, esfomeadas, percorrendo o bairro e investigando o conteúdo dos caixotes do lixo. Esqueletos mal cobertos, ventres amplos, olhar astuto (próprio do esfomeado ou do assaltante), miram de longe as vivendas importantes deste meu bairro. Depois disputam aos cães aquele osso de costeleta e, a mim, aquele pedaço de paz consciencial que a todos nos parece assistir, aquando das antigas e remotas sinadas das Trindades. Dominus…
Lá estão elas agora no meu caixote do lixo. Olha a minha lata de cerveja vazia! Olha como a casca do meu queijo de ontem, é alimento daquela pequenina Trífide hoje.
O lixo das pessoas é coisa íntima, recatada. Ninguém gosta de ver o seu lixo devassado. Quando estas Trífides de palmo e meio e barriga inchada mexem no meu lixo, sinto-me nu, roto também e muito vulnerável.
Olha agora a lata vazia de leite condensado! Olha o arroz velho que foi embrulhado num jornal que dizia haver muita fome em África. Era um restinho de arroz de fundo queimado. Mas foi dividido à força pelas Trífides.
E cerro cobardemente as cortinas. Mas oiço-as ainda. Murmurando, discutindo, dividindo aos gritos, raspando, comendo. Com as cortinas fachadas continuo a vê-las, com o seu famélico aspecto, invadindo esta cidade que é menos minha que delas.
É que delas será totalmente um dia, sem benevolências, sem compaixão, sem um sorriso. Tomarão em breve conta desta cidade, não através dos caixotes de lixo, mas através da sua nudez, com fome de uma certa justiça social que, não sabendo o que é, mesmo assim a imporão. Implacavelmente. Quem tem razão, fere. Por vezes mata.
Aguardai, senhores, nos vossos leitos confortáveis e razoavelmente amenos pelas Trífides.
Elas, tal como as de John Windham, estão atentas, à espera.
Agora é o final do dia, em bandos aparentemente desorganizados. Amanhã será logo ao nascer do sol, organizadamente, com a consciência de que têm razão.
É isso.
Senhores dos Acordos, dos Protocolos, das Reuniões, da OUA, dos aviões pessoais, dos diamantes, do gás. Senhores dos fatos feitos em seda italiana, das sociedades anónimas formalizadas à pressa, dos donos dos países partilhados de helicóptero. Senhores das espingardas, das minas pessoais, dos subsídios, dos Gabinetes, dos discursos: durmam agora enquanto não vêm as Trífidas.
Álvaro Belo Marques
Thursday, February 14, 2008
SÃO TÃO BONITOS OS POBREZINHOS!
Do "Jornal do Fundão" de 7 deste mês, transcrevemos a crónica do seu director, Fernando Paulouro Neves.
NA TARDE da última sexta-feira, frente à sede do Millemium BCP, havia um estranho jogo de roda, com cartazes e palavras de ordem. Eram figuras de smoking e cartola, numa “cegada” de solidariedade aos “capitalistas oprimidos”. A acção tinha a assinatura dos jovens do Bloco de Esquerda e os sorrisos dos passantes eram sinais de assentimento à carnavalização da política e às negociatas fabulosas de que “A Visão” dava conta na última edição. Que outra coisa poderemos fazer senão chorar!
Eram vozes condoídas, um coro de protesto, palavras ao vento contra essa grave injustiça do senhor Jardim Gonçalves ter embolçado 28 a 30 milhões de euros de bónus e prémio de fim de carreira, mais 100 mil euros mês de reforma, carro e motorista, e, já agora, viagens de avião, equipa de seguranças (mínimo 10). Mas logo o chorinho comove quando vem à baila o caso do senhor Paulo Teixeira Pinto ter saído do BCP com uma indemnização de 10 milhões de euros e mais a reforma vitalícia (14 meses) de mais trinta e sete mil e quinhentos euros. Coitadinho! Choremos todos pelas dificuldades de sua excelência. E que dizer do senhor Miguel Horta e Costa que ganhou cerca de 2,4 milhões de euros por não renovar o mandato na PT ou de Miguel Cadilhe que também levou 1,75 milhões de euros, de compensação por ter saído do BCP embolsando ainda mais 25 a 30 mil euros por mês de reforma! Havia uma expressão que antigamente se dizia para retratar estas situações: é fartar, vilanagem! Mas num país tão brando de costumes, que aceita todas as cangas e escandaleiras, ainda por cima com aquela filosofiazinha amoral que se compraz na exclamação: os gajos são espertos!, para que outra coisa podem servir estes casos de proveito e exemplo senão para uma boa carnavalada!
Há quem lhe chame país catita, ou choldra. Mas não deixa de ser estranho que ainda nos venham dizer que estes sujeitos (alguns metidos em grossas trapalhadas) são melhor pagos – muito melhor! – do que os congéneres na Alemanha... Que dizer desta imoralidade quando todos (ou quase todos) sabemos que vivem por aí, numa sombra conveniente ao poder, dois milhões de pobres e que todos os dias cresce o número de novos e velhos que se acercam dos caixotes do lixo na vaga esperança de encontrarem qualquer coisa para matar a fome!
Fernando Paulouro Neves
NA TARDE da última sexta-feira, frente à sede do Millemium BCP, havia um estranho jogo de roda, com cartazes e palavras de ordem. Eram figuras de smoking e cartola, numa “cegada” de solidariedade aos “capitalistas oprimidos”. A acção tinha a assinatura dos jovens do Bloco de Esquerda e os sorrisos dos passantes eram sinais de assentimento à carnavalização da política e às negociatas fabulosas de que “A Visão” dava conta na última edição. Que outra coisa poderemos fazer senão chorar!
Eram vozes condoídas, um coro de protesto, palavras ao vento contra essa grave injustiça do senhor Jardim Gonçalves ter embolçado 28 a 30 milhões de euros de bónus e prémio de fim de carreira, mais 100 mil euros mês de reforma, carro e motorista, e, já agora, viagens de avião, equipa de seguranças (mínimo 10). Mas logo o chorinho comove quando vem à baila o caso do senhor Paulo Teixeira Pinto ter saído do BCP com uma indemnização de 10 milhões de euros e mais a reforma vitalícia (14 meses) de mais trinta e sete mil e quinhentos euros. Coitadinho! Choremos todos pelas dificuldades de sua excelência. E que dizer do senhor Miguel Horta e Costa que ganhou cerca de 2,4 milhões de euros por não renovar o mandato na PT ou de Miguel Cadilhe que também levou 1,75 milhões de euros, de compensação por ter saído do BCP embolsando ainda mais 25 a 30 mil euros por mês de reforma! Havia uma expressão que antigamente se dizia para retratar estas situações: é fartar, vilanagem! Mas num país tão brando de costumes, que aceita todas as cangas e escandaleiras, ainda por cima com aquela filosofiazinha amoral que se compraz na exclamação: os gajos são espertos!, para que outra coisa podem servir estes casos de proveito e exemplo senão para uma boa carnavalada!
Há quem lhe chame país catita, ou choldra. Mas não deixa de ser estranho que ainda nos venham dizer que estes sujeitos (alguns metidos em grossas trapalhadas) são melhor pagos – muito melhor! – do que os congéneres na Alemanha... Que dizer desta imoralidade quando todos (ou quase todos) sabemos que vivem por aí, numa sombra conveniente ao poder, dois milhões de pobres e que todos os dias cresce o número de novos e velhos que se acercam dos caixotes do lixo na vaga esperança de encontrarem qualquer coisa para matar a fome!
Fernando Paulouro Neves
Monday, February 11, 2008
AZAGAIA
RAP MOÇAMBICANO
http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=5616&Itemid=129
E se eu te dissesse
Que Samora foi assassinado
Por gente do governo que até hoje finge que procura o culpado
E que foi tudo planeado
Pra que parecesse um acidente e o caso fosse logo abafado
E se eu te dissesse
Que o Anibalzinho é mais um pau mandado
Que não fugiu da Machava mas foi libertado
Pelo mesmo sistema judicial que o tem condenado
E o mais provável é que ele agora seja eliminado
E se eu te dissesse
Que Siba-Siba,
Coitado foi uma vítima
Da corja homicida
Que matou Cardoso na avenida
Não Aníbal e a sua equipa
Condenados pelos media
Mas a mesma que deixou
Pedro Langa sem vida
E se eu te dissesse
Que Moçambique não é tão pobre como parece
Que são falsas estatísticas
E há alguém que enriquece
Com dinheiros do FMI, OMS e UNICEF
Depois faz o povo crer
Que a economia é que não cresce
E se eu te dissesse
Que a oposição
Neste país não tem esperança
Porque o povo foi ensinado a ter medo da mudança
Mas e se eu te dissesse
Que a oposição e o governo não se diferem
Comem todos no mesmo prato
E tudo esta como eles querem
E se eu te dissesse
Que a barragem Cahora Bassa não é nossa
É dum punhado de gente que ainda vai encher a bolsa
E se eu te dissesse que há jornais
Que fabricam informação
Pra venderem mais papel e ganharem promoção
E que são os mesmos que nos vendem
Aquela imagem de caos
Que transformam simples ovelhas em lobos maus
E se eu te dissesse
Que há canais de televisão comprometidos
Com o governo e só abordam os assuntos permitidos
Que esses telejornais já foram todos vendidos
Vocês só vêm o que eles querem
E eles querem os vossos sorrisos
E se eu te dissesse
Que o Sida em Moçambique é um negócio
ONGs olham pra o governo como um sócio
Refrão: Porque nem tudo que eles dizem é verdade--é verdade
Porque nem tudo que eles não dizem não é verdade--é verdade (2x)
Eles fazem te pensar que tu sabes-- mas não sabes
Cuidado com as mentiras da verdade--é verdade
II
Se eu te dissesse
Que a historia que tu estudas tem mentiras
Que o teu cérebro é lavado em cada boa nota que tiras
Que a revolução não foi feita só com canções e vivas
Houve traição, tortura e versões escondidas
E se eu te dissesse
Que antigos combatentes vivem de memorias
Deram a vida pela pátria e o governo só lhes conta historias
Quantos nos dias de hoje dariam metade que eles deram?
Em nome de Moçambique, nem os que vocês elegeram
E se eu te dissesse
Que o deixa andar não deixou de existir
Veja os corruptos a brincar de tentarem se impedir
Comissões de anti-corrupção criadas por corruptos
A subornarem-se entre eles pra multiplicar os lucros
E se eu te dissesse
Que as vagas anunciadas já tem donos
Fazemos bichas nas estradas mas nem sequer supomos
Que metade das entradas pertencem a esquemas de subornos
Universidades estão compradas mas que raio de merda somos?
E se eu te dissesse
Que o teu diploma de engenheiro não é pra hoje
Enquanto saem 100 economista, engenheiros saem 2
Lares universitários abarrotados de gente
Vai ver as pautas a vermelho e os docentes indiferentes
E se eu te dissesse
Que neste país os estrangeiros é que mandam
Tem o emprego e o salário que querem ainda mandam
Meia dúzia de nacionais pra rua
É o neocolonialismo da maneira mais crua
E se eu te dissesse
Que a cor da tua pele conta muito
Quanto mais clara, mais portas que se abrem é absurdo
Os critérios de selecção pra emprego
Vais pra empresas tipo bancos e não encontras nem um negro
E se eu te dissesse
Que a policia da republica é uma comédia
São magrinhos, sem postura e se vendem por uma moeda
Agora matam-se entre eles traição na corporação
Afinal de contas quem é o policia, quem é ladrão?
E se eu te dissesse
Que há bancos que financiam partidos
E meia volta aparecem com os cofres falidos...
Refrão (ate ao fim)...
http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=5616&Itemid=129
E se eu te dissesse
Que Samora foi assassinado
Por gente do governo que até hoje finge que procura o culpado
E que foi tudo planeado
Pra que parecesse um acidente e o caso fosse logo abafado
E se eu te dissesse
Que o Anibalzinho é mais um pau mandado
Que não fugiu da Machava mas foi libertado
Pelo mesmo sistema judicial que o tem condenado
E o mais provável é que ele agora seja eliminado
E se eu te dissesse
Que Siba-Siba,
Coitado foi uma vítima
Da corja homicida
Que matou Cardoso na avenida
Não Aníbal e a sua equipa
Condenados pelos media
Mas a mesma que deixou
Pedro Langa sem vida
E se eu te dissesse
Que Moçambique não é tão pobre como parece
Que são falsas estatísticas
E há alguém que enriquece
Com dinheiros do FMI, OMS e UNICEF
Depois faz o povo crer
Que a economia é que não cresce
E se eu te dissesse
Que a oposição
Neste país não tem esperança
Porque o povo foi ensinado a ter medo da mudança
Mas e se eu te dissesse
Que a oposição e o governo não se diferem
Comem todos no mesmo prato
E tudo esta como eles querem
E se eu te dissesse
Que a barragem Cahora Bassa não é nossa
É dum punhado de gente que ainda vai encher a bolsa
E se eu te dissesse que há jornais
Que fabricam informação
Pra venderem mais papel e ganharem promoção
E que são os mesmos que nos vendem
Aquela imagem de caos
Que transformam simples ovelhas em lobos maus
E se eu te dissesse
Que há canais de televisão comprometidos
Com o governo e só abordam os assuntos permitidos
Que esses telejornais já foram todos vendidos
Vocês só vêm o que eles querem
E eles querem os vossos sorrisos
E se eu te dissesse
Que o Sida em Moçambique é um negócio
ONGs olham pra o governo como um sócio
Refrão: Porque nem tudo que eles dizem é verdade--é verdade
Porque nem tudo que eles não dizem não é verdade--é verdade (2x)
Eles fazem te pensar que tu sabes-- mas não sabes
Cuidado com as mentiras da verdade--é verdade
II
Se eu te dissesse
Que a historia que tu estudas tem mentiras
Que o teu cérebro é lavado em cada boa nota que tiras
Que a revolução não foi feita só com canções e vivas
Houve traição, tortura e versões escondidas
E se eu te dissesse
Que antigos combatentes vivem de memorias
Deram a vida pela pátria e o governo só lhes conta historias
Quantos nos dias de hoje dariam metade que eles deram?
Em nome de Moçambique, nem os que vocês elegeram
E se eu te dissesse
Que o deixa andar não deixou de existir
Veja os corruptos a brincar de tentarem se impedir
Comissões de anti-corrupção criadas por corruptos
A subornarem-se entre eles pra multiplicar os lucros
E se eu te dissesse
Que as vagas anunciadas já tem donos
Fazemos bichas nas estradas mas nem sequer supomos
Que metade das entradas pertencem a esquemas de subornos
Universidades estão compradas mas que raio de merda somos?
E se eu te dissesse
Que o teu diploma de engenheiro não é pra hoje
Enquanto saem 100 economista, engenheiros saem 2
Lares universitários abarrotados de gente
Vai ver as pautas a vermelho e os docentes indiferentes
E se eu te dissesse
Que neste país os estrangeiros é que mandam
Tem o emprego e o salário que querem ainda mandam
Meia dúzia de nacionais pra rua
É o neocolonialismo da maneira mais crua
E se eu te dissesse
Que a cor da tua pele conta muito
Quanto mais clara, mais portas que se abrem é absurdo
Os critérios de selecção pra emprego
Vais pra empresas tipo bancos e não encontras nem um negro
E se eu te dissesse
Que a policia da republica é uma comédia
São magrinhos, sem postura e se vendem por uma moeda
Agora matam-se entre eles traição na corporação
Afinal de contas quem é o policia, quem é ladrão?
E se eu te dissesse
Que há bancos que financiam partidos
E meia volta aparecem com os cofres falidos...
Refrão (ate ao fim)...
Thursday, February 07, 2008
MOÇAMBIQUE
Do blog de Manuel de Araújo, transcrevemos, com a devida vénia e apreço, a sua "Carta Aberta"
CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPUBLICA A PROPOSITO DA REVOLTA POPULAR EM MAPUTO!
Sua Excia Senhor Presidente da Republica,Excia,Dirijo-me a si, na sua qualidade do mais alto magistrado da nacao!
Excia,Um acontecimento sem precedentes registou-se ontem na capital do país. Pela primeira vez depois da independência nacional a população de Maputo saiu à rua com um único propósito- dizer de forma clara e inequívoca de que já esta farto das instituições estatais e que pelo menos desta vez, iria resolver os seus problemas, usando as suas próprias mãos! Trazendo para si, a solução dos seus problemas! E para surpresa de todos, RESOLVEU!Excia,
como deve se recordar os manuais da teoria do Estado, dizem que o Estado nasceu quando o povo decidiu passar parte da sua soberania para uma entidade própria, em troca de bens públicos -seguranca, estradas, justica entre outras. E que tal entidade exerceria o poder e a soberania 'emprestada' em nome desse povo, estabelecendo assim uma espécie de contrato social, com direitos e deveres de ambas as partes!Só que no nosso caso Excia, parece que o contrato social se rompeu, ou está em vias de se romper. Uma das partes, o povo, cansou-se da ineficiência da outra. Cansou-se e parece que quer recuperar se não toda pelo menos uma parte dos poderes 'emprestados'. Só que Excia, a história mostra-nos que quando o poder cai na rua, as consequências podem ser catastróficas, porque muitas as vezes ao inves de usar a razão o povo pode decidir baseado em emoções, com consequências catastróficas para ele próprio e para o Estado.
Excia, dizia eu que um acontecimento sem precedentes se registou ontem. Um acontecimento que a seu ver pode parecer minusculo, uma pequena ranhura no edificio da democracia. Mas essa ranhura pode ser apenas a ponta do iceberg!Este acontecimento deve ser analisado de forma franca e fria pela sociedade moçambicana. Pela classe académica, empresarial e política, porque pode vir a ter consequencias graves para a legitimidade e sobevivencia do estado mocambicano.Uma coisa é a população de um bairro fazer justica pelas próprias mãos atirando um pneu na rua ou no corpo do suspeito ladrao ou assassino. Outra coisa é a populacao de varios bairros, quase que de forma espontanea sair às ruas e dizer nao a uma medida social.Criou-se um precedente. E o 'recuo' do governo ou de quem quer que tenha tomado a decisao, mostrou inequivocamente e feliz ou infelizmente, que a solucao, por mais racional ou irracional que pareca , FUNCIONA!Ora funcionando entao, a logica dita que pode vir a ser re-activada! E ao ser reactivada quando as circunstancias assim o obrigarem, estará consumada a des-legitimizacao do Estado, que iniciou há anos, mas que ontem atingiu um ponto sem retorno!Excia,Os sinais de uma possivel convulsao social nao sao de hoje. A justica pelas proprias maos, a nao participacao nos actos eleitorais ou seja o elevado numero de abstencoes em momentos eleitorais, o crescimento da criminalidade, sao sinais inequivocos de uma sociedade amordaçada que clama em ser ouvida. Ou, de uma sociedade que no minimo nao tem mecanismos para ser ouvida e influenciar decisoes. E isso é grave. Nao é por acaso que as tampas das panelas tem furos, que permitem que parte da energia proveniente do calor se vá libertando aos poucos. Infelizmente parece que a tampa da nossa panela social tem tais furos entupidos. E cabe a si, enquanto magistrado mais alto da nacao ordenar a limpeza de tais 'furos sociais' para que a força, a energia se vá libertando.Este aspecto deve ser analisado. Recordemo-nos dos varios estudos sobre a situacao social e a possibilidade de erupcao de conflitos violentos em Mocambique feitos por entidades quer nacionais quer internacionais(DfID, Swuiss Peace e outros).
Excia,Gostaria de chamar a sua atencao para um outro ponto. O grau de violencia das manifestacoes, que nao pouparam as suas vitimas fossem elas agentes do estado ou privados. Ou seja a panela estava tao quente (e a populacao tao 'aborrecida') que nao lhe interessavam as consequencias dos seus actos. Foram partidas montras, partidos vidros de carros publicos e particulares, e mesmo um posto de abastecimento de combustivel nao foi poupado! E responsabilidade por estes danos cabe a estado pois é o estado que detem o monopolio da violencia e tem o dever de garantir a seguranca quer dos bens como dos individuos.Mas para mim acima de tudo isto ficou, uma mensagem clara para a sociedade Mocambicana e para a comunidade internacional. O velocimetro que estamos a usar para medir a nossa velocidade nacional; o termometro que estamos a usar para medir a temperatura do nosso corpo nacional, nao é nosso e nem foi feito para seres humanos da nossa especie! A medida para os nossos problemas, o juiz do nosso progresso social nao é e nao deve ser o Banco Mundial! Explico-me Excia,Os disturbios acontecem um dia depois de o presidente do Banco Mundial em pessoa ter visitado o pais (Maputo, Sofala e Inhambane) e ter dado nao apenas uma nota positiva ao governo, mas sim uma nota de despensa!Entao Excia, como é que se explica que depois de despensar com nota de luxo, menos de 24 horas passadas temos a convulsao que temos?Para mim Excia, o povo, esse 'animal' soberano chumbou nao apenas a despensa dos senhores do mundo como dos seus colaboradores nacionais, que V. Excia representa, dizendo com voz propria e bem audivel-BASTA!Reflictamos pois mocambicanos sobre os caminhos a seguir! Tenhamos a coragem e destreza necessaria para longe de emocoes momentaneas ou Mandraianas, discutirmos a sombra da mafurreira ou da mangueira o pais real- o nosso pais real e nao o pais deles. Sim o pais real e nao o ficticio ou das aritimeticas de Bretton Woods.Ja dissemos em varios foruns para quem nos quis ouvir que 'crescimento economico nao e igual a desenvolvimento'!Nao permitamos que o nosso estado se des-legitimize ao ponto de nao servir para resolver os problemas mais elementares da sobrevivencia humana! O povo soberano falou, falta sabermos se os detentores do poder, a classe academica, empresarial e sobretudo a politica tem ouvidos para ouvir! Falta saber se havera destreza necessaria para diagnosticar o mal pela raiz ou entao se uma vez mais esconderemos a cabeca deixando o rabo de fora, dizendo que o 'povo foi instrumentalizado', que o povo foi 'usado' que as manifestacos foram 'organizadas' por forcas externas, os tais e eternos 'inimigos do povo e da nacao mocambicana'Excia,Chega de Quenias, chega de Chades, chega de Liberias, chega de Serra Leoas, Eritreias, Congos!Defendamos a nossa sobrevivencia entanto que NACAO mocambicana! O senhor, como o mais alto magistrado da nacao, tem uma palavra a dizer na forma como é gerida a 'coisa publica'!Aguardamos o seu pronunciamento e quiça o cachimbo da paz social! Sabemos que recentemente fez anos. Tambem sabemos que acaba de celebrar tres anos do seu mandato. Seria de mau tom terminarmos esta carta sem lhe desejamos parabens e 'bom apetite' no consumo da prenda que o povo de Maputo lhe ofereceu ontem!E mais não disse!
Manuel de Araújo
www.manueldearaujo.blogspot.com
"MAXIMIZE HAPPINESS, minimize suffering!"
Tel. +44-(0)-7944733143
CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPUBLICA A PROPOSITO DA REVOLTA POPULAR EM MAPUTO!
Sua Excia Senhor Presidente da Republica,Excia,Dirijo-me a si, na sua qualidade do mais alto magistrado da nacao!
Excia,Um acontecimento sem precedentes registou-se ontem na capital do país. Pela primeira vez depois da independência nacional a população de Maputo saiu à rua com um único propósito- dizer de forma clara e inequívoca de que já esta farto das instituições estatais e que pelo menos desta vez, iria resolver os seus problemas, usando as suas próprias mãos! Trazendo para si, a solução dos seus problemas! E para surpresa de todos, RESOLVEU!Excia,
como deve se recordar os manuais da teoria do Estado, dizem que o Estado nasceu quando o povo decidiu passar parte da sua soberania para uma entidade própria, em troca de bens públicos -seguranca, estradas, justica entre outras. E que tal entidade exerceria o poder e a soberania 'emprestada' em nome desse povo, estabelecendo assim uma espécie de contrato social, com direitos e deveres de ambas as partes!Só que no nosso caso Excia, parece que o contrato social se rompeu, ou está em vias de se romper. Uma das partes, o povo, cansou-se da ineficiência da outra. Cansou-se e parece que quer recuperar se não toda pelo menos uma parte dos poderes 'emprestados'. Só que Excia, a história mostra-nos que quando o poder cai na rua, as consequências podem ser catastróficas, porque muitas as vezes ao inves de usar a razão o povo pode decidir baseado em emoções, com consequências catastróficas para ele próprio e para o Estado.
Excia, dizia eu que um acontecimento sem precedentes se registou ontem. Um acontecimento que a seu ver pode parecer minusculo, uma pequena ranhura no edificio da democracia. Mas essa ranhura pode ser apenas a ponta do iceberg!Este acontecimento deve ser analisado de forma franca e fria pela sociedade moçambicana. Pela classe académica, empresarial e política, porque pode vir a ter consequencias graves para a legitimidade e sobevivencia do estado mocambicano.Uma coisa é a população de um bairro fazer justica pelas próprias mãos atirando um pneu na rua ou no corpo do suspeito ladrao ou assassino. Outra coisa é a populacao de varios bairros, quase que de forma espontanea sair às ruas e dizer nao a uma medida social.Criou-se um precedente. E o 'recuo' do governo ou de quem quer que tenha tomado a decisao, mostrou inequivocamente e feliz ou infelizmente, que a solucao, por mais racional ou irracional que pareca , FUNCIONA!Ora funcionando entao, a logica dita que pode vir a ser re-activada! E ao ser reactivada quando as circunstancias assim o obrigarem, estará consumada a des-legitimizacao do Estado, que iniciou há anos, mas que ontem atingiu um ponto sem retorno!Excia,Os sinais de uma possivel convulsao social nao sao de hoje. A justica pelas proprias maos, a nao participacao nos actos eleitorais ou seja o elevado numero de abstencoes em momentos eleitorais, o crescimento da criminalidade, sao sinais inequivocos de uma sociedade amordaçada que clama em ser ouvida. Ou, de uma sociedade que no minimo nao tem mecanismos para ser ouvida e influenciar decisoes. E isso é grave. Nao é por acaso que as tampas das panelas tem furos, que permitem que parte da energia proveniente do calor se vá libertando aos poucos. Infelizmente parece que a tampa da nossa panela social tem tais furos entupidos. E cabe a si, enquanto magistrado mais alto da nacao ordenar a limpeza de tais 'furos sociais' para que a força, a energia se vá libertando.Este aspecto deve ser analisado. Recordemo-nos dos varios estudos sobre a situacao social e a possibilidade de erupcao de conflitos violentos em Mocambique feitos por entidades quer nacionais quer internacionais(DfID, Swuiss Peace e outros).
Excia,Gostaria de chamar a sua atencao para um outro ponto. O grau de violencia das manifestacoes, que nao pouparam as suas vitimas fossem elas agentes do estado ou privados. Ou seja a panela estava tao quente (e a populacao tao 'aborrecida') que nao lhe interessavam as consequencias dos seus actos. Foram partidas montras, partidos vidros de carros publicos e particulares, e mesmo um posto de abastecimento de combustivel nao foi poupado! E responsabilidade por estes danos cabe a estado pois é o estado que detem o monopolio da violencia e tem o dever de garantir a seguranca quer dos bens como dos individuos.Mas para mim acima de tudo isto ficou, uma mensagem clara para a sociedade Mocambicana e para a comunidade internacional. O velocimetro que estamos a usar para medir a nossa velocidade nacional; o termometro que estamos a usar para medir a temperatura do nosso corpo nacional, nao é nosso e nem foi feito para seres humanos da nossa especie! A medida para os nossos problemas, o juiz do nosso progresso social nao é e nao deve ser o Banco Mundial! Explico-me Excia,Os disturbios acontecem um dia depois de o presidente do Banco Mundial em pessoa ter visitado o pais (Maputo, Sofala e Inhambane) e ter dado nao apenas uma nota positiva ao governo, mas sim uma nota de despensa!Entao Excia, como é que se explica que depois de despensar com nota de luxo, menos de 24 horas passadas temos a convulsao que temos?Para mim Excia, o povo, esse 'animal' soberano chumbou nao apenas a despensa dos senhores do mundo como dos seus colaboradores nacionais, que V. Excia representa, dizendo com voz propria e bem audivel-BASTA!Reflictamos pois mocambicanos sobre os caminhos a seguir! Tenhamos a coragem e destreza necessaria para longe de emocoes momentaneas ou Mandraianas, discutirmos a sombra da mafurreira ou da mangueira o pais real- o nosso pais real e nao o pais deles. Sim o pais real e nao o ficticio ou das aritimeticas de Bretton Woods.Ja dissemos em varios foruns para quem nos quis ouvir que 'crescimento economico nao e igual a desenvolvimento'!Nao permitamos que o nosso estado se des-legitimize ao ponto de nao servir para resolver os problemas mais elementares da sobrevivencia humana! O povo soberano falou, falta sabermos se os detentores do poder, a classe academica, empresarial e sobretudo a politica tem ouvidos para ouvir! Falta saber se havera destreza necessaria para diagnosticar o mal pela raiz ou entao se uma vez mais esconderemos a cabeca deixando o rabo de fora, dizendo que o 'povo foi instrumentalizado', que o povo foi 'usado' que as manifestacos foram 'organizadas' por forcas externas, os tais e eternos 'inimigos do povo e da nacao mocambicana'Excia,Chega de Quenias, chega de Chades, chega de Liberias, chega de Serra Leoas, Eritreias, Congos!Defendamos a nossa sobrevivencia entanto que NACAO mocambicana! O senhor, como o mais alto magistrado da nacao, tem uma palavra a dizer na forma como é gerida a 'coisa publica'!Aguardamos o seu pronunciamento e quiça o cachimbo da paz social! Sabemos que recentemente fez anos. Tambem sabemos que acaba de celebrar tres anos do seu mandato. Seria de mau tom terminarmos esta carta sem lhe desejamos parabens e 'bom apetite' no consumo da prenda que o povo de Maputo lhe ofereceu ontem!E mais não disse!
Manuel de Araújo
www.manueldearaujo.blogspot.com
"MAXIMIZE HAPPINESS, minimize suffering!"
Tel. +44-(0)-7944733143
Thursday, January 31, 2008
SOMOS IMUTÁVEIS
O meu amigo Rui mandou-me este texto... bem actual.
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.(...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda duma lotaria. A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto defazer dela saca-rolhas;Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...), vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de estar. (...)"
Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.(...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda duma lotaria. A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto defazer dela saca-rolhas;Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...), vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de estar. (...)"
Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896
Thursday, January 17, 2008
UM CÃO CHAMADO SAUDADE
Quando fomos para o quintal naquela manhã, o cão saltou de contente e lambeu-nos as mãos. Nunca nos tínhamos visto. Chamámos pela mãe e, quando ela viu o bicho, disse que ainda era novinho, que estava bem tratado e completou:
- Deve ter vindo com o vosso pai. Os boémios e os cães dão-se bem.
Resolvida a origem, tratámos de lhe arranjar um nome. Vários foram ditos mas, quando a mãe referiu que o bicho era um fox-terrier, ele levantou a cabeça. Tentámos mais vezes e ele reagia sempre à palavra Fox. Ficou Fox.
Resolvidos a origem e o nome, havia que resolver a co-habitação com dois gatos residentes: o Dom Fuas Roupinho e o Espadinha-até-à-última. Este, de aspecto asqueroso, cheio de pinceladas de amarelo no corpo e com os pêlos do rabo cortados em forma de um raio celeste, terminando em ponta de cauda de diabo, uma ignomínia efectuada por um dos rapazes. Éramos três, com uma menina mais velha a aquietar-nos.
Os gatos residentes, bem novinhos também, fizeram a sua parte encarquilhando a espinha eriçada e bufando. O Fox riu-se para eles bem-disposto. Passados poucos dias já os gatos dormiam, sem qualquer respeito, sobre o seu dorso.
O Fox, como todo o mundo, tinha coisas boas e coisas divertidas. As boas eram as suas maneiras, gostar de nós, ir connosco para a praia, brincar connosco ao “faz de conta que te agarro o rabo”; as divertidas eram as cenas dele a correr atrás dos gatos da vizinhança, ladrando furioso e depois regressar olhando para nós e dizendo: “Vêem como defendo o quartel?” Outra curiosidade do Fox: quando ia com a mãe às compras, era a de não se sentar no chão, fosse ele de que matéria fosse: mármore, alcatrão, madeira. Nenhuma era suficientemente nobre para acolher o seu rabo. Entrava em qualquer loja com a mãe e procurava imediatamente um papel, um bilhete de eléctrico, o que fosse, para se sentar. Um dia, no talho, não encontrando nada para o efeito, sentou-se na biqueira do sapato da mãe. Um cão divertido.
Aos sábados, domingos e feriados, íamos todos com o Fox para a praia da Polana. Tomávamos banho na área protegida contra os tubarões e às vezes os meus irmãos nadavam para a prancha de saltos, montada numa plataforma, com o Fox atrás. Ainda estou para saber por que razão não batiam todos os recordes pois o Fox a nadar, em sua perseguição, arranhava as costas que tinha à sua frente. A mais velha, a menina, tinha as costas dignas de figuração em qualquer filme de romanos contra os cristãos. Um dia ela fez-lhe uma partida: saltou da prancha e, submersa, nadou para a traseira da plataforma. O Fox corria de um lado para o outro, olhando o mar, ladrando e ganindo aflito. Pobre bicho preocupado.
No regresso da praia, cheios de fome e sede, fazíamos, por hábito, escala no “Paraíso” uma quinta abandonada com várias laranjeiras enxertadas em limoeiros. O Fox via-nos a comer limão e também queria. Dávamos-lhe pequenos pedaços que ele enrolava na boca, desgostoso, olhando para nós numa aflição, mas mesmo assim engolindo-os. Valente cão.
E um dia aconteceu o inimaginável: o Fox desapareceu. Corremos os arredores, perguntámos. Ninguém vira. Ninguém sabia. Nem o dono da mercearia. Percebemos que sofria por ter perdido o seu melhor cliente. À porta da loja prantava-se uma lata grande com azeite e chouriços e ele punha sempre alguns na conta da mãe dizendo ter sido o Fox a roubá-los.
Passaram-se dois dias e nada de Fox, para nosso desespero e também para desgosto do Dom Fuas e do Espadinha.
Até que telefonou uma senhora à mãe dizendo que o Fox estava em sua casa, que era afinal a casa do Fox, aliás Peludo. A senhora era casada mas não tinha filhos. Contou que, quando o cão lhe desapareceu, ela e o marido foram perguntando até que descobriram onde aquele figurão se aboletara. Perceberam também que tratávamos bem do bicho e que ele era feliz com as crianças. Disse à mãe que, assim como ele fora à sua antiga casa, o mais certo seria qualquer dia regressar à nossa, para matar saudades dos meninos. E assim foi. Quase passou a rotina: quando lhe dava a saudade, vinha Fox por três meses para o pé de nós. Depois, quatro ou cinco meses vividos, chamava-se Peludo e ia viver com os antigos e verdadeiros donos. Quando a mãe nos dizia de manhã, “Há uma surpresa agradável para vocês”, já sabíamos. Íamos a gritar por ele até lá fora e sujávamo-nos todos nas brincadeiras de rebolar no chão.
Neste momento, o cão não se chama Fox nem Peludo. Apenas saudade.
- Deve ter vindo com o vosso pai. Os boémios e os cães dão-se bem.
Resolvida a origem, tratámos de lhe arranjar um nome. Vários foram ditos mas, quando a mãe referiu que o bicho era um fox-terrier, ele levantou a cabeça. Tentámos mais vezes e ele reagia sempre à palavra Fox. Ficou Fox.
Resolvidos a origem e o nome, havia que resolver a co-habitação com dois gatos residentes: o Dom Fuas Roupinho e o Espadinha-até-à-última. Este, de aspecto asqueroso, cheio de pinceladas de amarelo no corpo e com os pêlos do rabo cortados em forma de um raio celeste, terminando em ponta de cauda de diabo, uma ignomínia efectuada por um dos rapazes. Éramos três, com uma menina mais velha a aquietar-nos.
Os gatos residentes, bem novinhos também, fizeram a sua parte encarquilhando a espinha eriçada e bufando. O Fox riu-se para eles bem-disposto. Passados poucos dias já os gatos dormiam, sem qualquer respeito, sobre o seu dorso.
O Fox, como todo o mundo, tinha coisas boas e coisas divertidas. As boas eram as suas maneiras, gostar de nós, ir connosco para a praia, brincar connosco ao “faz de conta que te agarro o rabo”; as divertidas eram as cenas dele a correr atrás dos gatos da vizinhança, ladrando furioso e depois regressar olhando para nós e dizendo: “Vêem como defendo o quartel?” Outra curiosidade do Fox: quando ia com a mãe às compras, era a de não se sentar no chão, fosse ele de que matéria fosse: mármore, alcatrão, madeira. Nenhuma era suficientemente nobre para acolher o seu rabo. Entrava em qualquer loja com a mãe e procurava imediatamente um papel, um bilhete de eléctrico, o que fosse, para se sentar. Um dia, no talho, não encontrando nada para o efeito, sentou-se na biqueira do sapato da mãe. Um cão divertido.
Aos sábados, domingos e feriados, íamos todos com o Fox para a praia da Polana. Tomávamos banho na área protegida contra os tubarões e às vezes os meus irmãos nadavam para a prancha de saltos, montada numa plataforma, com o Fox atrás. Ainda estou para saber por que razão não batiam todos os recordes pois o Fox a nadar, em sua perseguição, arranhava as costas que tinha à sua frente. A mais velha, a menina, tinha as costas dignas de figuração em qualquer filme de romanos contra os cristãos. Um dia ela fez-lhe uma partida: saltou da prancha e, submersa, nadou para a traseira da plataforma. O Fox corria de um lado para o outro, olhando o mar, ladrando e ganindo aflito. Pobre bicho preocupado.
No regresso da praia, cheios de fome e sede, fazíamos, por hábito, escala no “Paraíso” uma quinta abandonada com várias laranjeiras enxertadas em limoeiros. O Fox via-nos a comer limão e também queria. Dávamos-lhe pequenos pedaços que ele enrolava na boca, desgostoso, olhando para nós numa aflição, mas mesmo assim engolindo-os. Valente cão.
E um dia aconteceu o inimaginável: o Fox desapareceu. Corremos os arredores, perguntámos. Ninguém vira. Ninguém sabia. Nem o dono da mercearia. Percebemos que sofria por ter perdido o seu melhor cliente. À porta da loja prantava-se uma lata grande com azeite e chouriços e ele punha sempre alguns na conta da mãe dizendo ter sido o Fox a roubá-los.
Passaram-se dois dias e nada de Fox, para nosso desespero e também para desgosto do Dom Fuas e do Espadinha.
Até que telefonou uma senhora à mãe dizendo que o Fox estava em sua casa, que era afinal a casa do Fox, aliás Peludo. A senhora era casada mas não tinha filhos. Contou que, quando o cão lhe desapareceu, ela e o marido foram perguntando até que descobriram onde aquele figurão se aboletara. Perceberam também que tratávamos bem do bicho e que ele era feliz com as crianças. Disse à mãe que, assim como ele fora à sua antiga casa, o mais certo seria qualquer dia regressar à nossa, para matar saudades dos meninos. E assim foi. Quase passou a rotina: quando lhe dava a saudade, vinha Fox por três meses para o pé de nós. Depois, quatro ou cinco meses vividos, chamava-se Peludo e ia viver com os antigos e verdadeiros donos. Quando a mãe nos dizia de manhã, “Há uma surpresa agradável para vocês”, já sabíamos. Íamos a gritar por ele até lá fora e sujávamo-nos todos nas brincadeiras de rebolar no chão.
Neste momento, o cão não se chama Fox nem Peludo. Apenas saudade.
Sunday, January 13, 2008
A MESA ONDE OS RICOS SE SENTAM
À minha caixa do correio chegou esta bela short story da autoria de Byrd Baylor a qual, com a ajuda de Luís Lemos, consigo fazê-la publicar neste blog. Espero que gostem.
Esta iniciativa de enviar histórias pela Net partiu do
Clube dos Contadores de Histórias
contamoshistorias7@gmail.com
Se nos vissem sentados na nossa mesa de cozinha, feita à mão e toda arranhada, saberiamlogo que não somos ricos.Mas o meu pai está a tentar fazer-nos ver que somos. Será que não vê os meus sapatos gastos? Ou que o meu irmãozinho tem remendos nascalças que leva para a escola?E como explicará ele aquela carrinha a desfazer-se, estacionada à nossa porta?
─ Não consegues enganar-me ─ digo-lhe. ─ Somos pobres. Será que os ricos se sentariam a uma mesa como esta?
A minha mãe, como que acariciando a mesa, diz:
─ Bem, nós somos ricos e sentamo-nos aqui todos os dias.
Às vezes, penso que sou a única pessoa sensata na família. Diga-se de passagem que os meus pais fizeram esta mesa com madeira que outras pessoas deitaram fora. Até festejaramquando a terminaram. Não me interpretem mal: eu gosto desta mesa. Só digo que se vê logo que não veio de uma lojade mobílias. Não tem ar de ser uma mesa à qual os ricos se sentariam. Mas a minha mãe pensa que, se todos os governantes do mundo se sentassem em redor deuma amigável mesa de madeira na cozinha de alguém, resolveriam os seus diferendos emmetade do tempo. E o meu pai diz que não fazia mal se houvesse um lindo prato azul com muitos bolinhos empilhados, que todos pudessem tirar, mesmo sem ter de pedir. Hoje, porém, trata-se da nossa cozinha, da nossa discussão, da nossa reunião familiar, dosnossos bolinhos de gengibre com especiarias, empilhados no melhor prato de flores azuis da minha mãe, colocado exactamente no centro da mesa.
Fui eu que convoquei a reunião, cujo tema é dinheiro; o meu ponto de vista é que nãotemos dinheiro que chegue. Digo aos meus pais que devem ambos arranjar empregos melhores, para podermos comprarmuitas coisas novas e boas. Digo-lhes que faço má figura na escola diante dos outros.
─ Não gosto de ter de falar disto, mas era bom que fossem ambos mais ambiciosos.
Ficam surpreendidos. Vê-se bem que nunca pensam nas coisas de que necessitamos. Devo dizer desde já que os meus pais têm umas ideias estranhas acerca do trabalho. Pensam que os únicos empregos que interessam são empregos ao ar livre. Querem terrochedos, desfiladeiros, desertos ou montanhas em redor deles, onde quer que estejam atrabalhar. Até querem ver bem o céu.Trabalham sempre juntos e a sua ocupação favorita é procurar ouro. Enfiam-nos naquela carripana e lá vamos nós em direcção às montanhas rochosas e desertas ou em direcção aalguma ravina estreita, onde todas as estradas se assemelham a trilhos de coiotes. Adoram caminhar pelas amplas margens de rios agora secos, onde se podem encontrar pequenos salpicos de ouro. Costumavam dizer-nos que a carrinha sabia exactamente que tiposde estrada bater, e que os coiotes lhes indicavam onde procurar ouro, mas eu nunca acrediteineles. Depois de passarem lá um mês ou dois, traziam sempre um pouco de minério para vender, mas vê-se bem que nunca enriqueceram. Pelo que me é dado ver, tratava-se apenas de umpretexto para acampar de novo num lugar selvagem e belo. Não se importam de plantar campos de milho doce ou de alfalfa. Gostam de apanhar pimentão-de-cheiro, abóbora e tomate. Conseguem construir vedações fortes ou domar potrosselvagens. Mas dizem que não aguentam ficar engaiolados em casa. Por isso, o meu pai pergunta:
─ Quantas pessoas há que sejam tão afortunadas como nós? Mas como fui eu quem convocou esta reunião, respondo:
─ Aposto que fariam mais dinheiro se trabalhassem num escritório na cidade.
─ Lembra-te da nossa regra número um ─ insiste o meu pai.─ Temos de poder ver o céu.
─ Podiam vê-lo através de uma janela ─ sugiro. Mas eles nem querem ouvir falar disso. Já percebem porque digo que sou o único membro sensato da família?Finalmente, a minha mãe diz:
─ Está bem, Filha da Montanha. Vamos explicar-te como fazemos contas. Hoje, vais ser a nossa contabilista.
Distribui um lápis e uma folha de papel amarelo por cada um de nós, o meu irmão incluído, embora ele só finja que escreve enquanto nós escrevemos, ou desenhe pessoas a dançar no céu.
Já agora, o meu nome não é Filha da Montanha. Chamam-me assim porque nasci numa cabana na encosta de uma montanha, no Arizona, num Verão em que os meus pais tinham idoem busca de ouro. Dizem que era um lugar mágico, a mais bela montanha que alguma vez escalaram. Talvez fosse, mas sabemos bem o quanto eles gostam de exagerar. Como queriam que a primeira coisa que eu visse fosse aquela encosta, quando tinha apenasoito minutos de vida levaram-me a ver o nascer-do-sol. A verdade é que ainda gosto muito do nascer-do-sol. Quanto ao meu irmão, chamam-lhe Filho do Oceano. Como eu tinha tido a melhormontanha como primeira paisagem da minha vida, acharam que deviam encontrar o oceanomais belo para quando ele nascesse. Penso que percorreram o México todo para encontrar um lugar onde o oceano e a selva se encontrassem. Queriam que o céu estrelado fosse azul-púrpura e que as ondas do mar fossem da cor verde que eles preferem. Ergueram-no bem alto, para que aquelas ondas fossem a primeira paisagem da sua vida. Havemos de voltar um dia àquele oceano verde e à minha montanha alta. Por ora (emboraos meus pais digam que são ricos), não há dinheiro para irmos a lado algum. Por isso, não admira que eu tenha tido de convocar esta reunião. Acreditam que o meu pai me olha bem nos olhos e me diz:
─ Mas, Filha da Montanha, eu estava persuadido de que sabias o quanto somos ricos.
Respondo-lhe:
─ Esta conversa só vai resultar se admitirmos que somos pobres.
O meu pai continua:
─ Vou provar-te agora mesmo o que disse. Façamos uma lista do dinheiro que ganhamos por ano.
─ Quanto é? ─ pergunto.
─ Preciso de anotar.
─ Calma aí ─ adverte o meu pai.
─ Temos de pensar em montes de coisas antes de somarmos tudo.
─ Que coisas? - A minha mãe contribui:
─ Sabes que não recebemos o nosso salário apenas em papel-moeda. Temos um planoespecial que nos permite ser pagos em pôres-do-sol, em tempo para escalar desfiladeiros eprocurar ninhos de águia. Não desarmo: ─ Não podem dar-me uma quantia só para que eu possa anotar?Começamos com vinte mil dólares. É quanto o meu pai diz que vale poder trabalhar ao ar livre, ver o sol durante todo o dia,sentir o vento e cheirar a chuva, uma hora antes de ela cair realmente. Diz que é quanto vale estar num sítio onde pode cantar alto quando lhe apetece, semincomodar ninguém. Mal escrevo vinte mil, a minha mãe acrescenta:
─ É melhor escreveres trinta mil, porque poder ouvir coiotes a uivar nas colinas vale, pelo menos, mais dez mil dólares.
Escrevo trinta mil. A mãe lembra-se de que também gostam de viagens longas e de montanhas distantes que mudam de cor dez vezes ao dia.
─ Para mim, isso vale mais cinco mil dólares.
O que não me surpreende, já que a minha mãe afirma ser uma especialista em sombras demontanha no deserto. Diz que consegue saber as horas pela forma como as cores das sombras variam do nascer ao pôr-do-sol. Apago o que escrevi antes e escrevo trinta e cinco mil dólares. O meu pai lembra-se, então, de outra coisa.
─ Quando um cacto floresce, temos de lá estar porque podemos não voltar a ver aquela cor em mais dia algum da nossa vida. Quanto pensas que vale essa cor?
─ Cinquenta cêntimos? ─ pergunta o meu irmão.
Decidem-se por acrescentar cinco mil à lista. Já vamos em quarenta mil dólares. Mas eu tinha-me esquecido do quanto o meu pai gosta de imitar os sons dos pássaros. Consegue imitar qualquer um, mas a sua melhor imitação são as pombas de asas brancas, os corvos, os falcões de cauda ruiva e as codornizes. Também é bom a imitar águias e corujas de grandes bicos. Por isso, lá temos nós de acrescentar mais dez mil por termos a sorte de conviver com aves diurnas e nocturnas.
Risco a soma que tinha escrito e assento cinquenta mil dólares.
─ Agora vejamos quanto vale a nossa Filha da Montanha.
Decido entrar no jogo e sugiro que valho dez mil dólares, embora o meu irmão tenha começado a rir-se.
─ Não te subestimes ─ diz o meu pai. ─ Lembra-te daquelas listas fabulosas que nos fazes.
Tem razão. Faço listas dos melhores livros que cada um de nós leu, e dos que cada um denós quer ler de novo. Também fiz uma lista de todos os animais que cada um de nós viu e daqueles que mais queremos ver ─ ao ar livre, não num jardim zoológico.O animal que eu mais gostava de ver é o leão da montanha. Já sonhei com ele quatro vezese também já lhe vi o rasto. O meu pai escolheu o urso-pardo da América. A minha mãe quer ver um lobo e ouvi-lo uivar. O meu irmão hesita entre um golfinho e uma baleia. Lembro-me de todos porque sou eu que faço as listas. Acabam por achar que valho um milhão de dólares. Protesto, mas anoto a soma. Acabamos por decidir que cada um de nós vale um milhão de dólares. A soma de toda a nossa riqueza totaliza agora quatro milhões e quinhentos mil dólares. Dou-me conta de que quero adicionar cinco mil dólares pelo prazer que me causa vaguear pelo campo, sozinha, livre com um lagarto, sem ter de seguir trilhos, sem ter um plano, apenas pelo prazer de andar ao sabor do vento. A minha família acha que isso vale cinco mil. O que totaliza quatro milhões e cinquenta e cinco mil dólares. Por fim, o meu irmão quer ainda juntar sete dólares por todas as noites em que adormecemos ao ar livre, sob as estrelas. Pensamos que sete dólares são insuficientes e convencemo-lo a arredondar para cinco mil. A minha folha regista agora quatro milhões e sessenta mil dólares ─ e ainda nem sequer começámos a contar o nosso dinheiro em papel-
-moeda. Para ser franca, esse tipo de riqueza já não conta muito neste momento. Sugiro que nem faça parte da nossa lista de riquezas. E, assim, a reunião chega ao fim.
A família foi até lá fora ver o novo quarto de lua. Mas eu fiquei sentada à nossa querida mesa feita à mão, sobre a qual o prato de flores azuis da minha mãe conserva ainda um bolinho, e escrevo este livro sobre nós. Acaricio a mesa e fico contente por a termos. Acho que o título deste livro vai ser A Mesa do.
Byrd Baylor
The Table Where Rich People Sit
New York, Aladdin Paperbacks, 1998
Esta iniciativa de enviar histórias pela Net partiu do
Clube dos Contadores de Histórias
contamoshistorias7@gmail.com
Se nos vissem sentados na nossa mesa de cozinha, feita à mão e toda arranhada, saberiamlogo que não somos ricos.Mas o meu pai está a tentar fazer-nos ver que somos. Será que não vê os meus sapatos gastos? Ou que o meu irmãozinho tem remendos nascalças que leva para a escola?E como explicará ele aquela carrinha a desfazer-se, estacionada à nossa porta?
─ Não consegues enganar-me ─ digo-lhe. ─ Somos pobres. Será que os ricos se sentariam a uma mesa como esta?
A minha mãe, como que acariciando a mesa, diz:
─ Bem, nós somos ricos e sentamo-nos aqui todos os dias.
Às vezes, penso que sou a única pessoa sensata na família. Diga-se de passagem que os meus pais fizeram esta mesa com madeira que outras pessoas deitaram fora. Até festejaramquando a terminaram. Não me interpretem mal: eu gosto desta mesa. Só digo que se vê logo que não veio de uma lojade mobílias. Não tem ar de ser uma mesa à qual os ricos se sentariam. Mas a minha mãe pensa que, se todos os governantes do mundo se sentassem em redor deuma amigável mesa de madeira na cozinha de alguém, resolveriam os seus diferendos emmetade do tempo. E o meu pai diz que não fazia mal se houvesse um lindo prato azul com muitos bolinhos empilhados, que todos pudessem tirar, mesmo sem ter de pedir. Hoje, porém, trata-se da nossa cozinha, da nossa discussão, da nossa reunião familiar, dosnossos bolinhos de gengibre com especiarias, empilhados no melhor prato de flores azuis da minha mãe, colocado exactamente no centro da mesa.
Fui eu que convoquei a reunião, cujo tema é dinheiro; o meu ponto de vista é que nãotemos dinheiro que chegue. Digo aos meus pais que devem ambos arranjar empregos melhores, para podermos comprarmuitas coisas novas e boas. Digo-lhes que faço má figura na escola diante dos outros.
─ Não gosto de ter de falar disto, mas era bom que fossem ambos mais ambiciosos.
Ficam surpreendidos. Vê-se bem que nunca pensam nas coisas de que necessitamos. Devo dizer desde já que os meus pais têm umas ideias estranhas acerca do trabalho. Pensam que os únicos empregos que interessam são empregos ao ar livre. Querem terrochedos, desfiladeiros, desertos ou montanhas em redor deles, onde quer que estejam atrabalhar. Até querem ver bem o céu.Trabalham sempre juntos e a sua ocupação favorita é procurar ouro. Enfiam-nos naquela carripana e lá vamos nós em direcção às montanhas rochosas e desertas ou em direcção aalguma ravina estreita, onde todas as estradas se assemelham a trilhos de coiotes. Adoram caminhar pelas amplas margens de rios agora secos, onde se podem encontrar pequenos salpicos de ouro. Costumavam dizer-nos que a carrinha sabia exactamente que tiposde estrada bater, e que os coiotes lhes indicavam onde procurar ouro, mas eu nunca acrediteineles. Depois de passarem lá um mês ou dois, traziam sempre um pouco de minério para vender, mas vê-se bem que nunca enriqueceram. Pelo que me é dado ver, tratava-se apenas de umpretexto para acampar de novo num lugar selvagem e belo. Não se importam de plantar campos de milho doce ou de alfalfa. Gostam de apanhar pimentão-de-cheiro, abóbora e tomate. Conseguem construir vedações fortes ou domar potrosselvagens. Mas dizem que não aguentam ficar engaiolados em casa. Por isso, o meu pai pergunta:
─ Quantas pessoas há que sejam tão afortunadas como nós? Mas como fui eu quem convocou esta reunião, respondo:
─ Aposto que fariam mais dinheiro se trabalhassem num escritório na cidade.
─ Lembra-te da nossa regra número um ─ insiste o meu pai.─ Temos de poder ver o céu.
─ Podiam vê-lo através de uma janela ─ sugiro. Mas eles nem querem ouvir falar disso. Já percebem porque digo que sou o único membro sensato da família?Finalmente, a minha mãe diz:
─ Está bem, Filha da Montanha. Vamos explicar-te como fazemos contas. Hoje, vais ser a nossa contabilista.
Distribui um lápis e uma folha de papel amarelo por cada um de nós, o meu irmão incluído, embora ele só finja que escreve enquanto nós escrevemos, ou desenhe pessoas a dançar no céu.
Já agora, o meu nome não é Filha da Montanha. Chamam-me assim porque nasci numa cabana na encosta de uma montanha, no Arizona, num Verão em que os meus pais tinham idoem busca de ouro. Dizem que era um lugar mágico, a mais bela montanha que alguma vez escalaram. Talvez fosse, mas sabemos bem o quanto eles gostam de exagerar. Como queriam que a primeira coisa que eu visse fosse aquela encosta, quando tinha apenasoito minutos de vida levaram-me a ver o nascer-do-sol. A verdade é que ainda gosto muito do nascer-do-sol. Quanto ao meu irmão, chamam-lhe Filho do Oceano. Como eu tinha tido a melhormontanha como primeira paisagem da minha vida, acharam que deviam encontrar o oceanomais belo para quando ele nascesse. Penso que percorreram o México todo para encontrar um lugar onde o oceano e a selva se encontrassem. Queriam que o céu estrelado fosse azul-púrpura e que as ondas do mar fossem da cor verde que eles preferem. Ergueram-no bem alto, para que aquelas ondas fossem a primeira paisagem da sua vida. Havemos de voltar um dia àquele oceano verde e à minha montanha alta. Por ora (emboraos meus pais digam que são ricos), não há dinheiro para irmos a lado algum. Por isso, não admira que eu tenha tido de convocar esta reunião. Acreditam que o meu pai me olha bem nos olhos e me diz:
─ Mas, Filha da Montanha, eu estava persuadido de que sabias o quanto somos ricos.
Respondo-lhe:
─ Esta conversa só vai resultar se admitirmos que somos pobres.
O meu pai continua:
─ Vou provar-te agora mesmo o que disse. Façamos uma lista do dinheiro que ganhamos por ano.
─ Quanto é? ─ pergunto.
─ Preciso de anotar.
─ Calma aí ─ adverte o meu pai.
─ Temos de pensar em montes de coisas antes de somarmos tudo.
─ Que coisas? - A minha mãe contribui:
─ Sabes que não recebemos o nosso salário apenas em papel-moeda. Temos um planoespecial que nos permite ser pagos em pôres-do-sol, em tempo para escalar desfiladeiros eprocurar ninhos de águia. Não desarmo: ─ Não podem dar-me uma quantia só para que eu possa anotar?Começamos com vinte mil dólares. É quanto o meu pai diz que vale poder trabalhar ao ar livre, ver o sol durante todo o dia,sentir o vento e cheirar a chuva, uma hora antes de ela cair realmente. Diz que é quanto vale estar num sítio onde pode cantar alto quando lhe apetece, semincomodar ninguém. Mal escrevo vinte mil, a minha mãe acrescenta:
─ É melhor escreveres trinta mil, porque poder ouvir coiotes a uivar nas colinas vale, pelo menos, mais dez mil dólares.
Escrevo trinta mil. A mãe lembra-se de que também gostam de viagens longas e de montanhas distantes que mudam de cor dez vezes ao dia.
─ Para mim, isso vale mais cinco mil dólares.
O que não me surpreende, já que a minha mãe afirma ser uma especialista em sombras demontanha no deserto. Diz que consegue saber as horas pela forma como as cores das sombras variam do nascer ao pôr-do-sol. Apago o que escrevi antes e escrevo trinta e cinco mil dólares. O meu pai lembra-se, então, de outra coisa.
─ Quando um cacto floresce, temos de lá estar porque podemos não voltar a ver aquela cor em mais dia algum da nossa vida. Quanto pensas que vale essa cor?
─ Cinquenta cêntimos? ─ pergunta o meu irmão.
Decidem-se por acrescentar cinco mil à lista. Já vamos em quarenta mil dólares. Mas eu tinha-me esquecido do quanto o meu pai gosta de imitar os sons dos pássaros. Consegue imitar qualquer um, mas a sua melhor imitação são as pombas de asas brancas, os corvos, os falcões de cauda ruiva e as codornizes. Também é bom a imitar águias e corujas de grandes bicos. Por isso, lá temos nós de acrescentar mais dez mil por termos a sorte de conviver com aves diurnas e nocturnas.
Risco a soma que tinha escrito e assento cinquenta mil dólares.
─ Agora vejamos quanto vale a nossa Filha da Montanha.
Decido entrar no jogo e sugiro que valho dez mil dólares, embora o meu irmão tenha começado a rir-se.
─ Não te subestimes ─ diz o meu pai. ─ Lembra-te daquelas listas fabulosas que nos fazes.
Tem razão. Faço listas dos melhores livros que cada um de nós leu, e dos que cada um denós quer ler de novo. Também fiz uma lista de todos os animais que cada um de nós viu e daqueles que mais queremos ver ─ ao ar livre, não num jardim zoológico.O animal que eu mais gostava de ver é o leão da montanha. Já sonhei com ele quatro vezese também já lhe vi o rasto. O meu pai escolheu o urso-pardo da América. A minha mãe quer ver um lobo e ouvi-lo uivar. O meu irmão hesita entre um golfinho e uma baleia. Lembro-me de todos porque sou eu que faço as listas. Acabam por achar que valho um milhão de dólares. Protesto, mas anoto a soma. Acabamos por decidir que cada um de nós vale um milhão de dólares. A soma de toda a nossa riqueza totaliza agora quatro milhões e quinhentos mil dólares. Dou-me conta de que quero adicionar cinco mil dólares pelo prazer que me causa vaguear pelo campo, sozinha, livre com um lagarto, sem ter de seguir trilhos, sem ter um plano, apenas pelo prazer de andar ao sabor do vento. A minha família acha que isso vale cinco mil. O que totaliza quatro milhões e cinquenta e cinco mil dólares. Por fim, o meu irmão quer ainda juntar sete dólares por todas as noites em que adormecemos ao ar livre, sob as estrelas. Pensamos que sete dólares são insuficientes e convencemo-lo a arredondar para cinco mil. A minha folha regista agora quatro milhões e sessenta mil dólares ─ e ainda nem sequer começámos a contar o nosso dinheiro em papel-
-moeda. Para ser franca, esse tipo de riqueza já não conta muito neste momento. Sugiro que nem faça parte da nossa lista de riquezas. E, assim, a reunião chega ao fim.
A família foi até lá fora ver o novo quarto de lua. Mas eu fiquei sentada à nossa querida mesa feita à mão, sobre a qual o prato de flores azuis da minha mãe conserva ainda um bolinho, e escrevo este livro sobre nós. Acaricio a mesa e fico contente por a termos. Acho que o título deste livro vai ser A Mesa do.
Byrd Baylor
The Table Where Rich People Sit
New York, Aladdin Paperbacks, 1998
Friday, January 04, 2008
HISTÓRIA DO ARCO-DA-VELHA
Quando o António de Sousa Mendes, passeando na floresta, encontrou dona Florinda Dos Santos, quedou-se espantadíssimo. Todos sabiam que dona Florinda dos Santos tinha sido promovida a bruxa de segunda, com equivalência a mágico de terceira.
Alegre com a sua nova categoria (quem o não estaria?!), pegou no saco dos desejos e disse a António de Sousa Mendes que retirasse três. Ele que não, que não, por quem era, tantos também não, que não merecia, não senhora. Tirou três.
Contente como um passarinho (1), António de Sousa Mendes chegou a casa, um espectacular apartamento de duas divisões – uma para dormir, outra para se lavar de pé, comer de pé, descansar de pé e sonhar de pé – e guardou dois desejos num saquinho de plástico o qual, meticulosamente, alfinetou ao forro do blusão.
1º. DESEJO
Com o primeiro desejo muito direitinho na mão e concentrado como convém a um aprendiz de feiticeiro, disse em voz alta, clara e quase imperiosa:
– Desejo habitar uma casa idêntica à maior parte das pessoas!
Imediatamente, entre duas explosões e três nuvens de fumo branco com estrelas azuis, António de Sousa Mendes viu-se confortavelmente instalado numa barraca counstruída com bidões da Standard Oil e bonitas janelas feitas de caixas de televisores Siera. Uma única divisão, sem latrina nem sanita, sem chuveiro, sem água, sem fogão nem chaminé.
----------
(1) – Os passarinhos nunca estão contentes porque não são mamíferos. Há mamíferos que também nunca estão contentes contudo, a expressão é muito bonita, não é?
2º. DESEJO
António de Sousa Mendes quedou-se triste com a sua primeira experiência e, maldosamente, sempre foi pensando se dona Florinda dos Santos não o estaria a desfrutar. Mas não. Arredou logo essa ideia da mente. Ela sempre se mostrara bondosa para com ele. Bondosa quando, em menino, lhe deu duas laranjas. Bondosa quando, em adulto, lhe deu os três desejos. Dona Florinda dos Santos não era péssima, se bem que as más-línguas se referissem, censurando, ao facto de ter transformado o marido em réptil anfíbio da ordem dos anuros e família dos buforídeos. Por raiva ou por outras razões, chamavam ao marido da dona Florinda dos Santos, após a transformação, de o sapo.
Bem, adiante.
António de Sousa Mendes, triste com a sua nova casa (1), retira o saquinho de plástico e espreita, atento. No fundo, a um cantinho, dois desejos saltitantes e bem frescos aguardavam. Com todo o cuidado pega no segundo desejo, coloca-o na mão estendida e diz:
– Daqui para o futuro quero ser feliz!
O desejo desapareceu, mas sem nuvens de fumo, nem explosões. Houve silêncio apenas. Quietude no seu lar. António olha em redor e vê, sentada num monte de listas amarelas, dona Florinda dos Santos. No bolso da blusa, aos pulos, o seu marido, o sapo.
– António de Sousa Mendes... és parvo!
– Sou, minha senhora.
– E, por seres parvo, já não ficas com o terceiro desejo. Dá cá!
Ele deu lá.
– Querias então ser feliz?!
– Bem... querer, queria.
– Não contes mais comigo. Isso não são coisas que se desejem. Creio mesmo que, por tua causa, já não serei promovida a bruxa de primeira, que me daria equivalência, nas coisas oficiais, a mágico de segunda.
Dona Florinda dos Santos desaparece levando o marido no bolso da blusa. António de Sousa Mendes vê-se com o saco de plástico vazio e naquela casa alatada. Desesperado, vai até à entrada, senta-se numa pedra e começa a uivar.
Felizmente, nesse momento, passa o Gustavo Picão, ferrador de profissão, que se comove e da lancheira retira um osso enorme que lhe oferece, gentil.
António de Sousa Mendes agora já sorri. No fundo, é tudo uma questão de hábito.
(1) – Que possuía, à entrada, um quadrinho bordado à mão, dizendo: “Tinbox, sweet tinbox.”
Alegre com a sua nova categoria (quem o não estaria?!), pegou no saco dos desejos e disse a António de Sousa Mendes que retirasse três. Ele que não, que não, por quem era, tantos também não, que não merecia, não senhora. Tirou três.
Contente como um passarinho (1), António de Sousa Mendes chegou a casa, um espectacular apartamento de duas divisões – uma para dormir, outra para se lavar de pé, comer de pé, descansar de pé e sonhar de pé – e guardou dois desejos num saquinho de plástico o qual, meticulosamente, alfinetou ao forro do blusão.
1º. DESEJO
Com o primeiro desejo muito direitinho na mão e concentrado como convém a um aprendiz de feiticeiro, disse em voz alta, clara e quase imperiosa:
– Desejo habitar uma casa idêntica à maior parte das pessoas!
Imediatamente, entre duas explosões e três nuvens de fumo branco com estrelas azuis, António de Sousa Mendes viu-se confortavelmente instalado numa barraca counstruída com bidões da Standard Oil e bonitas janelas feitas de caixas de televisores Siera. Uma única divisão, sem latrina nem sanita, sem chuveiro, sem água, sem fogão nem chaminé.
----------
(1) – Os passarinhos nunca estão contentes porque não são mamíferos. Há mamíferos que também nunca estão contentes contudo, a expressão é muito bonita, não é?
2º. DESEJO
António de Sousa Mendes quedou-se triste com a sua primeira experiência e, maldosamente, sempre foi pensando se dona Florinda dos Santos não o estaria a desfrutar. Mas não. Arredou logo essa ideia da mente. Ela sempre se mostrara bondosa para com ele. Bondosa quando, em menino, lhe deu duas laranjas. Bondosa quando, em adulto, lhe deu os três desejos. Dona Florinda dos Santos não era péssima, se bem que as más-línguas se referissem, censurando, ao facto de ter transformado o marido em réptil anfíbio da ordem dos anuros e família dos buforídeos. Por raiva ou por outras razões, chamavam ao marido da dona Florinda dos Santos, após a transformação, de o sapo.
Bem, adiante.
António de Sousa Mendes, triste com a sua nova casa (1), retira o saquinho de plástico e espreita, atento. No fundo, a um cantinho, dois desejos saltitantes e bem frescos aguardavam. Com todo o cuidado pega no segundo desejo, coloca-o na mão estendida e diz:
– Daqui para o futuro quero ser feliz!
O desejo desapareceu, mas sem nuvens de fumo, nem explosões. Houve silêncio apenas. Quietude no seu lar. António olha em redor e vê, sentada num monte de listas amarelas, dona Florinda dos Santos. No bolso da blusa, aos pulos, o seu marido, o sapo.
– António de Sousa Mendes... és parvo!
– Sou, minha senhora.
– E, por seres parvo, já não ficas com o terceiro desejo. Dá cá!
Ele deu lá.
– Querias então ser feliz?!
– Bem... querer, queria.
– Não contes mais comigo. Isso não são coisas que se desejem. Creio mesmo que, por tua causa, já não serei promovida a bruxa de primeira, que me daria equivalência, nas coisas oficiais, a mágico de segunda.
Dona Florinda dos Santos desaparece levando o marido no bolso da blusa. António de Sousa Mendes vê-se com o saco de plástico vazio e naquela casa alatada. Desesperado, vai até à entrada, senta-se numa pedra e começa a uivar.
Felizmente, nesse momento, passa o Gustavo Picão, ferrador de profissão, que se comove e da lancheira retira um osso enorme que lhe oferece, gentil.
António de Sousa Mendes agora já sorri. No fundo, é tudo uma questão de hábito.
(1) – Que possuía, à entrada, um quadrinho bordado à mão, dizendo: “Tinbox, sweet tinbox.”
Monday, December 31, 2007
ALENTEJO SEM FIM
Mão amiga ofereceu-me “Alentejo sem Fim”, livro de contos de João Luís Nabo.
Se outro mérito não tivesse, este livrinho fez-me recordar dois bons amigos já na outra margem do rio: Antunes da Silva e Manuel da Fonseca.
O livro foi de estreia (2004) e não conheço mais nada do escritor. Ele foi-me oferecido pelo título, pois que troquei, com grande felicidade, décadas de cidade por um pequeno monte alentejano equidistante de Évora e de Montemor.
Os contos (editados pela Editorial Tágide):
Certa estrutura de alguns contos fazem-me lembrar O.Henri – e isto é positivo. O conto “As Botas de Cristal” é bonito e, por isso, falso. Lastimo (e possivelmente o autor também) que tudo nele seja mentira: o mestre sapateiro chamado Celestino, o professor Abílio, o padre Elias e até os dois miúdos não existem na vida real. Infelizmente.
“A Aposta” tem um enredo que, há cerca de 20 anos, meu pai me contou. Passava-se, na sua versão, com um estudante de Coimbra, ficando a capa presa pelo prego na porta da igreja. Não tem mal algum. Antes João Luís Nabo dar-lhe letra de forma e estrutura escorreita (como está) do que andar como estorinha pelas bocas do mundo a entreter serões bocejantes nas salas de estar.
Se me fosse dada a missão de escolher, entre eles, um único para concurso literário, não hesitava n’ “O Funeral de Dona Capitolina”, pelo tema e pela forma cuidada com que está desenvolvido. Um bom conto.
Uma boa short story é “O Diário”. Talvez o final contrapontista do autor fosse desnecessário, por demasiados lugares comuns.Talvez.
É, pois, um livro que se lê com muito agrado. Gostava de ler mais obras do autor. Tenho sempre medo de obras únicas promissoras, como “Nós matámos o cão tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana.
A capa. É verdade, a capa.
Parece-me que a janela tem caixilharia em alumínio anodizado. Será?
Se é realmente alumínio, então o livro poderia chamar-se “Alentejo com fim à vista”.
Se outro mérito não tivesse, este livrinho fez-me recordar dois bons amigos já na outra margem do rio: Antunes da Silva e Manuel da Fonseca.
O livro foi de estreia (2004) e não conheço mais nada do escritor. Ele foi-me oferecido pelo título, pois que troquei, com grande felicidade, décadas de cidade por um pequeno monte alentejano equidistante de Évora e de Montemor.
Os contos (editados pela Editorial Tágide):
Certa estrutura de alguns contos fazem-me lembrar O.Henri – e isto é positivo. O conto “As Botas de Cristal” é bonito e, por isso, falso. Lastimo (e possivelmente o autor também) que tudo nele seja mentira: o mestre sapateiro chamado Celestino, o professor Abílio, o padre Elias e até os dois miúdos não existem na vida real. Infelizmente.
“A Aposta” tem um enredo que, há cerca de 20 anos, meu pai me contou. Passava-se, na sua versão, com um estudante de Coimbra, ficando a capa presa pelo prego na porta da igreja. Não tem mal algum. Antes João Luís Nabo dar-lhe letra de forma e estrutura escorreita (como está) do que andar como estorinha pelas bocas do mundo a entreter serões bocejantes nas salas de estar.
Se me fosse dada a missão de escolher, entre eles, um único para concurso literário, não hesitava n’ “O Funeral de Dona Capitolina”, pelo tema e pela forma cuidada com que está desenvolvido. Um bom conto.
Uma boa short story é “O Diário”. Talvez o final contrapontista do autor fosse desnecessário, por demasiados lugares comuns.Talvez.
É, pois, um livro que se lê com muito agrado. Gostava de ler mais obras do autor. Tenho sempre medo de obras únicas promissoras, como “Nós matámos o cão tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana.
A capa. É verdade, a capa.
Parece-me que a janela tem caixilharia em alumínio anodizado. Será?
Se é realmente alumínio, então o livro poderia chamar-se “Alentejo com fim à vista”.
Friday, December 14, 2007
VOCÊS ESCOLHEM O FINAL

O SAXOFONISTA
O Cláudio trabalhava numa firma de distribuição de correio e de encomendas mas sempre que tinha um tempinho livre, ia com o seu saxofone para o pé do Joelzinho, um mendigo do bairro, andrajoso e com as pernas torcidas como se as tivessem partido quando estava numa posição do Yoga. O Joelzinho era muito estimado no bairro mas Cláudio, por ser pobre, pouco o podia ajudar. Só tocando.
O Cláudio trabalhava numa firma de distribuição de correio e de encomendas mas sempre que tinha um tempinho livre, ia com o seu saxofone para o pé do Joelzinho, um mendigo do bairro, andrajoso e com as pernas torcidas como se as tivessem partido quando estava numa posição do Yoga. O Joelzinho era muito estimado no bairro mas Cláudio, por ser pobre, pouco o podia ajudar. Só tocando.
Ele sentava-se ao pé de uma grande árvore e estendia a mão.
O saxofonista amador punha-se então sentado a seu lado, num tronco horizontal da árvore e tocava. Nesses dias a receita do Joelzinho subia em flecha. Não podia era ser em todos.
Uma tarde de dueto – um pedia e o outro tocava -, disse o Joelzinho:
- Você, Cláudio, não pode tocar outras coisas?
- Não gosta do meu reportório?
- Não é isso.
- Então o que é?
- Está aqui um gajo, todo empenado, que só ouve do ouvido esquerdo, e você senta-se ao lado desse ouvido e toca invariavelmente as mesmas coisas… podia, ao menos, tocar do lado do outro…ou mudar de reportório…
Cláudio pensou, olhando para o instrumento. Depois disse:
- Eu já toquei o concerto para saxofone e orquestra de Aaron Copland, nos bons tempos…
- Você desculpe-me, Cláudio, mas o Aaron Copland nunca escreveu um concerto para saxofone e orquestra.
- Como é que você sabe, Joelzinho?
- Eu fui professor de Música.
- Foi professor de Música?! Você?!
- Não foi bem de música… fui professor de História da Música…
- Você foi professor de História da Música e está aqui a pedir esmola?!
O saxofone também olhou, admirado.
- É.
- Conte lá, puxa! Como é que você chegou até aqui.
- É simpático da sua parte não dizer “desceu até aqui”. Mas o caso ou acaso é que…
Meteu a mão no esfarrapado casaco e tirou uma pastilha de mentol. Com a mão boa, desembrulhou-a e meteu-a na boca. Chupou um bocadinho e contou:
- Dava aulas e apaixonei-me por uma aluna muito mais nova. Gabriela. Foi uma paixão doida. Passámos a viver juntos e éramos muito felizes. Depois tive um acidente de viação. Fiquei todo quebrado e ela morreu. Levei seis meses no hospital para recuperar… recuperar isto que você vê. Mas tive logo que fugir no dia da alta do hospital pois o pai da Grabriela queria matar-me. Não o podia enquanto eu estava rodeado de médicos, enfermeiros e seguranças. Mas depois podia. O hospital está a mais de mil e quinhentos quilómetros daqui. Vim com o dinheiro do seguro que logo acabou.
- Essa é obra, amigo! Há quanto tempo foi isso? O desastre.
- Há oito anos, 4 meses e seis dias.
- E a culpa foi sua?
- Foi de ambos. Estávamo-nos a beijar.
- Áh!
- Sei que ele tem vindo atrás do meu rasto. Um dia apanha-me.
- Nem pense isso! Ele já se esqueceu.
- Ele era de ideias fixas como um touro e disse uma coisa em que acreditei: “Eu vou até ao fim do mundo para o liquidar!” Não disse “matar”. Disse “liquidar”, o que demonstra muito mais determinação.
O Cláudio tinha de fazer e viu também que o concerto de hoje já estava estragado. Abriu o estojo e guardou o saxofone. Levantou-se e sacudiu as calças das notas que tinham caído do instrumento e que, por isso, não foram tocadas. Depois pisou-as sem dar por isso.
Foi quando o Joelzinho se agitou e disse alto:
- E é precisamente hoje.
O saxofonista viu logo um homem possante a aproximar-se deles com uma carabina na mão.
- É o pai da Gabriela – disse o Joelzinho, sem necessidade.
1º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, enquanto o outro disparava. Caíram. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele.
Porque o saxofonista estava morto com um tiro em pleno peito.
2º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, com o estojo contra o peito seguro pelas duas mãos. O touro disparou e o Cláudio caiu sobre o Joelzinho. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele. Cláudio então levantou-se a custo, olhando horrorizado para o estojo desfeito e o saxofone furado pela bala que era para Joelzinho.
Ficou vivo mas sem saxofone.
O saxofonista amador punha-se então sentado a seu lado, num tronco horizontal da árvore e tocava. Nesses dias a receita do Joelzinho subia em flecha. Não podia era ser em todos.
Uma tarde de dueto – um pedia e o outro tocava -, disse o Joelzinho:
- Você, Cláudio, não pode tocar outras coisas?
- Não gosta do meu reportório?
- Não é isso.
- Então o que é?
- Está aqui um gajo, todo empenado, que só ouve do ouvido esquerdo, e você senta-se ao lado desse ouvido e toca invariavelmente as mesmas coisas… podia, ao menos, tocar do lado do outro…ou mudar de reportório…
Cláudio pensou, olhando para o instrumento. Depois disse:
- Eu já toquei o concerto para saxofone e orquestra de Aaron Copland, nos bons tempos…
- Você desculpe-me, Cláudio, mas o Aaron Copland nunca escreveu um concerto para saxofone e orquestra.
- Como é que você sabe, Joelzinho?
- Eu fui professor de Música.
- Foi professor de Música?! Você?!
- Não foi bem de música… fui professor de História da Música…
- Você foi professor de História da Música e está aqui a pedir esmola?!
O saxofone também olhou, admirado.
- É.
- Conte lá, puxa! Como é que você chegou até aqui.
- É simpático da sua parte não dizer “desceu até aqui”. Mas o caso ou acaso é que…
Meteu a mão no esfarrapado casaco e tirou uma pastilha de mentol. Com a mão boa, desembrulhou-a e meteu-a na boca. Chupou um bocadinho e contou:
- Dava aulas e apaixonei-me por uma aluna muito mais nova. Gabriela. Foi uma paixão doida. Passámos a viver juntos e éramos muito felizes. Depois tive um acidente de viação. Fiquei todo quebrado e ela morreu. Levei seis meses no hospital para recuperar… recuperar isto que você vê. Mas tive logo que fugir no dia da alta do hospital pois o pai da Grabriela queria matar-me. Não o podia enquanto eu estava rodeado de médicos, enfermeiros e seguranças. Mas depois podia. O hospital está a mais de mil e quinhentos quilómetros daqui. Vim com o dinheiro do seguro que logo acabou.
- Essa é obra, amigo! Há quanto tempo foi isso? O desastre.
- Há oito anos, 4 meses e seis dias.
- E a culpa foi sua?
- Foi de ambos. Estávamo-nos a beijar.
- Áh!
- Sei que ele tem vindo atrás do meu rasto. Um dia apanha-me.
- Nem pense isso! Ele já se esqueceu.
- Ele era de ideias fixas como um touro e disse uma coisa em que acreditei: “Eu vou até ao fim do mundo para o liquidar!” Não disse “matar”. Disse “liquidar”, o que demonstra muito mais determinação.
O Cláudio tinha de fazer e viu também que o concerto de hoje já estava estragado. Abriu o estojo e guardou o saxofone. Levantou-se e sacudiu as calças das notas que tinham caído do instrumento e que, por isso, não foram tocadas. Depois pisou-as sem dar por isso.
Foi quando o Joelzinho se agitou e disse alto:
- E é precisamente hoje.
O saxofonista viu logo um homem possante a aproximar-se deles com uma carabina na mão.
- É o pai da Gabriela – disse o Joelzinho, sem necessidade.
1º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, enquanto o outro disparava. Caíram. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele.
Porque o saxofonista estava morto com um tiro em pleno peito.
2º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, com o estojo contra o peito seguro pelas duas mãos. O touro disparou e o Cláudio caiu sobre o Joelzinho. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele. Cláudio então levantou-se a custo, olhando horrorizado para o estojo desfeito e o saxofone furado pela bala que era para Joelzinho.
Ficou vivo mas sem saxofone.
(Estorinha inédita. Ilustração do site gifmania.com.pt)
Saturday, December 08, 2007
SANDOKAN, O TIGRE DA MALÁSIA
Andávamos a preparar há um mês o primeiro folhetim radiofónico da Rádio Moçambique. Várias sugestões foram consideradas, ponderadas, relidas. A nossa memória foi buscar ao sótão, entre poeiras e teias de aranha, logo à entrada, Ponson du Terrail, Victor Hugo, o pai e o filho Dumas, Jules Verne, além de outros. No meio ou entretanto, vinham achegas de todos os lados, sugestões, pareceres, e perguntas. Muitas. Tema moderno ou antigo? Político ou aventuroso? Com muitos beijos à mistura como nos filmes de aventuras ou não?Finalmente, fizemos uma ampla lista que apresentámos vaidosos à consideração superior. Tendo ela decidido e bem por uma obra e autor não citados na longa e estafante lista: Sandokan, O Tigre da Malásia, de Emílio Salgari.
Toda a equipa ficou tão contente com esta escolha como se tivesse de novo descoberto a penicilina. Possuía tudo o que era necessário; todos os ingredientes clássicos e imortais: amor, intriga, ciúme, traição, morte, luta contra os poderosos, combates marítimos, tiros, beijos, arrebatamentos patrióticos e amorosos, tendo até um toque de cultura ocidental com a Pérola de Labuan, uma menina inglesa de alta estirpe e estonteante beleza, a estudar o Fur Elise, de Beethoven, no piano que havia na mansão do governador inglês. Querem melhor?
Reuniu-se então uma equipa para fazer a adaptação, nela figurando o poeta e jornalista Leite Vasconcelos que, com muito humor, dizia que pertencia à Frelima, a Frente de Libertação da Malásia. Por esta sua graça, foi-lhe atribuído o papel de Lord Brooks, que desempenhou com muita elegância e, obviamente, “british style”.
Muitas e interessantes situações ocorreram durante as gravações mas uma das mais relevantes foi a fuga pela floresta de Sandokan, seguido de perto, se bem me lembro, por Tremal-Naik. Ele, para conseguir correr, tinha de abrir caminho à catanada à direita e à esquerda, vigorosamente. Fomos então gravar, comandados pelo sonoplasta Carlos Silva, para a zona de eucaliptos nos terrenos da Feira Internacional. Aliás, do outro lado da rua. Então, o que é que o povo viu, parado, espantado, confuso e boquiaberto? Um respeitável senhor de cabelo branco, à frente, com um ferro na mão a dar pancada nas árvores à direita e à esquerda, um técnico de som a captar com um gravador portátil, um ajudante e, a fechar, o realizador. Todos berravam, arfavam, corriam às voltas das árvores e suavam… As pessoas assistiam e por certo pensavam que éramos doidos ou que se tratava do ritual de uma nova seita contra a natureza, pois pancada nas árvores não faltava.
Um menino dos seus dez anos que vinha pelo trilho dos eucaliptos com uma gaiola de pássaros na mão, estava estático, sem saber se deveria agachar-se para não ser visto ou atirar a gaiola fora e desatar a fugir com quanta força tivesse. E os olhos dele por certo já tinham visto muita coisa ruim.
Conseguimos fazer a gravação antes da chegada da polícia.
Contudo, a mais “significativa” situação passou-se no último andar da Rádio Moçambique: no enorme salão de festas, que permitiu a gravação de um som necessário ao longo de vários episódios, principalmente nas abordagens e no final das reuniões com Sandokan. Como se necessitava de muitas vozes (não sabíamos ao certo quantas pessoas levava um parau), o mesmo sonoplasta já referido foi buscar todo o pessoal masculino da discoteca, mais os companheiros que foi encontrando pelo caminho. No final eram cerca de 30 ou mais os tigres que, bem-dispostos, fizeram a abordagem ao salão de festas.
Estes candidatos a lugar-tenente de Sandokan, tinham de berrar várias vezes, a plenos pulmões, “Morte aos Ingleses”, com mais gana e força que o povo português nas ruas, em 1891, aquando do ultimato.
E começou-se a gravação, com várias repetições, como sempre acontece. Estava tudo a ir bem quando alguém se lembrou de que tínhamos as janelas todas abertas, para não haver eco, e do outro lado da rua estavam os Ingleses, por certo a tomar chá gelado na sua Embaixada, rodeada de jardins copiados de Kensington. Parámos precisamente quando à porta surgiu a cabeça de um segurança, com a arma na mão, a olhar espantado e ofegante para nós. Tinha ouvido, no piso térreo, os nossos berros e subido as escadas a correr.
Explicámos o que se passava e o porquê daquela gritaria. Compreendeu perfeitamente, mas afastou-se a abanar a cabeça e a murmurar: “Morte aos Ingleses? Porquê?”
(In TempoLivre, revista do Inatel. Ilustração do Google)
Wednesday, December 05, 2007
SERÁ PARA TODA A VIDA?

Um frigorífico novo é como uma nova paixão. Há pétalas de flores que pousam em nós, música ao longe com violinos, e borboletas que voam à nossa volta. Quando chegam amigos ou familiares, levam-se à cozinha e apresenta-se-lhes o novo habitante. Com vaidade. Abre-se-lhe a porta. Explica-se o que o vendedor explicou. Passa-se o antebraço pelo fecho para se lhe retirar as impressões digitais e dar-lhe mais forte brilho. Hein?! Um espanto, não é? Reparem como o espaço está todo aproveitado, como num ovo! E que bonito...olha aqui.
Um ano depois nem se lhe dá os bons-dias. E quando não há leite, ainda se lhe atira com a porta à cara. Por isso, quando me disseram que aquele frigorífico GE era “para toda a vida”, pensei “que desgraçado”. Ele e eu. Termo-nos de aturar toda a vida. Apesar disso, foi para nossa casa. E ele, calmo, bem-educado e bem-parecido, foi-se deixando ficar.
Os ciclos do frigorífico foram-se fazendo, tal como a vida foi correndo, as filhas nascendo e logo no dia seguinte pedindo dinheiro para cadernos, tempos em que acreditávamos nas estações do ano tal como Vivaldi. Depois uns saíram para ir ali, outros para ir acolá, novas vidas a construir-se em viveiros distantes, favos da mesma colmeia mas separados, não esquecendo, pelo meio, o inefável estudo de piano e as guerras em todo o lado.
Passados quarenta anos, continuava o frigorífico precisamente no mesmo sítio. Em algumas zonas com as marcas da idade: erupções castanhas na pele, fecho sem brilho prateado, marcas redondas na parte superior, onde jarras viveram bocejando, anos em equilíbrio estável mas por vezes trémulo. Mas não se queixava. Depois foi desligado da parede e a porta ficou dois dedos aberta “para arejar”. Assim ficou, com as entranhas às escuras e ele de braços caídos, espectante.
Quando uma das filhas disse que ia comprar um frigorífico, lembrei-lhe:
– Tens o da mamã.
– Está tão velho...
– Não trabalha?
– Muito bem, mesmo.
– Então...
E o frigorífico para toda a vida foi à oficina para automóveis do senhor João, numa localidade próxima de Frielas e este, com muita sabedoria e talvez um pouco de ternura (quero acreditar que sim), pintou-o como se fosse um automóvel. Ficou lindo. Novo. Sem rugas, brilhante. Uma plástica completa. Até se ria quando o fomos buscar.
Pois na nova casa da filha, ele passou a ser a estrela da companhia. Nem os móveis chineses rivalizavam com aquele old fashion frig. As visitas entravam na cozinha e ficavam paradas a olhar embevecidas e ele, qual mordomo inglês ou guarda da rainha, imperturbável, digno, mas sorrindo de contente.
De vez em quando eu tinha oportunidade de estar a sós com ele e dizia-lhe, fazendo-lhe uma festa cúmplice, estás bonito e trabalhas bem. E ele modestamente respondia-me, baixinho, faço o que posso...
A Terra deu mais umas voltas, talvez contrariada.
Vieram mais três guerras novas mas não se acabando senão com uma das antigas, que os fabricantes de armamento e os grandes políticos também têm de viver, coitados.
E o frigorífico para toda a vida, por razões várias, viajou para a Praia das Maçãs e ficou mudo e quedo na garagem de uma moradia, na companhia da tralha. Aquela que todos conhecemos. Perdeu então o seu porte erecto, digno. E, para não dar nas vistas, encolhia-se quando o carro entrava para se abrigar. Já não queria fazer-se notado e talvez pensasse que estava para breve o seu fim.
Foi quando a Terra deu mais umas voltas e se precisou no Alentejo de um frigorífico. Para mim. E foi com emoção que lhe fechei a porta na Praia das Maçãs, o embrulhei num enorme cobertor (daqueles que nos protegem dos raios) e o levei até um modesto e pequeno monte entre Évora e Montemor-o-Novo.
Está ali, na cozinha a olhar-me. Eu, aqui do computador, vejo-o de vez em quando estremecer. Não sei se é do final de um ciclo ou de prazer. Já nos conhecemos e estimamos há 48 anos. E penso às vezes que, quando a Terra der uma determinada volta e eu for obrigado a retirar-me, ele ficará ali ou para toda a vida ou aguardando que alguém lhe feche os olhos.
Monday, December 03, 2007
OS GRANDES SAFARIS AOS GALA-GALAS
A minha vizinha e amiga Leonor, ouvindo-me falar de olho a luzir em gala-galas, quis saber mais sobre o bicho. Escrevi este textinho que agora recuperei, porque estou numa da infância. Tende lá paciência!
Eu tinha oito anos e vivia com os meus irmãos mais velhos e com os pais em Lourenço Marques, antiga capital de Moçambique e às vezes eu ouvia eles dizerem que iam caçar gala-galas.
Ficava ansioso por os acompanhar, mas não me levavam. Eu era o mais novo e uma menina era a mais velha. Explico melhor: éramos quatro irmãos - e a mais velha era uma menina. Portanto, eu, o mais novo, era assim uma coisa, como um gato ou um cão, que se estima e a quem se faz festas e se dá beijinhos mas não importância.
Quando os gloriosos guerreiros voltavam dos safaris, eu ia ver o que tinham caçado e era sempre nada - e eu, por vingança, ficava todo contente.
Mas uma vez eles disseram “vem daí”, generosidade afectiva que bem me soube. E lá fui todo contente.
Ora bem. Primeiro, como se caça gala-galas? É importante que vocês saibam como é mas, primeiro que tudo, o que é um gala-gala?
Pois um gala-gala é um simpático lagarto de grande cabeça verde-azul, que atravessa as ruas a grande velocidade, que mantém sempre a cabeça bem erguida, como se fosse um bicho importante e que, se lhe cantarmos, ele dança todo contente. Não acreditam? É verdade!
Vamos então à caça.
Como se caça um gala-gala? Com uma sarabatana. Mas que coisa é essa? Fazemos assim: arranjamos uma cana direitinha, furamos os nós interiores com um arame ou um ferro, sopramos bem e temos o chamado tubo. Depois pedimos à mãe umas agulhas e arranjamos daquele papel muito fininho, papel de seda. Com bocadinhos deste papel fazemos cones muito bem enrolados e, na extremidade, põe-se a agulha. Era a “bala”.
Depois metia-se a “bala” no “cano” que, neste caso era a cana, e estávamos prontos a ir à guerra e a matar rinocerontes, leões e... os pobres gala-galas.
Como dispara? É assim: uma ponta da cana (a que tem lá dentro a “bala”) encosta-se à boca. A outra extremidade da cana aponta-se ao animal selvagem que queremos abater e, enchendo o peito de ar, sopramos com quanta força tenhamos. E lá vai a mortalha com a agulha na ponta, direita ao alvo. Não é verdade! Pelo menos no caso dos gala-galas, nunca ia direita ao alvo; nunca acertava!
Eu não tinha idade para possuir uma arma tão importante como uma sarabatana, mas fui todo contente com os meus irmãos.
Andámos pelos subúrbios toda a manhã, com os meus irmãos gesticulando para mim, impondo silêncio, caminhando devagar como os cães perdigueiros, “disparando balas mortíferas”, que voavam habilidosamente por entre as árvores sem atingir qualquer alvo, os gala-galas fugindo a rir como uns perdidos, e depois regressámos a casa sem glória nem troféus.
Fomos mais vezes. Várias vezes. Uma com dois vizinhos. Uma autêntica batida aos gala-galas. Um safari cuidadosamente preparado entre quinta-feira e sábado, com ensaio das sarabatanas, prática de tiro ao alvo e escolha criteriosa das melhores agulhas da nossa mãe e das mães dos outros corajosos caçadores. Escolheram-se canas, fizeram-se “balas” em quantidade, soprou-se a valer pelas canas. Uma aventura muito bem preparada. Ir-se-ia para mais longe nesse sábado: iríamos para a zona do Instituto de Meteorologia, onde, segundo um rapaz que era filho, precisamente, de um meteorologista, havia mais gala-galas do que em qualquer outro ponto de Moçambique.
Pois nada! Felizmente ninguém, alguma vez, caçou um gala-gala. Andámos lá até às tantas, não caçamos nada e, quando chegámos a casa mais tarde que tarde, não tivemos direito ao almoço, sábio castigo da mãe. Fim do grande safari!
(Pois, como já dissemos, o gala-gala dança. Se um grupo de crianças rodear um gala-gala e, ao ritmo de palmas, lhe cantar
“Gala-gala lhokuene
Gala-gala lhokuene”,
ele agitará o tronco de um lado para o outro e abanará a cabeça sempre bem levantada.)
Eu tinha oito anos e vivia com os meus irmãos mais velhos e com os pais em Lourenço Marques, antiga capital de Moçambique e às vezes eu ouvia eles dizerem que iam caçar gala-galas.
Ficava ansioso por os acompanhar, mas não me levavam. Eu era o mais novo e uma menina era a mais velha. Explico melhor: éramos quatro irmãos - e a mais velha era uma menina. Portanto, eu, o mais novo, era assim uma coisa, como um gato ou um cão, que se estima e a quem se faz festas e se dá beijinhos mas não importância.
Quando os gloriosos guerreiros voltavam dos safaris, eu ia ver o que tinham caçado e era sempre nada - e eu, por vingança, ficava todo contente.
Mas uma vez eles disseram “vem daí”, generosidade afectiva que bem me soube. E lá fui todo contente.
Ora bem. Primeiro, como se caça gala-galas? É importante que vocês saibam como é mas, primeiro que tudo, o que é um gala-gala?
Pois um gala-gala é um simpático lagarto de grande cabeça verde-azul, que atravessa as ruas a grande velocidade, que mantém sempre a cabeça bem erguida, como se fosse um bicho importante e que, se lhe cantarmos, ele dança todo contente. Não acreditam? É verdade!
Vamos então à caça.
Como se caça um gala-gala? Com uma sarabatana. Mas que coisa é essa? Fazemos assim: arranjamos uma cana direitinha, furamos os nós interiores com um arame ou um ferro, sopramos bem e temos o chamado tubo. Depois pedimos à mãe umas agulhas e arranjamos daquele papel muito fininho, papel de seda. Com bocadinhos deste papel fazemos cones muito bem enrolados e, na extremidade, põe-se a agulha. Era a “bala”.
Depois metia-se a “bala” no “cano” que, neste caso era a cana, e estávamos prontos a ir à guerra e a matar rinocerontes, leões e... os pobres gala-galas.
Como dispara? É assim: uma ponta da cana (a que tem lá dentro a “bala”) encosta-se à boca. A outra extremidade da cana aponta-se ao animal selvagem que queremos abater e, enchendo o peito de ar, sopramos com quanta força tenhamos. E lá vai a mortalha com a agulha na ponta, direita ao alvo. Não é verdade! Pelo menos no caso dos gala-galas, nunca ia direita ao alvo; nunca acertava!
Eu não tinha idade para possuir uma arma tão importante como uma sarabatana, mas fui todo contente com os meus irmãos.
Andámos pelos subúrbios toda a manhã, com os meus irmãos gesticulando para mim, impondo silêncio, caminhando devagar como os cães perdigueiros, “disparando balas mortíferas”, que voavam habilidosamente por entre as árvores sem atingir qualquer alvo, os gala-galas fugindo a rir como uns perdidos, e depois regressámos a casa sem glória nem troféus.
Fomos mais vezes. Várias vezes. Uma com dois vizinhos. Uma autêntica batida aos gala-galas. Um safari cuidadosamente preparado entre quinta-feira e sábado, com ensaio das sarabatanas, prática de tiro ao alvo e escolha criteriosa das melhores agulhas da nossa mãe e das mães dos outros corajosos caçadores. Escolheram-se canas, fizeram-se “balas” em quantidade, soprou-se a valer pelas canas. Uma aventura muito bem preparada. Ir-se-ia para mais longe nesse sábado: iríamos para a zona do Instituto de Meteorologia, onde, segundo um rapaz que era filho, precisamente, de um meteorologista, havia mais gala-galas do que em qualquer outro ponto de Moçambique.
Pois nada! Felizmente ninguém, alguma vez, caçou um gala-gala. Andámos lá até às tantas, não caçamos nada e, quando chegámos a casa mais tarde que tarde, não tivemos direito ao almoço, sábio castigo da mãe. Fim do grande safari!
(Pois, como já dissemos, o gala-gala dança. Se um grupo de crianças rodear um gala-gala e, ao ritmo de palmas, lhe cantar
“Gala-gala lhokuene
Gala-gala lhokuene”,
ele agitará o tronco de um lado para o outro e abanará a cabeça sempre bem levantada.)
Friday, November 30, 2007
Kruger Park
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