
Thursday, May 07, 2009
MUDAR DE VIDA

Sunday, April 26, 2009
DÁRIO VIDAL
"Com o correr dos anos, quando queremos ouvir o passado, damos conta de que as memórias se vão confundindo com sonhos.A minha infância em santo amaro de oeiras, terra onde nasci, a praia deserta, os golfinhos, os aviões militares, o zepelim a caminho da américa, as pessoas que conheci, as escolas de arte, nova york, o teatro, a minha vida profissional. Tudo isto formou uma panóplia de vivências, cores, sentidos e afectos.
Afinal, nas memórias e sonhos, há sempre muitas estórias que podem ser contadas.
Eu contei-as à minha maneira: pintando!"
Dário Vidal
(Texto e foto retirados de um catálogo do pintor.)
Em breve voltaremos a ele, para falar da sua produção de cadeiras, de árvores e demais arte que agora o ocupa.
Saturday, April 25, 2009
DIA MUNDIAL DA ESPERANÇA - 25 DE ABRIL
Hoje actuaram por obrigação. Não havia qualquer alegria neles. Quer a subir quer a explodir. "Rápido, rápido para irmos para casa." E o último foguete se o não disse, a mim pareceu-me:
- Que frete!
Bebi o meu espumante recordando factos e amigos. Que se lichem os foguetes!
Thursday, April 23, 2009
DIA MUNDIAL DO LIVRO

Monday, April 20, 2009
BOURRÉ A MEIO DA TARDE

Passei cinco tardes encostado ao muro com gradeamento, que rodeava a sua casa, ouvindo-a estudar. Deveríamos ter dezassete anos. Logo no primeiro dia que parei para a ouvir, ela deu por mim. Como a pausa fosse grande, olhei para cima. Demos um pelo outro no mesmo centésimo de segundo. Olhámo-nos com curiosidade. Ela perguntando com o olhar “Estavas aqui a ouvir-me tocar?” E eu, na mesma linguagem “Fui apanhado!”
Nos cinco dias que passei ouvindo-a estudar, o esquema era normalmente o mesmo: umas escalas, depois um ou dois Estudos de Czerny, mais uma sonatina de Beethoven, alguns Nocturnos e Estudos de Chopin e parava aquele período de trabalho com uma peça ligeirinha, muito bonita, que ela já tocava com muita alma: “Fur Elise”. Depois talvez fosse lanchar, altura em que eu partia com a cabeça cheia de música.
Parecia que os deuses se interessaram por nós, primeiro, fazendo-me passar sob aquela janela naquele dia àquela hora. Segundo, proporcionando no domingo o nosso encontro na Patinagem de Cascais. Devíamos ter sido destinados um ao outro. Disse-lhe o meu nome e ela que se chamava Cecília. Falámos o resto da tarde com entusiasmo e franqueza. Ainda houve uns segundos para lhe perguntar “porquê o Fur Elise todos os dias e que tocas tão bem?” Ela sorriu e respondeu como uma criança que era “Porque gosto”.
Ficou tacitamente estabelecido que nos encontraríamos no domingo seguinte. Mas não aconteceu assim. Meus pais regressaram a Lisboa e eu com eles. Neste momento estava a vê-la, ao fim de cerca de trinta anos, a terminar o último andamento do Concerto em Lá Menor para piano e orquestra, de Grieg.
O Pavilhão parecia vir abaixo com a permanente ovação em forma de onda: subia e descia, mas não parava. Por indicação do maestro, a orquestra e a solista saíram mas ela voltou para tocar alguns extras e acalmar aquele auditório conquistado pela beleza e a perfeição da execução, que gritava o seu nome. Ao terceiro extra fui eu que gritei, já perdido, deseducadamente, “Fur Elise”. Fez-se um quase silêncio. Ela olhou em redor, tentando detectar o autor do pedido. Sentou-se de novo e tocou a bela peça que Beethoven tinha escrito para a Elisa.
Segui depois a fila das pessoas que iam ao seu camarim cumprimentá-la; toda a gente a ver e a ouvir o meu coração a bater. Estendeu-me a mão a sorrir e dizendo “Foste tu…” Beijei-a respondendo “Fui”. E nunca mais voltámos a ver-nos.
Friday, April 17, 2009
Este é o novo livro de João Paulo Guerra. Para ler e chorar por mais.A carreira de Jornalista acaba, parece-me, em redactor principal. O que está mal. Deveria acabar em "Mestre", única categoria que poderia ser oferecida a João Paulo Guerra, que alia o Jornalismo e o Radialismo.
Publicou, entre outras, as obras "Memória das Guerras Coloniais, Savimbi - Vida e Morte" e "Descolonização Portuguesa - O Regresso das Caravelas".
Prémios: da Casa da Imprensa, dois prémios Gazeta, do Clube de Jornalismo e dois prémios de Reportagem Rádio do Clube Português de Imprensa, Prémio Procópio de Jornalismo e Prémio Nacional de Reportagem, do Clube de Jornalistas do Porto.
Voltarei em breve a este livro pois ainda estou a lê-lo com sofreguidão.
Friday, April 03, 2009
A NOVA MINISTRA
“Quer dizer, a grande vantagem de estarmos no Poder é que, para sermos empresários, não
precisamos de empreender nada. A bem dizer, nem precisamos de empresas.”
- Meu querido marido, escutou o noticiário?
- Não. Há novidades importantes?
- Diz o noticiário que você deixou de ser ministro.
- Afinal, eu ainda era ministro?
- Disseram que era. Não sabia?
- Tinha uma vaga ideia. Mas acho que se enganaram, também estes jornalistas divulgam cada
coisa, sabe como é: jornalismo preguiçoso...
- Mas aquilo era um comunicado oficial. E disseram claramente o seu nome. Eu não fazia ideia.
Pensei que era só empresário.
- Ai é? Saí no noticiário? Mostraram a minha foto?
- Não. Mas, diga-me lá, marido, você era Ministro de quê?
- Ministro dos Assuntos Gerais. Uma coisa assim... Já agora, você reparou se disseram quem era o novo ministro?
- É um dos anteriores vice-ministros.
- Afinal havia mais que um?
-Havia sete vice-ministros.
- Sete? Eh pá, aquilo não era um Ministério, era um Vice-Ministério.
- Fica triste, marido?
- Bom, pá, paciência. Mais importante são os meus cargos nas 15 grandes empresas.
- Ontem, no nosso jantar, você disse que eram 35...
- Minha querida, você escutou mal. Não há, no país inteiro, 35 grandes empresas. Aliás, a maior
parte dos empresários de sucesso ainda anda à procura de empresas.
- Não entendo essa matemática.
- É que, no nosso país, há mais empresários que empresas.
- Trinta e cinco... Trinta e cinco são os nossos anos de casados. E estou tão orgulhosa de si, meu
ex-ministro, você foi sempre tão ambicioso...
- Ambicioso, não. Ganancioso.
- E qual é a diferença?
- O ambicioso faz coisas. O ganancioso apropria-se das coisas já feitas por outros.
- Você apropriou-se de mim que fui feita por outros.
- Isso é verdade, cara esposa. Uma coisa é verdade: vai-me fazer falta o poder.
- O poder? Não me diga que lhe a está faltar o poder, marido?
- Alto lá, falo apenas do poder político. Quer dizer, a grande vantagem de estarmos no Poder é
que, para sermos empresários, não precisamos de empreender nada. A bem dizer, nem precisamos
de empresas.
- Mas, marido, eu também tenho empresas, você diz que colocou uma data de empresas em meu
nome.
- Tem razão, minha querida. Vou usar das minhas influências e pedir para você ser nomeada
Ministra.
- Eu, Ministra? Para quê?
- Que é para, a partir de agora, você abrir empresas em meu nome.
* Crónica de Mia Couto publicada também na revista África 21, Luanda
Friday, March 20, 2009
CÃES A ENLOUQUECER
Ao fim destes anos todos, concluí que se trata de um acordo entre eles como vingança pelo mal que os homens lhes fazem. Então, ladram. Muito. Das varandas para os que vão no jardim(?). Os do jardim(?) para os que estão nas varandas. Alguns, com mais personalidade, uivam. E há a grande confusão dos donos. Os animais não são domésticos; são domesticados. Eram primitivamente selvagens e o homem domesticou-os (algumas raças). O que não lhe permite levá-los para dentro de um apartamento em plena cidade e deixá-los na varanda, pedindo-lhes que se imaginem no campo, numa quinta, numa floresta ou pinhal. Mas ainda afirmam que amam os animais quando, afinal, lhes estão a roubar o seu habitat, impondo-lhes condições degradantes até para um cão. Alguns, da maneira como nos olham e se movimentam, devem já estar meio-loucos. Talvez em mutação.
Há então um, já desesperado que, mal se vê no largo, corre para uma pedra que baliza os jogos dos rapazes e lhe ladra para debaixo, cheirando, ladrando, raspando, fungando, fingindo que ali está uma entrada de furão ou de coelho. É a maneira que o bicho encontrou de não enlouquecer de todo.
Agora o leitor junta a este regabofe canino (diário e desde a manhã até às 22 horas), os dejectos por todo o lado e os tiros, também de manhã à noite, num clube de tiro aos pratos, em Monsanto (zona de protecção ecológica).
Às vezes há crianças a brincar numa caixa de areia onde os cães urinam e defecam. Às vezes lancham sem lavar as mãos.
Consegue imaginar?
Wednesday, February 04, 2009
TROVOADA À ESQUERDA
Os livros tinham o preço mínimo de um escudo e o máximo de dois. Havia, porém, umas promoções (financiadas possivelmente pelo Ministério da Cultura): dois livros pelo preço de um. Ele sabia perfeitamente a que livros deveria botar o preço de um ou de dois escudos. Mesmo que os não lesse, pois não lia, obviamente. Aliás, desconfiei durante muitos anos que o presidente do Movimento, e seu principal dinamizador, fosse analfabeto, o que estaria então politicamente correcto.
Como, à época, só tinha dinheiro para o pequeno-almoço e para o almoço, bisbilhotava assiduamente a livralhada, sob o olhar aparentemente desatento do mal-enjorcado, e só ali podia encontrar as novidades literárias que ao fim de um ano não se tinham vendido e alguns restos de colecções, de que os editores se desfaziam para obter espaço no armazém.
Uma vez, por um escudo, comprei um livro chamado “E deitaram fogo ao Planeta”, escrito por um senhor que assinava discretamente J. Matias. A história era simples: um indivíduo com febre altíssima, tinha um pesadelo em que a humanidade, devido à sua sofreguidão em destruir, arrasando florestas e poluindo rios, mares e ares, lançara fogo ao Planeta. Um livro que, a ser publicado hoje, teria actualidade e por certo sucesso, além do patrocínio da Quercos.
Ora vai daí, eu tinha um professor de Física e de Química que se chamava Jorge Matias – um homem inteligentíssimo, culto e de esquerda, obviamente. Abordei-o na primeira oportunidade, perguntando-lhe se era o autor. Disse que não mas descaiu-se ao perguntar, já a dois passos de distância, se eu havia gostado. Cerca de um ano mais tarde voltei ao ataque e o resultado foi novamente negativo. Mas estava na cara que era dele já que o livro denunciava amplos conhecimentos científicos, como era o seu caso, autor dos manuais das disciplinas que leccionava e tinha uma linguagem que se aproximava muito com a utilizada nas aulas.
Numa Sexta-Feira de Alegria, desatinei e comprei dois livros: um de Artur Portela (na altura era Filho mas agora é Órfão), intitulado “A Funda”, e um de Cristopher Morley, que eu desconhecia mas cujo título, em inglês e português, me chamou a atenção: “Trovoada à Esquerda”, da Editorial Gleba, lda. E que livro! – comi-o todo no fim-de-semana, com capa dura e tudo! Uma obra-prima que tanto, mas tanto, publicitei aos amigos que fiquei sem ela. O livro conta uma história simples e profunda. Uma história que começa na meninice e acaba nos trinta e tal anos. Um casal que recebe, na sua casa de férias, uns amigos para o fim-de-semana. Num Verão quente e com trovoada. À esquerda. Várias vidas entrosadas, jogos de espelhos, a riqueza interior de cada ser. “A vida é uma língua estrangeira; poucos a pronunciam correctamente.”
E foi mesmo assim: cinquenta anos depois, a minha amiga Maria de Lourdes arranja-me o livro (com a ajuda de um feiticeiro africano morador em Algés) e abracei-o e reli-o e folheei-o encantado. Então notei que tinha a mesma página 90 suja de tinta tipográfica, tinha a mesma página mal guilhotinada na 181 e o mesmo nome apagado com violência na página um. Em resumo: era o meu, que voltara por amor.
Álvaro Belo Marques
(In TempoLivre, de Fevereiro de 2009
Monday, February 02, 2009
O BAIRRO DA LATA
da ida dos rapazes â caça das rãs e de como o Gay é louvado no final.
Devem estar recordados que o Gay ingressou no grupo quando saiu de casa por
a mulher lhe bater.
O modelo t Ford de Lee Chong possuía uma história
respeitável Em 1923 fora carro de turismo do Dr. W. T.
Waters. Este
utilizou-o durante cinco anos e vendeu-o depois a um agente
de seguros de nome Rottle. Mr. Rottle não era homem
cuidadoso. Conduzia à bruta o carro que adquirira em óptimo
estado. Mr. Rottle bebia nas noi tes de sábado e o carro
ressentia-se. Amolgaram-se e partiram-se o; guarda-lamas. O
abuso dos travões forçava à substituição frequente das cintas.
Quando Mr. Rottle desviou o dinheiro de um cliente e fugiu na
companhia de uma loura espampanante, foi apanhado e engaiolado
no espaço de dez dias. A carroçaria estava tão amachucada que
o novo proprietário cortou-a em duas e acrescentou-lhe uma
pequena caixa de camião.
O proprietário seguinte tirou-lhe a parte dianteira da
cabina e o pára-brisas. Servia-se dele para arrancar
percebes e regalava-se com a brisa fresca na cara.
Chamava-se Francis Almones e levava vida triste, pois ganhava
sempre menos uma fracção do que precisava para viver. O pai
deixara-lhe uns dinheiritos, mas ano após ano, mês após mês,
por mais que Francis trabalhasse, por mais cuidado que
tivesse, o dinheiro ia diminuindo, até que por fim secou de
todo, sumiu-se. Lee Chong recebera a camioneta em troca de
uma conta da mercearia. Por essa altura o carro não era mais
do que quatro rodas e um motor; e este tão emperrado, tão
embezerrado e caturra, que requeria cuidados e estudos
especializados.
Lee Chong não lhos proporcionava, do que resultava
permanecer o carro na relva por trás da mercearia quase sempre
com abóboras a crescerem-lhe entre os raios. Tinha pneus
sólidos nas rodas traseiras
e uns cepos erguiam do chão as da frente.
É provável que qualquer dos rapazes do Palácio Flophouse
pudesse pôr o carro em boa forma, pois eram todos mecânicos
competentes e com prática, mas Gay era um mecânico inspirado.
Não há termo aplicável a semelhante mecânico que se compare a
mãos de fada, mas devia haver. Porque existiam homens capazes
de ver, ouvir, sondar, ajustar, e a máquina funciona. Na
verdade, há homens nas mãos dos quais um motor funciona
melhor. Assim era Gay. Os seus dedos sobre um distribuidor ou
um parafuso de afinação do carburador eram leves, seguros,
conhecedores. Conseguira consertar os delicados motores
eléctricos no Laboratório. Podia, se quisesse, ter sempre
trabalho nas fábricas, pois nessa indústria, onde amargamente
se queixam quando não realizam cada ano o total do capital em
lucros, são muito menos importantes as máquinas do que as
declarações fiscais. De facto, se fosse possível enlatar
sardinhas com relatórios, os donos ficariam imensamente
felizes. Assim, empregavam uns velhos horrores de máquinas
decrépitas, trepidantes, necessitando dos cuidados constantes
de um homem como Gay. Mack fez os rapazes levantarem-se
cedo. Tomaram o seu café e dirigiram-se logo para onde o carro
se encontrava, entre as ervas. Gay superintendia. Deu uns
pontapés nas rodas encalhadas da frente.Vão pedir uma bomba
emprestada e encham-me isso - disse. A seguir meteu um pau no
reservatório da gasolina por baixo da prancha que servia de
assento. Por milagre havia meia polegada de gasolina no
reservatório. Depois Gay passou revista às dificuldades mais
prováveis. Tirou fora as caixas das bobinas, raspou os
platinados, ajustou a folga e voltou a colocá-los nos seus
lugares. Abriu o carburador para certificar-se de que a
gasolina chegava lá. Deu à manivela para ter a certeza de que
a cambota não gelara de todo e os pistões não estavam
enferrujados.
Entretanto chegou a bomba e Eddie e Jones, revezando-se,
encheram os pneus. Gay cantarolava - tum-ta ta, tum-ta ta -
enquanto trabalhava. Tirou as velas, limpou os eléctrodos e
raspou o carvão. Depois escorreu um pouco da gasolina para uma
lata e deitou alguma em cada um dos cilindros antes de colocar
as velas novamente nos seus lugares. Endireitou-se. - A gente
vai precisar dum par de pilhas secas - disse.
Vê se consegues quo Lee Chong tas dê.
Mack partiu e voltou quase a seguir com um não universal,
destinado por Lee Chong a cortar quaisquer pedidos futuros.
Gay reflectiu intensamente. - Sei ondhá um par delas, bem boas
por sinal, mas eu cá não vou buscá-las.
- Ondé? - perguntou Mack.
- Na cave lá de casa - disse Gay. - São as que fazem
funcionar as campainhas da entrada. Sum de vocês se esgueirar
té à cave sem a minha patroa dar por isso, stão ao cimo, no
tabique à esquerda de quem entrar. Mas pormor de Deus não se
deixem apanhar pla patroa. Em conferência, elegeram Eddie
para ir, e ele partiu. - Se fores apanhado não fales em mim -
gritou-lhe Gay à partida. Entretanto experimentava as cintas.
O pedal alto e baixo não tocava no chão, por isso concluiu que
lhe restava ainda alguma cinta. O pedal do travão, esse sim,
encostava completamente no chão, portanto não havia travão;
mas o pedal de marcha-atrás ainda conservava muita cinta por
gastar. No modelo T do Ford o pedal de marcha-atrás é a tábua
de salvação. Quando falha o travão pode utilizar-se a
marcha-atrás em sua substituição. E quando a cinta de
velocidade baixa está gasta de mais para se poder subir uma
ladeira íngreme, então pode dar-se a volta ao carro e metê-lo
em marcha-atrás. Gay verificou que a marcha-atrás estava em
bom estado e tinha a certeza de que tudo correria bem.
Foi de bom augúrio ter o Eddie regressado sem novidade com
as pilhas. Mrs. Gay encontrava-se na cozinha. Eddie ouviu-a a
andar de um lado para o outro, mas ela não ouviu o Eddie.
Tinha um jeitão para coisas destas o Eddie.
Gay ligou as pilhas, acelerou a gasolina e atrasou a
ignição. - Dá à manivela - disse ele.
Um portento, era este Gay - um mecanicozinho de Deus, o S.
Francisco de todas as coisas que rodam, torcem, explodem, o S.
Francisco das bobinas, das cambotas e dos carretos. E se algum
dia toda a caterva de calhambeques avariados, Lusenbergs,
Buicks, De Sottos e Plymouths, Austins americanos e Isotta
Fraschinis elevarem num grande coro os seus louvores a Deus -
será em grande parte devido a Gay e à sua confraria.
Um jeito, só um jeitinho, e o motor pegou, funcionou, falhou
e tornou a pegar. Gay avançou a ignição e desacelerou: Ligou
ao magneto e o Ford do Lee Chong gorgolejou, tremelicou e
estrondeou feliz como se soubesse que trabalhava para alguém
que o amava e compreendia.
Thursday, January 29, 2009
AMAZING, NOTE DATE
Karl Marx, Das Kapital, 1867
Monday, January 26, 2009
´SÓCRATES
Anton Tchekov
Wednesday, January 21, 2009
HISTÓRIA DA "ÚLTIMA CEIA", DE LEONARDO
No primeiro instante o homem agita a cabeça, como todos nós fazemos quando não queremos confessar qualquer coisa. Finalmente balbucia a razão da sua angústia. Muitos anos antes sentara-se naquela mesma cadeira. Sentara-se exactamente no mesmo lugar que lhe haviam indicado desta vez. Mas da primeira vez estivera ali para posar como Cristo...
in O Mestre de Dança, de Nicholas Shakespeare.
Monday, January 12, 2009
DITO
"Legalmente é um advérbio robusto, aguenta com tantas fortunas!"
Balzac "Les Paysans"
Oportunamente falaremos deste periódico popular.
Tuesday, December 23, 2008
O FADO
Não gosto do fado.Você não tem nada com isso mas um homem precisa de desabafar. A canção nacional – como dizem -, não presta para nada. Não alegra nem estimula: é um sofrimento pegado. O fado “é uma canção torpe e dissolvente”, cuja amargura nos penetra e, tanto melhor, quando penetra também nos outros.
O fado é sofrimento. Sofrimento rasca. O fado é bom quando sofremos muito e excelente quando este sofrimento também atinge os seres à nossa volta. O fado é bom quando nos faz chorar e óptimo quando os outros também choram.
Os temas do fado têm de ser, portanto, altamente dolorosos. E o amor é a sua principal glosa. Amor interrompido, descorrespondido, atraiçoado. A morte que o leva, a outra que o leva, a fome que o leva, a tuberculose que o destrói. É a dor de cotovelo, de corno, de cabeça, de saudade. O fado é a pobreza, a miséria. Alguns ricos cantam o fado por snobismo; alguns pobres cantam a sua própria miséria e chamam-lhe fado. E essa burguesia que está entre a água a ferver e a gelada, “gosta de ouvir cantar o fado”, talvez por não ser nada que lhes diga intimamente respeito.
O fado é também miserável sob o ponto de vista urbanístico, arquitectónico. Ama os becos, as escadinhas, as portas pequenas, as vielas, as ruas estreitinhas, os gatos ranhosos, esquálidos e ladrões, os cães vagabundos e esfomeados, as águas-furtadas, os pátios, os esconsos assacanados, os candeeiros sem luz. Sim, o fado gosta do escuro. O fado está há muito casado com a noite; vivem lado a lado e dão-se bem.
Naquela noite a diva jantou connosco. Mal se sentou, à cabeceira da mesa, mandou imediatamente apagar as luzes da sua zona. Aquietou-se. Fez-se noite. Venham velas tremeluzentes e sentem-se aqui connosco. Que as vossas luzes só deixem ver os olhos sombrios da dor e do desgosto. Nada mais.
Por deveres de ofício, durante alguns anos “fiz” a transmissão dos “Fados e Guitarradas”, para a então Emissora Nacional, do Bairro Alto e convivi com os cultores e os executantes daquela coisa. E compreendi por que eram tristes e sorumbáticos os guitarras e os violas: dias, semanas, meses, anos às escuras, acompanhando as dores alheias, fumando mil cigarros por noite, queimando as pestanas, os olhos, as unhas e os fatinhos fedendo a tabaco.
Sim, ouvia-se numa noite uma ou duas gargalhadas de fugida mas estas eram torpes, assacanadas, pérfidas – de raspão pela alegria. Os violas e os guitarras sempre me pareceram tristes, obscuros, inconformados. Vão tocando a par um do outro, em indiferente contra-relógio, atentos apenas aos sinais do cantante para o final mais forte e apoteótico. Depois limpam as cordas com a flanela, e atacam o novo fado, que nada lhes diz pois já o tocaram por diversas vezes, como uma banda que só tocasse o hino nacional do seu país. Por isso não choram com a desgraça que a fadista conta cantando – importante é o acorde estar certo, o travessão bem feito. No final da ementa, o ou a fadista ordena à assistência que bata palmas também aos sanfonineiros. E eles soerguem-se pela metade e agradecem perfeitamente indiferentes. No fundo agradecem à cantante que lhes assegura o ganha-pão. Isto é o fado. Parte.
Monday, December 08, 2008
A ESCOLA
- Sabem o que é uma Escola? Uma Escola são estas quatro paredes, o tecto, as janelas com vidros, as carteiras e as cadeiras, Como vêem é simples.
Mas, apesar de ser simples, morreram milhares de pessoas para terem o direito a frequentar uma Escola Pública, porque as escolas eram só para os ricos. A Escola Pública foi uma conquista de todos nós, nossa. A Escola Pública é nossa, nunca se esqueçam. É com ela que vamos iniciar a vida de luta, de trabalho, de conquista. É com ela que a nossa mente se organiza e que adquire os conhecimentos para seguir em frente.
Apesar de simples, há muitas terras sem Escola.
Há meninos e meninas em Moçambique que não têm Escola. Centenas de milhar. Nem Escola, nem cadernos, nem carteiras, nem ardósias e muito menos máquinas de calcular e celulares. Como fazem esses jovens que desejam estudar, saber mais? Sentam-se no chão, sob a sombra do cajueiro,
Tão pobre e carente como os alunos, o professor vai ensinando o que pode. Em vários sítios ele arrebanha folhas de papel e pedaços de lápis; às vezes tem um pequeno quadro preto que pendura nos troncos das árvores. A cópia e o ditado e feito pelo suplemento infantil do jornal Notícias, de Maputo. Livros? O que é isso?
- Vocês sabem que, em todo o mundo, milhões de jovens como vocês não vão à Escola? Ou porque não a têm, ou porque são pobres e começam a trabalhar os campos com os pais aos 5 ou 6 anos de idade, ou porque não há caminho para ir lá, nem transportes, ou os pais são analfabetos a acham que os filhos também o devem ser e tantas outras razões. Ainda há bem pouco tempo em Portugal teve de ir a Guarda Republicana a uma aldeia buscar uma menina de 16 anos que queria estudar e os pais não deixavam.
- Agora vocês estão aqui, na Escola, que foi paga por mim, pelos vossos pais e por todos os trabalhadores do país. Eles fizeram o sacrifício de pagar estas e outras Escolas, para que as crianças pudessem aprender com o maior conforto possível.
- Portanto, cada risco feito na carteira, cada spray lançado nos balneários é um crime. Ao fazerem isso estão a fazer mal aos meus pais, a mim, aos vossos pais e aos trabalhadores de todo o país. E estão a estragar o bem-estar para a aprendizagem do que precisam.
- Quantas crianças choram ao ver outras irem para a Escola e eles ficarem a cavar ou a apanhar fruta nos campos?
Pensem nisto, crianças deste tempo.
Monday, November 17, 2008
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ”E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1.Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2.Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado “ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendidado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder — a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o
poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos, moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos
donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os
trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles
investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais
abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África
continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos.
Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
(Savana)
Friday, November 07, 2008
"YES WE CAN"
Simpatizei contigo desde o primeiro momento. Por seres mulato? Também. O meu filho é mulato e não me dou menos feliz por isso.
Dizes ao teu povo, no discurso da vitória, que ele é capaz. Não poderias, nas férias, por exemplo, vires dizer o mesmo ao meu povo?
Barak: é um convite muito sério. Fora de todos os protocolos e hierarquias. Tenho sítio onde te alojar, mais à tua mulher e filhas. Vinhas ver e conhecer o meu povo e talvez um dia lhe pudesses dizer: “Yes you can”.
Sim, vocês podem correr com estes pindéricos morais e colocar nos seus lugares homens e mulheres honrados. Sim, vocês podem deixar de ser roubados, no corpo e no espírito diariamente. Sim, vocês podem ter trabalho e viver melhor, cultivando todos os terrenos e pondo os inúteis, de hábito e tonsura, a tomar conta deles.
Sim, vocês podem fazer com que todas as crianças vão à Escola, mas com o estômago aquietado, que estudar com fome não dá rendimento que se veja. Sim, vocês podem reabrir as fábricas fechadas e colocar nelas os homens e mulheres que acreditam no trabalho como força libertadora e não escravizante.
Quando começaste a tua campanha, fiquei entusiasmado que a tua provável vitória; no dia seguinte pedia aos deuses para que não ganhasses. No outro voltava a querer que ganhasses. Tem sido uma guerra comigo mesmo Barak Obama. Tão depressa quero como não quero que sejas presidente. E, quando não quero, sei tão bem como tu qual a razão: o medo. O medo que te interrompam a passada firme e decidida que iniciaste há um ano, agora confirmada.
Se conseguires libertar o teu povo da máquina sinistra que o envolve, fica activo o meu convite. Virás com a Michelle passar oito dias na Praia das Maçãs, um sítio bonito sem macieiras, apesar do nome, com a minha família e as tuas filhas brincarão com os meus filhos, trocando sinónimos, substantivos, frases e alguma ternura e muitas gargalhadas. E falaremos da possibilidade de um mundo melhor para eles, como tu e eu queremos e por ele trabalhamos.
Até breve,
Álvaro Belo Marques
Friday, October 24, 2008
MIGALHÃES
A percorrer o espaço web anda este poema anónimo:
Lá vem pelo avelar
O filho do Zé João
Vem do centro escolar
Cansado de palmilhar
A caminho da povoação
Não há médico na aldeia
E a antiga escola fechou
Não tem carne para a ceia
Nem petróleo para a candeia
Porque o dinheiro acabou
O seu pai foi para França
Trabalhar na construção
E a mãe desta criança
Trabalha na vizinhança
Lavando pratos e chão
Mas o puto vem contente
Com o Migalhães na mão
E passa por toda a gente
Em alegria aparente
De quem já sabe a lição
Um senhor muito invulgar
Que chegou com mais senhores
Veio para visitar
O novo centro escolar
E dar os computadores
E lá vem o Joãozinho
No seu contínuo vaivém
Calcorreando o caminho
Desesperando sozinho
À espera da sua mãe
Neste país de papões
A troco de dois vinténs
Agravam-se as disfunções
O rico ganha milhões
E o pobre Migalhães!!!
Thursday, October 09, 2008
EUA - bem-vindos ao Terceiro Mundo!
Não é todos os dias que uma superpotência tenta transformar-se em nação do Terceiro Mundo.
Por isso, nós, aqui no Banco Mundial e no FMI, desejamos ser os primeiros a dar-lhes as boasvindas
à comunidade de Estados necessitados de ajuda económica internacional.
Enquanto vocês se afundam, muito nos alegra poder responder à solicitação do vosso
Departamento do Tesouro para que participemos numa avaliação conjunta da estabilidade do seu
sector financeiro. Nesta época turbulenta, podemos oferecer-lhes empréstimos subsidiados e até
especialistas.
Como vocês sabem, há muito tempo que é necessária uma intervenção na vossa economia. Na
semana passada, mesmo antes do recente colapso em Wall Street, ex-ministros da Economia de
vários países reuniram-se na Virgínia e concordaram que vocês precisam de reformar o vosso
sistema financeiro. O ex-ministro das Finanças da Índia, Yashwant Sinha, sugeriu até que vocês
peçam ajuda ao FMI.
Esperamos que vocês não se sintam envergonhados. Lembrem-se que outros países já
estiveram nessa posição. Já ajudámos as economias da Argentina, do Brasil, da Indonésia e da
Coreia do Sul. Assim, gostaríamos de reconhecer o progresso que vocês fizeram na evolução
desde superpotência económica até ao completo descontrolo económico.
Normalmente tal processo leva 100 anos ou mais. Entretanto, devido às vossas oscilações entre
o extremismo do livre mercado e a nacionalização de empresas privadas, vocês atingiram com
sucesso, em poucos anos, muitas das principais características observadas nas economias do
Terceiro Mundo.
As vossas medidas de irresponsável desregulamentação governamental em sectores críticos
permitiram que vocês desenvolvessem rapidamente uma crise energética, uma crise de habitação,
uma crise de crédito e uma crise no mercado financeiro, todas ao mesmo tempo, e acompanhadas
por impressionantes níveis de corrupção e especulação. Enquanto isso, os vossos políticos, que
deveriam supervisar o sistema, estavam dormindo com os lobistas.
Tomemos como exemplo John McCain, o vosso candidato republicano à presidência, cuja
equipa principal de assessores inclui meia dúzia de ex-lobistas de renome. Ele mesmo afirmou
recentemente que foi presidente do Comité de Comércio do Senado, que supervisa todas as
vertentes da economia. Não restam dúvidas, portanto, relativamente ao fracasso da sua liderança
em perceber o estrago causado pela desregulamentação irresponsável.
Agora, vocês enfrentam as consequências. A desigualdade aumentou. Enquanto os ricos
recebem dinheiro caído do céu, a classe média viu os seus rendimentos estagnar. Um número
cada vez menor de cidadãos tem acesso a habitação, assistência médica ou segurança social. Até
a expectativa de vida diminuiu. E, quando os problemas económicos passaram de crónicos a
agudos, vocês responderam - como fizeram tantos outros Estados do Terceiro Mundo - com um
programa extenso de nacionalização de empresas privadas.
As vossas gigantes do ramo das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac, pertencem agora ao
Estado. Nesta semana, a gigante dos seguros, a AIG, também foi nacionalizada. Alguns podem
chamar a isso “socialismo”, mas épocas de desespero exigem medidas desesperadas.
A vossa transição para o Terceiro Mundo será dolorosa. No início, vocês terão dificuldade em
habituar-se às favelas, que crescerão nos subúrbios das cidades, mas, com o tempo, elas tornarse-
ão parte da paisagem.
À medida que as taxas de desemprego aumentarem, vocês terão problemas para encontrar
ocupação para a massa de jovens desempregados, mas logo vocês vão perceber que podem
recrutá-los para alguma qualquer guerra, um tipo de solução que já foi utilizada por muitos Estados
do Terceiro Mundo antes de vocês.
Talvez esta carta vos surpreenda e vocês sintam que ainda não estão prontos para se juntar ao
Terceiro Mundo. Mas não fiquem preocupados: Apesar de nunca terem percebido, vocês já
estavam há vários anos a preparar-se para este momento.
* Rosa Brooks escreveu este artigo para o “Los Angeles Times” que foi também publicado no Savana de Moçambique.