O meu e-mail é
belomarques.2005@gmail.com
por onde me pode contactar.
Tuesday, May 11, 2010
Monday, May 03, 2010
FUTEBOL CLUBE DO PORTO X S.L. E BENFICA
Foi comovente ver chegar à frente do hotel no Porto, onde entrara há quinze minutos a equipa do Benfica, aquela mole humana agitando bandeiras do clube adversário, bandeiras de Portugal e da UE.
À frente vinha uma banda de mais de trinta músicos, tocando as mais alegres marchas de John Filipe de Sousa, seguida de dirigentes do F.C. do Porto enquadrados pela equipa de juvenis do clube e de dezenas de atletas exibindo orgulhosamente as suas medalhas.
Da porta principal do hotel saiu então e comitiva do Benfica, que foi aplaudida amistosamente pela multidão. A banda fez uma pausa e os respectivos presidentes dos clubes abraçaram-se e trocaram galhardetes.
A banda dirigiu-se então para o estádio, novamente a tocar, ouvindo-se os primeiros foguetes do dia, avisando desta forma a população da capital do Norte de que “Já chegaram!”
Os adeptos do Benfica que foram ao Norte em dois comboios especiais, foram saudados à sua chegada à Campanhã, por uma comissão de sócios do F.C. do Porto, que lhes prestou escolta até ao estádio, entoando hinos e agitando bandeiras dos dois clubes. Nas janelas, os moradores gritavam e batiam palmaas.
Fui informado ainda pelo locutor de que, à noite, qualquer que fosse o resultado, haveria a actuar conjuntos e solistas de Lisboa e do Porto, estando prevista ainda uma prenda-lembrança à equipa perdedora, oferta da cidade, oferecida pelo próprio presidente, Dr. Rui Rio.
Foi neste momente que fiz as pazes com Portugal, que tinha mostrado civismo e educação, elevando os jogadores de futebol à categoria de atletas e o Povo à categoria de cidadãos.
Eu tinha uma certa esperança de que, mais dia menos dia, o país onde nasci me daria esta alegria. Pronto, agora sou português.
A.B.M.
À frente vinha uma banda de mais de trinta músicos, tocando as mais alegres marchas de John Filipe de Sousa, seguida de dirigentes do F.C. do Porto enquadrados pela equipa de juvenis do clube e de dezenas de atletas exibindo orgulhosamente as suas medalhas.
Da porta principal do hotel saiu então e comitiva do Benfica, que foi aplaudida amistosamente pela multidão. A banda fez uma pausa e os respectivos presidentes dos clubes abraçaram-se e trocaram galhardetes.
A banda dirigiu-se então para o estádio, novamente a tocar, ouvindo-se os primeiros foguetes do dia, avisando desta forma a população da capital do Norte de que “Já chegaram!”
Os adeptos do Benfica que foram ao Norte em dois comboios especiais, foram saudados à sua chegada à Campanhã, por uma comissão de sócios do F.C. do Porto, que lhes prestou escolta até ao estádio, entoando hinos e agitando bandeiras dos dois clubes. Nas janelas, os moradores gritavam e batiam palmaas.
Fui informado ainda pelo locutor de que, à noite, qualquer que fosse o resultado, haveria a actuar conjuntos e solistas de Lisboa e do Porto, estando prevista ainda uma prenda-lembrança à equipa perdedora, oferta da cidade, oferecida pelo próprio presidente, Dr. Rui Rio.
Foi neste momente que fiz as pazes com Portugal, que tinha mostrado civismo e educação, elevando os jogadores de futebol à categoria de atletas e o Povo à categoria de cidadãos.
Eu tinha uma certa esperança de que, mais dia menos dia, o país onde nasci me daria esta alegria. Pronto, agora sou português.
A.B.M.
Friday, April 30, 2010
EU FRASES
Em Maio de 1999 João Paulo Guerra escreveu os seguintes pensamentos:
* Todos os cogumelos são comestíveis. Alguns só uma vez.
* Tudo é relativo. O quanto dura um minuto depende do lado da porta da casa de banho se está.
* Os ingleses são tão educados que na Inglaterra quem dirige é o pendura.
* Armando Nascimento de Jesus, vulgo presépio.
* Os jogadores de videojogos são pessoas normais, que comem gelados pela testa como toda a gente.
* A primeira amnésia nunca se esquece.
* No boxe, geralmente, o árbitro é a única pessoa que sabe contar até dez.
* Em casa de um indeciso só pode haver uma casa de banho.
CONSELHOS
* Nunca bata num homem com óculos. Use as mãos, é mais efdiciente.
* Beba moderadamente, mesmo que em grandes quantidades.
* Não funcionou da primeira vez? Desista de saltar de para-quedas.
* Não se ache horrível pela manhã. Acorde ao meio-dia.
* Nunca se deve bater num homem caído, a não ser que se tenha a certeza de que ele já não se levantará.
* Evite uma vida sedentária; beba água.
* Evite acidentes. Faça de propósito.
* Se não pode vencer o inimigo, corra.
* Evite a ressaca; mantenha-se bêbado.
* Todos os cogumelos são comestíveis. Alguns só uma vez.
* Tudo é relativo. O quanto dura um minuto depende do lado da porta da casa de banho se está.
* Os ingleses são tão educados que na Inglaterra quem dirige é o pendura.
* Armando Nascimento de Jesus, vulgo presépio.
* Os jogadores de videojogos são pessoas normais, que comem gelados pela testa como toda a gente.
* A primeira amnésia nunca se esquece.
* No boxe, geralmente, o árbitro é a única pessoa que sabe contar até dez.
* Em casa de um indeciso só pode haver uma casa de banho.
CONSELHOS
* Nunca bata num homem com óculos. Use as mãos, é mais efdiciente.
* Beba moderadamente, mesmo que em grandes quantidades.
* Não funcionou da primeira vez? Desista de saltar de para-quedas.
* Não se ache horrível pela manhã. Acorde ao meio-dia.
* Nunca se deve bater num homem caído, a não ser que se tenha a certeza de que ele já não se levantará.
* Evite uma vida sedentária; beba água.
* Evite acidentes. Faça de propósito.
* Se não pode vencer o inimigo, corra.
* Evite a ressaca; mantenha-se bêbado.
Friday, April 09, 2010
PERGUNTA EMBARAÇOSA
- O que é que o senhor sabe fazer?
Perguntou-me a moça de sorriso tão aberto quanto frio. Lembrei-me de um dos meus últimos papéis e respondi:
- Sei servir à mesa.
Como estava bem-disposto, continuei, recordando os filmes já feitos ao longo de 70 anos:
- Também dou um jeito na cozinha, já fiz de cozinheiro-chefe num palacete inglês. Fui preceptor de meninos, ladrão de gado no Oeste, padre protestante na Austrália, comandante de um cruzeiro de férias, pistoleiro a soldo num gang durante a lei seca, sabe lá, eu levava aquilo muito a sério pois sempre gostei de whiskey, depois, numa sucessão muito rápida, fui um modesto alfaiate judeu, revendedor de droga e chui antidroga, em filmes seguidos, sem jeito algum, depois… bailarino profissional, e, talvez devido à minha cor escura mediterrânica, fiz de toureiro. Não sei se reparou no leve coxear da perna esquerda, quando entrei… é uma recordação desse papel. Não quis o duplo e foi o resultado.
Ela olhava de olhos bem abertos para mim. Fixamente. Friamente.
- Não há nada de mal em lhe dizer que também fiz de corredor de bicicletas num filme francês. Isto no início, quando ainda não tinha barriga. Deixei-me ficar por França uns tempos até que fui obrigado a cumprir um contrato para uma série televisiva sobre uma célula mafiosa a actuar no Texas, de onde têm saído, como deve saber, grandes mentirosos e também mafiosos. Depois descansei uns tempos em Las Vegas, onde joguei e ganhei numa noite trezentos mil dólares, perdendo, no dia seguinte, trezentos e dez mil no mesmo casino e na mesma roleta. A imprensa menor começou a dizer que eu era um batoteiro e que estava perdido para o Cinema. Isto chegou evidentemente a Hollywood, pois passadas duas semanas, recebi um convite para interpretar uma personagem de Dostoievsky, o Jogador. Mandaram-me o script. Li-o numa noite. Gostei imenso. Isto de estar a fazer o gosto ao dedo e ainda por cima nos pagarem, é uma grande maravilha. Com o dinheiro e o êxito, efectuei o terceiro divórcio e o inevitável acordo de indemnização. Ganhei na roleta fictícia, perdi na vida real. Depois… deixe-me ver… ah! Fiz de motorista entradote ao serviço de uma multimilionária, melhor, motorista para todo o serviço. Um filme com muita graça e um enorme Rolls Royce último modelo. Quando saímos de dentro do filme e como já estávamos habituados um ao outro, com várias cenas de cama à mistura e etc., resolvemos casarmo-nos e lá fui de novo para Las Vegas onde rodei um novo filme interpretando um pugilista na decadência que se deixa subornar para ganhar uns milhares fora do ringue. Enquanto em Hollywood eu treinava no ginásio, corria, saltava à corda, fazia pushing-ball, etc., a minha nova esposa, convencida que ainda era multimilionária, gastava o que não tínhamos nos diversos casinos à sua inteira disposição. Em resumo: mais uma falência e mais um divórcio. Mas desta vez não houve pensão de alimentos.
Como nada acontecesse, ela a olhar para mim e eu para ela, continuei:
- No começo da minha carreira, entrei num dos últimos filmes mudos, um modesto miúdo que ia comprar um ice cream. Depois coisas sem importância, como engraxador – uma cena de apenas um minuto –, vendedor de jornais – um minuto a berrar que nem um desalmado o nome do jornal – também de carteirista astuto e de bêbado assumido.
Parei sem fôlego.
- Bem… - disse ela – não sabe fazer nada.
Tive de concordar. E ela encerrou a sessão:
- Acabe de preencher os impressos, assine, entregue àquela senhora ali e pode ir-se embora. – Fria como um cubo de gelo pelas costas abaixo.
- Muito bem. Obrigado – respondi delicadamente.
Tuesday, March 23, 2010
O PRINCÍPIO DE PETER
O betão voltou a matar um operário português. É com imensa facilidade que se morre em Portugal. Foi a ponte que caiu por falta de fiscalização, foi o menino que se afogou por falta de informação, foi o rapaz que se electrocutou ao accionar o botão para atravessar a via em “segurança”, são os meninos que morrem nos esgotos das piscinas, são diariamente os corpos removidos das estradas, mortos por imbecis, ou alcoólicos ou heróicos condutores topo de gama, são os jovens que voam e que morrem no ar de tiros da polícia – com tiros de aviso para o ar -, são operários que morrem numa simples vala, pois as faldas desabaram. São ainda os avisos para os mortos irem pagar impostos às finanças, os arrestos de contas há muito liquidadas, o aviso para que o cidadão seja reembolsado em 1 €, a placa de parque de estacionamento colocada de pernas para o ar, o candeeiro de iluminação pública precisamente em frente da porta da garagem.
O professor Peter defende a tese de que todos alcançamos o nosso nível de incompetência se formos subindo na carreira. Ninguém me pode afiançar, por exemplo, que o professor Cavaco Silva não atingiu já o seu nível de incompetência. Mas estou apenas a especular pois onde desejo chegar é à certeza cada vez mais sólida de que 80 ou 90% da população portiguesa atingiu já o seu nível de incompetência, o que leva muitos julgamentos à falência pois os juízos não estão, de uma maneira geral, isentos de serem atingidos pelo Princípio de Peter. Nem sequer os do Supremo.
Tenho a vaga sensação de que com este post atingi também o meu nível de incompetência.
O professor Peter defende a tese de que todos alcançamos o nosso nível de incompetência se formos subindo na carreira. Ninguém me pode afiançar, por exemplo, que o professor Cavaco Silva não atingiu já o seu nível de incompetência. Mas estou apenas a especular pois onde desejo chegar é à certeza cada vez mais sólida de que 80 ou 90% da população portiguesa atingiu já o seu nível de incompetência, o que leva muitos julgamentos à falência pois os juízos não estão, de uma maneira geral, isentos de serem atingidos pelo Princípio de Peter. Nem sequer os do Supremo.
Tenho a vaga sensação de que com este post atingi também o meu nível de incompetência.
Monday, March 08, 2010
DEUS, SENHOR:
XXXXXXXXXXXX XX XXXXXXXXXX X XXX
XXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX X X X X X X X
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Tudo isto me incomoda e magoa. Explica-me.
Sou ateu e tu sabe-lo. Que esperas então para me converter?
Eu
XXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX X X X X X X X
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Tudo isto me incomoda e magoa. Explica-me.
Sou ateu e tu sabe-lo. Que esperas então para me converter?
Eu
Tuesday, February 09, 2010
SOCORRO
Preciso ajuda.
O meu pc foi formatado e desde então não aceita a edição de screen savers. O que devo fazer?
Obrigado se me puder ajudar.
Álvaro
O meu pc foi formatado e desde então não aceita a edição de screen savers. O que devo fazer?
Obrigado se me puder ajudar.
Álvaro
Monday, November 02, 2009
O TÉDIO DE UM JULHO QUENTE
Não havia vento nem brisa naquela tarde de domingo. Apenas imperava o tédio que, lentamente, ia percorrendo as ruas, as escadinhas e as vielas de Cascais. O tédio que assomava às pequenas janelas da rua dos Pescadores e lá para dentro espreitava. Gatos e cães dormiam em abandono nas sombras possíveis. O tédio passou então pelo Café Baía e deu um encosto aos rapazes ali sentados, que bocejavam por dentro e malcriadavam por fora. Ouviam-se as moscas. Enfim, passeou pela Praia do Peixe e subiu lentamente à estação dos comboios. A um canto, sentado no carrinho de mão com as costas e a cabeça encostadas à parede, dormitava em paz o Nabiça, destacando-se, na lapela do seu casaco mal enjorcado, um pequeno ramo de espigas. Durante todo o ano, alguma flor, ou legume, tinha de ornar a sua farpela.
“O senhor Nabiça”, como lhe davam trato os veraneantes e turistas que precisavam de alguém que lhes levasse as malas e demais atavios, quando chegavam. Ele conhecia todas as ruas e todos os becos da vila, apesar de ter vindo gaseado da guerra e não dizer, inúmeras vezes, coisa com coisa.
Os rapazes, ainda com a marca do tédio na testa, desejavam uma ideia para se divertir. E tanto procuraram que a encontraram na pessoa do senhor Nabiça. “Damos-lhe uns trocos e ele vai até ao albergue…”
Havia nessa data o GACA 1, Grupo de Artilharia Contra Aeronaves ou, como o povo dizia, Grande Albergue das Crianças Abandonadas, em frente à Cidadela.
Com geral regozijo, lá se foi levar a encomenda ao Nabiça juntamente com dez escudos e procurar um sítio onde se pudesse desfrutar a cena.
O Nabiça foi buscar a condecoração, colocou-a ao lado da espiga e lá foi em passo lento para a porta da Cidadela. Parou frente à sentinela que, esparvoada, olhava de revés para aquela figura. Nisto um raio caiu-lhe na cabeça. Então o mal enjorcado não tinha a Cruz de Guerra?! E lança em pânico um berro longo e forte de “Às armas!”, como se viessem aí outra vez os franceses, mas agora em maior número. Surgem então os restantes elementos da Guarda, arrumando-se enfraldiscados, bocejando, mailo cabo, o sargento e, finalmente, um tenente, magro e comprido, como um ponto de exclamação no fim desta oração fardada. E o ritual obrigatório cumpriu-se: fez-se sentido e os soldados apresentaram armas. O Nabiça, que tinha inchado com a cerimónia, primeiro agradeceu e depois desinchou e encaminhou-se na direcção do Roxo, descendo depois para o Baía.
Os rapazes, entre gargalhadas, fizeram-lhe uma grande recepção e organizavam-se para uma segunda expedição, quando, assombrados, viram o ponto de exclamação na sua frente. Ficaram mudos e quedos.
Sem zanga, disse-lhes o tenente:
- Vocês não sabem o que fizeram. Este homem, o senhor Nabiça, tem a mais alta condecoração militar portuguesa, por coragem e bravura. Mas infelizmente apanhou gases na Primeira Guerra Mundial. Ele merece o nosso respeito e não a nossa chacota. Se o senhor Nabiça voltar à Porta de Armas, mandar-vos-ei prender a todos. Perceberam?
Os rapazes compreenderam. O Nabiça fez uma desajeitada continência e saiu atrás do tenente. Nessa altura o tédio corria como louco pela lota do peixe.
“O senhor Nabiça”, como lhe davam trato os veraneantes e turistas que precisavam de alguém que lhes levasse as malas e demais atavios, quando chegavam. Ele conhecia todas as ruas e todos os becos da vila, apesar de ter vindo gaseado da guerra e não dizer, inúmeras vezes, coisa com coisa.
Os rapazes, ainda com a marca do tédio na testa, desejavam uma ideia para se divertir. E tanto procuraram que a encontraram na pessoa do senhor Nabiça. “Damos-lhe uns trocos e ele vai até ao albergue…”
Havia nessa data o GACA 1, Grupo de Artilharia Contra Aeronaves ou, como o povo dizia, Grande Albergue das Crianças Abandonadas, em frente à Cidadela.
Com geral regozijo, lá se foi levar a encomenda ao Nabiça juntamente com dez escudos e procurar um sítio onde se pudesse desfrutar a cena.
O Nabiça foi buscar a condecoração, colocou-a ao lado da espiga e lá foi em passo lento para a porta da Cidadela. Parou frente à sentinela que, esparvoada, olhava de revés para aquela figura. Nisto um raio caiu-lhe na cabeça. Então o mal enjorcado não tinha a Cruz de Guerra?! E lança em pânico um berro longo e forte de “Às armas!”, como se viessem aí outra vez os franceses, mas agora em maior número. Surgem então os restantes elementos da Guarda, arrumando-se enfraldiscados, bocejando, mailo cabo, o sargento e, finalmente, um tenente, magro e comprido, como um ponto de exclamação no fim desta oração fardada. E o ritual obrigatório cumpriu-se: fez-se sentido e os soldados apresentaram armas. O Nabiça, que tinha inchado com a cerimónia, primeiro agradeceu e depois desinchou e encaminhou-se na direcção do Roxo, descendo depois para o Baía.
Os rapazes, entre gargalhadas, fizeram-lhe uma grande recepção e organizavam-se para uma segunda expedição, quando, assombrados, viram o ponto de exclamação na sua frente. Ficaram mudos e quedos.
Sem zanga, disse-lhes o tenente:
- Vocês não sabem o que fizeram. Este homem, o senhor Nabiça, tem a mais alta condecoração militar portuguesa, por coragem e bravura. Mas infelizmente apanhou gases na Primeira Guerra Mundial. Ele merece o nosso respeito e não a nossa chacota. Se o senhor Nabiça voltar à Porta de Armas, mandar-vos-ei prender a todos. Perceberam?
Os rapazes compreenderam. O Nabiça fez uma desajeitada continência e saiu atrás do tenente. Nessa altura o tédio corria como louco pela lota do peixe.
Friday, October 23, 2009
BOURRÉ A MEIO DA TARDE
Álvaro Belo Marques
O Pavilhão dos Desportos estava cheio e decorado para concerto. Eu comprara um bilhete na segunda fila e já estava sentado quando as luzes se apagaram para a segunda parte, na qual ela actuaria como solista. Cerca de trinta anos tinham passado desde aquela vez que nos conhecemos. O nosso único encontro. Quando ela entrou com o maestro, o Pavilhão quase ruiu com os aplausos – estava no auge da sua carreira. Sentou-se, fez-se quase silêncio e ela atacou o primeiro andamento do Concerto para Piano e Orquestra, opus 16 de Grieg com o mesmo virtuosismo do autor. Lembram-se? É uma entrada vigorosa.
Estava madura, mais cheia e mais bonita. A menina do vestido estampado com flores azuis, que assomava à janela para descansar as mãos e os braços, naquela moradia de dois pisos em S. João do Estoril, era agora uma consagrada pianista.
Passei cinco tardes encostado ao muro com gradeamento, que rodeava a sua casa, ouvindo-a estudar. Deveríamos ter dezassete anos. Logo no primeiro dia que parei para a ouvir, ela deu por mim. Como a pausa fosse grande, olhei para cima. Demos um pelo outro no mesmo centésimo de segundo. Olhámo-nos com curiosidade. Ela perguntando com o olhar “Estavas aqui a ouvir-me tocar?” E eu, na mesma linguagem “Fui apanhado!”
Nos cinco dias que passei ouvindo-a estudar, o esquema era normalmente o mesmo: umas escalas, depois um ou dois Estudos de Czerny, mais uma sonatina de Beethoven, alguns Nocturnos e Estudos de Chopin e parava aquele período de trabalho com uma peça ligeirinha, muito bonita, que ela já tocava com muita alma: “Fur Elise”. Depois talvez fosse lanchar, altura em que eu partia com a cabeça cheia de música.
Parecia que os deuses se interessaram por nós, primeiro, fazendo-me passar sob aquela janela naquele dia àquela hora. Segundo, proporcionando no domingo o nosso encontro na Patinagem de Cascais. Devíamos ter sido destinados um ao outro. Disse-lhe o meu nome e ela que se chamava Cecília. Falámos o resto da tarde com entusiasmo e franqueza. Ainda houve uns segundos para lhe perguntar “porquê o Fur Elise todos os dias e que tocas tão bem?” Ela sorriu e respondeu como uma criança que era “Porque gosto”.
Ficou tacitamente estabelecido que nos encontraríamos no domingo seguinte. Mas não aconteceu assim. Meus pais regressaram a Lisboa e eu com eles. Neste momento estava a vê-la, ao fim de cerca de trinta anos, a terminar o último andamento do Concerto em Lá Menor para piano e orquestra, de Grieg.
O Pavilhão parecia vir abaixo com a permanente ovação em forma de onda: subia e descia, mas não parava. Por indicação do maestro, a orquestra e a solista saíram mas ela voltou para tocar alguns extras e acalmar aquele auditório conquistado pela beleza e a perfeição da execução, que gritava o seu nome. Ao terceiro extra fui eu que gritei, já perdido, deseducadamente, “Fur Elise”. Fez-se um quase silêncio. Ela olhou em redor, tentando detectar o autor do pedido. Sentou-se de novo e tocou a bela peça que Beethoven tinha escrito para a Elisa.
Segui depois a fila das pessoas que iam ao seu camarim cumprimentá-la; toda a gente a ver e a ouvir o meu coração a bater. Estendeu-me a mão a sorrir e dizendo “Foste tu…” Beijei-a respondendo “Fui”. E nunca mais voltámos a ver-nos.
O Pavilhão dos Desportos estava cheio e decorado para concerto. Eu comprara um bilhete na segunda fila e já estava sentado quando as luzes se apagaram para a segunda parte, na qual ela actuaria como solista. Cerca de trinta anos tinham passado desde aquela vez que nos conhecemos. O nosso único encontro. Quando ela entrou com o maestro, o Pavilhão quase ruiu com os aplausos – estava no auge da sua carreira. Sentou-se, fez-se quase silêncio e ela atacou o primeiro andamento do Concerto para Piano e Orquestra, opus 16 de Grieg com o mesmo virtuosismo do autor. Lembram-se? É uma entrada vigorosa.
Estava madura, mais cheia e mais bonita. A menina do vestido estampado com flores azuis, que assomava à janela para descansar as mãos e os braços, naquela moradia de dois pisos em S. João do Estoril, era agora uma consagrada pianista.
Passei cinco tardes encostado ao muro com gradeamento, que rodeava a sua casa, ouvindo-a estudar. Deveríamos ter dezassete anos. Logo no primeiro dia que parei para a ouvir, ela deu por mim. Como a pausa fosse grande, olhei para cima. Demos um pelo outro no mesmo centésimo de segundo. Olhámo-nos com curiosidade. Ela perguntando com o olhar “Estavas aqui a ouvir-me tocar?” E eu, na mesma linguagem “Fui apanhado!”
Nos cinco dias que passei ouvindo-a estudar, o esquema era normalmente o mesmo: umas escalas, depois um ou dois Estudos de Czerny, mais uma sonatina de Beethoven, alguns Nocturnos e Estudos de Chopin e parava aquele período de trabalho com uma peça ligeirinha, muito bonita, que ela já tocava com muita alma: “Fur Elise”. Depois talvez fosse lanchar, altura em que eu partia com a cabeça cheia de música.
Parecia que os deuses se interessaram por nós, primeiro, fazendo-me passar sob aquela janela naquele dia àquela hora. Segundo, proporcionando no domingo o nosso encontro na Patinagem de Cascais. Devíamos ter sido destinados um ao outro. Disse-lhe o meu nome e ela que se chamava Cecília. Falámos o resto da tarde com entusiasmo e franqueza. Ainda houve uns segundos para lhe perguntar “porquê o Fur Elise todos os dias e que tocas tão bem?” Ela sorriu e respondeu como uma criança que era “Porque gosto”.
Ficou tacitamente estabelecido que nos encontraríamos no domingo seguinte. Mas não aconteceu assim. Meus pais regressaram a Lisboa e eu com eles. Neste momento estava a vê-la, ao fim de cerca de trinta anos, a terminar o último andamento do Concerto em Lá Menor para piano e orquestra, de Grieg.
O Pavilhão parecia vir abaixo com a permanente ovação em forma de onda: subia e descia, mas não parava. Por indicação do maestro, a orquestra e a solista saíram mas ela voltou para tocar alguns extras e acalmar aquele auditório conquistado pela beleza e a perfeição da execução, que gritava o seu nome. Ao terceiro extra fui eu que gritei, já perdido, deseducadamente, “Fur Elise”. Fez-se um quase silêncio. Ela olhou em redor, tentando detectar o autor do pedido. Sentou-se de novo e tocou a bela peça que Beethoven tinha escrito para a Elisa.
Segui depois a fila das pessoas que iam ao seu camarim cumprimentá-la; toda a gente a ver e a ouvir o meu coração a bater. Estendeu-me a mão a sorrir e dizendo “Foste tu…” Beijei-a respondendo “Fui”. E nunca mais voltámos a ver-nos.
Friday, September 11, 2009
Aproximam-se eleições - todos sabemos isso. O que talvez nem todos conheçam é o poema de Mário-Henrique Leiria "A Nêspera". É para estes que dedico esta transcrição.
A Nêspera
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
A Nêspera
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Wednesday, August 19, 2009
A FILHA DO POLACO

Pastoreava às vezes a estante do meu padrinho quando tinha dezasseis anos (idade que os rapazes nunca têm - passam dos catorze logo, de um salto, para os dezoito), quando vi os cinco volumes muito alinhadinhos de A Filha do Polaco, de um senhor chamado Campos Júnior.
Na altura, esfomeado, devorava com lombada e tudo, o Ponson du Terrail e mais o Dumas Pai quando o apanhava a jeito. Enxergar, pois, A Filha do Polaco, assim de repente, foi um milagre que na altura não relacionei com um livro largo de peito e de amplos dourados que se encontrava no final da prateleira, talvez pelo seu porte e ar abastado.
Atirei-me (literariamente) à filha do dito senhor e, no espaço de alguns dias, devorei-a completamente. Não sobrou nada. Trata o livro de um romance de amor, um romance histórico, decorrendo aqueles amores inflamados (portanto contrariados) durante as Invasões Francesas, com maiúsculas que logo saberão porquê.
O meu padrinho comprara esta obra em fascículos, com direito, no seu final, a encadernação grátis. A sogra dele, a minha avó algarvia, por seu lado, recortava o folhetim diário de O Século, que depois cosia com carinho agulha e linha - e não lia.
Na escola eu era um péssimo aluno a História. Tinha dificuldade em decorar datas, nomes e, na altura, não sabia para quê tanto ingrediente entrosado e de difícil explicação. E depois as árvores genealógicas - para mim gene-ilógicas, pois tudo se casava por interesse, primos com primas e coisas assim. A História era para mim um tormento. Mais o professor. Um parvalhão de óculos, que os tirava e olhava para as raparigas nas carteiras e perguntava: "Não tenho uns olhos bonitos?" Obviamente diziam que sim. (Eu e os outros rapazes agoniados.) "O que me atrofia e inferioriza é a vista cansada", adiantava penoso.
Literalmente acabada a filha do senhor polaco, voltei um dia à estante e retirei o tal livro largo de peito e com efeitos dourados. Comecei a folheá-lo e sentei-me. E comecei a lê-lo. E era uma maravilha de imaginação e de poesia, com imensas gravuras e capitulares arrendadas a ouro, cheias de beleza e imaginação.
Levei quase um mês a ler este livro poético, eu, que devorara em quatro dias as cerca de duas mil páginas de O Conde de Monte Cristo! Mais As Danadas de Paris, (às escondidas, emprestadado pelo meu pai, um boémio esquerdista), mais os Vinte Anos depois, A Mão do Finado, etc.
O exame de História dividia-se em duas partes: uma, a Antiguidade Clássica; a outra, História Contemporânea (mas não muito pormenorizada por causa da ditadura).
A primeira parte levei-a bem com o Egipto, aí com um dez vírgula zero um ou coisa parecida. Depois os três inquisidores passaram para a História Contemporânea e um deles disse-me assim: "Diga lá o que sabe sobre as Invasões Francesas."
Ai, Michel! Foi uma alegria e um ver se te avias! Já ultrapassara o tempo há muito quando me mandaram calar. Brilhante. Verdadeiramente brilhante para um aluno que, literalmente, não sabia fosse o que fosse de História. Nota final catorze.
Foi um milagre.
Na altura atribuí o acontecimento à influência do livro de largo peito e com efeitos dourados, eu, um agnóstico com documento passado pela Junta de Freguesia. Mas que houve coisa, houve.
O livro cheio de dourados, de ilustrações belíssimas e de capitulares de sonho, chamava-se A Bíblia Sagrada.
Friday, July 17, 2009
MARK TWAIN....AGAIN
Dando continuidade ao projecto de edição de uma Biblioteca de leituras para os mais jovens, as Edições Nelson de Matos estão a apresentar ao mercado através da sua Distribuidora Sodilivros, uma nova edição de AS AVENTURAS DE TOM SAWYER, de Mark Twain, em nova tradução de Maria João Freire de Andrade e com texto integral.
Uma das obras mais conhecidas de Mark Twain, um escritor de quem William Faulkner não hesitava em se considerar herdeiro.
Textos já publicados nesta Colecção
1. As Aventuras de Robinson Crusoe, Daniel Defoe
2. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
3. As Minas de Salomão, Rider Haggard
4. As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain
5. As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain (em preparação)
Uma das obras mais conhecidas de Mark Twain, um escritor de quem William Faulkner não hesitava em se considerar herdeiro.
Textos já publicados nesta Colecção
1. As Aventuras de Robinson Crusoe, Daniel Defoe
2. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
3. As Minas de Salomão, Rider Haggard
4. As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain
5. As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain (em preparação)
Wednesday, July 01, 2009
A VAQUINHA VITÓRIA AINDA VAI VIVER MUITO TEMPO?
Comer localmente, pensar globalmente
"Eu compro português. Refiro-me aos produtos de agricultura. Seja no mercado, na chamada praça, seja no supermercado, todos os produtos frescos de agricultura são obrigados a ter indicado no expositor o país de origem. E portanto, entre a Argentina e Portugal, escolho Portugal, entre a Espanha e Portugal, escolho Portugal, entre Israel e Portugal, escolho Portugal.
E defendo esta escolha. Não a faço por qualquer patriotismo mais ou menos lírico e bacoco, mas por razões práticas e concretas.
Penso que se deve consumir aquilo que é produzido junto de nós, à nossa volta, por pessoas que nos rodeiam, falam a nossa língua, que podiam ser da nossa família ou que já o foram mesmo em tempos remotos. Os produtos frescos, legumes e fruta, chegam deles até nós, com mais possibilidades de conservar essa frescura, sem que ela seja muito forçada por produtos de conservação.
Por outro lado o caminho que esses produtos fazem desde o campo em que são produzidos até à bancada do meu mercado é um pequeno caminho, comparado com a longa distância que nos separa da Argentina, de Israel, de França ou mesmo de Espanha. Desse modo a fruta que estou a comer, gastou pouco combustível para chegar até mim. Não concorro para o absurdo que é consumir combustível, que é um recurso limitado, libertar CO2, aquecer o planeta, para que me tragam uma maçã de Israel ou da Argentina, quando tenho uma igual ou melhor aqui ao lado. Isto faz parte da esquizofrenia (que outro nome é que há?) económica e é bom que toque o sinal de alarme dentro da nossa cabeça. Será que todos os nossos gestos terão que ser alienados e automáticos sem que possamos reflectir uns segundos sobre eles? Ou seja, estamos disponíveis para nos manifestarmos como declarados ecologistas de alma e coração, de papel e de boca, mas estamos indirectamente a poluir o planeta com as nossas escolhas absurdas?
Escolho os produtos portugueses também porque o futuro é imprevisível. Não sei se pode haver uma crise, uma epidemia, uma catástrofe. Sei que o meu país não é auto-suficiente em alimentos, mas quanto menos dependente for melhor... Por tudo isto penso que deveria haver a "excepção agrícola", com protecção dos produtos agrícolas (e do pescado) portugueses.
A globalização é muito bonita para os globalizadores.
Mas esses, os que ganham com a abertura do comércio mundial, os EUA, a França, a Alemanha, estão sempre dispostos a proteger os seus produtos quando isso lhes dá jeito. Ou seja globalizam para fora e protegem para dentro. Claro que o confronto com produtos de outros países tem a sua vantagem, que é a competição na qualidade. Passámos pelo período de protecção absoluta no Estado Novo em que se produzia toda a espécie de porcarias, as quais tinham o mercado exclusivo e garantido das colónias. Isso levou à estagnação de alguns sectores, a um atraso e a uma falta de qualidade, da qual ainda estamos a pagar a factura.
No entanto, hoje temos muito bons produtos, nos legumes, na fruta, nos lacticínios, na agro-pecuária, nos produtos conservados. É sabido e está provado que os legumes frescos e a fruta são bons para a saúde. São bons na prevenção das doenças cardiovasculares (coração e cérebro) e na prevenção de alguns cancros. Têm vitaminas, sais minerais e fibras insubstituíveis. A sopa é um alimento excelente - cheia de vegetais, com a água de coser os mesmos conservando nutrientes, desinfectada porque levanta fervura e saciante. No prato princípal devemos ocupar metade com vegetais, mas lá estarão também os "farináceos" - batatas, arroz, massa- e um pouco de carne, peixe e ovos. A fruta pode ser distribuída pelas refeições do dia. E o leite e derivados são indispensáveis. Claro que prefiro os vegetais e a fruta sem fertilizantes e pesticidas químicos. Que bom que é podermos dar uma dentada numa maça com a certeza de que não estão ali insecticidas! Mas também nessa área pode ser feito um esforço de qualidade e essa qualidade é uma distinção no mercado.
Pergunto-me porque é que há tão poucas campanhas para se comerem produtos portugueses.
Porque não há mais publicidade a boas novidades na área agrícola, porque as há, que vêm ao encontro das preocupações em saúde.
Calculo que não há porque as campanhas...custam dinheiro. E entretanto são os produtos estrangeiros e prejudiciais para a saúde que nos entram pelos olhos dentro. E sobretudo que entram pelos olhos dentro das nossas crianças."
Isabel do Carmo, médica, in Revista "Jovens Agricultores" nº 72
Wednesday, June 24, 2009
MAPUTO, NOITE DE 9 DE OUTUBRO DE 1979
Naquela noite resolvemos confraternizar fazendo música. Ao piano, dando-nos esperança de se tocar com alma e afinco, Né Afonso ou Santana Afonso, que aos 18 anos já tocava numa boate na Beira, fugindo à Polícia dizendo-se maior de 21 anos. Ricardo Timane (infelizmente já não nos podemos encontrar) cantava o Summertime, de Gershwin, com a sua bela voz quente, afinada e bem colocada. (Como se fosse possível um negro desafinar!) No violão temos o Ricardo Rangel que, apesar de não ser músico, sabia dar-nos um baixo acertado e feliz. A harmónica bocal solava com emoção.As fotos também servem para chorarmos sobre elas de saudade.
Thursday, June 18, 2009
16 de JUNHO

Da crónica de Luis Fernando Veríssimo, no ZeroHora, retiramos com a devida vénia este pedaço de prosa.
Anthony Burgess escreveu um livro sobre Joyce chamado ReJoyce. O trocadilho do título – que quer dizer, ao mesmo tempo, “referente a Joyce”, uma releitura de Joyce e “regozije-se com Joyce” – é uma homenagem ao autor que tornou o trocadilho literariamente respeitável. O livro de Joyce que se seguiu ao Ulisses, Finnegans Wake é um interminável - literalmente, pois não termina mesmo, a última frase do livro emenda na primeira – jogo de palavras no qual só deve se aventurar quem tem tempo, além de erudição ou um bom manual explicativo, como o de Burgess.
Tuesday, June 02, 2009
A JUSTIÇA EM PORTUGAL
Na minha caixa do correio apareceu este texto do senhor JOÃO MIGUEL TAVARES que, com a devida vénia, transcrevo.
"A justiça em Portugal parece-lhe confusa? Não faz ideia porque é que todos os processos que envolvem pessoas importantes acabam sempre em regabofe? Diga não à desorientação! Em apenas 20 passos, eis o guia ideal para entender todos os casos que em Portugal começam com a palavra "caso":
1) Os jornais publicam uma notícia sobre qualquer pessoa muito importante que alegadamente fez qualquer coisa muito má.
2) Essa pessoa muito importante considera-se vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
3) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso desrespeito do segredo de justiça em Portugal, que possibilita a actuação de forças ocultas.
4) Inicia-se o debate sobre o segredo de justiça em Portugal.
5) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar na legislação portuguesa para que estas coisas não aconteçam.
6) Toda a gente conclui que não se pode mudar a quente a legislação portuguesa.
7) A legislação portuguesa não chega a ser mudada para que estas coisas não aconteçam.
8) As coisas voltam a acontecer: os jornais publicam notícias sobre essa pessoa muito importante dizendo que ainda fez coisas piores do que as muito más.
9) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso jornalismo que se faz em Portugal, que nada investiga e se deixa manipular por forças ocultas.
10) Inicia-se o debate sobre o jornalismo português.
11) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar no jornalismo português.
12) Toda a gente conclui que estas mudanças só estão a ser debatidas porque quem alegadamente fez uma coisa muito má é uma pessoa muito importante.
13) Nada muda no jornalismo português.
14) Enquanto o mecanismo se desenrola do ponto 1) ao ponto 13) a justiça continua a investigar. 15) Após um período de investigação suficientemente longo para que já ninguém se lembre do que se estava a investigar, a justiça finaliza as investigações e conclui que a pessoa muito importante: a) Não fez nada de muito mau. b) Já prescreveu o que quer que tenha feito de muito mau. c) É possível que tenha feito algo de muito mau mas não se reuniram provas suficientes. d) Afinal o que fez não era assim tão mau.
16) Pessoas importantes que são amigas dessa pessoa muito importante concluem que ela foi vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
17) Pessoas importantes que não são amigas dessa pessoa muito importante concluem que em Portugal nada acontece às pessoas muito importantes que fazem coisas alegadamente muito más.
18) As pessoas citadas no ponto 17) iniciam mais um debate sobre a justiça em Portugal.
19) As pessoas citadas no ponto 16) iniciam mais um debate sobre o jornalismo em Portugal.
20) Os jornais publicam uma outra notícia sobre uma outra pessoa... etc, etc,
"A justiça em Portugal parece-lhe confusa? Não faz ideia porque é que todos os processos que envolvem pessoas importantes acabam sempre em regabofe? Diga não à desorientação! Em apenas 20 passos, eis o guia ideal para entender todos os casos que em Portugal começam com a palavra "caso":
1) Os jornais publicam uma notícia sobre qualquer pessoa muito importante que alegadamente fez qualquer coisa muito má.
2) Essa pessoa muito importante considera-se vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
3) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso desrespeito do segredo de justiça em Portugal, que possibilita a actuação de forças ocultas.
4) Inicia-se o debate sobre o segredo de justiça em Portugal.
5) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar na legislação portuguesa para que estas coisas não aconteçam.
6) Toda a gente conclui que não se pode mudar a quente a legislação portuguesa.
7) A legislação portuguesa não chega a ser mudada para que estas coisas não aconteçam.
8) As coisas voltam a acontecer: os jornais publicam notícias sobre essa pessoa muito importante dizendo que ainda fez coisas piores do que as muito más.
9) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso jornalismo que se faz em Portugal, que nada investiga e se deixa manipular por forças ocultas.
10) Inicia-se o debate sobre o jornalismo português.
11) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar no jornalismo português.
12) Toda a gente conclui que estas mudanças só estão a ser debatidas porque quem alegadamente fez uma coisa muito má é uma pessoa muito importante.
13) Nada muda no jornalismo português.
14) Enquanto o mecanismo se desenrola do ponto 1) ao ponto 13) a justiça continua a investigar. 15) Após um período de investigação suficientemente longo para que já ninguém se lembre do que se estava a investigar, a justiça finaliza as investigações e conclui que a pessoa muito importante: a) Não fez nada de muito mau. b) Já prescreveu o que quer que tenha feito de muito mau. c) É possível que tenha feito algo de muito mau mas não se reuniram provas suficientes. d) Afinal o que fez não era assim tão mau.
16) Pessoas importantes que são amigas dessa pessoa muito importante concluem que ela foi vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
17) Pessoas importantes que não são amigas dessa pessoa muito importante concluem que em Portugal nada acontece às pessoas muito importantes que fazem coisas alegadamente muito más.
18) As pessoas citadas no ponto 17) iniciam mais um debate sobre a justiça em Portugal.
19) As pessoas citadas no ponto 16) iniciam mais um debate sobre o jornalismo em Portugal.
20) Os jornais publicam uma outra notícia sobre uma outra pessoa... etc, etc,
Wednesday, May 20, 2009
É ASSIM...
"Rien ne vous tue un homme comme d’être obligé de
représenter un pays."
JACQUES VACHÉ, carta a André Breton.
Se, por qualquer reazão bizarra, me mandassem representar
Portugal, fugiria novamente para o estrangeiro.
représenter un pays."
JACQUES VACHÉ, carta a André Breton.
Se, por qualquer reazão bizarra, me mandassem representar
Portugal, fugiria novamente para o estrangeiro.
Friday, May 15, 2009
O VICENTE
Ao longo da estorinha, nota-se que este Vicente tem alguns pontos em comum com o Vicente do Torga; um deles, a teimosia, outra a sua aparência durante o dilúvio. Pois o meu Vicente, modestíssimo Renault estafado e olheirento, tão triste era a sua sorte que nem foi comprado por mim; foi trocado, como nos tempos anteriores à moeda.
A sua vida conta-se em dois tempos e duas lágrimas: uma professora, comprou-o e, consta, teve um acidente com ele. O carro (ainda não se chamava Vicente, mas sim um monte de sucata) ficou tão danificado que a senhora não teve dinheiro para pagar a respectiva reparação. Ficou o carro então para o mecânico como pagamento, o qual passou a utilizá-lo para emprestar aos clientes que ficavam com os veículos em reparação na oficina.
Andou, pois, de mão em mão e maltratado a maior parte das vezes, como sempre acontece com os carros alheios e modestos. (Com as pessoas também isto acontece.) E ele, coitado, não protestava. Sempre de cabeça baixa lá ia de mão em mão, que remédio, era a sua sina. Então um dia animou-se quando ouviu o patrão mandar lavá-lo e limpá-lo por dentro. Talvez desta vez fosse para mãos decentes, amigas. Foi.
E lá viemos os dois, do norte até ao Alentejo, vigiando-nos, não fosse sair alguma válvula pelo tubo de escape. Mas via-se mesmo, sentia-se o seu esforço em se portar bem, em ser simpático. Na auto-estrada chegou a dar 120 mas ruidava por todo o lado pelo que lhe fiz uma festa no pescoço dos seus 67 cavalos e passei para modestos 90 quilómetros por hora, o que ele agradeceu chocalhando menos.
Quando chegámos no monte alentejano, olhei-o bem nos olhos e disse-lhe: - Passas a chamar-te Vicente, como o Corvo que desafiou Deus . - E ele não foi contra isso; não tugiu nem mugiu.
Nos meses seguintes procedeu-se a pequenas renovações, beneficiações, alindamentos. Tapetes, travões, bomba de água, pneus novinhos e lindos e ainda uma “placa de aquecimento”, brilhante, nova em folha, por causa dos nocturnos frios alentejanos que, como sabem, são muito ásperos.
Foi então que a Fazenda mandou dizer que eu tinha de pagar uma fortuna ao fisco por uma empresa que nunca funcionou, da qual se dera baixa e cujo processo já tinha sido arquivado há anos. Mas não paguei porque não tinha e porque achava injusto castigar um homem por querer exportar livros portugueses para Moçambique. Então, mandaram-me entregar o livrete e o título de propriedade, pois o carro estava confiscado. Assim se fez. Pusemos (eu e o dono do sítio) o Vicente sob uma oliveira, à entrada do monte, quietinho e eu disse-lhe: “Não te preocupes; é só por uns dias.” Foi por mais de dois anos, que nestas coisas com a Fazenda nunca ninguém sabe.
E um dia, depois de, por duas vezes, ter ajudado o TiZéMarques a apanhar as nozes, a dita Fazenda manda uma carta de meia dúzia de linhas a dizer que estava tudo sem efeito e enviando os documentos para que o Vicente pudesse circular. Mas já não podia, coitado. Era tarde. Tinha-se finado sob a oliveira. Ali abandonado demasiado tempo, demasiado frio, demasiada chuva e humidade, demasiada geada nocturna, demasiada má sina.
Fui dar-lhe a notícia mas nem reagiu. Indiferente. Quieto. Sujo. Enfim morto.
Acabaram-se as idas a Lisboa para ver a família, às vezes com o avisador da gasolina a piscar desesperadamente, e eu a dizer-lhe “não me deixes ficar mal, sabes que não tenho saúde para andar quilómetros com uma lata de gasolina na mão”. E ele não deixava. Uma vez cheguei ao supermercado de Montemor mesmo, mesmo com a última gota, que se foi quando o Vicente parou na bomba. Ouvi então um sopro. Deveria ser ele a dizer em desabafo “Uf! chegámos!”
Um vizinho distante, levou-mo – julgo que para o desmanchar.
Agora, quando passo na entrada do monte, naquele cantinho sob a oliveira, faço por não o recordar porque, mesmo que vos pareça estranho, tenho-lhe saudades. Transportava-me e fazia-me companhia.
In TempoLivre, nº.204, Maio, 2009
A sua vida conta-se em dois tempos e duas lágrimas: uma professora, comprou-o e, consta, teve um acidente com ele. O carro (ainda não se chamava Vicente, mas sim um monte de sucata) ficou tão danificado que a senhora não teve dinheiro para pagar a respectiva reparação. Ficou o carro então para o mecânico como pagamento, o qual passou a utilizá-lo para emprestar aos clientes que ficavam com os veículos em reparação na oficina.
Andou, pois, de mão em mão e maltratado a maior parte das vezes, como sempre acontece com os carros alheios e modestos. (Com as pessoas também isto acontece.) E ele, coitado, não protestava. Sempre de cabeça baixa lá ia de mão em mão, que remédio, era a sua sina. Então um dia animou-se quando ouviu o patrão mandar lavá-lo e limpá-lo por dentro. Talvez desta vez fosse para mãos decentes, amigas. Foi.
E lá viemos os dois, do norte até ao Alentejo, vigiando-nos, não fosse sair alguma válvula pelo tubo de escape. Mas via-se mesmo, sentia-se o seu esforço em se portar bem, em ser simpático. Na auto-estrada chegou a dar 120 mas ruidava por todo o lado pelo que lhe fiz uma festa no pescoço dos seus 67 cavalos e passei para modestos 90 quilómetros por hora, o que ele agradeceu chocalhando menos.
Quando chegámos no monte alentejano, olhei-o bem nos olhos e disse-lhe: - Passas a chamar-te Vicente, como o Corvo que desafiou Deus . - E ele não foi contra isso; não tugiu nem mugiu.
Nos meses seguintes procedeu-se a pequenas renovações, beneficiações, alindamentos. Tapetes, travões, bomba de água, pneus novinhos e lindos e ainda uma “placa de aquecimento”, brilhante, nova em folha, por causa dos nocturnos frios alentejanos que, como sabem, são muito ásperos.
Foi então que a Fazenda mandou dizer que eu tinha de pagar uma fortuna ao fisco por uma empresa que nunca funcionou, da qual se dera baixa e cujo processo já tinha sido arquivado há anos. Mas não paguei porque não tinha e porque achava injusto castigar um homem por querer exportar livros portugueses para Moçambique. Então, mandaram-me entregar o livrete e o título de propriedade, pois o carro estava confiscado. Assim se fez. Pusemos (eu e o dono do sítio) o Vicente sob uma oliveira, à entrada do monte, quietinho e eu disse-lhe: “Não te preocupes; é só por uns dias.” Foi por mais de dois anos, que nestas coisas com a Fazenda nunca ninguém sabe.
E um dia, depois de, por duas vezes, ter ajudado o TiZéMarques a apanhar as nozes, a dita Fazenda manda uma carta de meia dúzia de linhas a dizer que estava tudo sem efeito e enviando os documentos para que o Vicente pudesse circular. Mas já não podia, coitado. Era tarde. Tinha-se finado sob a oliveira. Ali abandonado demasiado tempo, demasiado frio, demasiada chuva e humidade, demasiada geada nocturna, demasiada má sina.
Fui dar-lhe a notícia mas nem reagiu. Indiferente. Quieto. Sujo. Enfim morto.
Acabaram-se as idas a Lisboa para ver a família, às vezes com o avisador da gasolina a piscar desesperadamente, e eu a dizer-lhe “não me deixes ficar mal, sabes que não tenho saúde para andar quilómetros com uma lata de gasolina na mão”. E ele não deixava. Uma vez cheguei ao supermercado de Montemor mesmo, mesmo com a última gota, que se foi quando o Vicente parou na bomba. Ouvi então um sopro. Deveria ser ele a dizer em desabafo “Uf! chegámos!”
Um vizinho distante, levou-mo – julgo que para o desmanchar.
Agora, quando passo na entrada do monte, naquele cantinho sob a oliveira, faço por não o recordar porque, mesmo que vos pareça estranho, tenho-lhe saudades. Transportava-me e fazia-me companhia.
In TempoLivre, nº.204, Maio, 2009
Friday, May 08, 2009
VÍRUS A
Lembrei-me de uma máxima de Pitigrilli, a propósito do drama que vivemos agora com a gripe mexicana:
"Beijo: a mais deliciosa troca de bacilos."
"Beijo: a mais deliciosa troca de bacilos."
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