Monday, September 08, 2008

MINUTO VERDE

Há uns anos largos, vi um vídeo com o Vinícius e outros artistas, no qual o Tom Jobim se queixava de, em França, ter ouvido um pianista a tocar a “Garota de Ipanema” assim, e exemplificava tocando, acrescentando “quadrado, sempre quadrado”. O que Jobim queria dizer era que o pianista dava os acordos certos, mas sem imaginação, sem golpe de asa, sem a patanisca que salta do coração ao cérebro e a que chamo talento. Era a “Garota de Ipanema” em dia encoberto. Borrascoso. Sem alma. Quadrado.
Pois na semana passada precisei que uma guia para efectuar um tac fosse visada pela Direcção Regional de Saúde de Évora. Pondo de parte o atestado de incompetência que esta direcção passa à minha médica de família (pois este visto só se deveria efectivar em presença de todo o meu processo clínico – mas isto é outro assunto), informei a senhora de que morava a vinte quilómetros da capital provincial. “Não está a drª. que autoriza. Venha cá na 4ª.feira (era segunda). Voltei a informar que, ida e volta, teria de gastar ao Estado quarenta quilómetros de energia, podendo este desastre ser evitado, pagando eu o sobrescrito e a franquia para me enviarem a guia pelos Correios. “Nem pensar – respondeu a pianista -, é contra os regulamentos.” Quando me vinha embora e acautelando qualquer desarmonia, rectificou o dia: “Olhe, venha antes na sexta.” Quatro preciosos dias para a minha saúde, mais o combustível e uma manhã, que conta muito na minha idade – tenho de aproveitar todas.
Pergunto: Estará o país inteiro a tocar quadrado, daí o nosso permanente atraso, em todos os sectores?

1 comment:

sobrinha G said...

É preciso ter muita saúde para se aguentar a falta de saúde. Em Portugal, é claro!Tenho um médico de família sui generis. Não o escolhi, como a maior parte dos portugueses. Caiu-me em sorte. De vez em quando, em urgência, lá vamos, eu e o agregado familiar, recorrendo a ele. SNS oblige. Havia algo de estranho dele, para lá das baixas sucessivas. Fomos especulando. Até que, um pouco a medo, aventei a possibilidade de ser alcoolico. O meu núcleo familiar olhou-me. Podia bem ser essa a estranheza. Como evito julgamentos precipitados, porque posso estar a ser injusta, reservei a possibilidade de haver outras explicações. Mas a família achou que era bem capaz de ser isso. Ontem, curiosamente, encontrei-me atrás dele na fila de uma charcutaria. E não pude deixar de reparar na sua isolada compra, nem deixar de ouvir o comentário da menina da caixa, que bem me conhece. Quando cheguei a casa comentei: "Estava atrás na fila da caixa da charcutaria e à minha frente estava o 'X'. Adivinhem o que estava a comprar". Eles acertaram.