Thursday, September 30, 2010

SONETO - de José Régio

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.** *
* *
*JOSÉ RÉGIO* Soneto escrito em 1969

Tuesday, September 14, 2010

MAIS UM JORNAL EM PAPEL DESAPARECE

No dia 1 deste mês, acabou no seu formato em papel, o velhinho “Jornal do Brasil”, fundado em 1891, continuando a sua existência na internet como “JB online”.
A administração justifica assim a sua decisão:
“Os custos económicos e ambientais do papel são insustentáveis. Mais que isso, são desnecessários. A cada dia em que um jornal como o “JB” é impresso em papel, 72 árvores deixam de ser cortadas. Uma única edição de domingo corresponde a cerca de 200 árvores que levam anos para crescer e ocupam 40 mil m2 de floresta. Isto equivale a quatro campos e meio de futebol. Em um ano, com a versão digital, são preservadas áreas florestais correspondentes a mais de 1200 Maracanãs.”

É uma boa notícia para os madeireiros clandestinos da Amazónia; ficam com mais madeira para roubar.

Thursday, September 09, 2010

MOÇAMBIQUE, 7 DE SETEMBRO, DIA DA VITÓRIA

Quando da tomada de posse do governo de transição, em 7 de Setembro de 1974, o então presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Samora Moisés Machel, fez um discurso do qual recordo as seguintes passagens:

“(...) Queremos chamar atenção ainda sobre um aspecto fundamental: a necessidade de os dirigentes viverem de acordo com a política da Frelimo, a exigência de no seu comportamento representarem os sacrifícios consentidos pelas massas. O poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme. Por isso queremos que vivam modestamente com o povo, não façam da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. A corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade, e em particular dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região fazem parte do sistema de vida que estamos a destruir. O tribalismo, o regionalismo, o racismo, as alianças sem princípios constituem atentados graves contra a nossa linha e dividem as massas. Porque o poder pertence ao povo, quem o exerce é servidor do povo. Quem desviar assim a nossa linha não encontrara qualquer tolerância da nossa parte. Seremos intransigentes nesta questão, como o fomos durante os duros anos de guerra. Não hesitaremos nunca em expor perante as massas as acções cometidas contra elas. Os desvios da linha suscitam as contradições, as brechas por onde penetra o inimigo, o imperialismo e as forças reaccionárias. Para que se mantenha a austeridade necessária a nossa vida de militante e assim se guarde no sentido do povo e dos seus sacrifícios, todos os militantes da Frelimo que receberam tarefas de governação do Estado tal como no passado deve renunciar às preocupações materiais, nomeadamente aos vencimentos. É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem. Combatemos durante dez anos sem qualquer preocupação de ordem financeira individual, empenhados apenas em consagrar toda a nossa energia ao serviço do povo. Está é a característica do militante, do quadro, dos dirigentes da Frelimo. Como o fizemos sempre, de acordo com as nossas possibilidades, procuramos assegurar ao militante que cumpra uma tarefa, o mínimo de condições materiais indispensáveis ao seu trabalho, ao seu sustento e da sua família. Mas também não nos devemos esquecer que muitas vezes combatemos e vencemos descalços, esfarrapados e com fome. Sublinhamos ainda que, assim como fizemos guerra sem horário de trabalho, sem dias de descanso, nos devemos empenhar com o mesmo espírito na batalha da reconstrução nacional”.

É evidente que este homem tinha de ser abatido.

Thursday, September 02, 2010

NOTICIÁRIOS da RDP

Oiço normalmente os noticiários das 9:00, 10:00, 23:00 e 24:00. São usualmente 3 notícias, mais uns incêndios e agora o “caso Queiroz”. É ao que eu chamo “os serviços mínimos”. São notícias estilo "funcionário público desiludido e sem esperança, a cumprir horário".
Ainda não há muitos anos havia noticiários principais e noticiários intercalares. Os noticiários das 13:00, das 20:00 e das 24:00 eram amplos noticiários, alguns chegando aos 40 minutos de duração. Depois havia os intercalares, resumos dos acontecimentos. Neste momento todos me parecem sempre “resumos dos acontecimentos”.
Julgo ter havido um enorme erro de análise por parte da RDP, aquando o advento da “tv-espectáculo” – que criou raízes e fervorosos adeptos, adoptando uma postura de vencido. Como já passámos da era do digital para a era da imagem, pegou e fez carreira o pensamento de que uma imagem vale milhares de palavras, o que é uma rematada estupidez. Para quem não gosta de escrever e de ler, uma imagem chega-lhe plenamente. Os noticiaristas radiofónicos abdicaram dos seus altos serviços e ficaram complexados. Sem razão. A Rádio é o órgão que mais desenvolve a imaginação. A sonoplastia radiofónica ajuda a desenvolver o intelecto. Quando em Rádio digo que está um tempo maravilhoso e que ao longe vejo o mar, o ouvinte terá que recriar o cenário desenvolvendo-o imaginativamente. Em Televisão não é necessário desenvolver seja o que for: está lá a foto do dia com o mar ao longe. Para quê pensar? A foto documenta a imagem mas, se não for a palavra, como ficaremos a saber de tudo o resto? Os cheiros, o vento, a magia do lugar, o que se espera dele, etc., etc. Nesta nova sociedade “come-depressa-não-te-prendas-aos-problemas” e prefere o prato do dia que é mais rápido, uma imagem resolve tudo. Mas longe vai o tempo de Mattelart manguitando-se para Gutenberg. E a Televisão quase conseguiu matar o velho dos tipos móveis… com alguma ajuda dos povos menos cultos, verdade se diga.

Tuesday, August 31, 2010

Friday, August 27, 2010

A CRISE

Por certo inúmeras pessoas têm soluções para se acabar com a crise em Portugal e eu sou uma delas. Nem foi preciso muita imaginação ou esforço intelectual, bastou pensar em “O Rato Que Ruge”, de Leonard Wibberley. Um livro que se lê e relê logo em seguida, tal é a delícia que proporciona. A pensar nos que não sabem ler ou não gostam, a Colombia TriStar fez um filme que é um assombro (com Peter Sellers, Jean Seberg, etc.) que as pessoas, mesmo alguns políticos, compreendem.
A história é simples: O Grão-Ducado de Fenwick, estando a perder na exportação de vinho, declara guerra ao seu principal concorrente, os Estados Unidos da América do Norte. A Duquesa e o PM encontram, neste plano, a genial solução para os seus problemas, na condição do Grão-Ducado perder. Mas o Grão-Ducado ganhou!
Mas este esquema não é inédito nos dias actuais: o Irão e a Coreia do Norte estão prestes a segui-lo.
Encontrada a solução, há que escolher o país a quem Portugal declara guerra. (Aceitam-se sugestões, mas poucas). A Áustria vem à cabeça pois tem o mais baixo índice de desemprego da União Europeia. É de pensar. O seu poder bélico é tão mau como o nosso, se bem que já tenhamos um submarino, ou seja, o submarino, e cerca de 200 tanques com defeito feitos pela Steyer. Enfim… até gostamos um pouco deles por nos terem dado Schubert, Richard Strauss, Johan Strauss e o festival de Salzburgo.
Outra hipótese é declarar guerra, ajustando contas antigas, à Inglaterra. Eles ficavam encantados por possuírem todo o vinho do Porto (agora só têm 95%) e, já que em devido tempo não lhes demos Moçambique, como o desejavam desesperadamente e com gana (como pão para a boca), agora vingávamo-nos e oferecíamos-lhes o Arquipélago da Madeira (com o sr. A. João Jardim incluído, não negociável).
Mas o melhor mesmo é seguir o guião do Gão-Ducado: declarar guerra aos EE.UU. E, quando o Pentágono mandasse os aviões, imediatamente nos rendíamos ficando como prisioneiros de guerra, situação que os obrigava, pela Convenção de Genebra, a dar-nos comida, tratamentos médicos, roupas e, evidentemente, pocket money. Como prisioneiros as dívidas podiam assobiar-nos às botas. As criancinhas que já estão a estudar o idioma na Instrução Primária ficavam todas contentes, passando o Português, com uma gramática horrível, para segunda língua e o abaixamento de custo das pastilhas elásticas proporcionaria muita alegria aos treinadores de futebol. Os Portugueses, neste momento só unidos pelo Braga, passavam a unir-se também pela libertação do ocupante, coisa que bem tratada, com calma e inteligência, poderia demorar 200 anos. Um regabofe durante duzentos anos – melhor que quando o ouro e a prata vinham à fartazana de Minas Gerais.
Eu sei que estão a perguntar “por que não à Espanha?”. Pela simples razão de que esta Monarquia não nos ligaria nenhuma. Olhava para o lado e assobiava, como os Romanos quando vêem o Obelix e o Asterix. Só fizeram o erro uma vez e logo outro acrescentaram (que nem parece deles), de não deslocar a capital da Península Ibérica para Lisboa, pelos menos durante uns 100 anos.
Bem. Este fimdesemana não contem comigo pois vou ao Alfeite ver o submarino.
(Abaixo o hífen! Abaixo!!!!)

Monday, August 23, 2010

O COISO ORTOGRÁFICO

Chamo-lhe assim pois não é um acordo. Acordo é quando concordamos em caminhar no mesmo sentido. No Brasil mais de metade da população desconhece o Coiso Ortográfico e, os que conhecem, não lhe ligam nenhuma. Aqui não sei. O que sei é que Portugal, ciclicamente, mete o pé na argola. Já cá tardava. Depois do embaixador Vasco Garin afirmar, nas Nações Unidas, que Portugal não concordava com o desarmamento mundial pois ninguém poderia afirmar que os ET’s não andavam por aí e, se ficássemos desarmados, só nos poderíamos defender com fisgas e facas de cozinha. O Mundo riu.
Esperava que a Ota fosse mais uma argolada da regência política portuguesa. Mas arrepiou-se caminho, provocando a barafunda (sururu para o Coiso Ortográfico – (CO)) que todos conhecemos.
Mas falta-nos falar da fiscalização (de que Portugal não gosta nada – veja-se o caso do Banco de Portugal e do seu desgovernador) e das coimas (tão queridas aos legisladores portugueses).
Para a fiscalização, deverá constituir-se um gabinete, de sete membros, em cujas primeiras reuniões elegerá o respectivo presidente. Depois encarregar-se-á dos Estatutos, da CP (campanha de publicidade, que esperará paciente a dotação da verba), e a selecção dos fiscais, que deve recair não nos professores de Português, mas sim nos revisores das editoras (cuidado com as meninas licenciadas em Letras).
Depois, o gabinete fará uma hierarquia de faltas ao CO. Atendendo a que o “Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências, levou 18 anos a ser concebido, a tabela das faltas deverá demorar uma década e, entretanto, cada um vai escrevendo como lhe apetece, sabe ou dá mais jeito. Eu já estou a escrever fimdesemana sem hífenes, que são, como todos sabem, um atraso de vida e fakto com kapa para indispor os brasileiros (minha ex-mulher é brasileira).
As coimas poderão ser de duas espécies: primeira – obrigar o faltoso a escrever 100 vezes a palavra segundo o CO, numa escola de Instrução Primária da área do malandro, aos sábados e a horas marcadas pela direcção escolar. Todas as crianças da escola assistem, de pé, cantando o Hino Nacional. Alguns residentes brasileiros serão convidados para cantar, em seguida, o Hino Nacional brasileiro. Se o prevaricador for director de um Órgão de Comunicação Social, oferecerá, no final, um churrasco a toda a galera (ver Aurélio ou Houaiss); segunda – o malandrim é obrigado a saber de cor, no prazo de 30 dias, todas as alíneas do Coiso Ortográfico e as biografias de Vasco Pulido Valente e de João Ubaldo Ribeiro. Ficará sem registo da falta na Polícia e no SEF, se recitar ainda um poema de Luiz Pacheco, no programa da RTP-2 “Câmara Clara”.

Thursday, August 19, 2010

ESCOLAS...

É profunda convicção nossa, já de muitos anos estabelecida, que urge seguir rumo diverso do que se tem seguido na organização dos livros de leitura para as escolas primárias.
Tem a escola obrigação de desenvolver a criança física, moral e intelectualmente.
A leitura é um grande elemento para o desenvolvimento intelectual, quando deste exercício se tira o conveniente e necessário partido. Para isso se conseguir, precisa-se de que o pequeno leitor compreenda. A fim de compreender é indispensável:
1.º que a linguagem seja actual, simples, clara e precisa; 2.º que o assunto seja comezinho, familiar, compreensível para as crianças; 3.º que os períodos sejam curtos, as orações bem-dispostas, os termos sejam os mais simples e usuais.
(…)

In “Selecta das Escolas” – Livro de leitura para as aulas de Instrução Primária - 1886

Monday, August 16, 2010

APESAR DAS GUERRAS

Ao contrário da minha filha Alexandra, para quem a época ideal para viver seria aquela em que Dartagnan ou Lagardère a convidaria para dançar no baile da rainha, gosto de ter nascido no século XX. Apesar das guerras.
Ao que eu tenho assistido! Quase não dá para contar. Uma vez, estava eu a estudar, com o Rádio Club Português em fundo, eram quase onze da noite, quando oiço o professor de Aerodinâmica no IST, doutor Varela Cid, dizer que o Sputnic era uma invenção propagandística dos russos e que era impossível lançar no espaço um satélite artificial. Logo em seguida, falou Henrique Galvão, pela Aeronáutica Civil, dizendo que, para pôr um satélite em órbita, bastava ter tecnologia e cérebros. Dá as onze e o RCP anuncia que o Observatório Nacional acabava de assinalar a passagem do Sputnic e que o seu bip-bip se poderia ouvir na frequência tal e tal, a dos crédulos. O professor, se tivesse esperado cinco minutos, não teria caído no ridículo. Isto apesar das guerras.
Depois, a rainha do nosso mais antigo desaliado, resolve vir ver os seus súbditos mais escurinhos devido ao sol. E passámos todos a ver televisão a cores. Os ditos televisores a cores depressa se esgotaram nos importadores, já que se sabia de fonte segura que a rainha só gostava de se mostrar policromaticamente. Ao que eu assisti… apesar das guerras.
Rapazinho de dezassete anos, adorava a rádio e fiz uma galena, coisa que hoje ninguém sabe o que é. Depois assisti a uma das maiores conquistas científicas da história: o transístor. (Que muito veio acudir e ajudar nas guerras, incluindo a das estrelas.) Na altura andava eu às voltas com a 117L7, uma válvula de funções múltiplas, para construir o meu emissor-receptor, indispensável ao radioamadorismo.
De repente, estava eu muito sossegado a ler, casado e pai de filhas, veio a minha mulher a correr, a chamar-me, excitada, que estava um homem na Lua. E fiquei toda a noite a ver o homem na Lua. Apesar das guerras, ou por causa delas.
O transístor, voltamos a ele, foi um sarilho: permitiu realizar o sonho de todos os autores de FC, desde Azimov a Ray Bradbury, passando pelos Clarks e companhia: a miniaturização. Diminuíram de tamanho os rádio-receptores e os aparelhos de televisão. Entretanto já tinha comprado um kit americano com as peças todas e construí o primeiro amplificador estéreo que entrou lá em casa. Entrou digno pelo seu pé e por lá ficou, após trinta noites a montá-lo. Era um encanto. Ficávamos a ouvir estereofonia e a babarmo-nos de prazer. Olha este canal… olha agora este… O jazz era mais jazz mas, para Beethoven, estéreo ou monoral era-lhe indiferente. Feitios. E quanto aos discos, fomos passando do 78 r.p.m., em massa, para o de 45, depois o de 33 e um terço em vinil, e agora o compacto. Comum a todos eles, o buraco no meio.
Ao que eu assisti, leitor! Estava eu muito distraído a fazer a tropa e o Fleming a exportar Penicilina para todo o mundo… para bem da guerra. E por causa da guerra também veio o DDT, o insecticida em pó que se dava aos soldados por causa dos bichinhos. Testado antes pelos soldados americanos. Na guerra. E também por causa dela, o sonar e o radar.
Tinha lido num periódico acerca do concurso da BBC para um minicomputador. Um concorrente importante mas que não ganhou, chamava-se Clovis Sinclair, um génio a quem mais tarde, por culpa da rainha, se chamou depreciativamente Lord. Ora o Clovis, com um menino tão bonito nas mãos, apesar de recusado pela BBC, resolveu fabricá-lo às toneladas e vendê-lo em todo o mundo. Foi assim que eu recebi o meu primeiro ZX Spectrum, um miniprocessador que, acoplado a um gravador de fita magnetofónica, fazia maravilhas. Depois veio o QL, depois o Philips, depois o… e o… e o… e o Hyundai agora a olhar para mim e eu desgostoso de ver este maldito aparelho ter mais memória que eu.
Uma noite deu-me na cabeça e fui fazer o meu 25 de Abril. Por dentro dele. Inolvidável madrugada em que os redactores, chamados a meio ou no começo do sono, não se apresentaram contrariados ou reclamantes. Vieram a rir e a abraçarem-se uns aos outros. Alguns vertiam lágrimas felizes. Alguns trouxeram mais cinco. E isto por causa das guerras. Não posso esquecer ter andado quarenta dias na clandestinidade, a dormir no chão, tendo por almofada uma resma de papel para duplicador. Depois do 25 de Abril.
Mas o que realmente tem sempre estragado tudo, estimado leitor, é esse estúpido flagelo humano: a guerra, ou seja, o homem.

Álvaro Belo Marques

(in TempoLivre, revista do Inatel)

Monday, August 02, 2010

Razões técnicas obrigaram-me a tão grande ausência.

Tuesday, May 11, 2010

ATENÇÃO ANA SANTOS

O meu e-mail é
belomarques.2005@gmail.com
por onde me pode contactar.

Monday, May 03, 2010

FUTEBOL CLUBE DO PORTO X S.L. E BENFICA

Foi comovente ver chegar à frente do hotel no Porto, onde entrara há quinze minutos a equipa do Benfica, aquela mole humana agitando bandeiras do clube adversário, bandeiras de Portugal e da UE.
À frente vinha uma banda de mais de trinta músicos, tocando as mais alegres marchas de John Filipe de Sousa, seguida de dirigentes do F.C. do Porto enquadrados pela equipa de juvenis do clube e de dezenas de atletas exibindo orgulhosamente as suas medalhas.
Da porta principal do hotel saiu então e comitiva do Benfica, que foi aplaudida amistosamente pela multidão. A banda fez uma pausa e os respectivos presidentes dos clubes abraçaram-se e trocaram galhardetes.
A banda dirigiu-se então para o estádio, novamente a tocar, ouvindo-se os primeiros foguetes do dia, avisando desta forma a população da capital do Norte de que “Já chegaram!”
Os adeptos do Benfica que foram ao Norte em dois comboios especiais, foram saudados à sua chegada à Campanhã, por uma comissão de sócios do F.C. do Porto, que lhes prestou escolta até ao estádio, entoando hinos e agitando bandeiras dos dois clubes. Nas janelas, os moradores gritavam e batiam palmaas.
Fui informado ainda pelo locutor de que, à noite, qualquer que fosse o resultado, haveria a actuar conjuntos e solistas de Lisboa e do Porto, estando prevista ainda uma prenda-lembrança à equipa perdedora, oferta da cidade, oferecida pelo próprio presidente, Dr. Rui Rio.
Foi neste momente que fiz as pazes com Portugal, que tinha mostrado civismo e educação, elevando os jogadores de futebol à categoria de atletas e o Povo à categoria de cidadãos.
Eu tinha uma certa esperança de que, mais dia menos dia, o país onde nasci me daria esta alegria. Pronto, agora sou português.

A.B.M.

Friday, April 30, 2010

EU FRASES

Em Maio de 1999 João Paulo Guerra escreveu os seguintes pensamentos:

* Todos os cogumelos são comestíveis. Alguns só uma vez.

* Tudo é relativo. O quanto dura um minuto depende do lado da porta da casa de banho se está.

* Os ingleses são tão educados que na Inglaterra quem dirige é o pendura.

* Armando Nascimento de Jesus, vulgo presépio.

* Os jogadores de videojogos são pessoas normais, que comem gelados pela testa como toda a gente.

* A primeira amnésia nunca se esquece.

* No boxe, geralmente, o árbitro é a única pessoa que sabe contar até dez.

* Em casa de um indeciso só pode haver uma casa de banho.

CONSELHOS
* Nunca bata num homem com óculos. Use as mãos, é mais efdiciente.

* Beba moderadamente, mesmo que em grandes quantidades.

* Não funcionou da primeira vez? Desista de saltar de para-quedas.

* Não se ache horrível pela manhã. Acorde ao meio-dia.

* Nunca se deve bater num homem caído, a não ser que se tenha a certeza de que ele já não se levantará.

* Evite uma vida sedentária; beba água.

* Evite acidentes. Faça de propósito.

* Se não pode vencer o inimigo, corra.

* Evite a ressaca; mantenha-se bêbado.

Friday, April 09, 2010

PERGUNTA EMBARAÇOSA


- O que é que o senhor sabe fazer?

Perguntou-me a moça de sorriso tão aberto quanto frio. Lembrei-me de um dos meus últimos papéis e respondi:

- Sei servir à mesa.

Como estava bem-disposto, continuei, recordando os filmes já feitos ao longo de 70 anos:

- Também dou um jeito na cozinha, já fiz de cozinheiro-chefe num palacete inglês. Fui preceptor de meninos, ladrão de gado no Oeste, padre protestante na Austrália, comandante de um cruzeiro de férias, pistoleiro a soldo num gang durante a lei seca, sabe lá, eu levava aquilo muito a sério pois sempre gostei de whiskey, depois, numa sucessão muito rápida, fui um modesto alfaiate judeu, revendedor de droga e chui antidroga, em filmes seguidos, sem jeito algum, depois… bailarino profissional, e, talvez devido à minha cor escura mediterrânica, fiz de toureiro. Não sei se reparou no leve coxear da perna esquerda, quando entrei… é uma recordação desse papel. Não quis o duplo e foi o resultado.

Ela olhava de olhos bem abertos para mim. Fixamente. Friamente.

- Não há nada de mal em lhe dizer que também fiz de corredor de bicicletas num filme francês. Isto no início, quando ainda não tinha barriga. Deixei-me ficar por França uns tempos até que fui obrigado a cumprir um contrato para uma série televisiva sobre uma célula mafiosa a actuar no Texas, de onde têm saído, como deve saber, grandes mentirosos e também mafiosos. Depois descansei uns tempos em Las Vegas, onde joguei e ganhei numa noite trezentos mil dólares, perdendo, no dia seguinte, trezentos e dez mil no mesmo casino e na mesma roleta. A imprensa menor começou a dizer que eu era um batoteiro e que estava perdido para o Cinema. Isto chegou evidentemente a Hollywood, pois passadas duas semanas, recebi um convite para interpretar uma personagem de Dostoievsky, o Jogador. Mandaram-me o script. Li-o numa noite. Gostei imenso. Isto de estar a fazer o gosto ao dedo e ainda por cima nos pagarem, é uma grande maravilha. Com o dinheiro e o êxito, efectuei o terceiro divórcio e o inevitável acordo de indemnização. Ganhei na roleta fictícia, perdi na vida real. Depois… deixe-me ver… ah! Fiz de motorista entradote ao serviço de uma multimilionária, melhor, motorista para todo o serviço. Um filme com muita graça e um enorme Rolls Royce último modelo. Quando saímos de dentro do filme e como já estávamos habituados um ao outro, com várias cenas de cama à mistura e etc., resolvemos casarmo-nos e lá fui de novo para Las Vegas onde rodei um novo filme interpretando um pugilista na decadência que se deixa subornar para ganhar uns milhares fora do ringue. Enquanto em Hollywood eu treinava no ginásio, corria, saltava à corda, fazia pushing-ball, etc., a minha nova esposa, convencida que ainda era multimilionária, gastava o que não tínhamos nos diversos casinos à sua inteira disposição. Em resumo: mais uma falência e mais um divórcio. Mas desta vez não houve pensão de alimentos.

Como nada acontecesse, ela a olhar para mim e eu para ela, continuei:

- No começo da minha carreira, entrei num dos últimos filmes mudos, um modesto miúdo que ia comprar um ice cream. Depois coisas sem importância, como engraxador – uma cena de apenas um minuto –, vendedor de jornais – um minuto a berrar que nem um desalmado o nome do jornal – também de carteirista astuto e de bêbado assumido.

Parei sem fôlego.

- Bem… - disse ela – não sabe fazer nada.

Tive de concordar. E ela encerrou a sessão:

- Acabe de preencher os impressos, assine, entregue àquela senhora ali e pode ir-se embora. – Fria como um cubo de gelo pelas costas abaixo.

- Muito bem. Obrigado – respondi delicadamente.

Tuesday, March 23, 2010

O PRINCÍPIO DE PETER

O betão voltou a matar um operário português. É com imensa facilidade que se morre em Portugal. Foi a ponte que caiu por falta de fiscalização, foi o menino que se afogou por falta de informação, foi o rapaz que se electrocutou ao accionar o botão para atravessar a via em “segurança”, são os meninos que morrem nos esgotos das piscinas, são diariamente os corpos removidos das estradas, mortos por imbecis, ou alcoólicos ou heróicos condutores topo de gama, são os jovens que voam e que morrem no ar de tiros da polícia – com tiros de aviso para o ar -, são operários que morrem numa simples vala, pois as faldas desabaram. São ainda os avisos para os mortos irem pagar impostos às finanças, os arrestos de contas há muito liquidadas, o aviso para que o cidadão seja reembolsado em 1 €, a placa de parque de estacionamento colocada de pernas para o ar, o candeeiro de iluminação pública precisamente em frente da porta da garagem.
O professor Peter defende a tese de que todos alcançamos o nosso nível de incompetência se formos subindo na carreira. Ninguém me pode afiançar, por exemplo, que o professor Cavaco Silva não atingiu já o seu nível de incompetência. Mas estou apenas a especular pois onde desejo chegar é à certeza cada vez mais sólida de que 80 ou 90% da população portiguesa atingiu já o seu nível de incompetência, o que leva muitos julgamentos à falência pois os juízos não estão, de uma maneira geral, isentos de serem atingidos pelo Princípio de Peter. Nem sequer os do Supremo.
Tenho a vaga sensação de que com este post atingi também o meu nível de incompetência.

Monday, March 08, 2010

DEUS, SENHOR:

XXXXXXXXXXXX XX XXXXXXXXXX X XXX
XXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX X X X X X X X
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Tudo isto me incomoda e magoa. Explica-me.
Sou ateu e tu sabe-lo. Que esperas então para me converter?
Eu

Tuesday, February 09, 2010

SOCORRO

Preciso ajuda.
O meu pc foi formatado e desde então não aceita a edição de screen savers. O que devo fazer?
Obrigado se me puder ajudar.
Álvaro

Monday, November 02, 2009

O TÉDIO DE UM JULHO QUENTE

Não havia vento nem brisa naquela tarde de domingo. Apenas imperava o tédio que, lentamente, ia percorrendo as ruas, as escadinhas e as vielas de Cascais. O tédio que assomava às pequenas janelas da rua dos Pescadores e lá para dentro espreitava. Gatos e cães dormiam em abandono nas sombras possíveis. O tédio passou então pelo Café Baía e deu um encosto aos rapazes ali sentados, que bocejavam por dentro e malcriadavam por fora. Ouviam-se as moscas. Enfim, passeou pela Praia do Peixe e subiu lentamente à estação dos comboios. A um canto, sentado no carrinho de mão com as costas e a cabeça encostadas à parede, dormitava em paz o Nabiça, destacando-se, na lapela do seu casaco mal enjorcado, um pequeno ramo de espigas. Durante todo o ano, alguma flor, ou legume, tinha de ornar a sua farpela.
“O senhor Nabiça”, como lhe davam trato os veraneantes e turistas que precisavam de alguém que lhes levasse as malas e demais atavios, quando chegavam. Ele conhecia todas as ruas e todos os becos da vila, apesar de ter vindo gaseado da guerra e não dizer, inúmeras vezes, coisa com coisa.

Os rapazes, ainda com a marca do tédio na testa, desejavam uma ideia para se divertir. E tanto procuraram que a encontraram na pessoa do senhor Nabiça. “Damos-lhe uns trocos e ele vai até ao albergue…”
Havia nessa data o GACA 1, Grupo de Artilharia Contra Aeronaves ou, como o povo dizia, Grande Albergue das Crianças Abandonadas, em frente à Cidadela.
Com geral regozijo, lá se foi levar a encomenda ao Nabiça juntamente com dez escudos e procurar um sítio onde se pudesse desfrutar a cena.
O Nabiça foi buscar a condecoração, colocou-a ao lado da espiga e lá foi em passo lento para a porta da Cidadela. Parou frente à sentinela que, esparvoada, olhava de revés para aquela figura. Nisto um raio caiu-lhe na cabeça. Então o mal enjorcado não tinha a Cruz de Guerra?! E lança em pânico um berro longo e forte de “Às armas!”, como se viessem aí outra vez os franceses, mas agora em maior número. Surgem então os restantes elementos da Guarda, arrumando-se enfraldiscados, bocejando, mailo cabo, o sargento e, finalmente, um tenente, magro e comprido, como um ponto de exclamação no fim desta oração fardada. E o ritual obrigatório cumpriu-se: fez-se sentido e os soldados apresentaram armas. O Nabiça, que tinha inchado com a cerimónia, primeiro agradeceu e depois desinchou e encaminhou-se na direcção do Roxo, descendo depois para o Baía.
Os rapazes, entre gargalhadas, fizeram-lhe uma grande recepção e organizavam-se para uma segunda expedição, quando, assombrados, viram o ponto de exclamação na sua frente. Ficaram mudos e quedos.
Sem zanga, disse-lhes o tenente:
- Vocês não sabem o que fizeram. Este homem, o senhor Nabiça, tem a mais alta condecoração militar portuguesa, por coragem e bravura. Mas infelizmente apanhou gases na Primeira Guerra Mundial. Ele merece o nosso respeito e não a nossa chacota. Se o senhor Nabiça voltar à Porta de Armas, mandar-vos-ei prender a todos. Perceberam?
Os rapazes compreenderam. O Nabiça fez uma desajeitada continência e saiu atrás do tenente. Nessa altura o tédio corria como louco pela lota do peixe.

Friday, October 23, 2009

BOURRÉ A MEIO DA TARDE

Álvaro Belo Marques


O Pavilhão dos Desportos estava cheio e decorado para concerto. Eu comprara um bilhete na segunda fila e já estava sentado quando as luzes se apagaram para a segunda parte, na qual ela actuaria como solista. Cerca de trinta anos tinham passado desde aquela vez que nos conhecemos. O nosso único encontro. Quando ela entrou com o maestro, o Pavilhão quase ruiu com os aplausos – estava no auge da sua carreira. Sentou-se, fez-se quase silêncio e ela atacou o primeiro andamento do Concerto para Piano e Orquestra, opus 16 de Grieg com o mesmo virtuosismo do autor. Lembram-se? É uma entrada vigorosa.

Estava madura, mais cheia e mais bonita. A menina do vestido estampado com flores azuis, que assomava à janela para descansar as mãos e os braços, naquela moradia de dois pisos em S. João do Estoril, era agora uma consagrada pianista.
Passei cinco tardes encostado ao muro com gradeamento, que rodeava a sua casa, ouvindo-a estudar. Deveríamos ter dezassete anos. Logo no primeiro dia que parei para a ouvir, ela deu por mim. Como a pausa fosse grande, olhei para cima. Demos um pelo outro no mesmo centésimo de segundo. Olhámo-nos com curiosidade. Ela perguntando com o olhar “Estavas aqui a ouvir-me tocar?” E eu, na mesma linguagem “Fui apanhado!”
Nos cinco dias que passei ouvindo-a estudar, o esquema era normalmente o mesmo: umas escalas, depois um ou dois Estudos de Czerny, mais uma sonatina de Beethoven, alguns Nocturnos e Estudos de Chopin e parava aquele período de trabalho com uma peça ligeirinha, muito bonita, que ela já tocava com muita alma: “Fur Elise”. Depois talvez fosse lanchar, altura em que eu partia com a cabeça cheia de música.
Parecia que os deuses se interessaram por nós, primeiro, fazendo-me passar sob aquela janela naquele dia àquela hora. Segundo, proporcionando no domingo o nosso encontro na Patinagem de Cascais. Devíamos ter sido destinados um ao outro. Disse-lhe o meu nome e ela que se chamava Cecília. Falámos o resto da tarde com entusiasmo e franqueza. Ainda houve uns segundos para lhe perguntar “porquê o Fur Elise todos os dias e que tocas tão bem?” Ela sorriu e respondeu como uma criança que era “Porque gosto”.
Ficou tacitamente estabelecido que nos encontraríamos no domingo seguinte. Mas não aconteceu assim. Meus pais regressaram a Lisboa e eu com eles. Neste momento estava a vê-la, ao fim de cerca de trinta anos, a terminar o último andamento do Concerto em Lá Menor para piano e orquestra, de Grieg.
O Pavilhão parecia vir abaixo com a permanente ovação em forma de onda: subia e descia, mas não parava. Por indicação do maestro, a orquestra e a solista saíram mas ela voltou para tocar alguns extras e acalmar aquele auditório conquistado pela beleza e a perfeição da execução, que gritava o seu nome. Ao terceiro extra fui eu que gritei, já perdido, deseducadamente, “Fur Elise”. Fez-se um quase silêncio. Ela olhou em redor, tentando detectar o autor do pedido. Sentou-se de novo e tocou a bela peça que Beethoven tinha escrito para a Elisa.
Segui depois a fila das pessoas que iam ao seu camarim cumprimentá-la; toda a gente a ver e a ouvir o meu coração a bater. Estendeu-me a mão a sorrir e dizendo “Foste tu…” Beijei-a respondendo “Fui”. E nunca mais voltámos a ver-nos.

Friday, September 11, 2009

Aproximam-se eleições - todos sabemos isso. O que talvez nem todos conheçam é o poema de Mário-Henrique Leiria "A Nêspera". É para estes que dedico esta transcrição.

A Nêspera

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece