Friday, December 14, 2007

VOCÊS ESCOLHEM O FINAL


O SAXOFONISTA


O Cláudio trabalhava numa firma de distribuição de correio e de encomendas mas sempre que tinha um tempinho livre, ia com o seu saxofone para o pé do Joelzinho, um mendigo do bairro, andrajoso e com as pernas torcidas como se as tivessem partido quando estava numa posição do Yoga. O Joelzinho era muito estimado no bairro mas Cláudio, por ser pobre, pouco o podia ajudar. Só tocando.

Ele sentava-se ao pé de uma grande árvore e estendia a mão.
O saxofonista amador punha-se então sentado a seu lado, num tronco horizontal da árvore e tocava. Nesses dias a receita do Joelzinho subia em flecha. Não podia era ser em todos.
Uma tarde de dueto – um pedia e o outro tocava -, disse o Joelzinho:
- Você, Cláudio, não pode tocar outras coisas?
- Não gosta do meu reportório?
- Não é isso.
- Então o que é?
- Está aqui um gajo, todo empenado, que só ouve do ouvido esquerdo, e você senta-se ao lado desse ouvido e toca invariavelmente as mesmas coisas… podia, ao menos, tocar do lado do outro…ou mudar de reportório…
Cláudio pensou, olhando para o instrumento. Depois disse:
- Eu já toquei o concerto para saxofone e orquestra de Aaron Copland, nos bons tempos…
- Você desculpe-me, Cláudio, mas o Aaron Copland nunca escreveu um concerto para saxofone e orquestra.
- Como é que você sabe, Joelzinho?
- Eu fui professor de Música.
- Foi professor de Música?! Você?!
- Não foi bem de música… fui professor de História da Música…
- Você foi professor de História da Música e está aqui a pedir esmola?!
O saxofone também olhou, admirado.
- É.
- Conte lá, puxa! Como é que você chegou até aqui.
- É simpático da sua parte não dizer “desceu até aqui”. Mas o caso ou acaso é que…
Meteu a mão no esfarrapado casaco e tirou uma pastilha de mentol. Com a mão boa, desembrulhou-a e meteu-a na boca. Chupou um bocadinho e contou:
- Dava aulas e apaixonei-me por uma aluna muito mais nova. Gabriela. Foi uma paixão doida. Passámos a viver juntos e éramos muito felizes. Depois tive um acidente de viação. Fiquei todo quebrado e ela morreu. Levei seis meses no hospital para recuperar… recuperar isto que você vê. Mas tive logo que fugir no dia da alta do hospital pois o pai da Grabriela queria matar-me. Não o podia enquanto eu estava rodeado de médicos, enfermeiros e seguranças. Mas depois podia. O hospital está a mais de mil e quinhentos quilómetros daqui. Vim com o dinheiro do seguro que logo acabou.
- Essa é obra, amigo! Há quanto tempo foi isso? O desastre.
- Há oito anos, 4 meses e seis dias.
- E a culpa foi sua?
- Foi de ambos. Estávamo-nos a beijar.
- Áh!
- Sei que ele tem vindo atrás do meu rasto. Um dia apanha-me.
- Nem pense isso! Ele já se esqueceu.
- Ele era de ideias fixas como um touro e disse uma coisa em que acreditei: “Eu vou até ao fim do mundo para o liquidar!” Não disse “matar”. Disse “liquidar”, o que demonstra muito mais determinação.
O Cláudio tinha de fazer e viu também que o concerto de hoje já estava estragado. Abriu o estojo e guardou o saxofone. Levantou-se e sacudiu as calças das notas que tinham caído do instrumento e que, por isso, não foram tocadas. Depois pisou-as sem dar por isso.
Foi quando o Joelzinho se agitou e disse alto:
- E é precisamente hoje.
O saxofonista viu logo um homem possante a aproximar-se deles com uma carabina na mão.
- É o pai da Gabriela – disse o Joelzinho, sem necessidade.

1º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, enquanto o outro disparava. Caíram. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele.
Porque o saxofonista estava morto com um tiro em pleno peito.

2º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, com o estojo contra o peito seguro pelas duas mãos. O touro disparou e o Cláudio caiu sobre o Joelzinho. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele. Cláudio então levantou-se a custo, olhando horrorizado para o estojo desfeito e o saxofone furado pela bala que era para Joelzinho.
Ficou vivo mas sem saxofone.
(Estorinha inédita. Ilustração do site gifmania.com.pt)

Saturday, December 08, 2007

SANDOKAN, O TIGRE DA MALÁSIA

Andávamos a preparar há um mês o primeiro folhetim radiofónico da Rádio Moçambique. Várias sugestões foram consideradas, ponderadas, relidas. A nossa memória foi buscar ao sótão, entre poeiras e teias de aranha, logo à entrada, Ponson du Terrail, Victor Hugo, o pai e o filho Dumas, Jules Verne, além de outros. No meio ou entretanto, vinham achegas de todos os lados, sugestões, pareceres, e perguntas. Muitas. Tema moderno ou antigo? Político ou aventuroso? Com muitos beijos à mistura como nos filmes de aventuras ou não?
Finalmente, fizemos uma ampla lista que apresentámos vaidosos à consideração superior. Tendo ela decidido e bem por uma obra e autor não citados na longa e estafante lista: Sandokan, O Tigre da Malásia, de Emílio Salgari.
Toda a equipa ficou tão contente com esta escolha como se tivesse de novo descoberto a penicilina. Possuía tudo o que era necessário; todos os ingredientes clássicos e imortais: amor, intriga, ciúme, traição, morte, luta contra os poderosos, combates marítimos, tiros, beijos, arrebatamentos patrióticos e amorosos, tendo até um toque de cultura ocidental com a Pérola de Labuan, uma menina inglesa de alta estirpe e estonteante beleza, a estudar o Fur Elise, de Beethoven, no piano que havia na mansão do governador inglês. Querem melhor?
Reuniu-se então uma equipa para fazer a adaptação, nela figurando o poeta e jornalista Leite Vasconcelos que, com muito humor, dizia que pertencia à Frelima, a Frente de Libertação da Malásia. Por esta sua graça, foi-lhe atribuído o papel de Lord Brooks, que desempenhou com muita elegância e, obviamente, “british style”.
Muitas e interessantes situações ocorreram durante as gravações mas uma das mais relevantes foi a fuga pela floresta de Sandokan, seguido de perto, se bem me lembro, por Tremal-Naik. Ele, para conseguir correr, tinha de abrir caminho à catanada à direita e à esquerda, vigorosamente. Fomos então gravar, comandados pelo sonoplasta Carlos Silva, para a zona de eucaliptos nos terrenos da Feira Internacional. Aliás, do outro lado da rua. Então, o que é que o povo viu, parado, espantado, confuso e boquiaberto? Um respeitável senhor de cabelo branco, à frente, com um ferro na mão a dar pancada nas árvores à direita e à esquerda, um técnico de som a captar com um gravador portátil, um ajudante e, a fechar, o realizador. Todos berravam, arfavam, corriam às voltas das árvores e suavam… As pessoas assistiam e por certo pensavam que éramos doidos ou que se tratava do ritual de uma nova seita contra a natureza, pois pancada nas árvores não faltava.
Um menino dos seus dez anos que vinha pelo trilho dos eucaliptos com uma gaiola de pássaros na mão, estava estático, sem saber se deveria agachar-se para não ser visto ou atirar a gaiola fora e desatar a fugir com quanta força tivesse. E os olhos dele por certo já tinham visto muita coisa ruim.
Conseguimos fazer a gravação antes da chegada da polícia.
Contudo, a mais “significativa” situação passou-se no último andar da Rádio Moçambique: no enorme salão de festas, que permitiu a gravação de um som necessário ao longo de vários episódios, principalmente nas abordagens e no final das reuniões com Sandokan. Como se necessitava de muitas vozes (não sabíamos ao certo quantas pessoas levava um parau), o mesmo sonoplasta já referido foi buscar todo o pessoal masculino da discoteca, mais os companheiros que foi encontrando pelo caminho. No final eram cerca de 30 ou mais os tigres que, bem-dispostos, fizeram a abordagem ao salão de festas.
Estes candidatos a lugar-tenente de Sandokan, tinham de berrar várias vezes, a plenos pulmões, “Morte aos Ingleses”, com mais gana e força que o povo português nas ruas, em 1891, aquando do ultimato.
E começou-se a gravação, com várias repetições, como sempre acontece. Estava tudo a ir bem quando alguém se lembrou de que tínhamos as janelas todas abertas, para não haver eco, e do outro lado da rua estavam os Ingleses, por certo a tomar chá gelado na sua Embaixada, rodeada de jardins copiados de Kensington. Parámos precisamente quando à porta surgiu a cabeça de um segurança, com a arma na mão, a olhar espantado e ofegante para nós. Tinha ouvido, no piso térreo, os nossos berros e subido as escadas a correr.
Explicámos o que se passava e o porquê daquela gritaria. Compreendeu perfeitamente, mas afastou-se a abanar a cabeça e a murmurar: “Morte aos Ingleses? Porquê?”

(In TempoLivre, revista do Inatel. Ilustração do Google)

Wednesday, December 05, 2007

SERÁ PARA TODA A VIDA?


Um frigorífico novo é como uma nova paixão. Há pétalas de flores que pousam em nós, música ao longe com violinos, e borboletas que voam à nossa volta. Quando chegam amigos ou familiares, levam-se à cozinha e apresenta-se-lhes o novo habitante. Com vaidade. Abre-se-lhe a porta. Explica-se o que o vendedor explicou. Passa-se o antebraço pelo fecho para se lhe retirar as impressões digitais e dar-lhe mais forte brilho. Hein?! Um espanto, não é? Reparem como o espaço está todo aproveitado, como num ovo! E que bonito...olha aqui.
Um ano depois nem se lhe dá os bons-dias. E quando não há leite, ainda se lhe atira com a porta à cara. Por isso, quando me disseram que aquele frigorífico GE era “para toda a vida”, pensei “que desgraçado”. Ele e eu. Termo-nos de aturar toda a vida. Apesar disso, foi para nossa casa. E ele, calmo, bem-educado e bem-parecido, foi-se deixando ficar.
Os ciclos do frigorífico foram-se fazendo, tal como a vida foi correndo, as filhas nascendo e logo no dia seguinte pedindo dinheiro para cadernos, tempos em que acreditávamos nas estações do ano tal como Vivaldi. Depois uns saíram para ir ali, outros para ir acolá, novas vidas a construir-se em viveiros distantes, favos da mesma colmeia mas separados, não esquecendo, pelo meio, o inefável estudo de piano e as guerras em todo o lado.
Passados quarenta anos, continuava o frigorífico precisamente no mesmo sítio. Em algumas zonas com as marcas da idade: erupções castanhas na pele, fecho sem brilho prateado, marcas redondas na parte superior, onde jarras viveram bocejando, anos em equilíbrio estável mas por vezes trémulo. Mas não se queixava. Depois foi desligado da parede e a porta ficou dois dedos aberta “para arejar”. Assim ficou, com as entranhas às escuras e ele de braços caídos, espectante.
Quando uma das filhas disse que ia comprar um frigorífico, lembrei-lhe:
– Tens o da mamã.
– Está tão velho...
– Não trabalha?
– Muito bem, mesmo.
– Então...
E o frigorífico para toda a vida foi à oficina para automóveis do senhor João, numa localidade próxima de Frielas e este, com muita sabedoria e talvez um pouco de ternura (quero acreditar que sim), pintou-o como se fosse um automóvel. Ficou lindo. Novo. Sem rugas, brilhante. Uma plástica completa. Até se ria quando o fomos buscar.
Pois na nova casa da filha, ele passou a ser a estrela da companhia. Nem os móveis chineses rivalizavam com aquele old fashion frig. As visitas entravam na cozinha e ficavam paradas a olhar embevecidas e ele, qual mordomo inglês ou guarda da rainha, imperturbável, digno, mas sorrindo de contente.
De vez em quando eu tinha oportunidade de estar a sós com ele e dizia-lhe, fazendo-lhe uma festa cúmplice, estás bonito e trabalhas bem. E ele modestamente respondia-me, baixinho, faço o que posso...
A Terra deu mais umas voltas, talvez contrariada.
Vieram mais três guerras novas mas não se acabando senão com uma das antigas, que os fabricantes de armamento e os grandes políticos também têm de viver, coitados.
E o frigorífico para toda a vida, por razões várias, viajou para a Praia das Maçãs e ficou mudo e quedo na garagem de uma moradia, na companhia da tralha. Aquela que todos conhecemos. Perdeu então o seu porte erecto, digno. E, para não dar nas vistas, encolhia-se quando o carro entrava para se abrigar. Já não queria fazer-se notado e talvez pensasse que estava para breve o seu fim.
Foi quando a Terra deu mais umas voltas e se precisou no Alentejo de um frigorífico. Para mim. E foi com emoção que lhe fechei a porta na Praia das Maçãs, o embrulhei num enorme cobertor (daqueles que nos protegem dos raios) e o levei até um modesto e pequeno monte entre Évora e Montemor-o-Novo.
Está ali, na cozinha a olhar-me. Eu, aqui do computador, vejo-o de vez em quando estremecer. Não sei se é do final de um ciclo ou de prazer. Já nos conhecemos e estimamos há 48 anos. E penso às vezes que, quando a Terra der uma determinada volta e eu for obrigado a retirar-me, ele ficará ali ou para toda a vida ou aguardando que alguém lhe feche os olhos.

Monday, December 03, 2007

OS GRANDES SAFARIS AOS GALA-GALAS

A minha vizinha e amiga Leonor, ouvindo-me falar de olho a luzir em gala-galas, quis saber mais sobre o bicho. Escrevi este textinho que agora recuperei, porque estou numa da infância. Tende lá paciência!




Eu tinha oito anos e vivia com os meus irmãos mais velhos e com os pais em Lourenço Marques, antiga capital de Moçambique e às vezes eu ouvia eles dizerem que iam caçar gala-galas.
Ficava ansioso por os acompanhar, mas não me levavam. Eu era o mais novo e uma menina era a mais velha. Explico melhor: éramos quatro irmãos - e a mais velha era uma menina. Portanto, eu, o mais novo, era assim uma coisa, como um gato ou um cão, que se estima e a quem se faz festas e se dá beijinhos mas não importância.
Quando os gloriosos guerreiros voltavam dos safaris, eu ia ver o que tinham caçado e era sempre nada - e eu, por vingança, ficava todo contente.
Mas uma vez eles disseram “vem daí”, generosidade afectiva que bem me soube. E lá fui todo contente.
Ora bem. Primeiro, como se caça gala-galas? É importante que vocês saibam como é mas, primeiro que tudo, o que é um gala-gala?
Pois um gala-gala é um simpático lagarto de grande cabeça verde-azul, que atravessa as ruas a grande velocidade, que mantém sempre a cabeça bem erguida, como se fosse um bicho importante e que, se lhe cantarmos, ele dança todo contente. Não acreditam? É verdade!
Vamos então à caça.
Como se caça um gala-gala? Com uma sarabatana. Mas que coisa é essa? Fazemos assim: arranjamos uma cana direitinha, furamos os nós interiores com um arame ou um ferro, sopramos bem e temos o chamado tubo. Depois pedimos à mãe umas agulhas e arranjamos daquele papel muito fininho, papel de seda. Com bocadinhos deste papel fazemos cones muito bem enrolados e, na extremidade, põe-se a agulha. Era a “bala”.
Depois metia-se a “bala” no “cano” que, neste caso era a cana, e estávamos prontos a ir à guerra e a matar rinocerontes, leões e... os pobres gala-galas.
Como dispara? É assim: uma ponta da cana (a que tem lá dentro a “bala”) encosta-se à boca. A outra extremidade da cana aponta-se ao animal selvagem que queremos abater e, enchendo o peito de ar, sopramos com quanta força tenhamos. E lá vai a mortalha com a agulha na ponta, direita ao alvo. Não é verdade! Pelo menos no caso dos gala-galas, nunca ia direita ao alvo; nunca acertava!
Eu não tinha idade para possuir uma arma tão importante como uma sarabatana, mas fui todo contente com os meus irmãos.
Andámos pelos subúrbios toda a manhã, com os meus irmãos gesticulando para mim, impondo silêncio, caminhando devagar como os cães perdigueiros, “disparando balas mortíferas”, que voavam habilidosamente por entre as árvores sem atingir qualquer alvo, os gala-galas fugindo a rir como uns perdidos, e depois regressámos a casa sem glória nem troféus.
Fomos mais vezes. Várias vezes. Uma com dois vizinhos. Uma autêntica batida aos gala-galas. Um safari cuidadosamente preparado entre quinta-feira e sábado, com ensaio das sarabatanas, prática de tiro ao alvo e escolha criteriosa das melhores agulhas da nossa mãe e das mães dos outros corajosos caçadores. Escolheram-se canas, fizeram-se “balas” em quantidade, soprou-se a valer pelas canas. Uma aventura muito bem preparada. Ir-se-ia para mais longe nesse sábado: iríamos para a zona do Instituto de Meteorologia, onde, segundo um rapaz que era filho, precisamente, de um meteorologista, havia mais gala-galas do que em qualquer outro ponto de Moçambique.
Pois nada! Felizmente ninguém, alguma vez, caçou um gala-gala. Andámos lá até às tantas, não caçamos nada e, quando chegámos a casa mais tarde que tarde, não tivemos direito ao almoço, sábio castigo da mãe. Fim do grande safari!

(Pois, como já dissemos, o gala-gala dança. Se um grupo de crianças rodear um gala-gala e, ao ritmo de palmas, lhe cantar
“Gala-gala lhokuene
Gala-gala lhokuene”,
ele agitará o tronco de um lado para o outro e abanará a cabeça sempre bem levantada.)

Friday, November 30, 2007

Kruger Park

Uma das muitas fotos tiradas pelo jornalista Machado da Graça aos seus amigos leões no Kruger Park. Eles, conhecendo-o bem, já se põem em posição fotogénica.

Thursday, November 29, 2007

UM ANIMAL COM PRESTÍGIO


O meu amigo Machado da Graça, jornalista em Moçambique, vai quase todas as semanas ao Krugar Park cumprimentar e trocar impressões com os animais seus habitantes. Mais por gestos que por palavras, pois os bichos só falam inglês e afrikander. Este amigo, chamado-se João, passa a John ali no parque.
Pois sabendo da minha grande amizade e admiração pelo Gala-Gala, mandou-me duas fotos deste simpático lagarto. Não tenho a certeza mas parece que ele,
na foto, lhe pergunta por mim. Não se admirem. Escrevi um dia um livrinho intitulado "As aventuras do gala-gala Bisnaga", que teve duas edições de 7.500 exemplares cada! É obra.
Quando era miúdo e o mais novo a tribu, ia com os meus irmãos "à caça dos gala-galas", plural desnecessario pois nem um se apanhava, felizmente. Com as mortalhas Ziz-Zag do pai e os alfinetes e agulhas da mãe, fazíamos os projectéis da zarabatana, esta um segmento de cana, por vezes tubos de plástico, restos de instalações eléctricas na zona.
Partíamos manhã cedo, pela fresca e regressávamos à hora da comida, suados e esfomeados e, claro, sem qualquer troféu de caça.
Ao Machado da Graça, homem de mil aventuras e habilidades, os meus agradecimentos pela foto que, com a vista já cansada que agora tenho, não sei exactamente se é o Bisnaga se o filho, o Bisnaguinha.

Wednesday, November 28, 2007

FORA DE PRAZO

Pelos meus 16/17 anos aquele terreno à entrada de Cascais, chamava-se a Ribeira das Vinhas e era baldio. Então, alternada e periodicamente, ali se instalava um Luna Park (denúncia bacoca de um provincianismo latente, dolorido e ambicioso) e um circo: o Circo Rentini. Todo em chapa ondulada, com mais correntes de ar que o Inferno de Dante (e mesmo sem ser o dele) e onde, nos entreactos actuava, com a sua viola, a irmã do Camilo de Oliveira, a Zurita de Oliveira, cheia de talento e de outras coisas boas que sobressaíam à vista, mesmo desarmada.

Pois durante os Luna Parks, eu e o meu gang, lá íamos às tômbolas, tiros ao alvo, bola no cubo, argolinha em garrafa e etc., a todos os jogos que davam prémios. Nunca recebi nenhum. Nessa altura eu tinha um cão aloprado chamado Fox e uma cabra bondosa e terna chamada Shéhérazade. O cão ia connosco; a cabra ficava numa quinta no alto da Ribeira das Vinhas, portanto em terreno sobranceiro ao Luna. Ao não receber qualquer prémio, ficava possesso e cheio de raivas pequenas e vingava-me apostando com os amigos que tinha uma cabra chamada Shéhérazade e que ela respondia quando a chamava. Desacreditavam. Então fazia a aposta e gritava, a plenos pulmões: “Shéhérazade!” E logo se ouvia lá em cima o seu gentil mas sonolento Mé!!!!! Aí ganhava qualquer coisa; a aposta...

Depois casei e, no Verão, os fins-de-semana comportavam a Feira Popular, na zona das panelas, pois bem delas precisávamos para a caverna. Ao fim de três ou quatro anos saiu-nos uma cadeira de praia, que deve ter ficado mais cara que uma Luís XV, estofada a brocado.

Na quarta dinastia, nos últimos dez anos, cenários do época actual, respeitosamente todas as semanas lá vai o dinheiro para o Totoloto e mais o Jack (nome próprio da simpática figura). Pois saíram duas vezes um três, mas cheios de requintes de malvadez, com aproximações que nos levam a pensar, “na próxima é que é” e, afinal, não é, e deveria haver um prémio para quem acerta ao lado e até já estou habituado, nos correios, a vislumbrar a fila que anda melhor para a frente, meto-me nela com a tontura do génio, e fico para trás de todas as outras filas porque na “minha” houve alguém que, ao conferir o troco, ou a carta registada que não aparece, etc.

Depois de tudo isto, de toda esta vida longa de deuses de costas voltadas, hoje, domingo, hoje Dezembro, hoje de tempo ruim e deprimente, com um telejornal que abre com 5 - cataclismos/assassinatos - 5 , toca o telefone e uma voz falando brasileiro me informa aqui o cara que sou vencedor de uma promoção dos telemóveis Optimus, pelo que devo, no prazo de meia hora, telefonar para o número tal e tal.

Estão a ver, não é? Já não tenho a Shéhérazade para me vingar. Isto não pode ser. Isto é um terrível e dramático engano. Os deuses já estão de frente para mim? Mas será? Foi o efeito da sonda que não aterrou ainda em Marte? Passeio pela casa, olho para o espelho, converso comigo e resolvo ir “aos apanhados”.

Ligo para o tal número e digo (passa a discurso directo):

– O senhor Silva disse para ligar para aí...

– Estamos a fazer uma promoção. O senhor vai receber um telemóvel Mitsubishi, sem encargos mensais e com cartão recarregável, como oferta da Optimus, desde que não tenha mais que 65 anos.

– Tenho.

– Então não recebe o telemóvel.

Percebi que a moça tinha ficado com pena. Deve ser uma moça gentil.

Afinal está tudo certo. Confere. A partir dos 65 estamos fora de prazo. Já não somos rentáveis numa campanha promocional. A agência ou o sublime director de marketing esquece que, ao marginalizar este grupo etário, está a marginalizar a maior fatia humana nacional e que, em termos de rentabilidade, não só o velho utiliza o tele, como o pode oferecer a familiares ou amigos, havendo sempre o retorno. Ele não sabe isso porque é novo e só leu nos livros e ainda não sabe ler na vida.

Claro que a sua atitude vem em complemento de tudo o resto, no que se refere à política nacional. Somos seres para abater, fora de prazo. Por isso nem desta vez a sorte me calhou. A sonda que aterre em Marte, de uma vez!

– Shéhérazade!!!!!!!!!
(In TempoLivre - Inatel)

Tuesday, October 23, 2007

"A FILHA DO POLACO"

Pastoreava às vezes a estante do meu padrinho quando tinha dezasseis anos (idade que os rapazes nunca têm - passam dos catorze logo, de um salto, para os dezoito), quando vi os cinco volumes muito alinhadinhos de A Filha do Polaco, de um senhor chamado Campos Júnior.
Na altura, esfomeado, devorava com lombada e tudo, o Ponson du Terrail e mais o Dumas Pai quando o apanhava a jeito. Enxergar, pois, A Filha do Polaco, assim de repente, foi um milagre que na altura não relacionei com um livro largo de peito e de amplos dourados que se encontrava no final da prateleira, talvez pelo seu porte e ar abastado.
Atirei-me (literariamente) à filha do dito senhor e, no espaço de alguns dias, devorei-a completamente. Não sobrou nada. Trata o livro de um romance de amor, um romance histórico, decorrendo aqueles amores inflamados (portanto contrariados) durante as Invasões Francesas, com maiúsculas que logo saberão porquê.
O meu padrinho comprara esta obra em fascículos, com direito, no seu final, a encadernação grátis. A sogra dele, a minha avó algarvia, por seu lado, recortava o folhetim diário de O Século, que depois cosia com carinho agulha e linha - e não lia.
Na escola eu era um péssimo aluno a História. Tinha dificuldade em decorar datas, nomes e, na altura, não sabia para quê tanto ingrediente entrosado e de difícil explicação. E depois as árvores genealógicas - para mim gene-ilógicas, pois tudo se casava por interesse, primos com primas e coisas assim. A História era para mim um tormento. Mais o professor. Um parvalhão de óculos, que os tirava e olhava para as raparigas nas carteiras e perguntava: "Não tenho uns olhos bonitos?" Obviamente diziam que sim. (Eu e os outros rapazes agoniados.) "O que me atrofia e inferioriza é a vista cansada", adiantava penoso.
Literalmente acabada a filha do senhor polaco, voltei um dia à estante e retirei o tal livro largo de peito e com efeitos dourados. Comecei a folheá-lo e sentei-me. E comecei a lê-lo. E era uma maravilha de imaginação e de poesia, com imensas gravuras e capitulares arrendadas a ouro, cheias de beleza e imaginação.
Levei quase um mês a ler este livro poético, eu, que devorara em quatro dias as cerca de duas mil páginas de O Conde de Monte Cristo! Mais As Danadas de Paris, (às escondidas, emprestadado pelo meu pai, um boémio esquerdista), mais os Vinte Anos depois, A Mão do Finado, etc.
O exame de História dividia-se em duas partes: uma, a Antiguidade Clássica; a outra, História Contemporânea (mas não muito por causa da ditadura).
A primeira parte levei-a bem com o Egipto, aí com um dez vírgula zero um ou coisa parecida. Depois os três inquisidores passaram para a História Contemporânea e um deles disse-me assim: "Diga lá o que sabe sobre as Invasões Francesas."
Ai, Michel! Foi uma alegria e um ver se te avias! Já ultrapassara o tempo há muito quando me mandaram calar. Brilhante. Verdadeiramente brilhante para um aluno que, literalmente, não sabia fosse o que fosse de História. Nota final catorze.
Foi um milagre.
Na altura atribuí o acontecimento à influência do livro de largo peito e com efeitos dourados, eu, um agnóstico com documento passado pela Junta de Freguesia. Mas que houve coisa, houve.
O livro cheio de dourados, de ilustrações belíssimas e de capitulares de sonho, chamava-se A Bíblia Sagrada.

Saturday, October 13, 2007

DÁRIO VIDAL

Foi com muita alegria que vivi a exposição de Dário Vidal na Galeria Municipal em Algés.
A pausa para a Publicidade - ou ela própria -, deu a Dário Vidal uma nova têmpera quer na forma e no conteúdo quer na cor. Há os cabelos brancos da sabedoria, em todos os eus trabalhos.
As "caixas" são autênticas obras-primas de concepção e execução.
Espera~se nova exposição.

DÀRIO VIDAL


Thursday, October 04, 2007

O LENÇO

HISTÓRIA PARA SER LIDA ÀS CRIANÇAS, À NOITE, PARA ELAS ADORMECEREM MELHOR E RECONFORTADAS PELA BONDADE E JUSTIÇA HUMANAS, MAIS EFICAZ QUE UMA ORAÇÃO, UM COPO DE LEITE OU UMA MEZINHA.
PODE SER LIDA PELO PAI, PELA MÃE OU PELOS DOIS EM CONJUNTO, O QUE DARÁ MELHOR E MAIS PROFUNDO ENSINAMENTO SOBRE O AMOR ENTRE OS HOMENS DE BOA-VONTADE.


O pintor estava no Castelo de S. Jorge com a filha, tentando vender um quadro aos turistas que por ali pasmavam.
Ele tinha o direito a estar com a filha aos sábados e domingos, pois a ex-mulher ficara com a tutela alegando que ele era um desgraçado sem rendimentos fixos ou ambulantes. Ela era advogada e mexeu bem os cordeleis com os colegas e juízes e assim ficou com a miúda que agora, neste dia, tem cinco anos já prontos.
O pintor não sabe o que fazer à vida para a melhorar e para poder ficar com a miúda, pois gostam muito um do outro. E isso vê-se bem.
Ela trouxe um lencinho de cor vermelha que a mãe lhe pôs ao pescoço, pois já calculava que o pai não tinha lenço vermelho nem de qualquer outra cor e ali no Castelo há sempre um vento de leste, que também pode ser de oeste, e a miúda, para agradar ao seu amado pai, colocou o lenço vermelho sobre o canto esquerdo do quadro, num arranjo vistoso.
Um casal de pasmas com olhos azuis e cabelos amarelos apontou e o pintor disse dez contos. Eles que não com a cabeça e, por gestos, disseram que não era o quadro que lhes interessava mas o lenço. O pintor, com gestos, disse que o lenço era dele e que não, não, não era para vender, percebem? Que o quadro sim e que, abrindo os dedos da mão direita, poderia ser cinco contos, com a moldura. E os pasmados perguntam se vem o lenço também. O pintor diz que não, só a moldura. A menina já chora. Os pasmados, abanando a cabeça criticamente, vão-se embora olhando o rio lá em baixo.
O pintor não aguenta mais. Dá à miúda o lenço e um beijo.
E atira-se lá para baixo como qualquer sarraceno a fugir aos cristãos.

Friday, September 28, 2007

CARTA A UM DIRECTOR DE PUBLICAÇÃO PERIÓDICA

Senhor Director,
Excelência,
Leitores letrados:

Eu, e devagarinho em voz baixa, venho pedir-vos que me dêem o azimute, o atalho, a estrela-guia, o raio do ocaso denunciador do acaso.
Concretamente o que vos quero pedir -­­­- e sei que é muito --, é que me ensinem a viver em Portugal. Pronto. É só isto.
Explico para melhor se furtarem. Eu estou exilado em Portugal. E não vou citar os exilados célebres em todo o mundo, ao longo da História com histórias, para que melhor o reposteiro chamado cenário se firme lógico e directo. Cada um com o drama do seu exílio e não há dois iguais. Assim é que é: cada um com o seu.
O primeiro problema do exilado é o idioma. Parece aqui, sem conversas mais, não haver dificuldades, mas há. Não falo a mesma língua dos indígenas. Há uns códigos estranhos. Há uns neologismos obnóxios, misto Bairro da Urca (Rio de Janeiro) e Bairro da Musgueira (Lisboa). Bem tento aprender. Esforço-me por isso, mais por necessidade do que por prazer e a prova é esta: escrevo e falo mal português. Vocês já o perceberam.
Ou por falta de alguns dentes da frente ou por idiomanizar de diferente maneira, as pessoas que me ouvem franzem as sobrancelhas, respiram fundo, chegam-se para a frente, olham-me para os lábios tentando a tradução simultânea, põem mão atrás da orelha e ficam-se aparvoadas pois nada disso lhes deu o discurso. “Será branco? ET ou humanóide?”
Frustrado, recolho ao interior: “Não tem importância. Não é nada. Até amanhã.”
Outro problema do exilado é o de obter o green card. A substância, pois então, que um homem não vive só do prazer de ouvir as últimas novidades em disco, através das paredes que o ligam, e não separam, da vizinha do lado.
Então, recorda-se de dinastias distantes e procura os respectivos aios – hoje já conselheiros do reino, ministros bem firmes, barrigudinhos anafados ou anafarrados, como quiserem, qu´eu nisto em português (como já disse), tresleio, sendo a sintaxe q.b., há dentes a menos e cês (com e sem cedilha) a mais, lutando desigualmente contra os dois esses e o infiltrado obnóxio, rancoroso, camaleão de nascença, vira-casacas, de vários valores qual deputado da Assembleia Nacional da República, o chamado xis.
E os imperadores anafarrados dizem que não, que os tempos são outros (Quais?), a idade, pois claro, a idade. E os putos, pá, e os putos?! A nova geração homem, essa é que precisa de comer; tu não. Tu, o que precisas é de morrer, sem alarde nem despesa. E, o conselho amigo vem logo, gentil e gratuito: experimenta guarda-nocturno – já ninguém quer ser guarda-nocturno. A desculpa de não ter espada e de sofrer dos brônquios não a alcatifa, não ajuda. Olha, sabes, já estou atrasadíssimo. Apita. Depois falamos. Eu pago a conta. E com este pagar de conta, sentem-se quites. Já não devem nada. Mesmo quando estiveram seis meses em Paris, a estudar anatomia comparada com uma empregada da Gallimard, e nós pagando rendas e demais coisinhas – são rosas, senhor, são rosas ­­­--, e ficamos distantes, assim, olhando para cima e para baixo da rua e do céu. O tempo e o facto ajudam-nos a atravessar para o outro lado, onde nos aguarda uma velha e a paragem modulada.
Depois, para o exilado – eu --, há o problema da cultura. A chamada integração cultural. O Marcel Mauss aqui a puxar-me pela manga e eu a ouvir o corridinho do Algarve sem gostar. E o fado detestado (canção “torpe e dissolvente”, como disse dele um poeta que fez fados) e a lembrar-me do zoore, da makway, das noites de sábado com as timbilas fazendo cânones, fugas, contrapontos de tão grande beleza que o céu tropical mudava de cor, de sentido e de velocidade, a Cruzeiro do Sul vestia-se de tules e a Estrela Polar ia lá abaixo ver a irmã e ficava parva, parva, parva de contente. E agora aqui, na integração, a sentir xutos e pontapés não só na sintaxe musical como na letra, a tentar ouvir prosódia canhestra de quem não conhece acentuações. Nem música. Nem poesia. Nem o poente do Sol em ritmos do contraponto ao rítimo do coração e, portanto, à vida.
Sou exilado em Portugal. Mas sou nascido em português. Comi as dinastias, os rios, os afluentes, as invasões francesas. A dona Urraca, o 1640, os vândalos, os suevos, e outros cabrões já esquecidos, os principais países produtores de juta, ouro, prata, cobre, manganésio, fosfatos, azeite, vinho, cortiça e bacalhau. Estudei todos. Agora nos testes para emprego querem que afirme quem são os maiores produtores de facturas falsas na Europa, de produtores de televisão, de bisnagas de pasta para os dentes já com desinfectantes lá dentro, como funciona um telemóvel, quais os deputados com processos na Judiciária, o que é a ROM e o que é a RAM e, quase ao ouvido, a pergunta-chave, aquela, a íntima, a definitiva (e eu a pensar que me vão perguntar se sou homossexual), “que Word Processor costuma utilizar?” Respondo a tudo. De bom modo. Depois é fatal, vêem duas seguidas. Primeira: Qual é o seu partido? Segunda: Qual é, actualmente, o programa da TV com o mais alto score?
Fico sem emprego.
E sem felicidade existencial.

O terceiro ponto do exilado é a Paciência.
O exilado tem de possuir, acima de tudo, a resistência física para enfrentar o frio, a fome e os derivados. Paciência, ou seja, ser pacientemente paciente. Explico melhor.
Quando procura, humildemente, impressos para a declaração da declaração do declarado abaixo assinado, espera de olhos postos no chão, com a entrega seminária-católica de um convento de trapistas. Se, depois, já na meta, tem de correr à rua a prospectar trocadilhos, deve fazê-lo pacientemente calmo.
Quando, como exilado no seu país, vai a arquivos buscar provas (tão raras, tão caras, tão morosas que parece efectuadas em papiros), de que realmente existe, nasceu onde disse, e lhe perguntam com zanga forte “O que é que quer? Não encontrámos nada, pronto!” e nós, pacientemente, só dizemos que “não queremos já nada, nada, passámos por aqui por acaso e lembrámo-nos de…”
Quando vejo o hemiciclo dos sábios e donos do poder, com cadeiras a abarrotar de ausências e oiço o energúmeno com pedregulhosa gramática, de pé, fingindo-se convincente, saio às arrecuas e peço desculpa ao polícia por ser um pobre exilado, trangalho sem dentes e pronto para confessar o que todos quiserem. Paciência.
Fico assim sem graça nem ânimo neste “lugar mal frequentado”, olhando para a Tapada de Benfica, evidentemente já poluída. Não sei se choro ou não. (Convinha que vos dissesse que sim, dor-espectáculo da moda, mas não tenho a certeza.)
Só tenho a certeza de quão difícil é ser-se exilado no país onde se nasceu.
Algum de vocês me poderá dizer, por gentileza, o que devo fazer?


Álvaro Belo Marques

Thursday, August 30, 2007

A ERA DO DESPERDÍCIO

Há um medicamento dos laboratórios Boehringer Ingelheim chamado Spiriva, que tem o preço de venda ao público de 46,66 Euros, participando o Estado em 32,20 Euros.

O medicamento apresenta-se em cápsulas que, para serem utilizadas, se necesita de um dispositivo de inalação verdadeiramente bem concebido e fabricado, em plástico colorido e óptima apresentação. Este dispositivo, nada frágil, dura mais que as 30 cápsulas que vêm na embalagem. Quer dizer, quando o doente termina a caixa, ainda o dispositivo se encontra em perfeito estado operacional.

Calculo ou imagino que este dispositivo deva custar, pelo menos, 50% do preço total do medicamento. Com duas embalagens tipo A e B, uma com o dispositivo e outra sem, deixava-se ao doente a possibilidade de solicitar do seu médico a receita com a opção correcta. Ganhava o Estado e o doente. Ganhava menos o laboratório fabricante. Mas como esta nossa sociedade é do desperdício, de cada vez (todos os meses) que se compra o Spiriva, lá vem o dispositivo a maior parte das vezes desnecessário.

Podia também ser o dispositivo vendido à parte, sem receita médica. assim o laboratório fabricava uma embalagem só com as cápsulas e o utente decidia no momento da sua compra, com a colaboração do farmacêutico, a aquisição, ou não, do dispositivo.

Mas não, não pode ser. Esta nossa sociedade não o permite. Há que produzir objectos, muitos, e deitá-los fora. Mesmo na Saúde há desperdício.

Wednesday, August 22, 2007

CAGLIOSTRO - preciosa e bem humorada biografia

"Conde Cagliostro, o último alquimista", de Iain McCalman é um dos mais recentes títulos da Pergaminho e em boa hora. Leitura aliciante e uma riqueza impressionante de pormenores e de ligações a grandes e conhecidas figuras da época. O Boston Globe afirma: "A divertida biografia de um patife deslumbrante." Na verdade, lê-se de um fôlego e não se apaga a luz. Ficamos presos à narrativa, dele e de Casanova, quando se cruzam. Um livro que vou gostar de reler daqui a uns meses.

Tuesday, August 21, 2007

CÁ VAMOS CANTANDO E RINDO...

Os três noticiários das televisões generalistas abriram às 13:00 com a notícia mais importante para o país: o treinador do Benfica tinha sido substituído.
Hoje a Televisão paga por todos nós, anuncia das 20:55 à 01:55 programas com um único tema: futebol.
Não é de pensar a sério o que está (ou não) a fazer a RTP para melhorar o índice educacional e civilizacional do povo? Não acredito que tudo isto seja ocasional e inocente.

Sunday, August 19, 2007

ACIDENTE

Ontem na A6 vi ao longe um casal a abanar lenços e a fazer-me sinais desesperados para abrandar e parar. Assim fiz, vendo uma viatura capotada quando me aproximei. Pareceu-me não haver feridos. Continuei devagar pela via da esquerda reparando numa senhora a sair rapidamente do banco de trás de um carro com um ar de quem tinha visto saldos do fim de estação. Ansiosa e alegre. Algo de novo acontecia na sua vida.
É assim:
Uns provocam o acidente
Outros regosijam-se a ver feridos, mortos e chapa retorcida
Outros socorrem os acidentados ou põem-se na cauda da fila para ajudar o próximo a não ter um acidente. São seres previdentes, atentos e solidários. Obrigado a esse casal anónimo que me avisou do perigo.

Sunday, July 29, 2007

OVNIS NO VERÂO

Há uns anos atrás, os jornais em período de Verão, iam aos seus assuntos recorrentes e deles faziam notícias. Um ano (nos primeiros de 70) até descobriram um leão em Rio Maior, que foi visto por várias pessoas e que desapareceu assim que começaram as aulas e as folhas das árvores a cair anunciando o Outono. Mas um dos temas recorrentes eram os OVNIS.
Há uns anos que não ouvimos falar em OVNIS. Havia uma teoria de que o planeta com inteligência e tecnologia tão elevadas que permitia os autóctones passear pelo espaço distava seis anos do planeta Terra. Na verdade, em média, de 6 em 6 anos aumentava muito o número de visitas ao nosso planeta.
Desde o último OVNI que enxerguei parado sobre a baía de Maputo, na década de oitenta, não vi nem li mais nada. Desapareceram.
Por certo chagaram à conclusão de que não valia a pena visitar o planeta Terra, possuidor de uns seres que só se sentem felizes com guerras, sangue, massacres; com seres estruturalmente bárbaros, cruéis, estúpidos, sanguinários e conflituosos. Estes autóctones, os terráqueos, devem estar no fim da escala dos seres inteligentes de todas as galáxias onde houver inteligência e cultura científica.

Friday, July 13, 2007

SINPSE

Há meia dúzia de anos enviámos para a RTP este exemplo de
uma série de 24 programas, que considerámos económico, sob
o ponto de vista de produão, para além de ser didáctico e
divertido. A resposta foi não.
Curiosamente no ano passado foi apresentada uma série na
RTP idêntica a esta. Apenas os apontamentos históricos eram
substituídos por canções. Vejam lá se gostam. Comentem.

EXEMPLO


Pivô:
Neste ano da Graça de 1781, realçamos hoje a
incorporação dos novos mancebos nalguns
quartéis portugueses. A nossa reportagem
esteve no Regimento de Setúbal,
onde assentaram praça 238 jovens, com
muita vontade de defender a Pátria. Os portões
do Regimento só fecharam à meia-noite,
sendo o último a apresentar-se à porta de
armas um mancebo nascido nesta cidade,
de nome Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Entrevista com Bocage, de melenas e mal-amanhado.
Vive na terra, mas foi o último a chegar porque acordou tarde...


Pivô:
Estão a realizar-se em Leicester, Inglaterra, as experiências
do primeiro tear mecânico, um invento de um senhor chamado
Cartwrite. Sobre este assunto trouxemos aos nossos estúdios o
senhor Manuel da Silva, dos arredores do Porto, que possui cerca
de 25 teares manuais.
Planos do sr. Silva

Pivô: Sr. Silva. Já tinha ouvido falar deste tear mecânico?
Silva: Não senhor.
Pivô:Então não sabe se vai dar resultado?
Silva: Acho que não. Mecânico como? Com um animal a dar
a dar, como a puxar água à nora? À volta do poço? E a
escrementar o chão por onde passa?! Ná!
Pivô: É mecânico, senhor Silva. Com motor.
Silva: Com motor?! Motor de vapor?! Isso não dá nada.
Os teares são trabalhados à mão desde os tempos dos meus
avós e vão continuar a ser trabalhados à mão. Isso são coisas
dos estrangeiros para enlorpar a gente. Ná! Só vendo e,
mesmo assim...
Pivô: O senhor Silva não gostaria de apanhar um barco e ir a
Inglaterra assistir a uma demonstração?
Silva: Eu nã senhor! Isso é tudo conversa e além do mais, enjoo
no mar, caragos!
Pivô: Muito obrigado senhor Manuel da Silva pelas suas
preclaras opiniões.

E, em continuação do nosso telejornal, damos hoje conta do
estrondoso êxito, em Munique, da ópera séria do senhor
Amadeus Mozart, intitulada AIdomeneo.

Imagens do filme Amadeus
Pivô: Mais um êxito do senhor Mozart.
Pois bem distante de Munique, em Slough, Inglaterra, o senhor
Herschel, William Herschel, da sua varanda já descobriu várias
estrelas. Agora vai anunciar oficialmente a sua mais recente
descoberta, um planeta a que foi dado o nome de Urânio.
Para comentar este fantástico feito, temos em estúdio o
nosso comentador científico, Professor Calisto. (1)
Imagens do Hubble.
Pivô: Então o que nos diz deste novo planeta?
Calisto: Bem...O senhor Herschel é um homem curioso.
Quando não toca música, observa os astros. Já construiu
dois telescópios: um de 20 e outro de 40 pés com reflector!
Pivô: É evidente que houve aqui uma falha técnica. Mas...
o professor conhece o nosso homem?
Calisto: Claro que conheço. Já nos encontrámos duas vezes
e devo dizer-lhe, estimado senhor, que tenho boa impressão
acerca do homem.
Pivô: Então acha que realmente o planeta existe?
Calisto: Existe, existe, mas não como ele o descreve.
A luneta de 40 pés com reflector é algo de fenomenal.
Julgo que nada de mais avançado o homem poderá um dia
vir a construir.
Pivô: Pois muito obrigado, senhor professor.
Pradarias e cavalos a desfilada.
Marcha do Filipe de Souza.
Pivô: Os pioneiros da América do Norte continuam a sua
gloriosa caminhada, empurrando os selvagens dos índios para
Oeste e já se encontram a poucos quilómetros das Montanhas
Apalaches. As imagens acabaram de nos chegar, contando
apresentá-las até ao final deste telejornal.
Estão a fazer-me sinal de que a reportagem já está pronta.

Índios a levar porrada e tiros
(O Forte Apache?)

Pivô: Da América chega-nos também a notícia de que Lorde
Cornwallis, com cerca de 14 mil homens, consolida posições
na Virgínia. Os nossos correspondentes desconhecem ainda
que decisões militares irá tomar o senhor George Washington
o qual, segundo o ponto de vista de vários observadores
portugueses, não tem quaisquer hipóteses quer políticas,
quer militares.
Foto de G. Washington
Pivô: E passemos ao desporto.

Pivô: Acaba de ser constituído por vários lordes ingleses,
o primeiro clube de cricket, o White Conduit Cricket, que
se instala nos campos verdejantes de Islington. Enfim, cada
povo com o seu cricket.

Marcha e imagens de cricket.
Fotos de Lordes ingleses.
E suas famílias e... cães.


Pivô: Está a levantar uma certa celeuma a sistemática
apreensão de livros provenientes de França, principalmente
dos enciclopedistas, por parte de Diogo Inácio Pina Manique.
Após inúmeras tentativas, o Intendente-Geral da Polícia
aceitou prestar declarações ao nosso telejornal, sobre este e
outros assuntos.


Reportagem

(Cenário: Gabinete barroco. Dois guardas, de grandes bigodes
e ar alorpado, de sabre, estão estáticos ao lado de Pina Manique.
Este está sentado com ar bélico, conflituoso.)
Entrevistador: Tenha Vossa Excelência muito boas-noites.
P.M.: Hum...
Entrev.: Caso Vossa Excelência ache bem, gostaríamos,
em primeiro lugar, de lhe perguntar se o ensaio de porrada que
deu nos estudantes da Academia, se justificava.
P.M.: Os meus homens cumprem sempre o seu dever!
Entrev.: Consta que Vossa Excelência está muito preocupado
com a invasão e a força da Maçonaria.
P.M.: Pfiuu!!! Meia dúzia de cobardolas. A maioria já está na
Cadeia do Aljube. Além disso, ideias estrangeiras em Portugal,
morrem todas na fronteira. Já se sabe.
Entrev.: Mas há quem diga, Excelência, que a Maçonaria tem
pessoas muito importantes nas suas fileiras, até, talvez,
Pares do Reino.
P.M.: As pessoas muito importantes também vão para a prisão.
(Com ar ameaçador) Ou não?
Entrev.: Vão, vão! Mas quanto aos livros dos Enciclopedistas?
P.M.: Todos queimados! Hereges! Ateus! Assim que chegam
às fronteiras do Reino, são logo apreendidos. A Polícia aqui do
lado é que não está a ajudar muito. Mas esses Enciclopedistas
são uma cambada que só perturba a turba.
Entrev.:Turba?
P.M.: Sim, a malta: Não entra cá nada! A minha Polícia
apreende tudo na fronteira e acabou-se! Lareira. Braseira. Lixo.
Entrev.: E Sua Majestade concorda?
P.M.: Sua Majestade (levanta-se) sabe quem eu sou. (Senta-se.)
Entrev.: Quer dizer Vossa Excelência que Sua Majestade concorda.
P.M.: Sua Majestade (levanta-se) sabe quem eu sou. (Senta-se.)
Entrev.: Quer então dizer que Sua Majestade concorda.
P.M.: Sua Majestade (levanta-se) sabe quem eu sou(senta-se.)
Entrev.: Pronto. Já percebi. Agora outra pergunta. Vossa
Excelência acha que é bom para a turba este tipo de entrevistas?
P.M.: Não!!! A turba, para ser feliz, deve manter-se ignorante de
todos os conflitos. E mais: se você volta a aparecer aqui,
com essas geringonças sinistras, vai ver o sol aos
quadradinhos. Percebeu?
Entrev.: Sim, Excelência.

Pivô.: Eis o trabalho feito pelo nosso repórter ao Intendente-Geral
da Polícia, Pina Manique. Onças de tabaco e livros de mortalhas
podem ser-lhe enviados para a cadeia do Aljube. Palavras de
carinho também. Mas anónimas.

E, a terminar, e como é hábito, vamos dar as novas cotações das
moedas para Portugal e para a colónia do Brasil.

Quadros. Voz off
Moeda de conta:
Conto de réis... 2.500 Cruzados 1 milhão de réis
Mil Cruzados... 400 mil réis
Dobra ou dobrão... 12.000 réis
Cruzado.... 400 réis

Moedas de cobre:
4 vinténs... 80 réis
2 vinténs ... 40 réis
1 vintém... 20 réis
2 vintém... 10 réis
1/4 vintém... 5 réis

Moedas de prata:
3 patacas... 960 réis
2 patacas... 640 réis
Pataca... 320 réis
2 vintém... 10 réis
4 vinténs... 80 réis
6 tostões... 600 réis

Pivô: E com esta informação cambial, termina o
nosso telejornal de hoje.



(1) Há em Portugal e por certo também no Brasil, comentadores

de TV que sabem de tudo e de tudo dão opinião. Poderá
fazer-se a caricatura desse personagem.

Tuesday, July 10, 2007

SINOPSE

“Rewind” (título provisório)

O filme baseia-se nas vidas de Marcel Cerdan e Ginette Neveu, sem delas se fazer uso abertamente, já que poderia constituir uma mágoa inútil para os descendentes. Assim, os seus nomes são substituídos.

O filme começa com imagens tiradas do interior de um táxi à entrada do aeroporto de Orly. Outubro de 1949. Vários carros chegam e Michelle Bronstein (30 anos), tendo ao lado o irmão, Samuel Bronstein (28 anos) vê, com surpresa, alguns operadores de jornais de actualidades e outros jornalistas na porta das Partidas.
Samuel: - Aquela gente é toda para nós?
Michelle: - Penso que não. Pouca gente sabe que vamos aos Estados Unidos.
Samuel: - Mas foi anunciado pelo ministério… contudo… deves ter razão… é gente a mais, mana.
Ao sair do táxi, vê Jacques Santerre (40 anos), o ex-campeão do mundo de pesos médios, já no passeio a responder aos jornalistas, compreendendo a razão de tanto aparato.
A câmara foca Santerre e desfoca.
Flashbach – Jacques Santarre a combater o 11º. assalto em Detroit contra LaCallia. Ouve-se o repórter dizer em inglês que Santerre caiu no 1º. assalto, o que lhe provocou uma luxação numa omoplata. Realça a capacidade do pugilista que, cheio de dores e várias vezes batido naquele local, consegue chegar ao 11º. assalto, quando desiste e perde o título.
(Pode aqui dar-se em fusão algumas passagens da vida de Santerre, como, por exemplo, o combate em que ganha o título mundial, contra Tony Zale, New Jersey.)
Michelle Bronstein encontra-se na fila para o check in, atrás de seu irmão. Na mão direita transporta uma caixa de violino. Tem 30 anos, é bonita e olha ocasionalmente para o lado onde, noutra fila, se encontra Jacques Santerre, acompanhado do treinador e do massagista. Trocam um olhar sem muita curiosidade de parte a parte.

Flashbach – Desfoque de Michelle. Esta com sete anos de idade, executa o último andamento do concerto em Sol Menor para violino de Max Bruch. Grande aplauso. Funde com Michelle com cerca de onze anos a receber o primeiro prémio de um concurso.

(Pode ser substituída, esta sequência, pela maneira usada em 1950, ou seja, um grupo de jornais rodando e trazendo as notícias da que foi considerada a futura melhor violinista do mundo, ou imagens da Net, biografia, etc.)

Entrada no avião, um SuperConstellation, Michelle senta-se junto à janela e o irmão ao lado. No banco ao lado de Samuel Bronstein senta-se uma gorda senhora com uma grande mala de mão. No banco traseiro, os dois acompanhantes e Jacques Santerre. Preparam-se para a longa viagem. Desapertam os colarinhos, etc.
Samuel: - Durante a viagem poderíamos rever os programas dos vários concertos, não achas?
Michelle: - (Faz-lhe uma festa na cara e concorda) És meu irmão, acompanhas-me ao piano desde miúda, mas pior que um agente. Mas tens razão. Já tinha pensado nisso. (Baixando a voz e aproximando-se do irmão) Sabes quem vem connosco?
Samuel: (Abana a cabeça)
Michelle: - Jacques Santerre…
Samuel : - Li no jornal que vai aos Estados Unidos para recuperar o título de campeão do mundo. (Levanta-se, tira uma pasta da bagageira e volta a sentar-se. Olha ocasionalmente para Jacques Santerre, que lhe sorri.) Vamos ver. Quantos concertos temos com orquestra e quantos só comigo?
Fusão com interior do avião quase às escuras, alguns passageiros tapados com mantas. Agora é Samuel que está junto da janela e Michelle a seu lado dorme com a cabeça no seu ombro.
Imagens de jornais da época. A sonoplastia dá o desastre, o embate, as explosões, etc.
Várias cenas das brigadas de salvamento e a desolação geral.
As imagens do desastre e os sons diminuem e aparece a palavra FIM.

Negro total. Silêncio total.
No ecrã aparece:
Um momento.
Não aceitamos, por demasiadamente injusta, a morte de três pessoas que tanto sonharam, tanto trabalharam, tanto ofereceram à vida e ao amor, para que, de um momento para o outro, se lhes tire aquilo que desejam e que todo o mundo quer receber: o seu talento e capacidade de oferta.
Além de toda e qualquer análise simplista, há maldade neste acidente de avião. Parece uma vingança.
Inconformados, vamos continuar com as suas vidas.

Últimas imagens do filme, antes do crash, em rewind rápido que pára no plano do avião na semiobscuridade.
Aos poucos aumenta a luminosidade no avião. Funde com a mesma imagem mas já os passageiros a acordar, as hospedeiras e preparar a entrega do primeiro-almoço e alguns a passarem pelo corredor a caminho da casa de banho.
Michelle: - (Para o irmão) Vou à casa de banho. Mas não te vás embora, que preciso de ti…
Sorriem.
Encaminha-se para a casa de banho e cruza-se com Jacques Santerre que se encolhe para ela passar. Cumprimentam-se e sorriem.
Michelle: - Bom dia…
Jacques: - Bom dia.
Michelle: - É Jacques Santerre, não é?
Jacques: - Sou.
Michelle: - Prazer em conhecê-lo… Já ouvi falar muito de si.
Jacques: - Bem ou mal?
Michelle: - Normalmente bem… Então até já…
Jacques: - O seu nome é…
Michelle: - Michelle Bronstein...
E seguem os dois os seu caminho.

Em Nova Iorque, tomam uma refeição juntos e nasce um relacionamento muito forte entre Michelle e Jacques. Ele promete-lhe ir a um concerto. Assim acontece. Ela, acompanhada ao piano pelo irmão, toca a difícil peça Tzigane, de Ravel. Quando acaba, o público ovaciona-a com grande entusiasmo e muitas flores. Jacques, que sabe o que representa o êxito e o fracasso, está comovido e grita Bravo!.
Jacques começa a esquecer a sua paixão por uma célebre cançonetista francesa. Num dos seus encontros ele conta-lhe a sua história de pié-noir e da sua carreira. Ela a mesma coisa. Mas ela tem uma tournée para cumprir e ele parte para Detroit a fim de enfrentar de novo LaCallia.
Despedem-se num ambiente romântico a dançar depois de um jantar, já envolvidos no começo de uma grande atracção mútua. Prometem regressar juntos a França.
Fusão de várias imagens dos concertos de Michelle e de treinos e match final de Jacques, que ganha o título de novo: campeão do mundo.
Encontro de ambos no aeroporto de Nova Iorque. Grande abraço e grande manifestação de alegria de parte a parte. Beijam-se pela primeira vez. O irmão chega também. Muita alegria e festa. Rodeados de jornalistas.
Embarcam na Air France para Paris. O SuperConstellation despenha-se no Atlântico. Não há sobreviventes.
Jornais e rádios de todo o mundo dão grande destaque à morte do campeão e meia dúzia de linhas a Michell Bronstein.
O filme acaba com Paganini (Movimento Perpétuo) ou Mendelssohn (2º. Andamento do Concerto para violino e orquestra)?
Freguises, 27 de Setembro de 2005

Friday, July 06, 2007

FOME

Do Diário da Zambézia (quelimane), de 6 de Julho:

No Centro de Reassentamento de Namirrere
Barrigas estão vazias
 Único recurso das populações, são plantas aquáticas que servem
de alimentação
(Mopeia) – No Centro de Reassentamento de Namirrere em Mopeia, sul da
Zambézia, a situação já se torna gritante para a população reassentada. Mais
de duas mil pessoas carecem de alimentação. Não se come há bastante tempo.
Informações em poder do DZ, dão conta de que, as populações
reassentadas naquele centro aberto pós cheias que assolaram a zona centro do
país, estão na eminência de morte, se medidas urgentes não forem tomadas.
Como recurso a vida, as populações comem plantas aquáticas, sem prévio
exame das autoridades de saúde.
As mesmas informações indicam que para além de plantas aquáticas, as
populações já começam a ressentir o pesadelo da vida, em alguns casos
segundo o que soubemos, já se pretende voltar as zonas de origem, as tais
consideradas de risco. A alimentação naquele centro de reassentamento, virou
uma agulha no palheiro. Dias há em que crianças não conhecem nem uma
refeição por dia, procura-se toda maneira de viver, mas não se encontra. Vezes
há, em que as populações já se deslocaram para outras partes do distrito a
procura de algo para satisfazer as suas barrigas, mas também por vezes sem
sucesso. Quando conseguem a mesma alimentação não dura muito tempo,
porque há espírito de partilha de alimentação no seio das famílias.
Barrigas estão mesmo vazias em Namirrere, não há comida, mesmo que as
autoridades ligadas ao processo de distribuição de alimentação venham dar
números de toneladas que possivelmente estejam a distribuir, mas no terreno,
as populações estão carentes de comida. (Redacção)...................................DZ
Se sobrar alguma comida dos banquetes da cimeira da
UE, poderia mandar-se para Namirrere qualquer coisita.

Friday, June 29, 2007

Os Ardinas da Mentira

Este livro de Renato Teixeira, apresentado a público há meia dúzia de dias,
merece dois destaques. O primeiro, é que já me fez gastar mais
dinheiro do que esperava, a fim de comprar vários exemplares para amigos
nacionais e estrangeiros. Segundo, sendo de um jovem, a sua prosa é
calma, precisa e rigorosa. Ainda não escreve com uma moca com um
prego na ponta. Obviamente, lá chegará.
Quanto ao conteúdo, o título denuncia-lo. E, sem qualquer espécie de
exagero, deveria ser livro obrigatório nos actuais cursos de comunicação
social. Estruturado com muito rigor e seriedade, traz-nos elementos de
análise e crítica elucidativos da maioria das notícias sem rigor ou verdade,
que nos assola diariamente de vários snipers assim que compramos
informação. O problema é que os tiros às vezes acertam. Todo o cuidado
é pouco.
A ler o mais depressa possível.

Tuesday, August 22, 2006

BRASIL - Hoje

Do sociólogo José Luís Cabaço, divulgamos hoje uma "Carta" do Brasil, com sua autorização mas a devida vénia também, já que é uma honra para o meu blog ter colaboradores deste gabarito.

Das terras de Zumbi e Tiradentes


NO QUINTAL DO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA




O Museu é um regalo para os olhos e os sentidos, dizem todos quantos já o viram. Chama-se o Museu da Língua Portuguesa e é apresentado como uma experiência inédita a nível mundial: um museu sobre um idioma.
Infelizmente, ainda não tive ocasião de percorrer os seus espaços e me maravilhar, a opinião é unânime, com a sua organização, com a impecável metodologia didática e com os recursos tecnológicos surpreendentes que o tornam vivo, interactivo, atraente, uma experiência única.
Foi construído nesta megalópole que dá pelo nome de São Paulo, numa zona empobrecida da cidade, a Estação da Luz, e inaugurado no passado dia 20 de Março. Quem lá esteve falou-me também com emoção da presença numerosa e interessada de jovens brasileiros, e não só, que o visitam diariamente.
Mas o objectivo desta crónica não é o de falar do Museu que, como disse, não conheço, mas sim de uma reportagem publicada no conceituado jornal O Estado de S. Paulo (popularmente conhecido como “O Estadão”) na qual se indicam erros primários na pequena parte dedicada aos países africanos onde se fala português, isto é, na parte que fala de nós.
Segundo aquele quotidiano, a edição do texto é da responsabilidade de um jornalista local, o qual teria trabalhado sobre material compilado pelo Prof. Ivo Castro, chefe do departamento de Lingüística da Universidade de Lisboa. Porquê lingüistas a falar de História é a primeira pergunta que se põe! E porquê, precisamente, um português quando sobre Angola há angolanos especializados, sobre Moçambique historiadores moçambicanos, sobre Timor professores timorenses, etc, etc.?
Mas a questão torna-se mais preocupante quando, lendo o artigo, nos deparamos com as respostas dadas pelo Prof. Castro às questões levantadas pela repórter.
Vejamos alguns exemplos:
Na informação sobre Angola está escrito que a guerra civil terminou em 1999. Como é do conhecimento geral, o trágico conflito prolongou-se até 2002, quando, em Fevereiro, Savimbi morreu em combate o que conduziu à assinatura do acordo de paz entre o governo e a Unita a 4 de Abril desse mesmo ano.
O Prof. Castro justifica a “sua” data (e transcrevo do jornal): “A guerra civil de Angola não acabou num dia certo. Muitos angolanos consideram que o conflito terminou em 2002 mas também alguns pensam que o primeiro ato foi a retirada das tropas da ONU em 1977. Pelo meio, o processo teve muitas peripécias. Importante é que a guerra civil esteja mesmo acabada”.
Transcrevi palavra por palavra porque qualquer forma de discurso indirecto era susceptível de conduzir o leitor, muito justamente, a pensar que eu poderia estar a manipular a declaração, tão incrível que ela é.
Se o critério do Prof. é o do “abandono” das tropas da ONU em 1997, e quem tem boa memória sabe que esse facto ocorreu por pressão do governo angolano denunciando parcialidades e ingerências, com que base estabeleceu, unilateralmente, que a guerra terminou em 1999?
Vamos admitir a hipótese, que reputo de pouco provável, que o Prof. Castro tem critérios próprios sobre como e quando terminam os conflitos militares . Será que, para ele, o fim da II Guerra Mundial ocorreu a 2 de Fevereiro de 1943, dia da rendição nazi em Estalinegrado, que os historiadores do conflito consideram o momento decisivo da inversão dos destinos da guerra? Ou a 6 de Junho de 1944, quando as forças aliadas ocidentais efectuaram o decisivo desembarque em solo europeu? Ou será que reconhece, e então o critério é diferente do usado para Angola, que o fim da II Guerra Mundial foi declarado a 2 de Setembro de 1945, quando o Japão, última potência do Eixo em combate, assinou a sua incondicional rendição a bordo no couraçado Missouri? Que pensaria ele de um linguista moçambicano que inventasse publicamente uma data para o fim da II Guerra Mundial e, contestado, respondesse que o importante é que a guerra tivesse mesmo acabado?
Para além da incongruência histórica, e foi rigor histórico que lhe foi pedido pela consultoria, a sua resposta demonstra uma total falta de respeito por quantos angolanos morreram entre 1999 e 2002 e pela nação angolana que, ainda há poucos dias - no passado dia 4 - celebrou, governo e oposição (incluindo a Unita), o aniversário do acordo de paz em data que, por deputados do MPLA e da Unita, foi decretada como feriado nacional.
Mas não fica por aqui a sobranceria do reputado Prof. de linguística em relação a Angola. Da referida informação consta que a língua portuguesa é falada em Angola por 40% da população. Este dado que, segundo o jornal, surpreenderia os angolanos visitando o museu, contraria as cifras angolanas que apontam para um número bem mais alto. Argumentou, em resposta, o Prof. Castro:
“Sem dúvida, isso acontecerá num futuro talvez não muito distante. Mas não conheço nenhuma estatística que aponte para tal número nos dias de hoje. As estatísticas não são fiáveis em Angola, sendo prudente proceder por analogia com Moçambique: neste país, há poucos anos, calculava-se que 40% dos moçambicanos falavam português. Este mesmo número encontro em várias fontes aplicado a Angola”.
Deveríamos, talvez, ficar gratos ao Prof. pela confiança nos dados das nossas estísticas, mas a indignação pelo desrespeito aos irmãos angolanos não nos permite tal reconhecimento. Não podemos ficar indiferentes perante o facto de, para o Prof. Castro, todas as fontes serem boas e “fiáveis” com excepção das fontes que estão “no terreno”... E com que base se estabelece a analogia entre Angola e Moçambique, países com dois percursos históricos tão diferentes? Porque ambos fomos colonizados por Portugal? Quero estar certo de que não terá sido com base em outros silogismos e generalizações tão correntes no passado!
Pela informação do museu “aprendemos” que a independência de S. Tomé e Príncipe ocorreu em 1974 e que, erro que não é tratado na referida peça jornalística, o país é conhecido, pasmem, por produzir “açúcar e especiarias”... Os dados santomenses - que continuam insistindo que o país proclamou a sua independência em 12 de Julho de 1975 e que, embora em crise, o cacau é ainda a sua principal produção agrícola - não são, pelo vistos, igualmente “fiáveis”. O Prof. Castro não revela, porém, que fontes alternativas inspiraram as informações que produziu para o Museu.
Ficamos a “saber”, ainda (ou o Museu não fosse didático), que a Guiné Bissau ficou independente em 1975 e não em 1973. Instado sobre a dúvida da repórter, o Prof. explica:
“A independência da Guiné ocorreu quando o ocupante colonial partiu, em 1975”.
A História, porém, dá uma versão diferente e fala da proclamação da independência em 24 de Setembro de 1973, no seu reconhecimento pelas Nações Unidas em Novembro desse ano e no posterior reconhecimento pelo novo governo português, saído da chamada Revolução dos Cravos, em 10 de Setembro de 1974. Que fontes terão indicado ao distinto linguista o ano de 1975? O “ocupante colonial” não terá alterado a natureza da sua ocupação depois da proclamação da independência? E que “ocupante colonial” continuou no território depois do reconhecimento por Portugal?
Mas a pouca atenção do Prof. não se cinge às antigas colónias africanas. Também Timor-Leste não escapa ao seu “rigor metodológico” e no Museu consta que a língua oficial é o português, sem qualquer menção ao tetum.
Volto a transcrever O Estadão:
“Escrevi que o português é língua oficial em Timor-Leste, mas não a única”, justifica Ivo Castro, confirmando que o erro ocorreu na hora da adaptação de seu texto.
Daqui é, pois, legítimo inferir que os restantes erros (ou interpretações) são da exclusiva responsabilidade do Prof. Castro e não ocorreram “na hora da adaptação do seu texto”.
Este trabalho jornalístico e principalmente as respostas do chefe de departamento de Linguística da Universidade de Lisboa sugerem, finalmente, algumas interrogações:
a) Até quando, no âmbito da CPLP, se continuará a considerar que a opinião mais abalizada sobre as antigas colónias portuguesas é a opinião de especialistas (?) de Portugal? E as nossas Universidades? E os nossos investigadores? E os Centros de Estudos no Brasil que se dedicam aos países africanos?
b) Quando no Brasil, país com profundas raízes africanas, se começará, de facto, a encarar as relações com as instituições públicas e privadas dos membros não europeus da CPLP como relações com organismos de estados independentes, deixando de as ver como relações tuteladas e mediadas por Portugal?
c) Até quando a nossa História continuará a ser uma “história por analogia”, na feliz expressão do Prof. ugandês Mahmood Mamdani?
d) Quando se começarão a descolonizar as consciências depois de os territórios se terem libertado?
e) Até quando os nossos governos hesitarão em tomar a peito esta batalha diplomática e política pela nossa dignidade, unindo-se para protestarem veementemente contra a falta de respeito pelas nossas lutas, pelos nossos heróis, pela nossa História?


José Luís Cabaço

Friday, August 11, 2006

Pedido satisfeito

Pedi à Ana Cardoso Pires (e ela acedeu), que me deixasse publicar aqui o seu conto, tão recente que ainda está morno da sua feitura.
-----------

foste o responsável por eu descobrir que sou claustrofóbica

I
Hoje, entre as 8 e as 9 da manhã, fui visitar-te ao emprego. Não estavas muito mais novo, o que me surpreendeu vagamente. Mas talvez o ambiente, animado de juventude e movimento, instalações modernas a dar para o fácil de manter e sem qualquer prurido de pós-pós decoração, talvez o ambiente, pensei, te estivesse a fazer bem, porque falavas a toda a gente com centelhas nos olhos e entusiasmo na voz. Aquela coisa antiga de fazer a festa com quase nada, só o coração.
Passaram uns senhores alentados, transpirando dinheiro no perímetro dos cintos, de riso bonacheirão. Despediram-se de ti com familiaridade, não excessiva mas firme. “Clientes…!”, disseste. Dos bons, estava implícito no tique malandro e confortado do olho esquerdo.
– Vamos! Vou levar-te a um sítio.
Não era uma ordem. Não era uma proposta. Era a evidência de quem sabia que seguiria o teu entusiasmo nem que fosse ao aterro do lixo.
Não sei se falámos pelo caminho. Mas andámos em passo rápido e gaiato, quase saltitante. Ali perto, abria-se um arco gótico alto, entrada de uma muralha antiga, enquadrando um trecho de uma frente de casario tipo Alfama, mas contínuo, sem vielas a separar os edifícios de formas irregulares. Seguimos para a direita, por uma estrada circular, entre o muro branco ou amarelo descorado e as fachadas. As bermas, que serviam de passeios, eram de calçada portuguesa; a zona de circulação de carros também, mas tinha sido coberta por um vago alcatrão. Não passou nenhum carro por nós. A rua desembocava num largo amplo de geometria estranha e, de repente, havia ruelas tanto para a direita como para a esquerda e em frente. E gente; numa azáfama de feira medieval, para um lado e para o outro, com cestas e sacos nos braços, dando-se tempo para falar com cada conhecido. Não se percebia o que faziam, cá ou lá. Era apenas um ambiente de geral bonomia e descontracção, como figurantes de um filme em intervalo de rodagem.
Virámos na primeira à esquerda. Era uma rua a subir, típica de mouraria. Ou de judiaria. Nessa altura, tu ias a falar, em grande gesticulação, mas não sei a propósito de quê. Como na anedota, fascinou-me a música, mas esqueci-me da letra.
– Vamos almoçar!
E levaste-me a par, com mão firme de dançarino nas minhas costas, por uma porta estreita, à direita. Abria ela num átrio do género dos vãos de escada, relativamente estreito e comprido, cortado a mais de meia largura por um balcão. Do tecto e da parede da direita, pendiam na penumbra semiformas de objectos. Em pele, diria eu. Talvez induzida por algum cheiro, mas que não era marcante. Sim, vendiam correias. E tiras de couro. Se calhar, até um daqueles aventais de que tanto gosto, que tinham os sapateiros quando cortavam sola no colo, com a faca igual à que lamentavelmente perdi e que era do meu pai, quiçá do meu avô. A despropósito, naquele balcão soturno lidava uma rapariga miudinha, loira flamejante, de cabelo encaracolado e sorriso luminoso. Era mesmo a única fonte de luz, tirando a esquadria da porta, que nós tapávamos em grande parte.
Vindos do fundo, passaram por nós, um após outro, os teus clientes obesos, que cumprimentaram de novo com boa disposição e cumplicidade. Saíram e encaminhaste-me pelo espaço que deixaram vago. Não sei como, ultrapassaste-me e meteste por uma porta à esquerda. Estranhei o sítio, porque o balcão acabava encostado à parede do fundo, que tinha uma espécie de janela. Mas que era afinal um género de passa-pratos, porque, do outro lado, estava uma rapariga parecida com a do balcão, mas com olhos tristes, sentada à mesa de tampo grande de liós de uma cozinha. Não me pude deter a focar melhor o que se passava, porque a porta por onde tinhas passado, que abria para dentro, se escancarou, para deixar sair dois homens magros, de fato e chapéu, com ar de judeus ortodoxos. Simpáticos, queriam dar-me passagem, mas não havia espaço. Encolhi-me eu contra a parede do fim do balcão e eles passaram. Um terceiro ficou para trás, num corredor com a largura do acesso, cruzou-se comigo para sair e apontou para a esquerda, por trás da porta, entrefechando-a: “É por ali”.
Com a porta fechada, o corredor quase sem luz seguia por apenas um par de metros. E tinha ainda a estrangulá-lo um móvel pobre, de linhas antigas, dos anos 50 (já devia dizer 1950, pois é, mas sei que também só viveste nos 1900…), com um televisor muito antigo em cima. Da parede do fundo, em tabuado canelado de um azul-turquesa muito feio, berrante, saíram mais dois judeus parecidos com os anteriores – ou talvez não, que um era capaz de ter só o solidéu e não o chapéu de feltro. O recorte da porta era muito baixo e apenas consegui ver que abria para uma escada a pique. Na realidade, não vi a escada; só uma parede branca, logo ali, e os vultos que surgiam no soluço dos degraus. Fiquei escudada na largura do televisor, enquanto passaram em fila indiana por mim, com um sorriso de simpatia.
Mas, quando me aproximei para abrir a porta de onde tinham saído, ela ganhou novas dimensões, diminuindo assustadoramente. Agora, tinha uma altura de não mais de 70 cm, por pouco mais de largura, e abria para cima, do lado de dentro. Percebi que tinha de deslizar directamente para os degraus, como quem abastece as caves de lenha ou de carvão. E entrei em pânico! Subiu-me uma enorme angústia, senti que estava a engordar, a engordar, e que ia ficar entalada na portinha diminuta. Então, pensei que aquele cenário só podia ser assim porque era um ponto de fuga, em caso de assalto à casa. E que, se acontecesse algo enquanto eu estava entalada, a loira da cozinha tinha certamente instruções para empurrar a televisão e o móvel contra a portinha, para a camuflar. E eu ia ter de ficar naquela aflição sem fazer ruído, senão denunciava o esconderijo e as pessoas que estavam lá em baixo. E comecei com falta de ar.
Tinha de sair dali! Mas tu estavas de certeza algures lá no fundo à minha espera para almoçar. E não passava ninguém a quem pudesse pedir que te desse recado de que me ia embora, só porque não conseguia descer a escadinha. Não sei o que me angustiava mais, se a sensação de claustrofobia, se o ir estragar o teu entusiasmo do dia e da perspectiva de me levares a um local único – como aquele.
Venceu a claustrofobia e fugi.
Quando ia a passar pela rapariga esfusiante, a caminho da luz agora intensa do quadro da rua, aflita, duplamente aflita, acordei. Eram 9 horas.

II
Fiquei espantada de me saber claustrofóbica. Nunca me dei a tais alergias, mas é bom que me vá preparando para não ser surpreendida…
Não me apetecia levantar da cama. Revi a chegada ao teu emprego, o arco da muralha, a rua a subir, o balcão na penumbra. Eram correias, sim. Coleiras? Chapéus também, completos e em peças. Peles em bruto, muito macias, de recortes irregulares. Calfe, diria a minha tia Celsa, que tinha as melhores luvas de pele de que tenho memória. Queria perguntar à miúda do balcão se aquele vulto, mais adiante, era do tal avental de cabedal grosso de que me recordo vagamente da infância.
Ela não esperou a pergunta:
– É isso mesmo. Fazemos em molde, para cada cliente. Nunca deixa de ter procura...
E o sorriso radioso, outra vez a iluminar o espaço, dando maior definição às sombras dependuradas. Aumentando a confusão do expositor.
– Vá, vá lá.
E apontou-me, convidativa, a porta à esquerda, já minha conhecida. Voltei a passá-la e a esbarrar no móvel com o obsoleto aparelho de televisão. Aproximei-me do postigo que abria para cima. “E se vem alguém a subir para cá?”
Espreitei para dentro. A escada era de alvenaria, bastante a pique, mais a prumo do que as escadas rolantes do Parque e com degraus mais estreitos. Não vinha gente, mas subiam vozes animadas do fundo e havia uma luz bastante contrastante com a do local onde me encontrava. De repente, ouvi o ruído de uma porta pesada sobre os gonzos e subiu uma lufada de ar fresco. Uma saída normal, lá na fundura. Ia para me interrogar sobre como era possível, numa colina a subir, haver uma porta dois andares para baixo a dar na rua, mas subiram mais dois judeus de chapéu (só agora reparava o que havia de estranho em todos: faltavam-lhes as patilhas kosher encaracoladas!), desviei-me e aos pensamentos que só complicavam a situação, e entrei com os pés para a frente. Literalmente.
Engraçado que não era nada difícil. A grande intensidade da luz afastava a parede, a inclinação do tecto acompanhava a dos degraus de tão perto que não deixava ter medo de me baldar pelas escadas abaixo, o rabo apoiava num degrau enquanto o pé procurava o seguinte no vazio, mas sem qualquer incerteza de o encontrar.
Eram mesmo dois andares para baixo. A meio da escadaria, à esquerda, abria um corredor baixo, tapado por uma porta de madeira a uns dois metros (como nas casas trogloditas, ocorreu-me, talvez pelo contraste da luz branca com o azul-alfazema da madeira). Continuei a descer, sem ver nada para baixo, com os olhos por detrás das mamas, incrivelmente salientes. Quando o tecto recuperou uma forma abobadada horizontal, a porta pesada, de aldraba, que tinha suspeitado lá de cima estava agora ao meu alcance, não fosse mais um par de judeus aguardarem que eu acabasse a descida. Pela primeira vez, o patamar era um espaço relativamente amplo. Sorrimos uns para os outros, desviaram-se para me dar entrada para a passagem (sem porta) à direita, como que assegurando-se de que entrava, e continuaram a bloquear o acesso à saída.
Entrei no que era uma espécie de refeitório. Com má acústica – as vozes ecoavam numa confusão de abóbadas cruzadas. Havia um balcão no canto em frente da entrada. E mesas corridas, paralelas ao balcão, que se repetiam indefinidamente, tanto quanto a vista e a atenção deixavam ver.
Lá estavas na segunda mesa, com o mesmo ar super-animado, achando a minha demora tão natural que nem a comentaste. Mantinhas conversas descontraídas com os utentes das mesas próximas. E ias petiscando coisas várias, que se iam sucedendo.
– Já viste isto? Que tal?
– Não sabia… Tantos judeus…
– Porque não? São como os tipos da pesada: só se vêem à noite.
Recomeçaste a conversar sem letra, mas com uma música, uma inspiração, fascinantes. Lembro-me que nada explicava estarmos ali, eram conversas paralelas. Àquele mundo paralelo. De vez em quando, chegavam mais petiscos. Com ar exótico, de apresentação pouco cuidada mas exalando cheiros de especiarias magnificamente doseadas. Verdadeiramente apetecíveis. Mal lhes toquei. Fiquei que tempos a sorrir, de cotovelo apoiado na mesa, segurando-me o queixo, embalada pelo som modelado, encantatório das tuas histórias entusiásticas, mímicas, coloridas.
O tempo passava e, muito de vez em quando, virava-me para ver se a porta do patamar estava livre. Nunca estava… E eu retomava o presente da tua voz, mal comendo o tempo todo, ainda que sem sacrifício.
Enquanto não se esclarecesse se havia uma saída directa para a rua, não me arriscava a engordar aquele centímetro que me havia de deixar em pânico, entalada na escada do alçapão.



Boa Fé, 9 de Julho de 2006

Friday, July 28, 2006

MARIA JOÂO PIRES

Uma das maiores concertistas de todos os tempos,
não aguentou mais e foi-se embora para o Brasil.
O país ficou mais pequenino,
mais parolo e
mais pobrezinho.
Pergunto-me se a ministra da Cultura e o
governo em geral, sabem quem é a
Maria João Pires.
Tenho dúvidas que saibam.
E é neste país sempre adiado que vamos
aniversariando todos os anos mas em mágoa
diária.
--------------------

Thursday, July 20, 2006

"SÓ É NOVO O QUE JÁ ESTÁ ESQUECIDO"

Há muita gente (e boa por sinal), que se interroga por que há cada vez mais ricos e mais pobres. Vejamos o que se passava após a Restauração de Portugal, pela voz do historiador Rafael Valladares.

«A administração Bragança teve de se debater com um dilema aparentemente insolúvel: ou se incompatibilizava com os privilegiados, ou acentuava o mal-estar popular.»
E nenhum governante se incompatibiliza com os privilegiados, porque fazem parte dessa casta.

CHOQUE TECNOLÓGICO

No Carvoeiro, Algarve, uma turista entrou na CGD (onde há mais dinheiro do que a gente julga) e pediu para ir à Net. Responderam-lhe que não podia ser por estar avariado o computador! Mas a solução ainda foi mais brilhante:
- A senhora vá ali à loja da chinesa que tem lá computadores ligados à Net.
-----------------------------------

Thursday, July 06, 2006

CRIME CRACKER


Inicio a publicação da segunda novela de Ed B. Silverman, que é mais longa que a primeira e que, por isso levará mais tempo a postar.

Quanto à sua biografia poderão encontrar neste blog, aquando da publicação da primeira, o essencial da vida deste antropólogo que, nas horas em que deveria estar a descansar, escreve policiais a gozar com os livros policiais.










Tudo nesta novela é fruto
da imaginação da minha
vizinha que, naqueles três dias
e duas noites de cheia, me contou
esta história como sendo
verdadeira. Datas e tudo.

E.B.S.




ANTES DE...

... começar a ler esta novela, desejo responder a Henry Dalsdale, que assina uma pequena coluna crítica no "Washington Times".
Pegando na minha primeira novela O Caso da Mulher com Um Olho de Vidro, afirma ele (e resumo eu):

Primeiro: Que os personagens estão mal retratados fisicamente;
Segundo: Que não sei descrever cenários (interiores e exteriores) e
Terceiro: Nunca falo do estado do tempo.

Dalsdale tem razão nos três pontos. Portanto o leitor tem de contar com tudo isto à partida.
Só li a sua crítica quando ia a meio desta Crime Cracker e, então, cheio de raiva, fiz um enorme esforço, no Capítulo 15, para descrever o gabinete do encontro. Mas o caso é curioso: como conheço bem aquele gabinete, tive imensa dificuldade em retratá‑lo para o leitor. E esta hein?
Como não gosto de Dalsdale, vou vingar‑me da maneira mais suja, mais torpe.

Henry Dalsdale, um "menino‑família", gordinho, anafadinho, bem vestidinho e cheio de borbulhas na cara, foi meu colega de faculdade, em Antropologia. Quando comecei a publicar umas pequenas crónicas no house organ, considerou‑me seu fã nº.1, pelo que rolava, atrás de mim, lendo‑me, de olhos bolbudos lacrimejantes, uns plágios a Yeats. Um dia, já farto, disse‑lhe, com aquela honestidade que ainda temos na juventude, "tudo quanto escreves é uma merda". Jurou então vingar‑se. Levou trinta anos aguardando a oportunidade.
Depois deste ataque sujo, a defesa.

Não gosto de descrever totalmente certos personagens ao leitor; prefiro que seja este a encontrar, através dos seus comportamentos e maneiras de estar na vida, uma "figura física" para aqueles. Altos, gordos, baixos ou magros, de uma maneira geral, prefiro que seja você a imaginar este ou aquela. De uma maneira geral, claro.
Quanto aos cenários, bem. Tenho algumas peças de Teatro escritas (algumas publicadas e representadas). Quando escrevo novelas, evito cair na descrição normal dramatúrgica; não me sinto bem, nem me apetece, o que é que querem?
Para finalizar: o tempo. Não sei escrever sobre o tempo. Só conheço dois: o bom e o mau. Não conheço o nome das nuvens, os ventos e, além disso, não tenho paciência. Levar três páginas de computador a dizer ao leitor de que maneira é que está mau tempo é, em última análise, a combinação de uma chatice e chamar‑lhe estúpido. "Está mau tempo" - pronto! O leitor agora que, dentro das suas vivências de mau tempo, faça o favor de imaginar o boletim meteorológico. Idem para o "bom tempo".

Mestre Mark Twain disse, na sua novela The American Claimant: "O tempo constitui uma especialidade literária e mãos inexperientes não poderiam tirar qualquer partido dele."
Obrigado, Mestre. E.B.S.


1.
O início da manhã é muito importante. A tarde e a noite têm, quantas vezes e apenas, um sentido de continuidade, um prolongamento das primeiras ocorrências e factos. É como se a vida começasse ao acordar e, as restantes horas de alerta, fossem prismas de desdobramento, não das cores, mas dos factos.
Até à chegada da zona de caça, todos os acontecimentos são de extraordinária importância e quase premonitivos.
Assim, pela manhã o homem em tudo vê premonição. Se o tempo está antipático, borrascoso, se se corta ao fazer a barba, se o café deita por fora, se o atacador do sapato se parte no esticão final, se à camisa que pretendia vestir falta um botão, se não encontra aquele documento-arma que necessita levar para o escritório, se o pneu do carro está esvaído e tristemente esparramado no piso, tudo, mas tudo, pode indicar que o dia vai ser terrível... ou bonançoso. (Falamos, evidentemente, do tipo de homem pessimista ─ e solteiro ─, já que, os do tipo optimista são cada vez mais raros.)
Steve não estava incluído nos 2,7%, mas também não era, o que se pode chamar, um neurótico ou um maníaco‑depressivo. E não era bem um pessimista.
Nas classificações dos psicólogos, não estava com linhas muito acima ou muito abaixo da linearidade do "normal", dos que aceitam esta sociedade‑civilização, sem muita necessidade de álcool ou de drogas.
Steve não tinha recalcamentos de infância. Steve não tinha, aparentemente, qualquer alínea patológica. Mas, mesmo que a mãe passasse a vida a dizer que ele era "um neura", a verdade é que é chato, muito chato, abrir pela manhã a porta do carro e encontrar, deitadinho no banco traseiro, um cadáver.
Steve encontrou o cadáver de um homem bem vestido, penteado, calmo, elegante. Enfim, um cadáver decente, um cadáver classe A.
- Que porra! - Exclamou.
Steve, escriturário na International Insurance Co., não tinha, na verdade, razão para se mostrar optimista. Convenhamos que não dá alegria a ninguém, e logo pela manhã, a presença próxima de um cadáver. E ainda no nosso velho carro.
Julgamos, porém, que um momento já deveria o autor ter tido para apresentar Steve Larson.
Já sabemos que é escriturário numa companhia de seguros e, segundo a mãe (e não temos qualquer razão para duvidar da sua palavra), nasceu há 25 anos em Dayton, Ohio, naquele bairro já antigo, construído no ângulo sul da Biblioteca Nacional.
Quando o pai morreu, ao que consta de cirrose, tinha Steve 17 anos e frequentava o Ginásio, com esperança de frequentar também, dentro em breve, certas garotas do Luna Parque. E foi precisamente uma delas que o levou para Nova Iorque, com o tio, as espingardas e as bonecas de plástico.
Steve habituou‑se depressa a Nova Iorque, em tudo tão diferente de Dayton, mas não às espingardas, aos tiros, ao tio dela e a demais coisas como certos olhares que os atiradores atiravam à miúda. Por isso, após seis meses, trocou aquela família e demais atavios, por um emprego certinho, estudando à noite coisas menos importantes que a anatomia de Mary Lou, mas muito mais rentáveis - segundo imaginou na altura.
Quanto às suas capacidades, Steve não era, como habitualmente dizem as tias, "um rapaz promissor" mas tinha, a seu favor, uma boa apresentação física, um favorável ar ingénuo e uma pitadinha de imaginação. "Um homem comum", como definem os sociólogos; "um homem do povo", como dizem os políticos.
Fazia a sua vida com rigor micrométrico, repleta de hábitos solidamente adquiridos pelo que, um cadáver, mesmo que muito bem vestido e impecavelmente penteado, depositado no seu velho carro, o deixou atónito, primeiro, e muito zangado depois.
"Isto são coisas daquele gajo", pensou, referindo‑se ao Tio de Mary Lou, homem pouco temente a Deus e inimigo declarado da Polícia - de qualquer Polícia. "Isto é vingança, por ter abandonado a sobrinha", continuou a pensar. Mas depois reconheceu o seu erro, pois que nunca mais se tinham visto e que nem Mary Lou, nem o sinistro tio, sabiam onde morava.
- Porra! - Reexclamou.
Ordeiramente, desencostou o carro do passeio, virou à direita e dirigiu‑se para a Esquadra da Polícia.
"Vou chegar atrasado ao emprego". Pensou.

----------------------

Tuesday, July 04, 2006


Do Jornal "A Bola"

FIM DE UM HERÓI CHAMADO ALFREDO

Quando tirei os olhos do monitor vi, naquele nicho da direita, na “galeria da família”, a foto do Alfredo, um parente afastado morto em Angola. Era o herói da família. Como sabem, todas as famílias têm o seu herói e nós tínhamos, há uns anos atrás, o Alfredo.

Os pais já morreram, os tios também e agora pergunto eu: que faz ali o Alfredo, que quase não conheci, pendurado juntamente com várias figuras e figurões da minha família? E, sem mais aquelas, fui buscar a moldura, desmanchei-a, limpei-a (muito bem o vidro) e, depois de procurar nos jornais e semanários, encontrei: uma foto muito boa, a cores, do Ricardo a voar, com uma rede de pesca em fundo. Ajustei a foto à medida do vidro, montei de novo a moldura e recoloquei-a no lugar onde anteriormente estava.

Voltei para o computador e observei cuidadosamente o efeito do Ricardo no meio das figuras e dos figurões. Ficou bem. Este sim é um verdadeiro herói. De quem nos podemos envaidecer, não desses heróis de pacotilha forjados pelo Estado Novo, não senhores. Este é autêntico e conhecido de toda a gente. Quando entrarem cá em casa vão exclamar: Olha o Ricardo, o que nunca aconteceu com o Alfredo. E estava eu meditando nisto que agora vos conto, quando vejo a foto quase sem contraste, do meu padrinho. Do seu sangue, não tem ninguém. Ninguém está vivo. E já faleceu há 50 anos. Convenhamos que não está ali a fazer nada.

Fui-me a ela e repeti a operação da outra: desmanchar e limpar. Com os jornais todos abertos e espalhados pela sala, foi fácil descortinar uma foto que coubesse bem ali. Havia muitas e a cores, de perfil e de frente. Escolhi uma e montei-a. Vi o resultado. Perfeito!

A casa ficou muito mais alegre e actual. E eu também rejuvenesci dois ou três anos.

Agora, quando levanto os olhos do monitor e olho para a direita, vejo contentes, o herói Ricardo e o eficiente Mister Scolari. Assim, sim. É uma boa galeria.
----------------

Monday, July 03, 2006

Santíssima Casa da Misericórdia

Que uma instituição comemore 508 anos, é obra. E é principalmente importante, tratando-se de uma instituição de caridade. Por certo muito bem tem feito, sendo eu um dos agradecidos por ter salvo minha mãe de morrer à fome, pois sua excelência o profe nobelado Egas Moniz declarara peremptório que “ela não come porque não quer”. Portanto, à Santa Casa no seu todo e a um modesto médico de pobrezinhos, chamado Amândio Pinto, sem condecorações nem comendas, mais uma vez obrigado.

O que já é obnóxio é a campanha dizendo “Fazendo o bem cada vez melhor”, num auto-elogio de giz a riscar quadro preto. O filme narcísico é de produção cara, cuidada, pormenorizada. Trabalho asseado. A campanha vai para o meio mais caro: a televisão e toda esta despesa de centenas de milhares de euros para se afirmar como boazinha, tratando dos pobrezinhos e dos coxinhos com muito carinho. Dá-lhes próteses e caldos de galinha.

Divulgar o programa das comemorações está certo; gastar milhares para chamar as atenções do povão, adjectivando a sua missão, elevando-a, está errado. O Provedor, que tem um ar simpático e também bonzinho, ainda vai a ministro, afianço-vos.

Se a moda pega, será uma benesse para as televisões. O filme do primeiro-ministro: “Eu estou cada vez mais convincente.” Do presidente da República: “Eu sou cada vez melhor Presidente.” Da ministra da Educação: “Eu cada vez sei melhor o que é uma sala de aula.”, e etc.

---------------------------

Sunday, July 02, 2006

Banquete Lusitano


Não tenho tido tempo para "postar" nos últimos dias. Mas com a visita do meu filho Dario Marques, aproveitei um bom texto de sua autoria. Sobre futebol - é o que está a dar...


Ao longo desta Copa tenho apoiado 3 equipas, sendo uma delas a selecção brasileira que se mostrou apática e sem samba, uma equipa cheia de estrelas mas sem brilho, uma sombra daquilo que verdadeiramente é capaz....ou não! Vi um Ronaldo que de "Fenómeno" não tem nada, que seria incapaz de correr nem que a sua vida dependesse disso (presumo que o seu salário no Real Madrid seja pago em géneros alimentícios, provavelmente picanha e paella). Vi um Ronaldinho Gaúcho bêbado e sem ginga, a tropeçar numa bola que mais parecia de bowling quando se encontrava nos seus pés, errando 11 em cada 10 passes. Somente Robinho e Juan mostravam algum resquício de garra mas Carlos Alberto Parreira, com a sua loucura irreversível, negou-se a pôr o jovem talento a titular e nas subtituições tardias só fez merde (perdão pelo meu francês). Vi um quadrado com menos magia que um Luís de Matos sob o efeito de cocaína.... que desilusão!!!
Já a equipa portuguesa, apesar de todas as críticas a Luiz Felipe Scolari (o brasileiro responsável pelo orgulho português nos últimos tempos) , da contestação à lista de convocados (Baía?... Quem??), do hiato de 40 anos em termos de glória futebolística, conseguiu chegar às meias-finas da Copa do Mundo; e, diga-se de passagem, com mérito, apesar da equipa ainda não estar ao seu melhor nível (será preciso rezar mais à Nsa. Sra. do Caravaggio). Os jogadores portugueses em geral têm estado bem, uns melhor, outros pior (Mensagem a Pauleta - A bola NÃO é um queijo limiano!Remata com mais força...CORTA!!).
Isto tudo me lembra um pomposo banquete em que uns comem à fartasana e outros passam fome ancestral. Portugal, até agora, tem sido bem servido; comemos uma laranjas espremidas à força, comemos uns bifes, agora que venham umas boas taças de champagne (como o disse um fã). Só espero que os jogadores continuem com fome e não se esqueçam de levar umas chouriças para impalar a... (Inserir aqui a equipa da lasanha ou da salsicha alemã).
Bon appetit.

Dario Marques

PSS- Anexo ao texto uma foto do Peter Crouch a demonstrar os seus dotes futebolísticos....ou não! Eheheh!!!!!!!

Thursday, June 29, 2006

Ano da Graça de 2006

Ele levantou-se e disse:
- Portugal tem neste momento, contando os números
oficiais e os outros, para cima de 1 milhão de
desempregados.
Goooolo!!! Gooooooooooooooolo de Portugal!!!!!
E continuou a medo:
- Portugal tem o maior índice de analfabetismo e de
abandono escolar. Também na corrupção é o primeiro.
Gooooolo!!!! Não foi ainda. Falhou por pouco. Figo
escorregou!
- Portugal deixou de ser uma democracia para ser uma
mediocracia.
Cristiano Ronaldo dribla um, dribla outro e é.... falta!!!
falta do jogador holandês!!!!
- Já se construíram mais centros comerciais e estádios
de futebol, que hospitais, escolas e infantários.
Olhem Figo, passou um, passou outro... e..... caiu,
escorregou... o jogo continua com a bola na posse...
- Portugal trocou o bom senso por submarinos e por TVGs.
A compra dos submarinos, contudo, compreende-se: este
país quer provar que lá no fundo, no fundo, não é tão
estúpido como dizem.
Go go goooooollllo de Portugal!!!!! Gooooooooollllllllo!!!!!
- Para um jovem pianista do Fundão ir a um concurso
internacional, foi necessário que os comerciantes da cidade
lhe pagassem a viagem, maila professora. O mal deste
pequeno é não saber jogar à bola, mas trouxe para este
paizinho o primeiro prémio.
Goooooooooooooooooooooooooollooooooo!!!!!!!
- Maria João Pires está muito doente. Pela segunda vez
este ano. Nenhuma televisão deu a notícia por não ter
tempo livre senão para o futebol.
Goooooolo.... Não, não foi. É canto para Portugal!
- Fecham as maternidades. Fecham as escolas. Privatizam-se
serviços. Espera-se a todo o momento uma OPA hostil da
Espanha a Portugal.
Ganhámos só por um golo, mas ganhámos!

(A continuar em breve)

Wednesday, June 21, 2006

GRANDE AUSÊNCIA

Por razões diversas não me tem sido possível estar
convosco neste blog. Como não tenho trabalho, o
meu tempo livre é muito diminuto.
"LendoLivros" também pode ser "LendoJornais", Numa
edição do Jornal do Fundão, encontrei esta peça sem
assinatura, de que gostei e, por isso, transcrevo:

"O paternalismo descabido de
um Portugal que não é exemplo

Achei piada à forma como vários "sectores" do nosso
país abordaram o jogo Portugal-Angola. Por alma de
quem é que temos de ser tão paternalistas com os
"palancas negras"? Portugal foi um dos piores colonialistas
da história mundial. Tivemos jeito para descobrir, é
verdade, mas depois não soubemos fazer o nosso trabalho.
Demos a língua e o futebol mas esquecemo-nos do resto.
Quando saímos das ex-colónias, nada ficou - só mesm0 a
miséria. Não os ensinámos nem ajudámos a crescer. Por
isso, não entendo por que motivo ainda hoje alguns
portugueses falam de Angola como um país irmão. Estou
certo de que mais de metade da população lusa vê em Angola
apenas um simples país africano, com os mesmos problemas
de muitos outros países africanos. Não vi nenhum angolano
dizer que somos povos irmãos. Porque será? Talvez porque
eles não têm uma visão tão romântica da situação. São mais
realistas. Nós é que temos a mania de nos armarmos em
irmãos mais velhos quando não temos qualidades para isso
(...)"