Sunday, May 15, 2011

TERRAS DO SEM FIM

"Era uma vez três irmãs: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas correrias, unidas nas gargalhadas Lúcia, a das negras tranças; Violeta, a dos olhos mortos; Maria, a mais moça das três. Era uma vez três irmãs, unidas no seu destino.
Cortaram as tranças de Lúcia, cresceram seus seios redondos, suas coxas como colunas, morenas, cor de canela. Veio o patrão e a levou. Leito de cedro e penas, travesseiro, cobertores. Era uma vez três irmãs.
Violeta abriu os olhos. seus seios eram pontudos, grandes nádegas em flor, ondas no caminhar. Veio o feitor e a levou. Cama de ferro e de crina, lençois e a Virgem Maria. Era uma vez três irmãs.
Maria, a mais moça das três, de seios bem pequeninos, de ventre liso e macio. Veio o patrão, não a quis. Veio o feitor, não a levou. Por último veio Pedro, trabalhador da fazenda. Cama de couro de vaca, sem lençol, sem cobertor, nem de cedro, nem de penas. Maria com seu amor.
Era uma vez três irmás: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas gargalhadas, unidas nas correrias. Lúcia com seu patrão, Violeta com seu feitor e Maria com seu amor. Era uma vez três irmãs. diversas no seu destino.
Cresceram as tranças de Lúcia, caíram seus seios redondos, suas coxas como colunas, marcadas de roxas marcas. Num auto pela estrada cadê o patrão que se foi? Levou a cama de cedro, travesseiros, cobertores. Era uma vez três irmãs.
Fechou os olhos Violeta com medo de olhar em torno; seus seios bambos de pele, um filho pra amamentar. No seu cavalo alazão, o feitor partiu um dia. nunca mais há-de voltar. Cama de ferro se foi. Era uma vez três irmãs.
Maria, a mais moça das três, foi com seu homem pró campo, prás plantações de cacau. Voltou do campo, era a mais velha das três. Pedro partiu urn dia, não era patrão nem feitor. partiu num pobre caixão, deixou a cama de couro e Maria sem seu amor. Era uma vez três irmãs.
Cadê as tranças de Lucia, os seios de Violeca, cadê o amor de Maria?
Era uma vez três irmãs numa casa de putas pobres. Unidas no sofrimento, unidas no desespero, Maria, Lúcia, Violeta, unidas no seu destino."



in Terras do Sem Fim, Jorge Amado
(Edição Livros do Brasil).

Sunday, April 17, 2011

VIDA DE CÃO

Quando cheguei à Cooperativa, estava a cadelinha encostada a uma das paredes, a apanhar o belo sol desta Primavera prematura. Estava a cumprimentá-la quando entrou um grupo de cinco crianças, rapazes e raparigas, dos oito aos dez, cheio de ânimo e alegria para matar o tempo neste período de férias. Uma delas perguntou: “- Já viram os bebés dela?”, e foram todas para um monte de tábuas languidamente a repousar junto ao muro.
Entrei, fiz as compras e, quando saí, estava a criançada sentada nas tábuas com os cachorros ao colo, fazendo-lhes festas, sob a vigilância bem-disposta da cadelinha. Estavam todos felizes, portanto.
Quando voltei à Cooperativa no dia seguinte, pois tinha-me esquecido dos alhos para a sopa Juliana, vi a cadela encostada no mesmo sítio da parede, mas a chorar. A chorar mesmo: com lágrimas nos olhos. Entrei e soube, pela empregada, que tinham feito a barbaridade de lhe tirar os cães todos ao mesmo tempo. As duas senhoras da Coop estavam indignadas. As duas eram mães e compreendiam melhor.
Quando saí, fiz festas à bicha e lembrei-me do estafado pensamento de Pitigrilli (“Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães”) mas, na verdade, gosto cada vez menos dos homens, principalmente dos governantes, não só de Portugal mas de todo o mundo.
A.B.M.

Wednesday, April 13, 2011

UM NOBRE PLEBEU

Estou envergonhado com a minha credulidade. Fiquei este tempo todo sem escrever e foi, na verdade, por vergonha. Vergonha de ter acreditado na pessoa e nas suas intenções. Afinal o apelido não corresponde ao comportamento da pessoa. Como pude ser tão ingénuo!
Companheiros e amigos: espero que me perdoem e também espero que me sirva de exemplo.

Thursday, December 30, 2010

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Pela primeita vez na história deste país, os portugueses têm a oportunidade de escolher e votar num candidato:
- Honesto
- Trabalhador
- Solidário
- Respeitado em todo o mundo
- Com cultura humanista
- Sem telhados de vidro
- Sem compromissos partidários.
Claro que me refiro ao sr. dr. Nobre.
Será que os portugueses têm capacidade para compreender isto?

Tuesday, November 30, 2010

SOBRE A VÍRGULA

Muito bonita a campanha dos 100 anos da ABI
(Associação Brasileira de Imprensa).

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere..

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da
sua informação.



Detalhes Adicionais:
COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE
QUATRO À SUA PROCURA.

Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

Monday, November 22, 2010

UM RAPAZ DE ESQUERDA

O Joaquim veio do Norte para estudar na universidade em Lisboa. Como era um burguês de poucos recursos, conseguiu ficar num quarto com um conhecido, o César, moço calado e, a maior parte do tempo, ausente. Raramente se viam. O César passava às vezes semanas sem aparecer. Dizia que estudava pelos cafés, mas o Joaquim nunca se encontrou com ele.

Um dia, o César disse ao Joaquim, numa manhã fria de Inverno:
- Olha, tenho de me ausentar por dois, o máximo três dias. Se eu não aparecer nesse prazo de tempo, pegas nesta pasta e deita-a fora. No lixo ou no mar.
E saiu sem mais explicações nem qualquer despedida especial. Viviam há três meses naquele quarto e pouco sabiam um do outro; eram dois autênticos estranhos. O César delicadamente impunha este regime de pouca aproximação. Era esse o seu feitio, pensava o Joaquim.

Precisamente no dia seguinte, ou melhor, na madrugada seguinte, o quarto foi invadido por três agentes da PIDE que revolveram tudo, as malas, os papéis, a roupa e, obviamente, levaram o Joaquim preso. Ele chorava e afirmava que a pasta não era dele mas, a cada nova bofetada, afirmava-o com menos ênfase.

Ficou uns oito dias a chorar e a levar bofetadas até que os esbirros acreditaram que ele nada sabia, que era um ignorante total, e que nem conhecia os exemplares do Avante que enchiam a pasta. E que a pasta nem era dele, era do colega de quarto que se chamava Joaquim. Mas nem no nome do colega acertava, pois o rapaz não se chamava Joaquim, como o informou à bofetada, um agente da PIDE.

Lá saiu com a ficha feita, arranjou outro quarto e continuou a estudar, que foi para isso que veio para a capital. Para estudar e para subir na vida.Mas precisava de dinheiro; o que o pai funcionário público mandava não chegava para nada. Por estreitas portas e ínvias travessas consegue uma entrevista recomendada com o dono de uma agência publicitária que só empregava pessoas, de preferência, de esquerda ou saídas da prisão.
- Então você deixa os Avates dentro da pasta debaixo da cama?!
- Pois foi. Um lapso que me saiu muito caro e à minha rede. (Já sabia o que era uma rede.)
Ao fim de dois anos de agência, um grande jornal em formação precisava de um chefe de publicidade. Correu todo o mercado até que se encontrou com o Joaquim. A administração precisava de um profissional com o rótulo de esquerda e o Joaquim vinha mesmo a calhar.

E ainda hoje, passados já vários anos, o Joaquim continua a ser um indivíduo apelidado de esquerda. Do César nunca soube nada de nada.

Wednesday, October 27, 2010

Mariana no seu primeiro dia de Escola. A Mariana é filha da Michele e do João, ambos dedicados às artes, pelo que é de esperar que a Mariana venha a ser uma fiel leitora deste blog. A sua madrinha, a Milu, já deve ter visto este post, antes dos pais - todos os dias percorre os 1738 blogs que seleccionou.

Thursday, October 07, 2010

POSTA RESTANTE....

O chefe dos Correios de Évora mandou retirar algumas caixas de recepção por não serem rentáveis. Estavam muito distantes; perdia-se muito tempo e muito combustível. Claro que ele já tinha olvidado a função social dos Correios. Mas tal não seria muito grave, já que os dirigentes se estão a esquecer de quase todas as funções sociais a que o Estado deve, tem obrigação de atender. Mas eu falo neste assunto só por ele ser paradigmático do comportamento de quem legisla.
O chefe dos Correios, ao exarar tal despacho, NÃO foi visitar os locais onde se encontravam as caixas; se tivesse ido, teria visto que elas se encontravam junto das caixas de distribuição do correio dos utentes – logo, tinha de se ir lá de qualquer modo! E é assim que se dirige o país: mal e à distância.

Thursday, September 30, 2010

SONETO - de José Régio

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.** *
* *
*JOSÉ RÉGIO* Soneto escrito em 1969

Tuesday, September 14, 2010

MAIS UM JORNAL EM PAPEL DESAPARECE

No dia 1 deste mês, acabou no seu formato em papel, o velhinho “Jornal do Brasil”, fundado em 1891, continuando a sua existência na internet como “JB online”.
A administração justifica assim a sua decisão:
“Os custos económicos e ambientais do papel são insustentáveis. Mais que isso, são desnecessários. A cada dia em que um jornal como o “JB” é impresso em papel, 72 árvores deixam de ser cortadas. Uma única edição de domingo corresponde a cerca de 200 árvores que levam anos para crescer e ocupam 40 mil m2 de floresta. Isto equivale a quatro campos e meio de futebol. Em um ano, com a versão digital, são preservadas áreas florestais correspondentes a mais de 1200 Maracanãs.”

É uma boa notícia para os madeireiros clandestinos da Amazónia; ficam com mais madeira para roubar.

Thursday, September 09, 2010

MOÇAMBIQUE, 7 DE SETEMBRO, DIA DA VITÓRIA

Quando da tomada de posse do governo de transição, em 7 de Setembro de 1974, o então presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Samora Moisés Machel, fez um discurso do qual recordo as seguintes passagens:

“(...) Queremos chamar atenção ainda sobre um aspecto fundamental: a necessidade de os dirigentes viverem de acordo com a política da Frelimo, a exigência de no seu comportamento representarem os sacrifícios consentidos pelas massas. O poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme. Por isso queremos que vivam modestamente com o povo, não façam da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. A corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade, e em particular dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região fazem parte do sistema de vida que estamos a destruir. O tribalismo, o regionalismo, o racismo, as alianças sem princípios constituem atentados graves contra a nossa linha e dividem as massas. Porque o poder pertence ao povo, quem o exerce é servidor do povo. Quem desviar assim a nossa linha não encontrara qualquer tolerância da nossa parte. Seremos intransigentes nesta questão, como o fomos durante os duros anos de guerra. Não hesitaremos nunca em expor perante as massas as acções cometidas contra elas. Os desvios da linha suscitam as contradições, as brechas por onde penetra o inimigo, o imperialismo e as forças reaccionárias. Para que se mantenha a austeridade necessária a nossa vida de militante e assim se guarde no sentido do povo e dos seus sacrifícios, todos os militantes da Frelimo que receberam tarefas de governação do Estado tal como no passado deve renunciar às preocupações materiais, nomeadamente aos vencimentos. É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem. Combatemos durante dez anos sem qualquer preocupação de ordem financeira individual, empenhados apenas em consagrar toda a nossa energia ao serviço do povo. Está é a característica do militante, do quadro, dos dirigentes da Frelimo. Como o fizemos sempre, de acordo com as nossas possibilidades, procuramos assegurar ao militante que cumpra uma tarefa, o mínimo de condições materiais indispensáveis ao seu trabalho, ao seu sustento e da sua família. Mas também não nos devemos esquecer que muitas vezes combatemos e vencemos descalços, esfarrapados e com fome. Sublinhamos ainda que, assim como fizemos guerra sem horário de trabalho, sem dias de descanso, nos devemos empenhar com o mesmo espírito na batalha da reconstrução nacional”.

É evidente que este homem tinha de ser abatido.

Thursday, September 02, 2010

NOTICIÁRIOS da RDP

Oiço normalmente os noticiários das 9:00, 10:00, 23:00 e 24:00. São usualmente 3 notícias, mais uns incêndios e agora o “caso Queiroz”. É ao que eu chamo “os serviços mínimos”. São notícias estilo "funcionário público desiludido e sem esperança, a cumprir horário".
Ainda não há muitos anos havia noticiários principais e noticiários intercalares. Os noticiários das 13:00, das 20:00 e das 24:00 eram amplos noticiários, alguns chegando aos 40 minutos de duração. Depois havia os intercalares, resumos dos acontecimentos. Neste momento todos me parecem sempre “resumos dos acontecimentos”.
Julgo ter havido um enorme erro de análise por parte da RDP, aquando o advento da “tv-espectáculo” – que criou raízes e fervorosos adeptos, adoptando uma postura de vencido. Como já passámos da era do digital para a era da imagem, pegou e fez carreira o pensamento de que uma imagem vale milhares de palavras, o que é uma rematada estupidez. Para quem não gosta de escrever e de ler, uma imagem chega-lhe plenamente. Os noticiaristas radiofónicos abdicaram dos seus altos serviços e ficaram complexados. Sem razão. A Rádio é o órgão que mais desenvolve a imaginação. A sonoplastia radiofónica ajuda a desenvolver o intelecto. Quando em Rádio digo que está um tempo maravilhoso e que ao longe vejo o mar, o ouvinte terá que recriar o cenário desenvolvendo-o imaginativamente. Em Televisão não é necessário desenvolver seja o que for: está lá a foto do dia com o mar ao longe. Para quê pensar? A foto documenta a imagem mas, se não for a palavra, como ficaremos a saber de tudo o resto? Os cheiros, o vento, a magia do lugar, o que se espera dele, etc., etc. Nesta nova sociedade “come-depressa-não-te-prendas-aos-problemas” e prefere o prato do dia que é mais rápido, uma imagem resolve tudo. Mas longe vai o tempo de Mattelart manguitando-se para Gutenberg. E a Televisão quase conseguiu matar o velho dos tipos móveis… com alguma ajuda dos povos menos cultos, verdade se diga.

Tuesday, August 31, 2010

Friday, August 27, 2010

A CRISE

Por certo inúmeras pessoas têm soluções para se acabar com a crise em Portugal e eu sou uma delas. Nem foi preciso muita imaginação ou esforço intelectual, bastou pensar em “O Rato Que Ruge”, de Leonard Wibberley. Um livro que se lê e relê logo em seguida, tal é a delícia que proporciona. A pensar nos que não sabem ler ou não gostam, a Colombia TriStar fez um filme que é um assombro (com Peter Sellers, Jean Seberg, etc.) que as pessoas, mesmo alguns políticos, compreendem.
A história é simples: O Grão-Ducado de Fenwick, estando a perder na exportação de vinho, declara guerra ao seu principal concorrente, os Estados Unidos da América do Norte. A Duquesa e o PM encontram, neste plano, a genial solução para os seus problemas, na condição do Grão-Ducado perder. Mas o Grão-Ducado ganhou!
Mas este esquema não é inédito nos dias actuais: o Irão e a Coreia do Norte estão prestes a segui-lo.
Encontrada a solução, há que escolher o país a quem Portugal declara guerra. (Aceitam-se sugestões, mas poucas). A Áustria vem à cabeça pois tem o mais baixo índice de desemprego da União Europeia. É de pensar. O seu poder bélico é tão mau como o nosso, se bem que já tenhamos um submarino, ou seja, o submarino, e cerca de 200 tanques com defeito feitos pela Steyer. Enfim… até gostamos um pouco deles por nos terem dado Schubert, Richard Strauss, Johan Strauss e o festival de Salzburgo.
Outra hipótese é declarar guerra, ajustando contas antigas, à Inglaterra. Eles ficavam encantados por possuírem todo o vinho do Porto (agora só têm 95%) e, já que em devido tempo não lhes demos Moçambique, como o desejavam desesperadamente e com gana (como pão para a boca), agora vingávamo-nos e oferecíamos-lhes o Arquipélago da Madeira (com o sr. A. João Jardim incluído, não negociável).
Mas o melhor mesmo é seguir o guião do Gão-Ducado: declarar guerra aos EE.UU. E, quando o Pentágono mandasse os aviões, imediatamente nos rendíamos ficando como prisioneiros de guerra, situação que os obrigava, pela Convenção de Genebra, a dar-nos comida, tratamentos médicos, roupas e, evidentemente, pocket money. Como prisioneiros as dívidas podiam assobiar-nos às botas. As criancinhas que já estão a estudar o idioma na Instrução Primária ficavam todas contentes, passando o Português, com uma gramática horrível, para segunda língua e o abaixamento de custo das pastilhas elásticas proporcionaria muita alegria aos treinadores de futebol. Os Portugueses, neste momento só unidos pelo Braga, passavam a unir-se também pela libertação do ocupante, coisa que bem tratada, com calma e inteligência, poderia demorar 200 anos. Um regabofe durante duzentos anos – melhor que quando o ouro e a prata vinham à fartazana de Minas Gerais.
Eu sei que estão a perguntar “por que não à Espanha?”. Pela simples razão de que esta Monarquia não nos ligaria nenhuma. Olhava para o lado e assobiava, como os Romanos quando vêem o Obelix e o Asterix. Só fizeram o erro uma vez e logo outro acrescentaram (que nem parece deles), de não deslocar a capital da Península Ibérica para Lisboa, pelos menos durante uns 100 anos.
Bem. Este fimdesemana não contem comigo pois vou ao Alfeite ver o submarino.
(Abaixo o hífen! Abaixo!!!!)

Monday, August 23, 2010

O COISO ORTOGRÁFICO

Chamo-lhe assim pois não é um acordo. Acordo é quando concordamos em caminhar no mesmo sentido. No Brasil mais de metade da população desconhece o Coiso Ortográfico e, os que conhecem, não lhe ligam nenhuma. Aqui não sei. O que sei é que Portugal, ciclicamente, mete o pé na argola. Já cá tardava. Depois do embaixador Vasco Garin afirmar, nas Nações Unidas, que Portugal não concordava com o desarmamento mundial pois ninguém poderia afirmar que os ET’s não andavam por aí e, se ficássemos desarmados, só nos poderíamos defender com fisgas e facas de cozinha. O Mundo riu.
Esperava que a Ota fosse mais uma argolada da regência política portuguesa. Mas arrepiou-se caminho, provocando a barafunda (sururu para o Coiso Ortográfico – (CO)) que todos conhecemos.
Mas falta-nos falar da fiscalização (de que Portugal não gosta nada – veja-se o caso do Banco de Portugal e do seu desgovernador) e das coimas (tão queridas aos legisladores portugueses).
Para a fiscalização, deverá constituir-se um gabinete, de sete membros, em cujas primeiras reuniões elegerá o respectivo presidente. Depois encarregar-se-á dos Estatutos, da CP (campanha de publicidade, que esperará paciente a dotação da verba), e a selecção dos fiscais, que deve recair não nos professores de Português, mas sim nos revisores das editoras (cuidado com as meninas licenciadas em Letras).
Depois, o gabinete fará uma hierarquia de faltas ao CO. Atendendo a que o “Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências, levou 18 anos a ser concebido, a tabela das faltas deverá demorar uma década e, entretanto, cada um vai escrevendo como lhe apetece, sabe ou dá mais jeito. Eu já estou a escrever fimdesemana sem hífenes, que são, como todos sabem, um atraso de vida e fakto com kapa para indispor os brasileiros (minha ex-mulher é brasileira).
As coimas poderão ser de duas espécies: primeira – obrigar o faltoso a escrever 100 vezes a palavra segundo o CO, numa escola de Instrução Primária da área do malandro, aos sábados e a horas marcadas pela direcção escolar. Todas as crianças da escola assistem, de pé, cantando o Hino Nacional. Alguns residentes brasileiros serão convidados para cantar, em seguida, o Hino Nacional brasileiro. Se o prevaricador for director de um Órgão de Comunicação Social, oferecerá, no final, um churrasco a toda a galera (ver Aurélio ou Houaiss); segunda – o malandrim é obrigado a saber de cor, no prazo de 30 dias, todas as alíneas do Coiso Ortográfico e as biografias de Vasco Pulido Valente e de João Ubaldo Ribeiro. Ficará sem registo da falta na Polícia e no SEF, se recitar ainda um poema de Luiz Pacheco, no programa da RTP-2 “Câmara Clara”.

Thursday, August 19, 2010

ESCOLAS...

É profunda convicção nossa, já de muitos anos estabelecida, que urge seguir rumo diverso do que se tem seguido na organização dos livros de leitura para as escolas primárias.
Tem a escola obrigação de desenvolver a criança física, moral e intelectualmente.
A leitura é um grande elemento para o desenvolvimento intelectual, quando deste exercício se tira o conveniente e necessário partido. Para isso se conseguir, precisa-se de que o pequeno leitor compreenda. A fim de compreender é indispensável:
1.º que a linguagem seja actual, simples, clara e precisa; 2.º que o assunto seja comezinho, familiar, compreensível para as crianças; 3.º que os períodos sejam curtos, as orações bem-dispostas, os termos sejam os mais simples e usuais.
(…)

In “Selecta das Escolas” – Livro de leitura para as aulas de Instrução Primária - 1886

Monday, August 16, 2010

APESAR DAS GUERRAS

Ao contrário da minha filha Alexandra, para quem a época ideal para viver seria aquela em que Dartagnan ou Lagardère a convidaria para dançar no baile da rainha, gosto de ter nascido no século XX. Apesar das guerras.
Ao que eu tenho assistido! Quase não dá para contar. Uma vez, estava eu a estudar, com o Rádio Club Português em fundo, eram quase onze da noite, quando oiço o professor de Aerodinâmica no IST, doutor Varela Cid, dizer que o Sputnic era uma invenção propagandística dos russos e que era impossível lançar no espaço um satélite artificial. Logo em seguida, falou Henrique Galvão, pela Aeronáutica Civil, dizendo que, para pôr um satélite em órbita, bastava ter tecnologia e cérebros. Dá as onze e o RCP anuncia que o Observatório Nacional acabava de assinalar a passagem do Sputnic e que o seu bip-bip se poderia ouvir na frequência tal e tal, a dos crédulos. O professor, se tivesse esperado cinco minutos, não teria caído no ridículo. Isto apesar das guerras.
Depois, a rainha do nosso mais antigo desaliado, resolve vir ver os seus súbditos mais escurinhos devido ao sol. E passámos todos a ver televisão a cores. Os ditos televisores a cores depressa se esgotaram nos importadores, já que se sabia de fonte segura que a rainha só gostava de se mostrar policromaticamente. Ao que eu assisti… apesar das guerras.
Rapazinho de dezassete anos, adorava a rádio e fiz uma galena, coisa que hoje ninguém sabe o que é. Depois assisti a uma das maiores conquistas científicas da história: o transístor. (Que muito veio acudir e ajudar nas guerras, incluindo a das estrelas.) Na altura andava eu às voltas com a 117L7, uma válvula de funções múltiplas, para construir o meu emissor-receptor, indispensável ao radioamadorismo.
De repente, estava eu muito sossegado a ler, casado e pai de filhas, veio a minha mulher a correr, a chamar-me, excitada, que estava um homem na Lua. E fiquei toda a noite a ver o homem na Lua. Apesar das guerras, ou por causa delas.
O transístor, voltamos a ele, foi um sarilho: permitiu realizar o sonho de todos os autores de FC, desde Azimov a Ray Bradbury, passando pelos Clarks e companhia: a miniaturização. Diminuíram de tamanho os rádio-receptores e os aparelhos de televisão. Entretanto já tinha comprado um kit americano com as peças todas e construí o primeiro amplificador estéreo que entrou lá em casa. Entrou digno pelo seu pé e por lá ficou, após trinta noites a montá-lo. Era um encanto. Ficávamos a ouvir estereofonia e a babarmo-nos de prazer. Olha este canal… olha agora este… O jazz era mais jazz mas, para Beethoven, estéreo ou monoral era-lhe indiferente. Feitios. E quanto aos discos, fomos passando do 78 r.p.m., em massa, para o de 45, depois o de 33 e um terço em vinil, e agora o compacto. Comum a todos eles, o buraco no meio.
Ao que eu assisti, leitor! Estava eu muito distraído a fazer a tropa e o Fleming a exportar Penicilina para todo o mundo… para bem da guerra. E por causa da guerra também veio o DDT, o insecticida em pó que se dava aos soldados por causa dos bichinhos. Testado antes pelos soldados americanos. Na guerra. E também por causa dela, o sonar e o radar.
Tinha lido num periódico acerca do concurso da BBC para um minicomputador. Um concorrente importante mas que não ganhou, chamava-se Clovis Sinclair, um génio a quem mais tarde, por culpa da rainha, se chamou depreciativamente Lord. Ora o Clovis, com um menino tão bonito nas mãos, apesar de recusado pela BBC, resolveu fabricá-lo às toneladas e vendê-lo em todo o mundo. Foi assim que eu recebi o meu primeiro ZX Spectrum, um miniprocessador que, acoplado a um gravador de fita magnetofónica, fazia maravilhas. Depois veio o QL, depois o Philips, depois o… e o… e o… e o Hyundai agora a olhar para mim e eu desgostoso de ver este maldito aparelho ter mais memória que eu.
Uma noite deu-me na cabeça e fui fazer o meu 25 de Abril. Por dentro dele. Inolvidável madrugada em que os redactores, chamados a meio ou no começo do sono, não se apresentaram contrariados ou reclamantes. Vieram a rir e a abraçarem-se uns aos outros. Alguns vertiam lágrimas felizes. Alguns trouxeram mais cinco. E isto por causa das guerras. Não posso esquecer ter andado quarenta dias na clandestinidade, a dormir no chão, tendo por almofada uma resma de papel para duplicador. Depois do 25 de Abril.
Mas o que realmente tem sempre estragado tudo, estimado leitor, é esse estúpido flagelo humano: a guerra, ou seja, o homem.

Álvaro Belo Marques

(in TempoLivre, revista do Inatel)

Monday, August 02, 2010

Razões técnicas obrigaram-me a tão grande ausência.

Tuesday, May 11, 2010

ATENÇÃO ANA SANTOS

O meu e-mail é
belomarques.2005@gmail.com
por onde me pode contactar.