O Clube da Histórias, no seu meritório trabalho no projecto "Abrir as portas ao sonho e à reflexão" publicou agora este belo texto que transcrevo com a devida autorização mas, mais que isso, o meu respeito pelo que este "Clube" está a fazer no campo da cultura. Falei em "cultura"? Oh, demónio, espero não ser preso!
Para visitarem este site ou ficar assinalados como bons recebedores, basta estrever "Clube de Histórias".
— Quantas pessoas no mundo estão actualmente ameaçadas de morrer de fome?
— A FAO (Food and Agricultural Organization),Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas, avalia, no seu último relatório, em mais de 30 milhões o número de pessoas que morreram de fome em 1999 e, para o mesmo período, em mais de 828 milhões de seres torturados pela desnutrição grave e permanente. São homens, mulheres e crianças que, devido à falta de alimentos, padecem de lesões frequentemente irreversíveis. Ou morrem num prazo mais ou menos breve, ou vegetam num estado de deficiência grave – cegueira, raquitismo, desenvolvimento precário da capacidade cerebral, etc.
Tomemos o exemplo da cegueira: em cada ano, sete milhões de pessoas, normalmente crianças, perdem a vista, na maioria das vezes por falta de uma alimentação suficiente ou como consequência de enfermidades vinculadas ao subdesenvolvimento. Cento e quarenta e seis milhões de cegos vivem nos países da África, da Ásia e da América Latina. Em 1999, Gore Brundtland, directora da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar o seu plano “Visão 2020” em Genebra, disse: Oitenta por cento dos afectados na vista seriam perfeitamente evitáveis. Sobretudo por meio de uma dose regular de vitamina A para as crianças pequenas. Em 1990, havia 822 milhões de pessoas severamente afectadas pelo flagelo da fome. Podemos ler de duas maneiras estas estatísticas. Primeira leitura: as vítimas da subalimentação aumentam s em cessar no mundo, especialmente nos países do Sul; mas se comparamos os mártires do flagelo da fome com a progressão demográfica da população mundial, constatamos um ligeiro retrocesso. Em 1990, 20% da humanidade sofria de subalimentação extrema; oito anos depois, “só” 19%.
— Onde vivem as pessoas mais gravemente subalimentadas?
— No sul e leste da Ásia, 18% dos homens, mulheres e crianças, padecem de uma severa desnutrição. Na África, o seu número alcança 35% da população continental. Na América Latina e no Caribe, 14%. As três quartas partes dos “gravemente subalimentados” do planeta são gente do campo; a outra quarta parte são habitantes das periferias que se amontoam em torno das metrópoles do Terceiro Mundo.
— A nossa Terra poderia alimentar convenientemente em cada dia todos os seus habitantes?
— Não só isso, mas poderia alimentar pelo menos o dobro da população mundial actual. Hoje em dia somos quase seis biliões de seres humanos na Terra. Há mais de quinze anos, a FAO elaborou um relatório no qual assinalava que o mundo, no estado actual das forças de produção agrícola, poderia alimentar sem problema mais de doze biliões de seres humanos. Alimentar quer dizer fornecer a cada homem, mulher e criança uma ração equivalente a 2.400 ou 2.700 calorias diárias, uma vez que as necessidades alimentares variam segundo os indivíduos, em função do trabalho que realizam e das zonas climáticas onde vivem.
— O flagelo da fome não é então uma fatalidade?
— De modo algum. Se a distribuição de alimentos na Terra fosse justa, haveria comida suficiente para todo o mundo.
— Por que razão nunca ninguém nos fala na escola da fome no mundo e das pessoas que a provocam e daquelas que a combatem?
— Para mim, isso também é um mistério. Muitos professores de institutos e de escolas são pessoas abertas, generosas e estão profundamente solidarizadas com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Muitos deles alertam os seus alunos quando se declara uma fome grave e promovem-se colectas públicas. No entanto, não sei de nenhuma escola onde o tema da fome, que mata todos os dias mais gente do que todas as guerras do planeta juntas, figure no seu programa. Não existe nenhum tipo de ensino onde se analise, se discuta o problema da fome, se examinem as suas raízes e os meios de lhe dar um fim.
Mas os técnicos internacionais dizem as coisas bem claras. Ouça, por exemplo, esta frase que é a conclusão de um relatório da FAO de 1998: Recent trends give no room for complacency as progress in some regions has been more than offset by a deterioration in others[1]. Isto quer dizer que as batalhas ganhas numa frente são imediatamente anuladas pelas derrotas sofridas noutra. Os bons sentimentos não bastam, são um luxo para os filhos dos ricos. A calamidade da fome manifesta-se de mil maneiras. O seu aparecimento e os seus efeitos exigem análises precisas e pormenorizadas. Mas a escola não diz nada, não cumpre a sua função. Os adolescentes frequentemente saem dela cheios de bo ns sentimentos e de uma vaga convicção de solidariedade, mas nunca com um verdadeiro conhecimento, uma clara consciência das origens e dos estragos da fome.
— Como se a fome fosse um tabu?
— Exactamente. Um tabu que dura há muito tempo. Já em 1952 o brasileiro Josué de Castro dedicava todo um capítulo do seu célebre livro Geopolítica da fome a esse “tabu da fome”. A sua explicação é interessante: as pessoas sentem-se tão envergonhadas por saber que uma grande parte dos seus semelhantes morre por falta de alimento que ocultam o escândalo com um espesso silêncio. Esta vergonha é compartilhada pela escola, pelos governos e pela maioria de nós.
O nível de alimentação está em relação directa com o nível de bem-estar e com o nível de saúde das pessoas. Por um lado, onde não se come o suficiente, encontramos pobreza, miséria, desnutrição, doença, fome e morte. Por outro, no extremo oposto, onde há meios de subsistência e alimentos, encontramos esperança desde o nascimento, saúde e vida.
Já no ventre da mãe, o bebé sofre as consequências desta desigualdade, inclusivamente na constituição de seu intelecto. A desnutrição da mãe durante a gestação — quando o bebé deve desenvolver o conjunto de células que o constituirão como um ser dotado de todas as suas faculdades — diminui as possibilidades de que a criança nasça, pois a placenta — alimento, água, oxigénio e anticorpos do bebé instalado no útero — não escapa aos danos causados pelas carências de alimentação. A mãe deve nutrir-se convenientemente desde a formação do embrião. A constituição física e intelectual da criança, a sua capacidade de desenvolvimento e a sua força para o trabalho também dependem da alimentação que vai receber desde o momento do seu nascimento. A criança chega ao mundo num ambiente condicionado: ou com muitos privilégios ou com muitas privações. Nos primeiros anos da história da humanidade, o mundo era aquele em que o macho mais forte se apropriava da comida da qual necessitavam a mulher e a criança. Hoje, a história não mudou em absoluto, porque os poderosos continuam a apropriar-se da comida.
— Por quê esses esqueletos da fome? Por quê esse martírio quotidiano, interminável, para tantas centenas de milhões de seres humanos?
— A causa principal das hecatombes por subalimentação e por fome aguda é a desigual distribuição das riquezas do nosso planeta. Esta desigualdade é negativamente dinâmica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em 1960, 20% dos habitantes mais ricos do mundo desfrutavam de uma renda 31 vezes superior à dos 20% mais pobres. Em 1998, o rendimento dos 20% mais ricos é 83 vezes superior à dos 20% mais pobres. A concentração do rendimento e das riquezas nas mãos de uns poucos progride a grande velocidade.
O conceito de desigualdade soa-nos irreal e o seu significado é insuficiente. O termo aparece num mundo que já não se assusta com as estatísticas. As cifras acima referidas escondem uma realidade de sofrimento e de desespero. A desigualdade negativamente dinâmica que rege a ordem actual do mundo produz a seguinte situação: por um lado, um poder político, económico, ideológico, científico e militar sem limites identificáveis, exercido por uma escassa oligarquia transnacional; por outro, a falta de vida, o desespero e o flagelo da fome vividos por centenas de milhões de seres anónimos. A oligarquia decide o destino da multidão. A massa de vítimas anónimas padece, impotente, a sua própria agonia. Só a brutal imbecilidade de um regime de classes sociais existentes antes do seu nascimento, de ideologias discriminatórias , de privilégios defendidos pela violência explica a desigualdade entre os seres humanos.
A política deve velar para que todos possam saciar a fome. Seria horrível tomarmos como natural o facto de todos os anos morrerem dezenas de milhões de pessoas por causa da subalimentação crónica e da fome aguda. A fatalidade não preside à ordem mortal do mundo. Basta lembrar que, no actual estado das forças produtivas agrícolas, seria possível alimentar sem problemas doze mil milhões de pessoas. Alimentar significa proporcionar a cada indivíduo 2.600 calorias por dia. A população actual do mundo chega a menos de seis mil milhões de pessoas.
Conclusão: estamos diante de uma falta contingente e não de uma falta objectiva de alimentos. Por outras palavras, o problema da grave fome no mundo é um problema social. As centenas de milhões de pessoas que morrem todos os anos de subalimentação aguda morrem por causa da injusta distribuição de alimentos disponíveis no planeta. A Acção contra a Fome, organização não-governamental (ONG), de um compromisso exemplar, constata que “um grande número de pobres no mundo carece do alimento necessário, na medida em que a produção alimentar se ajusta à demanda solvente” Quem tem dinheiro, come. Quem não tem, morre lentamente de fome. Trata-se portanto de civilizar o actual jugo do capitalismo selvagem. A economia mundial é fruto da produção, distribuição, intercâmbio e consumo de alimentos. Afirmar a autonomia da ec onomia em relação à fome é absurdo ou, pior ainda, é um crime. Não se pode abandonar a luta contra essa catástrofe ao livre jogo do mercado. Todos os mecanismos da economia mundial devem submeter-se a este imperativo primordial: vencer a fome, alimentar convenientemente todos os habitantes do planeta. Para impor este imperativo é preciso criar uma estrutura jurídica internacional, apoiada em tratados e normas. Jean-Jacques Rousseau escreveu: “Entre o fraco e o forte, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. A liberdade total do mercado é um sinónimo de opressão; a lei é a primeira garantia da justiça social.
O mercado mundial necessita de normas e de uma restrição imposta pela vontade colectiva dos povos. A luta contra a maximização do lucro como única motivação dos protagonistas que dominam o mercado e a luta contra a aceitação passiva da miséria são imperativos urgentes. É preciso fechar a Bolsa das matérias-primas agrícolas de Chicago, combater a deterioração constante das relações de intercâmbio e acabar com a estúpida ideologia neo-liberal que deslumbra a maioria dos governos dos países ocidentais. O ser humano é o único vertebrado que pode sentir na sua consciência o sofrimento do outro. Será que a constituição de uma consciência da identidade, da solidariedade radical com aquele que sofre se infere de um projecto utópico? Não. No decurso da história já ocorreram alguns saltos qualitativos análogos. Por exemplo, o nascimento do Estado. Numa época remota, os humanos fizeram uma escolha fundamental: até então, a solidariedade, a identificação com o outro limitavam-se à família, ao clã, em consequência, àqueles cujo rosto era conhecido e cuja presença física era sensível.
Com o nascimento da nação e do Estado, o ser humano fez-se pela primeira vez solidário com aqueles que não conhecia e com os que provavelmente nunca encontraria. Acabava de nascer um sentimento de identidade nacional, algumas instituições de solidariedade, uma consciência supra-familiar, uma lei comum. A única identidade humana válida é a que nasce do encontro real ou imaginário com os outros, do acto de solidariedade. Não pode haver um mundo dentro do mundo, uma inserção de bem-estar num mundo de dor. É inaceitável uma economia mundial que relega para o não-ser a sexta parte da humanidade. Se o flagelo da fome não desaparecer rapidamente do nosso planeta, não haverá humanidade possível. Portanto, é preciso reintegrar na humanidade essa “fracção sofredora”, que hoje está excluída e perece na noite.
Jean Ziegler
A Fome no Mundo Explicada a Meu Filho
Petrópolis, Editora Vozes, 2002
(Excertos adaptados)
Wednesday, June 01, 2011
Sunday, May 15, 2011
TERRAS DO SEM FIM
"Era uma vez três irmãs: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas correrias, unidas nas gargalhadas Lúcia, a das negras tranças; Violeta, a dos olhos mortos; Maria, a mais moça das três. Era uma vez três irmãs, unidas no seu destino.
Cortaram as tranças de Lúcia, cresceram seus seios redondos, suas coxas como colunas, morenas, cor de canela. Veio o patrão e a levou. Leito de cedro e penas, travesseiro, cobertores. Era uma vez três irmãs.
Violeta abriu os olhos. seus seios eram pontudos, grandes nádegas em flor, ondas no caminhar. Veio o feitor e a levou. Cama de ferro e de crina, lençois e a Virgem Maria. Era uma vez três irmãs.
Maria, a mais moça das três, de seios bem pequeninos, de ventre liso e macio. Veio o patrão, não a quis. Veio o feitor, não a levou. Por último veio Pedro, trabalhador da fazenda. Cama de couro de vaca, sem lençol, sem cobertor, nem de cedro, nem de penas. Maria com seu amor.
Era uma vez três irmás: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas gargalhadas, unidas nas correrias. Lúcia com seu patrão, Violeta com seu feitor e Maria com seu amor. Era uma vez três irmãs. diversas no seu destino.
Cresceram as tranças de Lúcia, caíram seus seios redondos, suas coxas como colunas, marcadas de roxas marcas. Num auto pela estrada cadê o patrão que se foi? Levou a cama de cedro, travesseiros, cobertores. Era uma vez três irmãs.
Fechou os olhos Violeta com medo de olhar em torno; seus seios bambos de pele, um filho pra amamentar. No seu cavalo alazão, o feitor partiu um dia. nunca mais há-de voltar. Cama de ferro se foi. Era uma vez três irmãs.
Maria, a mais moça das três, foi com seu homem pró campo, prás plantações de cacau. Voltou do campo, era a mais velha das três. Pedro partiu urn dia, não era patrão nem feitor. partiu num pobre caixão, deixou a cama de couro e Maria sem seu amor. Era uma vez três irmãs.
Cadê as tranças de Lucia, os seios de Violeca, cadê o amor de Maria?
Era uma vez três irmãs numa casa de putas pobres. Unidas no sofrimento, unidas no desespero, Maria, Lúcia, Violeta, unidas no seu destino."
in Terras do Sem Fim, Jorge Amado
(Edição Livros do Brasil).
Cortaram as tranças de Lúcia, cresceram seus seios redondos, suas coxas como colunas, morenas, cor de canela. Veio o patrão e a levou. Leito de cedro e penas, travesseiro, cobertores. Era uma vez três irmãs.
Violeta abriu os olhos. seus seios eram pontudos, grandes nádegas em flor, ondas no caminhar. Veio o feitor e a levou. Cama de ferro e de crina, lençois e a Virgem Maria. Era uma vez três irmãs.
Maria, a mais moça das três, de seios bem pequeninos, de ventre liso e macio. Veio o patrão, não a quis. Veio o feitor, não a levou. Por último veio Pedro, trabalhador da fazenda. Cama de couro de vaca, sem lençol, sem cobertor, nem de cedro, nem de penas. Maria com seu amor.
Era uma vez três irmás: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas gargalhadas, unidas nas correrias. Lúcia com seu patrão, Violeta com seu feitor e Maria com seu amor. Era uma vez três irmãs. diversas no seu destino.
Cresceram as tranças de Lúcia, caíram seus seios redondos, suas coxas como colunas, marcadas de roxas marcas. Num auto pela estrada cadê o patrão que se foi? Levou a cama de cedro, travesseiros, cobertores. Era uma vez três irmãs.
Fechou os olhos Violeta com medo de olhar em torno; seus seios bambos de pele, um filho pra amamentar. No seu cavalo alazão, o feitor partiu um dia. nunca mais há-de voltar. Cama de ferro se foi. Era uma vez três irmãs.
Maria, a mais moça das três, foi com seu homem pró campo, prás plantações de cacau. Voltou do campo, era a mais velha das três. Pedro partiu urn dia, não era patrão nem feitor. partiu num pobre caixão, deixou a cama de couro e Maria sem seu amor. Era uma vez três irmãs.
Cadê as tranças de Lucia, os seios de Violeca, cadê o amor de Maria?
Era uma vez três irmãs numa casa de putas pobres. Unidas no sofrimento, unidas no desespero, Maria, Lúcia, Violeta, unidas no seu destino."
in Terras do Sem Fim, Jorge Amado
(Edição Livros do Brasil).
Sunday, April 17, 2011
VIDA DE CÃO
Quando cheguei à Cooperativa, estava a cadelinha encostada a uma das paredes, a apanhar o belo sol desta Primavera prematura. Estava a cumprimentá-la quando entrou um grupo de cinco crianças, rapazes e raparigas, dos oito aos dez, cheio de ânimo e alegria para matar o tempo neste período de férias. Uma delas perguntou: “- Já viram os bebés dela?”, e foram todas para um monte de tábuas languidamente a repousar junto ao muro.
Entrei, fiz as compras e, quando saí, estava a criançada sentada nas tábuas com os cachorros ao colo, fazendo-lhes festas, sob a vigilância bem-disposta da cadelinha. Estavam todos felizes, portanto.
Quando voltei à Cooperativa no dia seguinte, pois tinha-me esquecido dos alhos para a sopa Juliana, vi a cadela encostada no mesmo sítio da parede, mas a chorar. A chorar mesmo: com lágrimas nos olhos. Entrei e soube, pela empregada, que tinham feito a barbaridade de lhe tirar os cães todos ao mesmo tempo. As duas senhoras da Coop estavam indignadas. As duas eram mães e compreendiam melhor.
Quando saí, fiz festas à bicha e lembrei-me do estafado pensamento de Pitigrilli (“Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães”) mas, na verdade, gosto cada vez menos dos homens, principalmente dos governantes, não só de Portugal mas de todo o mundo.
A.B.M.
Entrei, fiz as compras e, quando saí, estava a criançada sentada nas tábuas com os cachorros ao colo, fazendo-lhes festas, sob a vigilância bem-disposta da cadelinha. Estavam todos felizes, portanto.
Quando voltei à Cooperativa no dia seguinte, pois tinha-me esquecido dos alhos para a sopa Juliana, vi a cadela encostada no mesmo sítio da parede, mas a chorar. A chorar mesmo: com lágrimas nos olhos. Entrei e soube, pela empregada, que tinham feito a barbaridade de lhe tirar os cães todos ao mesmo tempo. As duas senhoras da Coop estavam indignadas. As duas eram mães e compreendiam melhor.
Quando saí, fiz festas à bicha e lembrei-me do estafado pensamento de Pitigrilli (“Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães”) mas, na verdade, gosto cada vez menos dos homens, principalmente dos governantes, não só de Portugal mas de todo o mundo.
A.B.M.
Wednesday, April 13, 2011
UM NOBRE PLEBEU
Estou envergonhado com a minha credulidade. Fiquei este tempo todo sem escrever e foi, na verdade, por vergonha. Vergonha de ter acreditado na pessoa e nas suas intenções. Afinal o apelido não corresponde ao comportamento da pessoa. Como pude ser tão ingénuo!
Companheiros e amigos: espero que me perdoem e também espero que me sirva de exemplo.
Companheiros e amigos: espero que me perdoem e também espero que me sirva de exemplo.
Friday, January 07, 2011
Thursday, December 30, 2010
ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
Pela primeita vez na história deste país, os portugueses têm a oportunidade de escolher e votar num candidato:
- Honesto
- Trabalhador
- Solidário
- Respeitado em todo o mundo
- Com cultura humanista
- Sem telhados de vidro
- Sem compromissos partidários.
Claro que me refiro ao sr. dr. Nobre.
Será que os portugueses têm capacidade para compreender isto?
- Honesto
- Trabalhador
- Solidário
- Respeitado em todo o mundo
- Com cultura humanista
- Sem telhados de vidro
- Sem compromissos partidários.
Claro que me refiro ao sr. dr. Nobre.
Será que os portugueses têm capacidade para compreender isto?
Tuesday, November 30, 2010
SOBRE A VÍRGULA
Muito bonita a campanha dos 100 anos da ABI
(Associação Brasileira de Imprensa).
Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere..
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da
sua informação.
Detalhes Adicionais:
COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE
QUATRO À SUA PROCURA.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.
(Associação Brasileira de Imprensa).
Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere..
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da
sua informação.
Detalhes Adicionais:
COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE
QUATRO À SUA PROCURA.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.
Monday, November 22, 2010
UM RAPAZ DE ESQUERDA
O Joaquim veio do Norte para estudar na universidade em Lisboa. Como era um burguês de poucos recursos, conseguiu ficar num quarto com um conhecido, o César, moço calado e, a maior parte do tempo, ausente. Raramente se viam. O César passava às vezes semanas sem aparecer. Dizia que estudava pelos cafés, mas o Joaquim nunca se encontrou com ele.
Um dia, o César disse ao Joaquim, numa manhã fria de Inverno:
- Olha, tenho de me ausentar por dois, o máximo três dias. Se eu não aparecer nesse prazo de tempo, pegas nesta pasta e deita-a fora. No lixo ou no mar.
E saiu sem mais explicações nem qualquer despedida especial. Viviam há três meses naquele quarto e pouco sabiam um do outro; eram dois autênticos estranhos. O César delicadamente impunha este regime de pouca aproximação. Era esse o seu feitio, pensava o Joaquim.
Precisamente no dia seguinte, ou melhor, na madrugada seguinte, o quarto foi invadido por três agentes da PIDE que revolveram tudo, as malas, os papéis, a roupa e, obviamente, levaram o Joaquim preso. Ele chorava e afirmava que a pasta não era dele mas, a cada nova bofetada, afirmava-o com menos ênfase.
Ficou uns oito dias a chorar e a levar bofetadas até que os esbirros acreditaram que ele nada sabia, que era um ignorante total, e que nem conhecia os exemplares do Avante que enchiam a pasta. E que a pasta nem era dele, era do colega de quarto que se chamava Joaquim. Mas nem no nome do colega acertava, pois o rapaz não se chamava Joaquim, como o informou à bofetada, um agente da PIDE.
Lá saiu com a ficha feita, arranjou outro quarto e continuou a estudar, que foi para isso que veio para a capital. Para estudar e para subir na vida.Mas precisava de dinheiro; o que o pai funcionário público mandava não chegava para nada. Por estreitas portas e ínvias travessas consegue uma entrevista recomendada com o dono de uma agência publicitária que só empregava pessoas, de preferência, de esquerda ou saídas da prisão.
- Então você deixa os Avates dentro da pasta debaixo da cama?!
- Pois foi. Um lapso que me saiu muito caro e à minha rede. (Já sabia o que era uma rede.)
Ao fim de dois anos de agência, um grande jornal em formação precisava de um chefe de publicidade. Correu todo o mercado até que se encontrou com o Joaquim. A administração precisava de um profissional com o rótulo de esquerda e o Joaquim vinha mesmo a calhar.
E ainda hoje, passados já vários anos, o Joaquim continua a ser um indivíduo apelidado de esquerda. Do César nunca soube nada de nada.
Um dia, o César disse ao Joaquim, numa manhã fria de Inverno:
- Olha, tenho de me ausentar por dois, o máximo três dias. Se eu não aparecer nesse prazo de tempo, pegas nesta pasta e deita-a fora. No lixo ou no mar.
E saiu sem mais explicações nem qualquer despedida especial. Viviam há três meses naquele quarto e pouco sabiam um do outro; eram dois autênticos estranhos. O César delicadamente impunha este regime de pouca aproximação. Era esse o seu feitio, pensava o Joaquim.
Precisamente no dia seguinte, ou melhor, na madrugada seguinte, o quarto foi invadido por três agentes da PIDE que revolveram tudo, as malas, os papéis, a roupa e, obviamente, levaram o Joaquim preso. Ele chorava e afirmava que a pasta não era dele mas, a cada nova bofetada, afirmava-o com menos ênfase.
Ficou uns oito dias a chorar e a levar bofetadas até que os esbirros acreditaram que ele nada sabia, que era um ignorante total, e que nem conhecia os exemplares do Avante que enchiam a pasta. E que a pasta nem era dele, era do colega de quarto que se chamava Joaquim. Mas nem no nome do colega acertava, pois o rapaz não se chamava Joaquim, como o informou à bofetada, um agente da PIDE.
Lá saiu com a ficha feita, arranjou outro quarto e continuou a estudar, que foi para isso que veio para a capital. Para estudar e para subir na vida.Mas precisava de dinheiro; o que o pai funcionário público mandava não chegava para nada. Por estreitas portas e ínvias travessas consegue uma entrevista recomendada com o dono de uma agência publicitária que só empregava pessoas, de preferência, de esquerda ou saídas da prisão.
- Então você deixa os Avates dentro da pasta debaixo da cama?!
- Pois foi. Um lapso que me saiu muito caro e à minha rede. (Já sabia o que era uma rede.)
Ao fim de dois anos de agência, um grande jornal em formação precisava de um chefe de publicidade. Correu todo o mercado até que se encontrou com o Joaquim. A administração precisava de um profissional com o rótulo de esquerda e o Joaquim vinha mesmo a calhar.
E ainda hoje, passados já vários anos, o Joaquim continua a ser um indivíduo apelidado de esquerda. Do César nunca soube nada de nada.
Wednesday, October 27, 2010
Thursday, October 07, 2010
POSTA RESTANTE....
O chefe dos Correios de Évora mandou retirar algumas caixas de recepção por não serem rentáveis. Estavam muito distantes; perdia-se muito tempo e muito combustível. Claro que ele já tinha olvidado a função social dos Correios. Mas tal não seria muito grave, já que os dirigentes se estão a esquecer de quase todas as funções sociais a que o Estado deve, tem obrigação de atender. Mas eu falo neste assunto só por ele ser paradigmático do comportamento de quem legisla.
O chefe dos Correios, ao exarar tal despacho, NÃO foi visitar os locais onde se encontravam as caixas; se tivesse ido, teria visto que elas se encontravam junto das caixas de distribuição do correio dos utentes – logo, tinha de se ir lá de qualquer modo! E é assim que se dirige o país: mal e à distância.
O chefe dos Correios, ao exarar tal despacho, NÃO foi visitar os locais onde se encontravam as caixas; se tivesse ido, teria visto que elas se encontravam junto das caixas de distribuição do correio dos utentes – logo, tinha de se ir lá de qualquer modo! E é assim que se dirige o país: mal e à distância.
Thursday, September 30, 2010
SONETO - de José Régio
Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.** *
* *
*JOSÉ RÉGIO* Soneto escrito em 1969
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.** *
* *
*JOSÉ RÉGIO* Soneto escrito em 1969
Tuesday, September 14, 2010
MAIS UM JORNAL EM PAPEL DESAPARECE
No dia 1 deste mês, acabou no seu formato em papel, o velhinho “Jornal do Brasil”, fundado em 1891, continuando a sua existência na internet como “JB online”.
A administração justifica assim a sua decisão:
“Os custos económicos e ambientais do papel são insustentáveis. Mais que isso, são desnecessários. A cada dia em que um jornal como o “JB” é impresso em papel, 72 árvores deixam de ser cortadas. Uma única edição de domingo corresponde a cerca de 200 árvores que levam anos para crescer e ocupam 40 mil m2 de floresta. Isto equivale a quatro campos e meio de futebol. Em um ano, com a versão digital, são preservadas áreas florestais correspondentes a mais de 1200 Maracanãs.”
É uma boa notícia para os madeireiros clandestinos da Amazónia; ficam com mais madeira para roubar.
A administração justifica assim a sua decisão:
“Os custos económicos e ambientais do papel são insustentáveis. Mais que isso, são desnecessários. A cada dia em que um jornal como o “JB” é impresso em papel, 72 árvores deixam de ser cortadas. Uma única edição de domingo corresponde a cerca de 200 árvores que levam anos para crescer e ocupam 40 mil m2 de floresta. Isto equivale a quatro campos e meio de futebol. Em um ano, com a versão digital, são preservadas áreas florestais correspondentes a mais de 1200 Maracanãs.”
É uma boa notícia para os madeireiros clandestinos da Amazónia; ficam com mais madeira para roubar.
Thursday, September 09, 2010
MOÇAMBIQUE, 7 DE SETEMBRO, DIA DA VITÓRIA
Quando da tomada de posse do governo de transição, em 7 de Setembro de 1974, o então presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Samora Moisés Machel, fez um discurso do qual recordo as seguintes passagens:
“(...) Queremos chamar atenção ainda sobre um aspecto fundamental: a necessidade de os dirigentes viverem de acordo com a política da Frelimo, a exigência de no seu comportamento representarem os sacrifícios consentidos pelas massas. O poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme. Por isso queremos que vivam modestamente com o povo, não façam da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. A corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade, e em particular dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região fazem parte do sistema de vida que estamos a destruir. O tribalismo, o regionalismo, o racismo, as alianças sem princípios constituem atentados graves contra a nossa linha e dividem as massas. Porque o poder pertence ao povo, quem o exerce é servidor do povo. Quem desviar assim a nossa linha não encontrara qualquer tolerância da nossa parte. Seremos intransigentes nesta questão, como o fomos durante os duros anos de guerra. Não hesitaremos nunca em expor perante as massas as acções cometidas contra elas. Os desvios da linha suscitam as contradições, as brechas por onde penetra o inimigo, o imperialismo e as forças reaccionárias. Para que se mantenha a austeridade necessária a nossa vida de militante e assim se guarde no sentido do povo e dos seus sacrifícios, todos os militantes da Frelimo que receberam tarefas de governação do Estado tal como no passado deve renunciar às preocupações materiais, nomeadamente aos vencimentos. É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem. Combatemos durante dez anos sem qualquer preocupação de ordem financeira individual, empenhados apenas em consagrar toda a nossa energia ao serviço do povo. Está é a característica do militante, do quadro, dos dirigentes da Frelimo. Como o fizemos sempre, de acordo com as nossas possibilidades, procuramos assegurar ao militante que cumpra uma tarefa, o mínimo de condições materiais indispensáveis ao seu trabalho, ao seu sustento e da sua família. Mas também não nos devemos esquecer que muitas vezes combatemos e vencemos descalços, esfarrapados e com fome. Sublinhamos ainda que, assim como fizemos guerra sem horário de trabalho, sem dias de descanso, nos devemos empenhar com o mesmo espírito na batalha da reconstrução nacional”.
É evidente que este homem tinha de ser abatido.
“(...) Queremos chamar atenção ainda sobre um aspecto fundamental: a necessidade de os dirigentes viverem de acordo com a política da Frelimo, a exigência de no seu comportamento representarem os sacrifícios consentidos pelas massas. O poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme. Por isso queremos que vivam modestamente com o povo, não façam da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. A corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade, e em particular dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região fazem parte do sistema de vida que estamos a destruir. O tribalismo, o regionalismo, o racismo, as alianças sem princípios constituem atentados graves contra a nossa linha e dividem as massas. Porque o poder pertence ao povo, quem o exerce é servidor do povo. Quem desviar assim a nossa linha não encontrara qualquer tolerância da nossa parte. Seremos intransigentes nesta questão, como o fomos durante os duros anos de guerra. Não hesitaremos nunca em expor perante as massas as acções cometidas contra elas. Os desvios da linha suscitam as contradições, as brechas por onde penetra o inimigo, o imperialismo e as forças reaccionárias. Para que se mantenha a austeridade necessária a nossa vida de militante e assim se guarde no sentido do povo e dos seus sacrifícios, todos os militantes da Frelimo que receberam tarefas de governação do Estado tal como no passado deve renunciar às preocupações materiais, nomeadamente aos vencimentos. É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem. Combatemos durante dez anos sem qualquer preocupação de ordem financeira individual, empenhados apenas em consagrar toda a nossa energia ao serviço do povo. Está é a característica do militante, do quadro, dos dirigentes da Frelimo. Como o fizemos sempre, de acordo com as nossas possibilidades, procuramos assegurar ao militante que cumpra uma tarefa, o mínimo de condições materiais indispensáveis ao seu trabalho, ao seu sustento e da sua família. Mas também não nos devemos esquecer que muitas vezes combatemos e vencemos descalços, esfarrapados e com fome. Sublinhamos ainda que, assim como fizemos guerra sem horário de trabalho, sem dias de descanso, nos devemos empenhar com o mesmo espírito na batalha da reconstrução nacional”.
É evidente que este homem tinha de ser abatido.
Thursday, September 02, 2010
NOTICIÁRIOS da RDP
Oiço normalmente os noticiários das 9:00, 10:00, 23:00 e 24:00. São usualmente 3 notícias, mais uns incêndios e agora o “caso Queiroz”. É ao que eu chamo “os serviços mínimos”. São notícias estilo "funcionário público desiludido e sem esperança, a cumprir horário".
Ainda não há muitos anos havia noticiários principais e noticiários intercalares. Os noticiários das 13:00, das 20:00 e das 24:00 eram amplos noticiários, alguns chegando aos 40 minutos de duração. Depois havia os intercalares, resumos dos acontecimentos. Neste momento todos me parecem sempre “resumos dos acontecimentos”.
Julgo ter havido um enorme erro de análise por parte da RDP, aquando o advento da “tv-espectáculo” – que criou raízes e fervorosos adeptos, adoptando uma postura de vencido. Como já passámos da era do digital para a era da imagem, pegou e fez carreira o pensamento de que uma imagem vale milhares de palavras, o que é uma rematada estupidez. Para quem não gosta de escrever e de ler, uma imagem chega-lhe plenamente. Os noticiaristas radiofónicos abdicaram dos seus altos serviços e ficaram complexados. Sem razão. A Rádio é o órgão que mais desenvolve a imaginação. A sonoplastia radiofónica ajuda a desenvolver o intelecto. Quando em Rádio digo que está um tempo maravilhoso e que ao longe vejo o mar, o ouvinte terá que recriar o cenário desenvolvendo-o imaginativamente. Em Televisão não é necessário desenvolver seja o que for: está lá a foto do dia com o mar ao longe. Para quê pensar? A foto documenta a imagem mas, se não for a palavra, como ficaremos a saber de tudo o resto? Os cheiros, o vento, a magia do lugar, o que se espera dele, etc., etc. Nesta nova sociedade “come-depressa-não-te-prendas-aos-problemas” e prefere o prato do dia que é mais rápido, uma imagem resolve tudo. Mas longe vai o tempo de Mattelart manguitando-se para Gutenberg. E a Televisão quase conseguiu matar o velho dos tipos móveis… com alguma ajuda dos povos menos cultos, verdade se diga.
Ainda não há muitos anos havia noticiários principais e noticiários intercalares. Os noticiários das 13:00, das 20:00 e das 24:00 eram amplos noticiários, alguns chegando aos 40 minutos de duração. Depois havia os intercalares, resumos dos acontecimentos. Neste momento todos me parecem sempre “resumos dos acontecimentos”.
Julgo ter havido um enorme erro de análise por parte da RDP, aquando o advento da “tv-espectáculo” – que criou raízes e fervorosos adeptos, adoptando uma postura de vencido. Como já passámos da era do digital para a era da imagem, pegou e fez carreira o pensamento de que uma imagem vale milhares de palavras, o que é uma rematada estupidez. Para quem não gosta de escrever e de ler, uma imagem chega-lhe plenamente. Os noticiaristas radiofónicos abdicaram dos seus altos serviços e ficaram complexados. Sem razão. A Rádio é o órgão que mais desenvolve a imaginação. A sonoplastia radiofónica ajuda a desenvolver o intelecto. Quando em Rádio digo que está um tempo maravilhoso e que ao longe vejo o mar, o ouvinte terá que recriar o cenário desenvolvendo-o imaginativamente. Em Televisão não é necessário desenvolver seja o que for: está lá a foto do dia com o mar ao longe. Para quê pensar? A foto documenta a imagem mas, se não for a palavra, como ficaremos a saber de tudo o resto? Os cheiros, o vento, a magia do lugar, o que se espera dele, etc., etc. Nesta nova sociedade “come-depressa-não-te-prendas-aos-problemas” e prefere o prato do dia que é mais rápido, uma imagem resolve tudo. Mas longe vai o tempo de Mattelart manguitando-se para Gutenberg. E a Televisão quase conseguiu matar o velho dos tipos móveis… com alguma ajuda dos povos menos cultos, verdade se diga.
Tuesday, August 31, 2010
Friday, August 27, 2010
A CRISE
Por certo inúmeras pessoas têm soluções para se acabar com a crise em Portugal e eu sou uma delas. Nem foi preciso muita imaginação ou esforço intelectual, bastou pensar em “O Rato Que Ruge”, de Leonard Wibberley. Um livro que se lê e relê logo em seguida, tal é a delícia que proporciona. A pensar nos que não sabem ler ou não gostam, a Colombia TriStar fez um filme que é um assombro (com Peter Sellers, Jean Seberg, etc.) que as pessoas, mesmo alguns políticos, compreendem.
A história é simples: O Grão-Ducado de Fenwick, estando a perder na exportação de vinho, declara guerra ao seu principal concorrente, os Estados Unidos da América do Norte. A Duquesa e o PM encontram, neste plano, a genial solução para os seus problemas, na condição do Grão-Ducado perder. Mas o Grão-Ducado ganhou!
Mas este esquema não é inédito nos dias actuais: o Irão e a Coreia do Norte estão prestes a segui-lo.
Encontrada a solução, há que escolher o país a quem Portugal declara guerra. (Aceitam-se sugestões, mas poucas). A Áustria vem à cabeça pois tem o mais baixo índice de desemprego da União Europeia. É de pensar. O seu poder bélico é tão mau como o nosso, se bem que já tenhamos um submarino, ou seja, o submarino, e cerca de 200 tanques com defeito feitos pela Steyer. Enfim… até gostamos um pouco deles por nos terem dado Schubert, Richard Strauss, Johan Strauss e o festival de Salzburgo.
Outra hipótese é declarar guerra, ajustando contas antigas, à Inglaterra. Eles ficavam encantados por possuírem todo o vinho do Porto (agora só têm 95%) e, já que em devido tempo não lhes demos Moçambique, como o desejavam desesperadamente e com gana (como pão para a boca), agora vingávamo-nos e oferecíamos-lhes o Arquipélago da Madeira (com o sr. A. João Jardim incluído, não negociável).
Mas o melhor mesmo é seguir o guião do Gão-Ducado: declarar guerra aos EE.UU. E, quando o Pentágono mandasse os aviões, imediatamente nos rendíamos ficando como prisioneiros de guerra, situação que os obrigava, pela Convenção de Genebra, a dar-nos comida, tratamentos médicos, roupas e, evidentemente, pocket money. Como prisioneiros as dívidas podiam assobiar-nos às botas. As criancinhas que já estão a estudar o idioma na Instrução Primária ficavam todas contentes, passando o Português, com uma gramática horrível, para segunda língua e o abaixamento de custo das pastilhas elásticas proporcionaria muita alegria aos treinadores de futebol. Os Portugueses, neste momento só unidos pelo Braga, passavam a unir-se também pela libertação do ocupante, coisa que bem tratada, com calma e inteligência, poderia demorar 200 anos. Um regabofe durante duzentos anos – melhor que quando o ouro e a prata vinham à fartazana de Minas Gerais.
Eu sei que estão a perguntar “por que não à Espanha?”. Pela simples razão de que esta Monarquia não nos ligaria nenhuma. Olhava para o lado e assobiava, como os Romanos quando vêem o Obelix e o Asterix. Só fizeram o erro uma vez e logo outro acrescentaram (que nem parece deles), de não deslocar a capital da Península Ibérica para Lisboa, pelos menos durante uns 100 anos.
Bem. Este fimdesemana não contem comigo pois vou ao Alfeite ver o submarino.
(Abaixo o hífen! Abaixo!!!!)
A história é simples: O Grão-Ducado de Fenwick, estando a perder na exportação de vinho, declara guerra ao seu principal concorrente, os Estados Unidos da América do Norte. A Duquesa e o PM encontram, neste plano, a genial solução para os seus problemas, na condição do Grão-Ducado perder. Mas o Grão-Ducado ganhou!
Mas este esquema não é inédito nos dias actuais: o Irão e a Coreia do Norte estão prestes a segui-lo.
Encontrada a solução, há que escolher o país a quem Portugal declara guerra. (Aceitam-se sugestões, mas poucas). A Áustria vem à cabeça pois tem o mais baixo índice de desemprego da União Europeia. É de pensar. O seu poder bélico é tão mau como o nosso, se bem que já tenhamos um submarino, ou seja, o submarino, e cerca de 200 tanques com defeito feitos pela Steyer. Enfim… até gostamos um pouco deles por nos terem dado Schubert, Richard Strauss, Johan Strauss e o festival de Salzburgo.
Outra hipótese é declarar guerra, ajustando contas antigas, à Inglaterra. Eles ficavam encantados por possuírem todo o vinho do Porto (agora só têm 95%) e, já que em devido tempo não lhes demos Moçambique, como o desejavam desesperadamente e com gana (como pão para a boca), agora vingávamo-nos e oferecíamos-lhes o Arquipélago da Madeira (com o sr. A. João Jardim incluído, não negociável).
Mas o melhor mesmo é seguir o guião do Gão-Ducado: declarar guerra aos EE.UU. E, quando o Pentágono mandasse os aviões, imediatamente nos rendíamos ficando como prisioneiros de guerra, situação que os obrigava, pela Convenção de Genebra, a dar-nos comida, tratamentos médicos, roupas e, evidentemente, pocket money. Como prisioneiros as dívidas podiam assobiar-nos às botas. As criancinhas que já estão a estudar o idioma na Instrução Primária ficavam todas contentes, passando o Português, com uma gramática horrível, para segunda língua e o abaixamento de custo das pastilhas elásticas proporcionaria muita alegria aos treinadores de futebol. Os Portugueses, neste momento só unidos pelo Braga, passavam a unir-se também pela libertação do ocupante, coisa que bem tratada, com calma e inteligência, poderia demorar 200 anos. Um regabofe durante duzentos anos – melhor que quando o ouro e a prata vinham à fartazana de Minas Gerais.
Eu sei que estão a perguntar “por que não à Espanha?”. Pela simples razão de que esta Monarquia não nos ligaria nenhuma. Olhava para o lado e assobiava, como os Romanos quando vêem o Obelix e o Asterix. Só fizeram o erro uma vez e logo outro acrescentaram (que nem parece deles), de não deslocar a capital da Península Ibérica para Lisboa, pelos menos durante uns 100 anos.
Bem. Este fimdesemana não contem comigo pois vou ao Alfeite ver o submarino.
(Abaixo o hífen! Abaixo!!!!)
Monday, August 23, 2010
O COISO ORTOGRÁFICO
Chamo-lhe assim pois não é um acordo. Acordo é quando concordamos em caminhar no mesmo sentido. No Brasil mais de metade da população desconhece o Coiso Ortográfico e, os que conhecem, não lhe ligam nenhuma. Aqui não sei. O que sei é que Portugal, ciclicamente, mete o pé na argola. Já cá tardava. Depois do embaixador Vasco Garin afirmar, nas Nações Unidas, que Portugal não concordava com o desarmamento mundial pois ninguém poderia afirmar que os ET’s não andavam por aí e, se ficássemos desarmados, só nos poderíamos defender com fisgas e facas de cozinha. O Mundo riu.
Esperava que a Ota fosse mais uma argolada da regência política portuguesa. Mas arrepiou-se caminho, provocando a barafunda (sururu para o Coiso Ortográfico – (CO)) que todos conhecemos.
Mas falta-nos falar da fiscalização (de que Portugal não gosta nada – veja-se o caso do Banco de Portugal e do seu desgovernador) e das coimas (tão queridas aos legisladores portugueses).
Para a fiscalização, deverá constituir-se um gabinete, de sete membros, em cujas primeiras reuniões elegerá o respectivo presidente. Depois encarregar-se-á dos Estatutos, da CP (campanha de publicidade, que esperará paciente a dotação da verba), e a selecção dos fiscais, que deve recair não nos professores de Português, mas sim nos revisores das editoras (cuidado com as meninas licenciadas em Letras).
Depois, o gabinete fará uma hierarquia de faltas ao CO. Atendendo a que o “Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências, levou 18 anos a ser concebido, a tabela das faltas deverá demorar uma década e, entretanto, cada um vai escrevendo como lhe apetece, sabe ou dá mais jeito. Eu já estou a escrever fimdesemana sem hífenes, que são, como todos sabem, um atraso de vida e fakto com kapa para indispor os brasileiros (minha ex-mulher é brasileira).
As coimas poderão ser de duas espécies: primeira – obrigar o faltoso a escrever 100 vezes a palavra segundo o CO, numa escola de Instrução Primária da área do malandro, aos sábados e a horas marcadas pela direcção escolar. Todas as crianças da escola assistem, de pé, cantando o Hino Nacional. Alguns residentes brasileiros serão convidados para cantar, em seguida, o Hino Nacional brasileiro. Se o prevaricador for director de um Órgão de Comunicação Social, oferecerá, no final, um churrasco a toda a galera (ver Aurélio ou Houaiss); segunda – o malandrim é obrigado a saber de cor, no prazo de 30 dias, todas as alíneas do Coiso Ortográfico e as biografias de Vasco Pulido Valente e de João Ubaldo Ribeiro. Ficará sem registo da falta na Polícia e no SEF, se recitar ainda um poema de Luiz Pacheco, no programa da RTP-2 “Câmara Clara”.
Esperava que a Ota fosse mais uma argolada da regência política portuguesa. Mas arrepiou-se caminho, provocando a barafunda (sururu para o Coiso Ortográfico – (CO)) que todos conhecemos.
Mas falta-nos falar da fiscalização (de que Portugal não gosta nada – veja-se o caso do Banco de Portugal e do seu desgovernador) e das coimas (tão queridas aos legisladores portugueses).
Para a fiscalização, deverá constituir-se um gabinete, de sete membros, em cujas primeiras reuniões elegerá o respectivo presidente. Depois encarregar-se-á dos Estatutos, da CP (campanha de publicidade, que esperará paciente a dotação da verba), e a selecção dos fiscais, que deve recair não nos professores de Português, mas sim nos revisores das editoras (cuidado com as meninas licenciadas em Letras).
Depois, o gabinete fará uma hierarquia de faltas ao CO. Atendendo a que o “Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências, levou 18 anos a ser concebido, a tabela das faltas deverá demorar uma década e, entretanto, cada um vai escrevendo como lhe apetece, sabe ou dá mais jeito. Eu já estou a escrever fimdesemana sem hífenes, que são, como todos sabem, um atraso de vida e fakto com kapa para indispor os brasileiros (minha ex-mulher é brasileira).
As coimas poderão ser de duas espécies: primeira – obrigar o faltoso a escrever 100 vezes a palavra segundo o CO, numa escola de Instrução Primária da área do malandro, aos sábados e a horas marcadas pela direcção escolar. Todas as crianças da escola assistem, de pé, cantando o Hino Nacional. Alguns residentes brasileiros serão convidados para cantar, em seguida, o Hino Nacional brasileiro. Se o prevaricador for director de um Órgão de Comunicação Social, oferecerá, no final, um churrasco a toda a galera (ver Aurélio ou Houaiss); segunda – o malandrim é obrigado a saber de cor, no prazo de 30 dias, todas as alíneas do Coiso Ortográfico e as biografias de Vasco Pulido Valente e de João Ubaldo Ribeiro. Ficará sem registo da falta na Polícia e no SEF, se recitar ainda um poema de Luiz Pacheco, no programa da RTP-2 “Câmara Clara”.
Thursday, August 19, 2010
ESCOLAS...
É profunda convicção nossa, já de muitos anos estabelecida, que urge seguir rumo diverso do que se tem seguido na organização dos livros de leitura para as escolas primárias.
Tem a escola obrigação de desenvolver a criança física, moral e intelectualmente.
A leitura é um grande elemento para o desenvolvimento intelectual, quando deste exercício se tira o conveniente e necessário partido. Para isso se conseguir, precisa-se de que o pequeno leitor compreenda. A fim de compreender é indispensável:
1.º que a linguagem seja actual, simples, clara e precisa; 2.º que o assunto seja comezinho, familiar, compreensível para as crianças; 3.º que os períodos sejam curtos, as orações bem-dispostas, os termos sejam os mais simples e usuais.
(…)
In “Selecta das Escolas” – Livro de leitura para as aulas de Instrução Primária - 1886
Tem a escola obrigação de desenvolver a criança física, moral e intelectualmente.
A leitura é um grande elemento para o desenvolvimento intelectual, quando deste exercício se tira o conveniente e necessário partido. Para isso se conseguir, precisa-se de que o pequeno leitor compreenda. A fim de compreender é indispensável:
1.º que a linguagem seja actual, simples, clara e precisa; 2.º que o assunto seja comezinho, familiar, compreensível para as crianças; 3.º que os períodos sejam curtos, as orações bem-dispostas, os termos sejam os mais simples e usuais.
(…)
In “Selecta das Escolas” – Livro de leitura para as aulas de Instrução Primária - 1886
Monday, August 16, 2010
APESAR DAS GUERRAS
Ao contrário da minha filha Alexandra, para quem a época ideal para viver seria aquela em que Dartagnan ou Lagardère a convidaria para dançar no baile da rainha, gosto de ter nascido no século XX. Apesar das guerras.
Ao que eu tenho assistido! Quase não dá para contar. Uma vez, estava eu a estudar, com o Rádio Club Português em fundo, eram quase onze da noite, quando oiço o professor de Aerodinâmica no IST, doutor Varela Cid, dizer que o Sputnic era uma invenção propagandística dos russos e que era impossível lançar no espaço um satélite artificial. Logo em seguida, falou Henrique Galvão, pela Aeronáutica Civil, dizendo que, para pôr um satélite em órbita, bastava ter tecnologia e cérebros. Dá as onze e o RCP anuncia que o Observatório Nacional acabava de assinalar a passagem do Sputnic e que o seu bip-bip se poderia ouvir na frequência tal e tal, a dos crédulos. O professor, se tivesse esperado cinco minutos, não teria caído no ridículo. Isto apesar das guerras.
Depois, a rainha do nosso mais antigo desaliado, resolve vir ver os seus súbditos mais escurinhos devido ao sol. E passámos todos a ver televisão a cores. Os ditos televisores a cores depressa se esgotaram nos importadores, já que se sabia de fonte segura que a rainha só gostava de se mostrar policromaticamente. Ao que eu assisti… apesar das guerras.
Rapazinho de dezassete anos, adorava a rádio e fiz uma galena, coisa que hoje ninguém sabe o que é. Depois assisti a uma das maiores conquistas científicas da história: o transístor. (Que muito veio acudir e ajudar nas guerras, incluindo a das estrelas.) Na altura andava eu às voltas com a 117L7, uma válvula de funções múltiplas, para construir o meu emissor-receptor, indispensável ao radioamadorismo.
De repente, estava eu muito sossegado a ler, casado e pai de filhas, veio a minha mulher a correr, a chamar-me, excitada, que estava um homem na Lua. E fiquei toda a noite a ver o homem na Lua. Apesar das guerras, ou por causa delas.
O transístor, voltamos a ele, foi um sarilho: permitiu realizar o sonho de todos os autores de FC, desde Azimov a Ray Bradbury, passando pelos Clarks e companhia: a miniaturização. Diminuíram de tamanho os rádio-receptores e os aparelhos de televisão. Entretanto já tinha comprado um kit americano com as peças todas e construí o primeiro amplificador estéreo que entrou lá em casa. Entrou digno pelo seu pé e por lá ficou, após trinta noites a montá-lo. Era um encanto. Ficávamos a ouvir estereofonia e a babarmo-nos de prazer. Olha este canal… olha agora este… O jazz era mais jazz mas, para Beethoven, estéreo ou monoral era-lhe indiferente. Feitios. E quanto aos discos, fomos passando do 78 r.p.m., em massa, para o de 45, depois o de 33 e um terço em vinil, e agora o compacto. Comum a todos eles, o buraco no meio.
Ao que eu assisti, leitor! Estava eu muito distraído a fazer a tropa e o Fleming a exportar Penicilina para todo o mundo… para bem da guerra. E por causa da guerra também veio o DDT, o insecticida em pó que se dava aos soldados por causa dos bichinhos. Testado antes pelos soldados americanos. Na guerra. E também por causa dela, o sonar e o radar.
Tinha lido num periódico acerca do concurso da BBC para um minicomputador. Um concorrente importante mas que não ganhou, chamava-se Clovis Sinclair, um génio a quem mais tarde, por culpa da rainha, se chamou depreciativamente Lord. Ora o Clovis, com um menino tão bonito nas mãos, apesar de recusado pela BBC, resolveu fabricá-lo às toneladas e vendê-lo em todo o mundo. Foi assim que eu recebi o meu primeiro ZX Spectrum, um miniprocessador que, acoplado a um gravador de fita magnetofónica, fazia maravilhas. Depois veio o QL, depois o Philips, depois o… e o… e o… e o Hyundai agora a olhar para mim e eu desgostoso de ver este maldito aparelho ter mais memória que eu.
Uma noite deu-me na cabeça e fui fazer o meu 25 de Abril. Por dentro dele. Inolvidável madrugada em que os redactores, chamados a meio ou no começo do sono, não se apresentaram contrariados ou reclamantes. Vieram a rir e a abraçarem-se uns aos outros. Alguns vertiam lágrimas felizes. Alguns trouxeram mais cinco. E isto por causa das guerras. Não posso esquecer ter andado quarenta dias na clandestinidade, a dormir no chão, tendo por almofada uma resma de papel para duplicador. Depois do 25 de Abril.
Mas o que realmente tem sempre estragado tudo, estimado leitor, é esse estúpido flagelo humano: a guerra, ou seja, o homem.
Álvaro Belo Marques
(in TempoLivre, revista do Inatel)
Ao que eu tenho assistido! Quase não dá para contar. Uma vez, estava eu a estudar, com o Rádio Club Português em fundo, eram quase onze da noite, quando oiço o professor de Aerodinâmica no IST, doutor Varela Cid, dizer que o Sputnic era uma invenção propagandística dos russos e que era impossível lançar no espaço um satélite artificial. Logo em seguida, falou Henrique Galvão, pela Aeronáutica Civil, dizendo que, para pôr um satélite em órbita, bastava ter tecnologia e cérebros. Dá as onze e o RCP anuncia que o Observatório Nacional acabava de assinalar a passagem do Sputnic e que o seu bip-bip se poderia ouvir na frequência tal e tal, a dos crédulos. O professor, se tivesse esperado cinco minutos, não teria caído no ridículo. Isto apesar das guerras.
Depois, a rainha do nosso mais antigo desaliado, resolve vir ver os seus súbditos mais escurinhos devido ao sol. E passámos todos a ver televisão a cores. Os ditos televisores a cores depressa se esgotaram nos importadores, já que se sabia de fonte segura que a rainha só gostava de se mostrar policromaticamente. Ao que eu assisti… apesar das guerras.
Rapazinho de dezassete anos, adorava a rádio e fiz uma galena, coisa que hoje ninguém sabe o que é. Depois assisti a uma das maiores conquistas científicas da história: o transístor. (Que muito veio acudir e ajudar nas guerras, incluindo a das estrelas.) Na altura andava eu às voltas com a 117L7, uma válvula de funções múltiplas, para construir o meu emissor-receptor, indispensável ao radioamadorismo.
De repente, estava eu muito sossegado a ler, casado e pai de filhas, veio a minha mulher a correr, a chamar-me, excitada, que estava um homem na Lua. E fiquei toda a noite a ver o homem na Lua. Apesar das guerras, ou por causa delas.
O transístor, voltamos a ele, foi um sarilho: permitiu realizar o sonho de todos os autores de FC, desde Azimov a Ray Bradbury, passando pelos Clarks e companhia: a miniaturização. Diminuíram de tamanho os rádio-receptores e os aparelhos de televisão. Entretanto já tinha comprado um kit americano com as peças todas e construí o primeiro amplificador estéreo que entrou lá em casa. Entrou digno pelo seu pé e por lá ficou, após trinta noites a montá-lo. Era um encanto. Ficávamos a ouvir estereofonia e a babarmo-nos de prazer. Olha este canal… olha agora este… O jazz era mais jazz mas, para Beethoven, estéreo ou monoral era-lhe indiferente. Feitios. E quanto aos discos, fomos passando do 78 r.p.m., em massa, para o de 45, depois o de 33 e um terço em vinil, e agora o compacto. Comum a todos eles, o buraco no meio.
Ao que eu assisti, leitor! Estava eu muito distraído a fazer a tropa e o Fleming a exportar Penicilina para todo o mundo… para bem da guerra. E por causa da guerra também veio o DDT, o insecticida em pó que se dava aos soldados por causa dos bichinhos. Testado antes pelos soldados americanos. Na guerra. E também por causa dela, o sonar e o radar.
Tinha lido num periódico acerca do concurso da BBC para um minicomputador. Um concorrente importante mas que não ganhou, chamava-se Clovis Sinclair, um génio a quem mais tarde, por culpa da rainha, se chamou depreciativamente Lord. Ora o Clovis, com um menino tão bonito nas mãos, apesar de recusado pela BBC, resolveu fabricá-lo às toneladas e vendê-lo em todo o mundo. Foi assim que eu recebi o meu primeiro ZX Spectrum, um miniprocessador que, acoplado a um gravador de fita magnetofónica, fazia maravilhas. Depois veio o QL, depois o Philips, depois o… e o… e o… e o Hyundai agora a olhar para mim e eu desgostoso de ver este maldito aparelho ter mais memória que eu.
Uma noite deu-me na cabeça e fui fazer o meu 25 de Abril. Por dentro dele. Inolvidável madrugada em que os redactores, chamados a meio ou no começo do sono, não se apresentaram contrariados ou reclamantes. Vieram a rir e a abraçarem-se uns aos outros. Alguns vertiam lágrimas felizes. Alguns trouxeram mais cinco. E isto por causa das guerras. Não posso esquecer ter andado quarenta dias na clandestinidade, a dormir no chão, tendo por almofada uma resma de papel para duplicador. Depois do 25 de Abril.
Mas o que realmente tem sempre estragado tudo, estimado leitor, é esse estúpido flagelo humano: a guerra, ou seja, o homem.
Álvaro Belo Marques
(in TempoLivre, revista do Inatel)
Subscribe to:
Posts (Atom)