Friday, March 20, 2009
CÃES A ENLOUQUECER
Ao fim destes anos todos, concluí que se trata de um acordo entre eles como vingança pelo mal que os homens lhes fazem. Então, ladram. Muito. Das varandas para os que vão no jardim(?). Os do jardim(?) para os que estão nas varandas. Alguns, com mais personalidade, uivam. E há a grande confusão dos donos. Os animais não são domésticos; são domesticados. Eram primitivamente selvagens e o homem domesticou-os (algumas raças). O que não lhe permite levá-los para dentro de um apartamento em plena cidade e deixá-los na varanda, pedindo-lhes que se imaginem no campo, numa quinta, numa floresta ou pinhal. Mas ainda afirmam que amam os animais quando, afinal, lhes estão a roubar o seu habitat, impondo-lhes condições degradantes até para um cão. Alguns, da maneira como nos olham e se movimentam, devem já estar meio-loucos. Talvez em mutação.
Há então um, já desesperado que, mal se vê no largo, corre para uma pedra que baliza os jogos dos rapazes e lhe ladra para debaixo, cheirando, ladrando, raspando, fungando, fingindo que ali está uma entrada de furão ou de coelho. É a maneira que o bicho encontrou de não enlouquecer de todo.
Agora o leitor junta a este regabofe canino (diário e desde a manhã até às 22 horas), os dejectos por todo o lado e os tiros, também de manhã à noite, num clube de tiro aos pratos, em Monsanto (zona de protecção ecológica).
Às vezes há crianças a brincar numa caixa de areia onde os cães urinam e defecam. Às vezes lancham sem lavar as mãos.
Consegue imaginar?
Wednesday, February 04, 2009
TROVOADA À ESQUERDA
Os livros tinham o preço mínimo de um escudo e o máximo de dois. Havia, porém, umas promoções (financiadas possivelmente pelo Ministério da Cultura): dois livros pelo preço de um. Ele sabia perfeitamente a que livros deveria botar o preço de um ou de dois escudos. Mesmo que os não lesse, pois não lia, obviamente. Aliás, desconfiei durante muitos anos que o presidente do Movimento, e seu principal dinamizador, fosse analfabeto, o que estaria então politicamente correcto.
Como, à época, só tinha dinheiro para o pequeno-almoço e para o almoço, bisbilhotava assiduamente a livralhada, sob o olhar aparentemente desatento do mal-enjorcado, e só ali podia encontrar as novidades literárias que ao fim de um ano não se tinham vendido e alguns restos de colecções, de que os editores se desfaziam para obter espaço no armazém.
Uma vez, por um escudo, comprei um livro chamado “E deitaram fogo ao Planeta”, escrito por um senhor que assinava discretamente J. Matias. A história era simples: um indivíduo com febre altíssima, tinha um pesadelo em que a humanidade, devido à sua sofreguidão em destruir, arrasando florestas e poluindo rios, mares e ares, lançara fogo ao Planeta. Um livro que, a ser publicado hoje, teria actualidade e por certo sucesso, além do patrocínio da Quercos.
Ora vai daí, eu tinha um professor de Física e de Química que se chamava Jorge Matias – um homem inteligentíssimo, culto e de esquerda, obviamente. Abordei-o na primeira oportunidade, perguntando-lhe se era o autor. Disse que não mas descaiu-se ao perguntar, já a dois passos de distância, se eu havia gostado. Cerca de um ano mais tarde voltei ao ataque e o resultado foi novamente negativo. Mas estava na cara que era dele já que o livro denunciava amplos conhecimentos científicos, como era o seu caso, autor dos manuais das disciplinas que leccionava e tinha uma linguagem que se aproximava muito com a utilizada nas aulas.
Numa Sexta-Feira de Alegria, desatinei e comprei dois livros: um de Artur Portela (na altura era Filho mas agora é Órfão), intitulado “A Funda”, e um de Cristopher Morley, que eu desconhecia mas cujo título, em inglês e português, me chamou a atenção: “Trovoada à Esquerda”, da Editorial Gleba, lda. E que livro! – comi-o todo no fim-de-semana, com capa dura e tudo! Uma obra-prima que tanto, mas tanto, publicitei aos amigos que fiquei sem ela. O livro conta uma história simples e profunda. Uma história que começa na meninice e acaba nos trinta e tal anos. Um casal que recebe, na sua casa de férias, uns amigos para o fim-de-semana. Num Verão quente e com trovoada. À esquerda. Várias vidas entrosadas, jogos de espelhos, a riqueza interior de cada ser. “A vida é uma língua estrangeira; poucos a pronunciam correctamente.”
E foi mesmo assim: cinquenta anos depois, a minha amiga Maria de Lourdes arranja-me o livro (com a ajuda de um feiticeiro africano morador em Algés) e abracei-o e reli-o e folheei-o encantado. Então notei que tinha a mesma página 90 suja de tinta tipográfica, tinha a mesma página mal guilhotinada na 181 e o mesmo nome apagado com violência na página um. Em resumo: era o meu, que voltara por amor.
Álvaro Belo Marques
(In TempoLivre, de Fevereiro de 2009
Monday, February 02, 2009
O BAIRRO DA LATA
da ida dos rapazes â caça das rãs e de como o Gay é louvado no final.
Devem estar recordados que o Gay ingressou no grupo quando saiu de casa por
a mulher lhe bater.
O modelo t Ford de Lee Chong possuía uma história
respeitável Em 1923 fora carro de turismo do Dr. W. T.
Waters. Este
utilizou-o durante cinco anos e vendeu-o depois a um agente
de seguros de nome Rottle. Mr. Rottle não era homem
cuidadoso. Conduzia à bruta o carro que adquirira em óptimo
estado. Mr. Rottle bebia nas noi tes de sábado e o carro
ressentia-se. Amolgaram-se e partiram-se o; guarda-lamas. O
abuso dos travões forçava à substituição frequente das cintas.
Quando Mr. Rottle desviou o dinheiro de um cliente e fugiu na
companhia de uma loura espampanante, foi apanhado e engaiolado
no espaço de dez dias. A carroçaria estava tão amachucada que
o novo proprietário cortou-a em duas e acrescentou-lhe uma
pequena caixa de camião.
O proprietário seguinte tirou-lhe a parte dianteira da
cabina e o pára-brisas. Servia-se dele para arrancar
percebes e regalava-se com a brisa fresca na cara.
Chamava-se Francis Almones e levava vida triste, pois ganhava
sempre menos uma fracção do que precisava para viver. O pai
deixara-lhe uns dinheiritos, mas ano após ano, mês após mês,
por mais que Francis trabalhasse, por mais cuidado que
tivesse, o dinheiro ia diminuindo, até que por fim secou de
todo, sumiu-se. Lee Chong recebera a camioneta em troca de
uma conta da mercearia. Por essa altura o carro não era mais
do que quatro rodas e um motor; e este tão emperrado, tão
embezerrado e caturra, que requeria cuidados e estudos
especializados.
Lee Chong não lhos proporcionava, do que resultava
permanecer o carro na relva por trás da mercearia quase sempre
com abóboras a crescerem-lhe entre os raios. Tinha pneus
sólidos nas rodas traseiras
e uns cepos erguiam do chão as da frente.
É provável que qualquer dos rapazes do Palácio Flophouse
pudesse pôr o carro em boa forma, pois eram todos mecânicos
competentes e com prática, mas Gay era um mecânico inspirado.
Não há termo aplicável a semelhante mecânico que se compare a
mãos de fada, mas devia haver. Porque existiam homens capazes
de ver, ouvir, sondar, ajustar, e a máquina funciona. Na
verdade, há homens nas mãos dos quais um motor funciona
melhor. Assim era Gay. Os seus dedos sobre um distribuidor ou
um parafuso de afinação do carburador eram leves, seguros,
conhecedores. Conseguira consertar os delicados motores
eléctricos no Laboratório. Podia, se quisesse, ter sempre
trabalho nas fábricas, pois nessa indústria, onde amargamente
se queixam quando não realizam cada ano o total do capital em
lucros, são muito menos importantes as máquinas do que as
declarações fiscais. De facto, se fosse possível enlatar
sardinhas com relatórios, os donos ficariam imensamente
felizes. Assim, empregavam uns velhos horrores de máquinas
decrépitas, trepidantes, necessitando dos cuidados constantes
de um homem como Gay. Mack fez os rapazes levantarem-se
cedo. Tomaram o seu café e dirigiram-se logo para onde o carro
se encontrava, entre as ervas. Gay superintendia. Deu uns
pontapés nas rodas encalhadas da frente.Vão pedir uma bomba
emprestada e encham-me isso - disse. A seguir meteu um pau no
reservatório da gasolina por baixo da prancha que servia de
assento. Por milagre havia meia polegada de gasolina no
reservatório. Depois Gay passou revista às dificuldades mais
prováveis. Tirou fora as caixas das bobinas, raspou os
platinados, ajustou a folga e voltou a colocá-los nos seus
lugares. Abriu o carburador para certificar-se de que a
gasolina chegava lá. Deu à manivela para ter a certeza de que
a cambota não gelara de todo e os pistões não estavam
enferrujados.
Entretanto chegou a bomba e Eddie e Jones, revezando-se,
encheram os pneus. Gay cantarolava - tum-ta ta, tum-ta ta -
enquanto trabalhava. Tirou as velas, limpou os eléctrodos e
raspou o carvão. Depois escorreu um pouco da gasolina para uma
lata e deitou alguma em cada um dos cilindros antes de colocar
as velas novamente nos seus lugares. Endireitou-se. - A gente
vai precisar dum par de pilhas secas - disse.
Vê se consegues quo Lee Chong tas dê.
Mack partiu e voltou quase a seguir com um não universal,
destinado por Lee Chong a cortar quaisquer pedidos futuros.
Gay reflectiu intensamente. - Sei ondhá um par delas, bem boas
por sinal, mas eu cá não vou buscá-las.
- Ondé? - perguntou Mack.
- Na cave lá de casa - disse Gay. - São as que fazem
funcionar as campainhas da entrada. Sum de vocês se esgueirar
té à cave sem a minha patroa dar por isso, stão ao cimo, no
tabique à esquerda de quem entrar. Mas pormor de Deus não se
deixem apanhar pla patroa. Em conferência, elegeram Eddie
para ir, e ele partiu. - Se fores apanhado não fales em mim -
gritou-lhe Gay à partida. Entretanto experimentava as cintas.
O pedal alto e baixo não tocava no chão, por isso concluiu que
lhe restava ainda alguma cinta. O pedal do travão, esse sim,
encostava completamente no chão, portanto não havia travão;
mas o pedal de marcha-atrás ainda conservava muita cinta por
gastar. No modelo T do Ford o pedal de marcha-atrás é a tábua
de salvação. Quando falha o travão pode utilizar-se a
marcha-atrás em sua substituição. E quando a cinta de
velocidade baixa está gasta de mais para se poder subir uma
ladeira íngreme, então pode dar-se a volta ao carro e metê-lo
em marcha-atrás. Gay verificou que a marcha-atrás estava em
bom estado e tinha a certeza de que tudo correria bem.
Foi de bom augúrio ter o Eddie regressado sem novidade com
as pilhas. Mrs. Gay encontrava-se na cozinha. Eddie ouviu-a a
andar de um lado para o outro, mas ela não ouviu o Eddie.
Tinha um jeitão para coisas destas o Eddie.
Gay ligou as pilhas, acelerou a gasolina e atrasou a
ignição. - Dá à manivela - disse ele.
Um portento, era este Gay - um mecanicozinho de Deus, o S.
Francisco de todas as coisas que rodam, torcem, explodem, o S.
Francisco das bobinas, das cambotas e dos carretos. E se algum
dia toda a caterva de calhambeques avariados, Lusenbergs,
Buicks, De Sottos e Plymouths, Austins americanos e Isotta
Fraschinis elevarem num grande coro os seus louvores a Deus -
será em grande parte devido a Gay e à sua confraria.
Um jeito, só um jeitinho, e o motor pegou, funcionou, falhou
e tornou a pegar. Gay avançou a ignição e desacelerou: Ligou
ao magneto e o Ford do Lee Chong gorgolejou, tremelicou e
estrondeou feliz como se soubesse que trabalhava para alguém
que o amava e compreendia.
Thursday, January 29, 2009
AMAZING, NOTE DATE
Karl Marx, Das Kapital, 1867
Monday, January 26, 2009
´SÓCRATES
Anton Tchekov
Wednesday, January 21, 2009
HISTÓRIA DA "ÚLTIMA CEIA", DE LEONARDO
No primeiro instante o homem agita a cabeça, como todos nós fazemos quando não queremos confessar qualquer coisa. Finalmente balbucia a razão da sua angústia. Muitos anos antes sentara-se naquela mesma cadeira. Sentara-se exactamente no mesmo lugar que lhe haviam indicado desta vez. Mas da primeira vez estivera ali para posar como Cristo...
in O Mestre de Dança, de Nicholas Shakespeare.
Monday, January 12, 2009
DITO
"Legalmente é um advérbio robusto, aguenta com tantas fortunas!"
Balzac "Les Paysans"
Oportunamente falaremos deste periódico popular.
Tuesday, December 23, 2008
O FADO
Não gosto do fado.Você não tem nada com isso mas um homem precisa de desabafar. A canção nacional – como dizem -, não presta para nada. Não alegra nem estimula: é um sofrimento pegado. O fado “é uma canção torpe e dissolvente”, cuja amargura nos penetra e, tanto melhor, quando penetra também nos outros.
O fado é sofrimento. Sofrimento rasca. O fado é bom quando sofremos muito e excelente quando este sofrimento também atinge os seres à nossa volta. O fado é bom quando nos faz chorar e óptimo quando os outros também choram.
Os temas do fado têm de ser, portanto, altamente dolorosos. E o amor é a sua principal glosa. Amor interrompido, descorrespondido, atraiçoado. A morte que o leva, a outra que o leva, a fome que o leva, a tuberculose que o destrói. É a dor de cotovelo, de corno, de cabeça, de saudade. O fado é a pobreza, a miséria. Alguns ricos cantam o fado por snobismo; alguns pobres cantam a sua própria miséria e chamam-lhe fado. E essa burguesia que está entre a água a ferver e a gelada, “gosta de ouvir cantar o fado”, talvez por não ser nada que lhes diga intimamente respeito.
O fado é também miserável sob o ponto de vista urbanístico, arquitectónico. Ama os becos, as escadinhas, as portas pequenas, as vielas, as ruas estreitinhas, os gatos ranhosos, esquálidos e ladrões, os cães vagabundos e esfomeados, as águas-furtadas, os pátios, os esconsos assacanados, os candeeiros sem luz. Sim, o fado gosta do escuro. O fado está há muito casado com a noite; vivem lado a lado e dão-se bem.
Naquela noite a diva jantou connosco. Mal se sentou, à cabeceira da mesa, mandou imediatamente apagar as luzes da sua zona. Aquietou-se. Fez-se noite. Venham velas tremeluzentes e sentem-se aqui connosco. Que as vossas luzes só deixem ver os olhos sombrios da dor e do desgosto. Nada mais.
Por deveres de ofício, durante alguns anos “fiz” a transmissão dos “Fados e Guitarradas”, para a então Emissora Nacional, do Bairro Alto e convivi com os cultores e os executantes daquela coisa. E compreendi por que eram tristes e sorumbáticos os guitarras e os violas: dias, semanas, meses, anos às escuras, acompanhando as dores alheias, fumando mil cigarros por noite, queimando as pestanas, os olhos, as unhas e os fatinhos fedendo a tabaco.
Sim, ouvia-se numa noite uma ou duas gargalhadas de fugida mas estas eram torpes, assacanadas, pérfidas – de raspão pela alegria. Os violas e os guitarras sempre me pareceram tristes, obscuros, inconformados. Vão tocando a par um do outro, em indiferente contra-relógio, atentos apenas aos sinais do cantante para o final mais forte e apoteótico. Depois limpam as cordas com a flanela, e atacam o novo fado, que nada lhes diz pois já o tocaram por diversas vezes, como uma banda que só tocasse o hino nacional do seu país. Por isso não choram com a desgraça que a fadista conta cantando – importante é o acorde estar certo, o travessão bem feito. No final da ementa, o ou a fadista ordena à assistência que bata palmas também aos sanfonineiros. E eles soerguem-se pela metade e agradecem perfeitamente indiferentes. No fundo agradecem à cantante que lhes assegura o ganha-pão. Isto é o fado. Parte.
Monday, December 08, 2008
A ESCOLA
- Sabem o que é uma Escola? Uma Escola são estas quatro paredes, o tecto, as janelas com vidros, as carteiras e as cadeiras, Como vêem é simples.
Mas, apesar de ser simples, morreram milhares de pessoas para terem o direito a frequentar uma Escola Pública, porque as escolas eram só para os ricos. A Escola Pública foi uma conquista de todos nós, nossa. A Escola Pública é nossa, nunca se esqueçam. É com ela que vamos iniciar a vida de luta, de trabalho, de conquista. É com ela que a nossa mente se organiza e que adquire os conhecimentos para seguir em frente.
Apesar de simples, há muitas terras sem Escola.
Há meninos e meninas em Moçambique que não têm Escola. Centenas de milhar. Nem Escola, nem cadernos, nem carteiras, nem ardósias e muito menos máquinas de calcular e celulares. Como fazem esses jovens que desejam estudar, saber mais? Sentam-se no chão, sob a sombra do cajueiro,
Tão pobre e carente como os alunos, o professor vai ensinando o que pode. Em vários sítios ele arrebanha folhas de papel e pedaços de lápis; às vezes tem um pequeno quadro preto que pendura nos troncos das árvores. A cópia e o ditado e feito pelo suplemento infantil do jornal Notícias, de Maputo. Livros? O que é isso?
- Vocês sabem que, em todo o mundo, milhões de jovens como vocês não vão à Escola? Ou porque não a têm, ou porque são pobres e começam a trabalhar os campos com os pais aos 5 ou 6 anos de idade, ou porque não há caminho para ir lá, nem transportes, ou os pais são analfabetos a acham que os filhos também o devem ser e tantas outras razões. Ainda há bem pouco tempo em Portugal teve de ir a Guarda Republicana a uma aldeia buscar uma menina de 16 anos que queria estudar e os pais não deixavam.
- Agora vocês estão aqui, na Escola, que foi paga por mim, pelos vossos pais e por todos os trabalhadores do país. Eles fizeram o sacrifício de pagar estas e outras Escolas, para que as crianças pudessem aprender com o maior conforto possível.
- Portanto, cada risco feito na carteira, cada spray lançado nos balneários é um crime. Ao fazerem isso estão a fazer mal aos meus pais, a mim, aos vossos pais e aos trabalhadores de todo o país. E estão a estragar o bem-estar para a aprendizagem do que precisam.
- Quantas crianças choram ao ver outras irem para a Escola e eles ficarem a cavar ou a apanhar fruta nos campos?
Pensem nisto, crianças deste tempo.
Monday, November 17, 2008
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ”E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1.Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2.Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado “ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendidado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder — a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o
poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos, moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos
donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os
trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles
investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais
abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África
continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos.
Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
(Savana)
Friday, November 07, 2008
"YES WE CAN"
Simpatizei contigo desde o primeiro momento. Por seres mulato? Também. O meu filho é mulato e não me dou menos feliz por isso.
Dizes ao teu povo, no discurso da vitória, que ele é capaz. Não poderias, nas férias, por exemplo, vires dizer o mesmo ao meu povo?
Barak: é um convite muito sério. Fora de todos os protocolos e hierarquias. Tenho sítio onde te alojar, mais à tua mulher e filhas. Vinhas ver e conhecer o meu povo e talvez um dia lhe pudesses dizer: “Yes you can”.
Sim, vocês podem correr com estes pindéricos morais e colocar nos seus lugares homens e mulheres honrados. Sim, vocês podem deixar de ser roubados, no corpo e no espírito diariamente. Sim, vocês podem ter trabalho e viver melhor, cultivando todos os terrenos e pondo os inúteis, de hábito e tonsura, a tomar conta deles.
Sim, vocês podem fazer com que todas as crianças vão à Escola, mas com o estômago aquietado, que estudar com fome não dá rendimento que se veja. Sim, vocês podem reabrir as fábricas fechadas e colocar nelas os homens e mulheres que acreditam no trabalho como força libertadora e não escravizante.
Quando começaste a tua campanha, fiquei entusiasmado que a tua provável vitória; no dia seguinte pedia aos deuses para que não ganhasses. No outro voltava a querer que ganhasses. Tem sido uma guerra comigo mesmo Barak Obama. Tão depressa quero como não quero que sejas presidente. E, quando não quero, sei tão bem como tu qual a razão: o medo. O medo que te interrompam a passada firme e decidida que iniciaste há um ano, agora confirmada.
Se conseguires libertar o teu povo da máquina sinistra que o envolve, fica activo o meu convite. Virás com a Michelle passar oito dias na Praia das Maçãs, um sítio bonito sem macieiras, apesar do nome, com a minha família e as tuas filhas brincarão com os meus filhos, trocando sinónimos, substantivos, frases e alguma ternura e muitas gargalhadas. E falaremos da possibilidade de um mundo melhor para eles, como tu e eu queremos e por ele trabalhamos.
Até breve,
Álvaro Belo Marques
Friday, October 24, 2008
MIGALHÃES
A percorrer o espaço web anda este poema anónimo:
Lá vem pelo avelar
O filho do Zé João
Vem do centro escolar
Cansado de palmilhar
A caminho da povoação
Não há médico na aldeia
E a antiga escola fechou
Não tem carne para a ceia
Nem petróleo para a candeia
Porque o dinheiro acabou
O seu pai foi para França
Trabalhar na construção
E a mãe desta criança
Trabalha na vizinhança
Lavando pratos e chão
Mas o puto vem contente
Com o Migalhães na mão
E passa por toda a gente
Em alegria aparente
De quem já sabe a lição
Um senhor muito invulgar
Que chegou com mais senhores
Veio para visitar
O novo centro escolar
E dar os computadores
E lá vem o Joãozinho
No seu contínuo vaivém
Calcorreando o caminho
Desesperando sozinho
À espera da sua mãe
Neste país de papões
A troco de dois vinténs
Agravam-se as disfunções
O rico ganha milhões
E o pobre Migalhães!!!
Thursday, October 09, 2008
EUA - bem-vindos ao Terceiro Mundo!
Não é todos os dias que uma superpotência tenta transformar-se em nação do Terceiro Mundo.
Por isso, nós, aqui no Banco Mundial e no FMI, desejamos ser os primeiros a dar-lhes as boasvindas
à comunidade de Estados necessitados de ajuda económica internacional.
Enquanto vocês se afundam, muito nos alegra poder responder à solicitação do vosso
Departamento do Tesouro para que participemos numa avaliação conjunta da estabilidade do seu
sector financeiro. Nesta época turbulenta, podemos oferecer-lhes empréstimos subsidiados e até
especialistas.
Como vocês sabem, há muito tempo que é necessária uma intervenção na vossa economia. Na
semana passada, mesmo antes do recente colapso em Wall Street, ex-ministros da Economia de
vários países reuniram-se na Virgínia e concordaram que vocês precisam de reformar o vosso
sistema financeiro. O ex-ministro das Finanças da Índia, Yashwant Sinha, sugeriu até que vocês
peçam ajuda ao FMI.
Esperamos que vocês não se sintam envergonhados. Lembrem-se que outros países já
estiveram nessa posição. Já ajudámos as economias da Argentina, do Brasil, da Indonésia e da
Coreia do Sul. Assim, gostaríamos de reconhecer o progresso que vocês fizeram na evolução
desde superpotência económica até ao completo descontrolo económico.
Normalmente tal processo leva 100 anos ou mais. Entretanto, devido às vossas oscilações entre
o extremismo do livre mercado e a nacionalização de empresas privadas, vocês atingiram com
sucesso, em poucos anos, muitas das principais características observadas nas economias do
Terceiro Mundo.
As vossas medidas de irresponsável desregulamentação governamental em sectores críticos
permitiram que vocês desenvolvessem rapidamente uma crise energética, uma crise de habitação,
uma crise de crédito e uma crise no mercado financeiro, todas ao mesmo tempo, e acompanhadas
por impressionantes níveis de corrupção e especulação. Enquanto isso, os vossos políticos, que
deveriam supervisar o sistema, estavam dormindo com os lobistas.
Tomemos como exemplo John McCain, o vosso candidato republicano à presidência, cuja
equipa principal de assessores inclui meia dúzia de ex-lobistas de renome. Ele mesmo afirmou
recentemente que foi presidente do Comité de Comércio do Senado, que supervisa todas as
vertentes da economia. Não restam dúvidas, portanto, relativamente ao fracasso da sua liderança
em perceber o estrago causado pela desregulamentação irresponsável.
Agora, vocês enfrentam as consequências. A desigualdade aumentou. Enquanto os ricos
recebem dinheiro caído do céu, a classe média viu os seus rendimentos estagnar. Um número
cada vez menor de cidadãos tem acesso a habitação, assistência médica ou segurança social. Até
a expectativa de vida diminuiu. E, quando os problemas económicos passaram de crónicos a
agudos, vocês responderam - como fizeram tantos outros Estados do Terceiro Mundo - com um
programa extenso de nacionalização de empresas privadas.
As vossas gigantes do ramo das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac, pertencem agora ao
Estado. Nesta semana, a gigante dos seguros, a AIG, também foi nacionalizada. Alguns podem
chamar a isso “socialismo”, mas épocas de desespero exigem medidas desesperadas.
A vossa transição para o Terceiro Mundo será dolorosa. No início, vocês terão dificuldade em
habituar-se às favelas, que crescerão nos subúrbios das cidades, mas, com o tempo, elas tornarse-
ão parte da paisagem.
À medida que as taxas de desemprego aumentarem, vocês terão problemas para encontrar
ocupação para a massa de jovens desempregados, mas logo vocês vão perceber que podem
recrutá-los para alguma qualquer guerra, um tipo de solução que já foi utilizada por muitos Estados
do Terceiro Mundo antes de vocês.
Talvez esta carta vos surpreenda e vocês sintam que ainda não estão prontos para se juntar ao
Terceiro Mundo. Mas não fiquem preocupados: Apesar de nunca terem percebido, vocês já
estavam há vários anos a preparar-se para este momento.
* Rosa Brooks escreveu este artigo para o “Los Angeles Times” que foi também publicado no Savana de Moçambique.
Monday, September 08, 2008
MINUTO VERDE
Pois na semana passada precisei que uma guia para efectuar um tac fosse visada pela Direcção Regional de Saúde de Évora. Pondo de parte o atestado de incompetência que esta direcção passa à minha médica de família (pois este visto só se deveria efectivar em presença de todo o meu processo clínico – mas isto é outro assunto), informei a senhora de que morava a vinte quilómetros da capital provincial. “Não está a drª. que autoriza. Venha cá na 4ª.feira (era segunda). Voltei a informar que, ida e volta, teria de gastar ao Estado quarenta quilómetros de energia, podendo este desastre ser evitado, pagando eu o sobrescrito e a franquia para me enviarem a guia pelos Correios. “Nem pensar – respondeu a pianista -, é contra os regulamentos.” Quando me vinha embora e acautelando qualquer desarmonia, rectificou o dia: “Olhe, venha antes na sexta.” Quatro preciosos dias para a minha saúde, mais o combustível e uma manhã, que conta muito na minha idade – tenho de aproveitar todas.
Pergunto: Estará o país inteiro a tocar quadrado, daí o nosso permanente atraso, em todos os sectores?
Saturday, August 16, 2008
O SAXOFONISTA
O Cláudio trabalhava numa firma de distribuição de correio e de encomendas mas sempre que tinha um tempinho livre, ia com o seu saxofone para o pé do Joelzinho, um mendigo do bairro, andrajoso e com as pernas torcidas como se as tivessem partido quando estava numa posição do Yoga. O Joelzinho era muito estimado no bairro mas Cláudio, por ser pobre, pouco o podia ajudar. Ele sentava-se ao pé de uma grande árvore e estendia a mão.
O saxofonista amador punha-se então sentado a seu lado, num tronco horizontal da árvore e tocava. Nesses dias a receita do Joelzinho subia em flecha. Não podia era ser em todos.
Uma tarde de dueto – um pedia e o outro tocava -, disse o Joelzinho:
- Você, Cláudio, não pode tocar outras coisas?
- Não gosta do meu reportório?
- Não é isso.
- Então o que é?
- Está aqui um gajo, todo empenado, que só ouve do ouvido esquerdo, e você senta-se ao lado desse ouvido e toca invariavelmente as mesmas coisas… podia, ao menos, tocar do lado do outro…ou mudar de reportório…
Cláudio pensou, olhando para o instrumento. Depois disse:
- Eu já toquei o concerto para saxofone e orquestra de Aaron Copland, nos bons tempos…
- Você desculpe-me, Cláudio, mas o Aaron Copland nunca escreveu um concerto para saxofone e orquestra.
- Como é que você sabe, Joelzinho?
- Eu fui professor de música.
- Foi professor de música?!
- Não foi bem de música… fui professor de História da Música…
- Você foi professor de História da Música e está aqui a pedir esmola?!
O saxofone também olhou, admirado.
- É.
- Conte lá, puxa! Como é que você chegou até aqui.
- É simpático da sua parte não dizer “desceu até aqui”. Mas o caso ou acaso é que…
Meteu a mão no esfarrapado casaco e tirou uma pastilha de mentol. Com a mão boa, desembrulhou-a e meteu-a na boca. Chupou um bocadinho e contou:
- Dava aulas e apaixonei-me por uma aluna muito mais nova. Gabriela. Foi uma paixão doida. Passámos a viver juntos e éramos muito felizes. Depois tive um acidente de viação. Fiquei todo quebrado e ela morreu. Levei seis meses no hospital para recuperar… recuperar isto que você vê. Mas tive logo que fugir no dia da alta do hospital pois o pai da Gabriela queria matar-me. Não o podia fazer enquanto eu estava rodeado de médicos, enfermeiros e seguranças. Mas depois podia. O hospital está a mais de mil e quinhentos quilómetros daqui. Vim com o dinheiro do seguro que logo acabou.
- Essa é obra, amigo! Há quanto tempo foi isso? O desastre.
- Há oito anos, 4 meses e seis dias.
- E a culpa foi sua?
- Foi de ambos. Estávamo-nos a beijar.
- Áh!
- Sei que ele tem vindo atrás do meu rasto. Um dia apanha-me.
- Nem pense isso! Ele já se esqueceu.
- Ele era de ideias fixas como um touro e disse uma coisa em que acreditei: “Eu vou até ao fim do mundo para o liquidar!” Não disse “matar”. Disse “liquidar”, o que demonstra muito mais determinação.
O Cláudio tinha que fazer e viu também que o concerto de hoje já estava estragado. Abriu o estojo e guardou o saxofone. Levantou-se e sacudiu as calças das notas que tinham caído do instrumento e que, por isso, não foram tocadas.
Foi quando o Joelzinho se agitou e disse alto:
- E é precisamente hoje.
O saxofonista viu logo um homem possante a aproximar-se deles com uma carabina na mão.
- É o pai da Gabriela – disse o Joelzinho, sem necessidade.
1º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, enquanto o outro disparava. Caíram. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele.
Porque o saxofonista estava morto com um tiro em pleno peito.
2º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, com o estojo contra o peito seguro pelas duas mãos. O touro disparou e o Cláudio caiu sobre o Joelzinho. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele. Cláudio então levantou-se a custo, olhando horrorizado para o estojo desfeito e o saxofone furado pela bala que era para ele.
Ficou vivo mas sem saxofone.
Álvaro B. Marques
Friday, August 15, 2008
LISBOA DE OUTRAS ERAS
"Gosto de Lisboa em Agosto! Tudo mais calmo, quase sem trânsito e mais provinciana que nunca. Afivelámos o ar aparvalhado e desorientado dos turístas, e resolvemos andar-por-aí, para ver que "piada" os gajos acham a isto! Fomos ao Bairro Alto ( de dia ); a Acrópole lusitana. Extasiámo-nos com as decadentes ruínas: prédios a cair, janelas e portas partidas; ruas primorosamente borradas com graffitis de bom gosto; frases de grande sentido moralístico e informativo, sobre a integridade de políticos e suas veneráveis mãezinhas; caixotes de cervejas e refrigerantes, à balda pelas ruas- as lojas são pequenas, não há espaço...-, etc. Lindo de ver! Também fomos ao "Armazém do Berardo" ( vulgo CCB ). Com muita sêde de cultura, admirámos com reverência e concentradamente- conforme viamos os outros fazer- aquelas m...maravilhas que o "mecenas" resolveu "oferecer-nos". Não percebi nada daquilo, mas gostei muito! Ah! Para os não "connaisseurs" um aviso: os magníficos extintores da entrada, não fazem parte das obras da colecção! E com a alma e a barriguinha consoladas de tanto gozo e "coltura", refastelei-me a bebericar um Whiskey (é irlandês)."
Monday, July 28, 2008
A MINHA TIA RITA
Maria Assis.
A minha tia Rita era casada com um polícia sinaleiro, daqueles de capacete branco e bastão da mesma cor. Morava ela no Bairro Alto, na Rua da Barroca, e era amiga de todas as pequenas dessa rua e ainda da rua de cima e também da rua de baixo.
A Tia Rita ia lá a casa todos os meses ver “os seus meninos” – que éramos nós. E trazia prendas para todos. Também para os crescidos.
O marido dela, o meu Tio Abílio, era um homem muito grande, pachorrento e vermelhusco. Ela era pequenina e rabina. Ela e ele moravam numa casa minúscula, melhor dizendo, acanhada. A divisão maior era o quarto com a cama, que o ocupava quase todo, tapada com uma colcha espanhola e, junto às almofadas, um boneco sentado: um polícia sinaleiro. Ela era portanto possuidora de dois sinaleiros: um de carne e osso e outro de papelão pintado, com capacete e bastão. Um bom trabalho de miniaturização, já que as suas faces tinham duas rosetas vermelhas e os olhos bolbudos e pouco listos tal como o Tio Abílio.
A Tia Rita era uma santa criatura. Solidária, fraterna, amiga de toda a gente. Atendia a todas as pequenas com aflições, aconselhava e adinheirava. Ajudava a vestir as que iam para festas e, quando se deslocava aos armazéns da Calçada dos Cavaleiros, ali à esquerda de quem sobe, comprava sapatos para elas e para todos nós. Por estas e não por outras, levava uma tareia todos os meses quando dizia ao marido que já não tinha dinheiro do salário que ele lhe depositava religiosamente nas mãos, guardando um muito pouco quase nada para ao seus gastos pessoais que, na verdade e segundo ela, eram insignificantes.
À chuva, vento, sol abrasador, frio de tremer os ossos, aquele homem cumpria o seu mister compenetrado e uma vez eu vi-o a trabalhar. Saia da escola 64 em São Mamede e ele lá estava a dirigir o trânsito naquele cruzamento. Fiquei parado a vê-lo gesticular. Era impressionante. Enorme, braços para um lado, braços para o outro, apito de partida de comboio, e os carros a gasolina e a electricidade a obedecer. Disse ao colega da escola que estava ao meu lado:
- Aquele é meu tio.
- Ó tio!!! – berrou logo ele irreverente. Era o Bernardo, claro. O maior bronqueiro da turma a quem o professor, o senhor Júdice, passava largos raspanetes, mas nunca lhe bateu. Aliás, nunca bateu a ninguém.
Fosse pelo berro do Bernardo, fosse por qualquer outra razão, o meu Tio Abílio olhou para a nossa esquina e viu-me. Continuando a comandar o trânsito, sorriu e disse-me adeus. Ele sabia que todos gostávamos mais dela do que dele, mas não se importava. Era um homem pachorrento. Só perdia esta característica quando a mulher lhe gastava a féria a uma velocidade supersónica, que ela também não era assim tão gorda que durasse por aí além.
Com pena das tareias que ela levava, a minha avó, sua irmã, um dia disse-lhe para ela lhe entregar a féria e que lhe daria um tanto por semana para governo da casa. A Tia, limpando a lágrima que lhe escorria do olho negro, disse que estava bem, que era melhor, lá isso era.
E o trato fez-se. No começo do mês seguinte foi lá a casa a Tia Rita e entregou à avó o dinheiro do mês. Ficámos todos contentes. A nossa querida Tia ia começar a saber governar a casa e não apanhava mais do Tio.
No sábado da semana seguinte, lá passou por casa aos beijos aos “meus meninos” e levou a parte salarial combinada. Mas, no sábado seguinte não apareceu. Especulou-se muito sobre o que teria acontecido, especulação que terminou logo no domingo de manhã, quando abrimos a porta da rua e lá estava o Tio Abílio, enorme mas acanhado, não queria entrar mas entrou e disse logo à minha avó e cunhada dele, que vinha buscar o dinheiro remanescente.
- A senhora não a está a ajudar. Ela arranjou dívidas até ao pescoço, por todo o bairro. O dinheiro que a senhora me vai dar não chega para as liquidar. – e via-se no olhar que a tinha já tosado.
Por isso sempre gostei muito da minha Tia Rita e esta é uma maneira simples de o dizer. Amo-a e admiro-a desde criança. Se não fosse assim, como poderia estar aqui a escrever sobre ela com lágrimas nos olhos?
Álvaro Belo Marques
(In TempoLivre – Inatel)
Monday, April 07, 2008
LAVAGANTE - de José Cardoso Pires - Ed. Nelson de Matos
NÃO foi sem um frémito de emoção que fui à leitura das páginas de José Cardoso Pires (Lavagante – encontro desabitado) que o editor Nelson de Matos, amigo do autor, retirou do esquecimento para nos oferecer como breve compensação da ausência de dez anos que já levamos do grande criador de O Delfim e de tantas outras inesquecíveis obras de ficção. À distância do tempo, e quando o lemos, mais se grava a compreensão de que poucos escritores marcaram, como Cardoso Pires o fez, o ofício de uma escrita moderna, depurada na exigência da palavra certa e definitiva, que por isso se torna luminosa, avessa a tudo aquilo que é espúrio ao chão verbal da realidade que se transfigura na narrativa ficcional. Esse fascínio, que percorre toda a estrutura formal do acto literário de Cardoso Pires, tantas vezes cinematográfico pelo pulsar dinâmico da narrativa, que faz o leitor mergulhar na densidade dramática do texto, é um contributo de modernidade que o autor de Balada da Praia dos Cães trouxe a uma ficção tradicionalmente enredada em naturalismos paroquiais, ainda que às vezes disfarçados de arcaísmos líricos, ou em propósitos documentais que nem sempre escapam à contingência do panfleto. Em José Cardoso Pires, tudo é diferente. No lavrar fundo da palavra adivinha-se o drama existencial da procura essencial, até ao osso, desse Portugal que a poesia de Alexandre O’Neill configura na denúncia de um tempo vivido ao contrário dos ponteiros do relógio da história, ou no trabalho oficinal, à volta do texto, sempre na procura de uma dimensão criadora que foi também angústia de autores como Aquilino ou Carlos de Oliveira. José Cardoso Pires percorreu essa aventura como um compromisso permanente. E essa inquietação primordial, comum ao acto da sua escrita, é a sua grande modernidade. É estranho, por isso, que nestes dez anos se tenha abatido sobre a sua obra tanto silêncio. O facto da obra de Cardoso Pires tipificar, com grande argúcia e sobriedade, persistências ideológicas de cariz reaccionário e, ao mesmo tempo, reflectir tão fundamente sobre a realidade portuguesa – nos seus tiques de bafienta sacristia ou de provincianismo urbano envernizado pelo convencionalismo – o que a torna incómoda, contribuirá decerto para o assassinato do silêncio. Lavagante encontro desabitado é uma pedrada nesse esquecimento e, só por isso, devemos estar gratos a Nelson de Matos. A narrativa, cuja versão final Cardoso Pires não chegou a dar à estampa – é um belíssimo reencontro com a arte de contar uma história, como só ele sabia fazer. Ainda por cima com aquela dimensão simbólica da parábola (a alusão à vida dos lavagantes e de como eles alimentam as presas conduzindo-as ao destino de uma prisão dourada, para as devorar depois, é notável) que em Cardoso Pires é um recurso de significado excepcional em muitas obras escritas, como esta, antes do 25 de Abril! A própria história, a prisão do amigo político, a figura do Sapo, a duplicidade de Cecília, ligando-se ao repressor do amante para salvá-lo (“mas eu não podia suportar por mais tempo a ideia de estares fechado numa prisão, tu que tanto gostas de viver”) o quotidiano sórdido da comarca portuguesa com vidinha entre grades. A descrição de Lisboa a seguir a um Primeiro de Maio sangrento, é magistral: “Mas nesse dia 2 de Maio, a multidão da Baixa andava aos céus e às águas luminosas do Tejo: olhava as fachadas dos edifícios salpicados de balas; operários dos subúrbios e casais de vida repousada desceram, curiosos, dos seus bairros para visitarem as ruas onde se tinham dado os motins da véspera”. Leio e releio as páginas. É o meu velho Cardoso Pires a bater-me à porta da memória. Evoco a sua enorme coragem cívica, o seu compromisso de sempre com a Liberdade. Olho para antigamente, recordo conversas e palavras que ficaram para sempre. Vou à procura delas. Num dos seus últimos textos, escrito por sinal nestas páginas. Cardoso Pires despedia-se de José Rabaça e dizia: “Saudades de mim”. É o que eu agora sinto ao regressar ao pulsar criador do meu Amigo José.
Thursday, March 27, 2008
GUEBUZA NÃO

Do jornal "Canal de Moçambique" de hoje, publico com a devida vénia, uma crónica póstuma do jornalista Carlos Cardoso, assassinado barbaramente a rajadas de metralhadora.
Via Ripua, mais uma vez passamos a
conhecer assuntos intestinais do partido
Frelimo, discutidos, em surdina lá dentro.
Desta vez, é a sucessão de
Chissano. Ripua quer Guebuza. Já o tinha
proposto Primeiro-Ministro.
Na nossa opinião Guebuza não. O
nosso parecer assenta em dois factores:
1. As pessoas têm medo de Guebuza.
2. Ele foi, talvez por uma razão de
causa e efeito, o primeiro factor, um dos
ministros mais incompetentes a passar
pela governação da Frelimo. Onde tocou,
estragou.
Vamos à questão do medo.
É verdade que Chissano tem gerido
a presidência com um grau de hesitação, por
vezes prejudicial para o país. Mas com
ele na presidência desde 1986
Moçambique foi praticando níveis de
liberdade de expressão. E hoje está bem
evidente quanto melhorou na governação,
a pauta aduaneira por exemplo, fruto do
uso crescente dessa liberdade.
Via debate, o país foi encurtando o
caminho para consensos e assim se
arranjaram algumas soluções.
Moçambique precisa, pois, de um
presidente, cuja personalidade, ainda que
menos hesitante do que a de Chissano
seja pelo menos tão aberta ao diálogo
como a dele.
Guebuza tem sido o contrário
disso. As pessoas calam-se por causa
dele. Não tem nem um décimo da postura
de Chissano no tocante a aceitação de
crítica contra ele.
A governação do país ficaria
Guebuza não
seriamente prejudicada com um presidente
inspirador de-temor-e revolta-entre os
cidadãos.
Em segundo, mas não menos
importante, lugar, a questão da
incompetência. Armando Guebuza tem
sido mau gestor da coisa pública. Como
Governador de Sofala pôs em perigo o
relacionamento com Portugal.
Como ministro do Interior, adoptou
para a operação produção, um método que
anulou qualquer hipótese para a
concretização das intenções que lhe deram
vida (pese as responsabilidades do
presidente Samora Machel numa
conceptualização apressada do programa).
E nos transportes Guebuza cruzou
os braços perante o alastramento
impetuoso do roubo e da corrupção,
levando entre outros males, a uma quebra
terrível do tráfego via porto de Maputo e
ao desmoronamento quase irreversível da
LAM.
No partido Frelimo há outros
sucessores possíveis para Chissano, apesar
de nenhum deles, depois da morte de
Samora Machel, ter defendido o país,
contra a pilhagem desenfreada das nossas
riquezas, tem no seu CV muitos mais
méritos do que Guebuza para o cargo do
PR.
Por outras palavras, a transição pós-
Chissano pode ser pacífica. Mas, a escolha
final é a dos eleitores. Pelo menos enquanto
Guebuza não for PR.
(In «Metical» de 15 de Julho de 1997,
Carlos Cardoso) (*) Publicação a título
póstumo. O autor foi assassinado a 22 de
Novembro de 2000
Monday, March 24, 2008
ESPÍRITO SANTO DE ORELHA
Aliás, qualquer observador mais atento veria que as suas vestes eram incrivelmente pobres, russas, passajadas e, sem querer fazer humor, de ver a Deus. Este padre, por minha bondade monsenhor, talvez primo do D. Quixote de Graham Green tinha, no jogo do bilhar francês, um vício vigoroso, que o deveria fazer sofrer mas do qual, aparentemente, não se conseguia livrar, ou era semanalmente absolvido em confissão. Mas isto, claro, na hipótese de ele o considerar um vício e, mesmo que sim, desejar livrar-se por feiura e irrespeito pela profissão. Especulações que nós os seis, milicianos sanguíneos guelrosos e esquerdistas em Mafra, às vezes colocámos como tema de desfastio, à mesa do café.
Pois muitas noites chegava monsenhor, passava por entre as mesas sem que alguém desse por ele, sentava-se na primeira cadeira livre que ao caminho se lhe oferecia e, bebendo um café, punha-se a ver os jogos que se desenrolavam na mesa de bilhar, completamente absorto em tudo o mais que o rodeava para além de Deus.
Por qualquer motivação para nós desconhecida, mas não muito distante da alegria e barulho que caracterizava todas as noites a nossa mesa, monsenhor foi-se colocando cada vez mais próximo de nós. Isso notámos. Ele olhava para o bilhar mas deixava descair um ouvido orientando-o para o nosso lado, por certo necessitando um pouco da nossa juventude e irreverência. Mas não era velho; parecia, isso sim, velho, acabado, estafado, esgotado. Quarenta e tal anos, talvez, para fazer a pé, como soubemos pela empregada da pensão, as diversas freguesias dando a extrema-unção e outros carinhos de seu mister, a qualquer hora do dia ou da noite, ao sol e à chuva e ao frio. Por certo um santo homem com o vício do bilhar e sem dinheiro para o alimentar.
Tinha outro vício ainda que já me esquecia de vos referir: o santo fumava. Muito. Talvez ele poupasse na gasolina para o tabaco e para o bilhar, mas isto já pode ser considerada uma opção maldosa de um ateu, mas a sua fama de bom padre (há padres maus?), dedicado, fraterno, amigo e confidente dos seus paroquianos, fazia a empregada contadora arredondar os olhos negros e aumentar a beleza da sua expressão louçã. “Um santo, é o que lhes digo, meninos! Um santo!”
Uma noite acabei uma partida de bilhar e fiquei sem parceiro. Perguntei a monsenhor se queria jogar mas com uma condição, e ele que sim que sim e qual. Irreverente, talvez deseducado, mas certamente por defesa, disse-lhe que nem ele me falaria de religião nem eu a ele de política. Um trato entre cavalheiros de diferentes credos. Olhou-me bem no fundo dos olhos, talvez procurando-me a alma que, naquelas idades, sei hoje ainda estarem em formação cubista e disse-me com simplicidade: “Está bem.”
Nunca assombrei ninguém a jogar ao bilhar, mas conseguia fazer umas coisas com jeito se estivesse aplicado. Obviamente que lhe propus que fosse “ao perde-paga”. E também obviamente que perdi e que passei a ser o seu parceiro favorito. Entrava no café e já me procurava com os olhos; eu era, bem observadas as coisas, o seu dealer.
E fomos mantendo o nosso trato, poucas frases trocando que não fossem de circunstância, de tabelas, de meteorologia, de efeitos bolísticos, e coisas assim.
E uma noite, na pensão, combinámos ajudar o padre.
Um de nós perguntou se já tínhamos reparado que o Fiat já estava há mais de quinze dias a dormir à sombra protectora do Convento. Alguns que sim. Fomos então comprar uma lata de cinco litros de gasolina e vertê-mo-los no respectivo depósito, enquanto outros vigiavam, não fosse monsenhor ter Espírito Santo de orelha.
O miliciano que verteu a gasolina para o fanado Fiat, ficou com a mão direita molhada, pelo que a todos, espargindo o combustível sobre as nossas fardas enodoadas, nos benzeu: “Eu vos abençoo, meus bons malandros” – disse. Um irreverente acto após uma boa acção.
No dia seguinte à noite, todos queríamos observar o imaculado rosto de monsenhor e, por falta de clareza mental, nos calámos quando ele chegou ao café. Veio, cumprimentou e sentou-se, olhando para a mesa de bilhar. Mas sorria. Ele tinha mesmo Espírito Santo de orelha.
Álvaro Belo Marques