Tuesday, December 23, 2008

O FADO

Não gosto do fado.
Você não tem nada com isso mas um homem precisa de desabafar. A canção nacional – como dizem -, não presta para nada. Não alegra nem estimula: é um sofrimento pegado. O fado “é uma canção torpe e dissolvente”, cuja amargura nos penetra e, tanto melhor, quando penetra também nos outros.

O fado é sofrimento. Sofrimento rasca. O fado é bom quando sofremos muito e excelente quando este sofrimento também atinge os seres à nossa volta. O fado é bom quando nos faz chorar e óptimo quando os outros também choram.

Os temas do fado têm de ser, portanto, altamente dolorosos. E o amor é a sua principal glosa. Amor interrompido, descorrespondido, atraiçoado. A morte que o leva, a outra que o leva, a fome que o leva, a tuberculose que o destrói. É a dor de cotovelo, de corno, de cabeça, de saudade. O fado é a pobreza, a miséria. Alguns ricos cantam o fado por snobismo; alguns pobres cantam a sua própria miséria e chamam-lhe fado. E essa burguesia que está entre a água a ferver e a gelada, “gosta de ouvir cantar o fado”, talvez por não ser nada que lhes diga intimamente respeito.

O fado é também miserável sob o ponto de vista urbanístico, arquitectónico. Ama os becos, as escadinhas, as portas pequenas, as vielas, as ruas estreitinhas, os gatos ranhosos, esquálidos e ladrões, os cães vagabundos e esfomeados, as águas-furtadas, os pátios, os esconsos assacanados, os candeeiros sem luz. Sim, o fado gosta do escuro. O fado está há muito casado com a noite; vivem lado a lado e dão-se bem.

Naquela noite a diva jantou connosco. Mal se sentou, à cabeceira da mesa, mandou imediatamente apagar as luzes da sua zona. Aquietou-se. Fez-se noite. Venham velas tremeluzentes e sentem-se aqui connosco. Que as vossas luzes só deixem ver os olhos sombrios da dor e do desgosto. Nada mais.

Por deveres de ofício, durante alguns anos “fiz” a transmissão dos “Fados e Guitarradas”, para a então Emissora Nacional, do Bairro Alto e convivi com os cultores e os executantes daquela coisa. E compreendi por que eram tristes e sorumbáticos os guitarras e os violas: dias, semanas, meses, anos às escuras, acompanhando as dores alheias, fumando mil cigarros por noite, queimando as pestanas, os olhos, as unhas e os fatinhos fedendo a tabaco.
Sim, ouvia-se numa noite uma ou duas gargalhadas de fugida mas estas eram torpes, assacanadas, pérfidas – de raspão pela alegria. Os violas e os guitarras sempre me pareceram tristes, obscuros, inconformados. Vão tocando a par um do outro, em indiferente contra-relógio, atentos apenas aos sinais do cantante para o final mais forte e apoteótico. Depois limpam as cordas com a flanela, e atacam o novo fado, que nada lhes diz pois já o tocaram por diversas vezes, como uma banda que só tocasse o hino nacional do seu país. Por isso não choram com a desgraça que a fadista conta cantando – importante é o acorde estar certo, o travessão bem feito. No final da ementa, o ou a fadista ordena à assistência que bata palmas também aos sanfonineiros. E eles soerguem-se pela metade e agradecem perfeitamente indiferentes. No fundo agradecem à cantante que lhes assegura o ganha-pão. Isto é o fado. Parte.


Monday, December 08, 2008

A ESCOLA

Gostava de saber se, no começo do ano lectivo, do primário ou do secundário, algum dia, alguma vez, um professor reuniu todos os alunos e lhes perguntou:
- Sabem o que é uma Escola? Uma Escola são estas quatro paredes, o tecto, as janelas com vidros, as carteiras e as cadeiras, Como vêem é simples.
Mas, apesar de ser simples, morreram milhares de pessoas para terem o direito a frequentar uma Escola Pública, porque as escolas eram só para os ricos. A Escola Pública foi uma conquista de todos nós, nossa. A Escola Pública é nossa, nunca se esqueçam. É com ela que vamos iniciar a vida de luta, de trabalho, de conquista. É com ela que a nossa mente se organiza e que adquire os conhecimentos para seguir em frente.
Apesar de simples, há muitas terras sem Escola.
Há meninos e meninas em Moçambique que não têm Escola. Centenas de milhar. Nem Escola, nem cadernos, nem carteiras, nem ardósias e muito menos máquinas de calcular e celulares. Como fazem esses jovens que desejam estudar, saber mais? Sentam-se no chão, sob a sombra do cajueiro,
Tão pobre e carente como os alunos, o professor vai ensinando o que pode. Em vários sítios ele arrebanha folhas de papel e pedaços de lápis; às vezes tem um pequeno quadro preto que pendura nos troncos das árvores. A cópia e o ditado e feito pelo suplemento infantil do jornal Notícias, de Maputo. Livros? O que é isso?
- Vocês sabem que, em todo o mundo, milhões de jovens como vocês não vão à Escola? Ou porque não a têm, ou porque são pobres e começam a trabalhar os campos com os pais aos 5 ou 6 anos de idade, ou porque não há caminho para ir lá, nem transportes, ou os pais são analfabetos a acham que os filhos também o devem ser e tantas outras razões. Ainda há bem pouco tempo em Portugal teve de ir a Guarda Republicana a uma aldeia buscar uma menina de 16 anos que queria estudar e os pais não deixavam.
- Agora vocês estão aqui, na Escola, que foi paga por mim, pelos vossos pais e por todos os trabalhadores do país. Eles fizeram o sacrifício de pagar estas e outras Escolas, para que as crianças pudessem aprender com o maior conforto possível.
- Portanto, cada risco feito na carteira, cada spray lançado nos balneários é um crime. Ao fazerem isso estão a fazer mal aos meus pais, a mim, aos vossos pais e aos trabalhadores de todo o país. E estão a estragar o bem-estar para a aprendizagem do que precisam.
- Quantas crianças choram ao ver outras irem para a Escola e eles ficarem a cavar ou a apanhar fruta nos campos?
Pensem nisto, crianças deste tempo.

Monday, November 17, 2008

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ”E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1.Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2.Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado “ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendidado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder — a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o
poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos, moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos
donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os
trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles
investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais
abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África
continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos.
Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
(Savana)

Friday, November 07, 2008

"YES WE CAN"

Espero podermos vir a agradecer-te o trabalhão que tiveste, com a tua família, para te tornares presidente dos EE.UU.
Simpatizei contigo desde o primeiro momento. Por seres mulato? Também. O meu filho é mulato e não me dou menos feliz por isso.
Dizes ao teu povo, no discurso da vitória, que ele é capaz. Não poderias, nas férias, por exemplo, vires dizer o mesmo ao meu povo?

Barak: é um convite muito sério. Fora de todos os protocolos e hierarquias. Tenho sítio onde te alojar, mais à tua mulher e filhas. Vinhas ver e conhecer o meu povo e talvez um dia lhe pudesses dizer: “Yes you can”.

Sim, vocês podem correr com estes pindéricos morais e colocar nos seus lugares homens e mulheres honrados. Sim, vocês podem deixar de ser roubados, no corpo e no espírito diariamente. Sim, vocês podem ter trabalho e viver melhor, cultivando todos os terrenos e pondo os inúteis, de hábito e tonsura, a tomar conta deles.

Sim, vocês podem fazer com que todas as crianças vão à Escola, mas com o estômago aquietado, que estudar com fome não dá rendimento que se veja. Sim, vocês podem reabrir as fábricas fechadas e colocar nelas os homens e mulheres que acreditam no trabalho como força libertadora e não escravizante.

Quando começaste a tua campanha, fiquei entusiasmado que a tua provável vitória; no dia seguinte pedia aos deuses para que não ganhasses. No outro voltava a querer que ganhasses. Tem sido uma guerra comigo mesmo Barak Obama. Tão depressa quero como não quero que sejas presidente. E, quando não quero, sei tão bem como tu qual a razão: o medo. O medo que te interrompam a passada firme e decidida que iniciaste há um ano, agora confirmada.

Se conseguires libertar o teu povo da máquina sinistra que o envolve, fica activo o meu convite. Virás com a Michelle passar oito dias na Praia das Maçãs, um sítio bonito sem macieiras, apesar do nome, com a minha família e as tuas filhas brincarão com os meus filhos, trocando sinónimos, substantivos, frases e alguma ternura e muitas gargalhadas. E falaremos da possibilidade de um mundo melhor para eles, como tu e eu queremos e por ele trabalhamos.
Até breve,
Álvaro Belo Marques

Friday, October 24, 2008

MIGALHÃES

A percorrer o espaço web anda este poema anónimo:

Lá vem pelo avelar

O filho do Zé João

Vem do centro escolar

Cansado de palmilhar

A caminho da povoação

Não há médico na aldeia

E a antiga escola fechou

Não tem carne para a ceia

Nem petróleo para a candeia

Porque o dinheiro acabou

O seu pai foi para França

Trabalhar na construção

E a mãe desta criança

Trabalha na vizinhança

Lavando pratos e chão

Mas o puto vem contente

Com o Migalhães na mão

E passa por toda a gente

Em alegria aparente

De quem já sabe a lição

Um senhor muito invulgar

Que chegou com mais senhores

Veio para visitar

O novo centro escolar

E dar os computadores

E lá vem o Joãozinho

No seu contínuo vaivém

Calcorreando o caminho

Desesperando sozinho

À espera da sua mãe

Neste país de papões

A troco de dois vinténs

Agravam-se as disfunções

O rico ganha milhões

E o pobre Migalhães!!!

Thursday, October 09, 2008

EUA - bem-vindos ao Terceiro Mundo!

Por Rosa Brooks*

Não é todos os dias que uma superpotência tenta transformar-se em nação do Terceiro Mundo.
Por isso, nós, aqui no Banco Mundial e no FMI, desejamos ser os primeiros a dar-lhes as boasvindas
à comunidade de Estados necessitados de ajuda económica internacional.
Enquanto vocês se afundam, muito nos alegra poder responder à solicitação do vosso
Departamento do Tesouro para que participemos numa avaliação conjunta da estabilidade do seu
sector financeiro. Nesta época turbulenta, podemos oferecer-lhes empréstimos subsidiados e até
especialistas.
Como vocês sabem, há muito tempo que é necessária uma intervenção na vossa economia. Na
semana passada, mesmo antes do recente colapso em Wall Street, ex-ministros da Economia de
vários países reuniram-se na Virgínia e concordaram que vocês precisam de reformar o vosso
sistema financeiro. O ex-ministro das Finanças da Índia, Yashwant Sinha, sugeriu até que vocês
peçam ajuda ao FMI.
Esperamos que vocês não se sintam envergonhados. Lembrem-se que outros países já
estiveram nessa posição. Já ajudámos as economias da Argentina, do Brasil, da Indonésia e da
Coreia do Sul. Assim, gostaríamos de reconhecer o progresso que vocês fizeram na evolução
desde superpotência económica até ao completo descontrolo económico.
Normalmente tal processo leva 100 anos ou mais. Entretanto, devido às vossas oscilações entre
o extremismo do livre mercado e a nacionalização de empresas privadas, vocês atingiram com
sucesso, em poucos anos, muitas das principais características observadas nas economias do
Terceiro Mundo.
As vossas medidas de irresponsável desregulamentação governamental em sectores críticos
permitiram que vocês desenvolvessem rapidamente uma crise energética, uma crise de habitação,
uma crise de crédito e uma crise no mercado financeiro, todas ao mesmo tempo, e acompanhadas
por impressionantes níveis de corrupção e especulação. Enquanto isso, os vossos políticos, que
deveriam supervisar o sistema, estavam dormindo com os lobistas.
Tomemos como exemplo John McCain, o vosso candidato republicano à presidência, cuja
equipa principal de assessores inclui meia dúzia de ex-lobistas de renome. Ele mesmo afirmou
recentemente que foi presidente do Comité de Comércio do Senado, que supervisa todas as
vertentes da economia. Não restam dúvidas, portanto, relativamente ao fracasso da sua liderança
em perceber o estrago causado pela desregulamentação irresponsável.
Agora, vocês enfrentam as consequências. A desigualdade aumentou. Enquanto os ricos
recebem dinheiro caído do céu, a classe média viu os seus rendimentos estagnar. Um número
cada vez menor de cidadãos tem acesso a habitação, assistência médica ou segurança social. Até
a expectativa de vida diminuiu. E, quando os problemas económicos passaram de crónicos a
agudos, vocês responderam - como fizeram tantos outros Estados do Terceiro Mundo - com um
programa extenso de nacionalização de empresas privadas.
As vossas gigantes do ramo das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac, pertencem agora ao
Estado. Nesta semana, a gigante dos seguros, a AIG, também foi nacionalizada. Alguns podem
chamar a isso “socialismo”, mas épocas de desespero exigem medidas desesperadas.
A vossa transição para o Terceiro Mundo será dolorosa. No início, vocês terão dificuldade em
habituar-se às favelas, que crescerão nos subúrbios das cidades, mas, com o tempo, elas tornarse-
ão parte da paisagem.
À medida que as taxas de desemprego aumentarem, vocês terão problemas para encontrar
ocupação para a massa de jovens desempregados, mas logo vocês vão perceber que podem
recrutá-los para alguma qualquer guerra, um tipo de solução que já foi utilizada por muitos Estados
do Terceiro Mundo antes de vocês.
Talvez esta carta vos surpreenda e vocês sintam que ainda não estão prontos para se juntar ao
Terceiro Mundo. Mas não fiquem preocupados: Apesar de nunca terem percebido, vocês já
estavam há vários anos a preparar-se para este momento.

* Rosa Brooks escreveu este artigo para o “Los Angeles Times” que foi também publicado no Savana de Moçambique.

Monday, September 08, 2008

MINUTO VERDE

Há uns anos largos, vi um vídeo com o Vinícius e outros artistas, no qual o Tom Jobim se queixava de, em França, ter ouvido um pianista a tocar a “Garota de Ipanema” assim, e exemplificava tocando, acrescentando “quadrado, sempre quadrado”. O que Jobim queria dizer era que o pianista dava os acordos certos, mas sem imaginação, sem golpe de asa, sem a patanisca que salta do coração ao cérebro e a que chamo talento. Era a “Garota de Ipanema” em dia encoberto. Borrascoso. Sem alma. Quadrado.
Pois na semana passada precisei que uma guia para efectuar um tac fosse visada pela Direcção Regional de Saúde de Évora. Pondo de parte o atestado de incompetência que esta direcção passa à minha médica de família (pois este visto só se deveria efectivar em presença de todo o meu processo clínico – mas isto é outro assunto), informei a senhora de que morava a vinte quilómetros da capital provincial. “Não está a drª. que autoriza. Venha cá na 4ª.feira (era segunda). Voltei a informar que, ida e volta, teria de gastar ao Estado quarenta quilómetros de energia, podendo este desastre ser evitado, pagando eu o sobrescrito e a franquia para me enviarem a guia pelos Correios. “Nem pensar – respondeu a pianista -, é contra os regulamentos.” Quando me vinha embora e acautelando qualquer desarmonia, rectificou o dia: “Olhe, venha antes na sexta.” Quatro preciosos dias para a minha saúde, mais o combustível e uma manhã, que conta muito na minha idade – tenho de aproveitar todas.
Pergunto: Estará o país inteiro a tocar quadrado, daí o nosso permanente atraso, em todos os sectores?

Saturday, August 16, 2008

O SAXOFONISTA

Se ler esta estorinha até ao fim, escolha o final e mande-me dizer.


O Cláudio trabalhava numa firma de distribuição de correio e de encomendas mas sempre que tinha um tempinho livre, ia com o seu saxofone para o pé do Joelzinho, um mendigo do bairro, andrajoso e com as pernas torcidas como se as tivessem partido quando estava numa posição do Yoga. O Joelzinho era muito estimado no bairro mas Cláudio, por ser pobre, pouco o podia ajudar. Ele sentava-se ao pé de uma grande árvore e estendia a mão.
O saxofonista amador punha-se então sentado a seu lado, num tronco horizontal da árvore e tocava. Nesses dias a receita do Joelzinho subia em flecha. Não podia era ser em todos.
Uma tarde de dueto – um pedia e o outro tocava -, disse o Joelzinho:
- Você, Cláudio, não pode tocar outras coisas?
- Não gosta do meu reportório?
- Não é isso.
- Então o que é?
- Está aqui um gajo, todo empenado, que só ouve do ouvido esquerdo, e você senta-se ao lado desse ouvido e toca invariavelmente as mesmas coisas… podia, ao menos, tocar do lado do outro…ou mudar de reportório…
Cláudio pensou, olhando para o instrumento. Depois disse:
- Eu já toquei o concerto para saxofone e orquestra de Aaron Copland, nos bons tempos…
- Você desculpe-me, Cláudio, mas o Aaron Copland nunca escreveu um concerto para saxofone e orquestra.
- Como é que você sabe, Joelzinho?
- Eu fui professor de música.
- Foi professor de música?!
- Não foi bem de música… fui professor de História da Música…
- Você foi professor de História da Música e está aqui a pedir esmola?!
O saxofone também olhou, admirado.
- É.
- Conte lá, puxa! Como é que você chegou até aqui.
- É simpático da sua parte não dizer “desceu até aqui”. Mas o caso ou acaso é que…
Meteu a mão no esfarrapado casaco e tirou uma pastilha de mentol. Com a mão boa, desembrulhou-a e meteu-a na boca. Chupou um bocadinho e contou:
- Dava aulas e apaixonei-me por uma aluna muito mais nova. Gabriela. Foi uma paixão doida. Passámos a viver juntos e éramos muito felizes. Depois tive um acidente de viação. Fiquei todo quebrado e ela morreu. Levei seis meses no hospital para recuperar… recuperar isto que você vê. Mas tive logo que fugir no dia da alta do hospital pois o pai da Gabriela queria matar-me. Não o podia fazer enquanto eu estava rodeado de médicos, enfermeiros e seguranças. Mas depois podia. O hospital está a mais de mil e quinhentos quilómetros daqui. Vim com o dinheiro do seguro que logo acabou.
- Essa é obra, amigo! Há quanto tempo foi isso? O desastre.
- Há oito anos, 4 meses e seis dias.
- E a culpa foi sua?
- Foi de ambos. Estávamo-nos a beijar.
- Áh!
- Sei que ele tem vindo atrás do meu rasto. Um dia apanha-me.
- Nem pense isso! Ele já se esqueceu.
- Ele era de ideias fixas como um touro e disse uma coisa em que acreditei: “Eu vou até ao fim do mundo para o liquidar!” Não disse “matar”. Disse “liquidar”, o que demonstra muito mais determinação.
O Cláudio tinha que fazer e viu também que o concerto de hoje já estava estragado. Abriu o estojo e guardou o saxofone. Levantou-se e sacudiu as calças das notas que tinham caído do instrumento e que, por isso, não foram tocadas.
Foi quando o Joelzinho se agitou e disse alto:
- E é precisamente hoje.
O saxofonista viu logo um homem possante a aproximar-se deles com uma carabina na mão.
- É o pai da Gabriela – disse o Joelzinho, sem necessidade.

1º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, enquanto o outro disparava. Caíram. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele.
Porque o saxofonista estava morto com um tiro em pleno peito.

2º. Final
Imediatamente o Cláudio se pôs à sua frente, com o estojo contra o peito seguro pelas duas mãos. O touro disparou e o Cláudio caiu sobre o Joelzinho. O povo da rua agarrou o homem e desarmou-o, esperando pela polícia.
Joelzinho estava vivo mas não se podia mexer com o peso do Cláudio em cima dele. Cláudio então levantou-se a custo, olhando horrorizado para o estojo desfeito e o saxofone furado pela bala que era para ele.
Ficou vivo mas sem saxofone.

Álvaro B. Marques

Friday, August 15, 2008

LISBOA DE OUTRAS ERAS

Orlando Batista é talvez o mais premiado fotógrafo amador português. Dele recebi hoje este mail, onde a sua cultura, humor e fino olho à Balzac estão bem patentes.

"Gosto de Lisboa em Agosto! Tudo mais calmo, quase sem trânsito e mais provinciana que nunca. Afivelámos o ar aparvalhado e desorientado dos turístas, e resolvemos andar-por-aí, para ver que "piada" os gajos acham a isto! Fomos ao Bairro Alto ( de dia ); a Acrópole lusitana. Extasiámo-nos com as decadentes ruínas: prédios a cair, janelas e portas partidas; ruas primorosamente borradas com graffitis de bom gosto; frases de grande sentido moralístico e informativo, sobre a integridade de políticos e suas veneráveis mãezinhas; caixotes de cervejas e refrigerantes, à balda pelas ruas- as lojas são pequenas, não há espaço...-, etc. Lindo de ver! Também fomos ao "Armazém do Berardo" ( vulgo CCB ). Com muita sêde de cultura, admirámos com reverência e concentradamente- conforme viamos os outros fazer- aquelas m...maravilhas que o "mecenas" resolveu "oferecer-nos". Não percebi nada daquilo, mas gostei muito! Ah! Para os não "connaisseurs" um aviso: os magníficos extintores da entrada, não fazem parte das obras da colecção! E com a alma e a barriguinha consoladas de tanto gozo e "coltura", refastelei-me a bebericar um Whiskey (é irlandês)."

Monday, July 28, 2008

A MINHA TIA RITA

“A generosidade perdeu o direito à cidadania, pelo que existe um enorme défice de personalidades não-normalizadas. Torna-se necessário e urgente falar desse tipo de pessoas.”
Maria Assis.

A minha tia Rita era casada com um polícia sinaleiro, daqueles de capacete branco e bastão da mesma cor. Morava ela no Bairro Alto, na Rua da Barroca, e era amiga de todas as pequenas dessa rua e ainda da rua de cima e também da rua de baixo.
A Tia Rita ia lá a casa todos os meses ver “os seus meninos” – que éramos nós. E trazia prendas para todos. Também para os crescidos.
O marido dela, o meu Tio Abílio, era um homem muito grande, pachorrento e vermelhusco. Ela era pequenina e rabina. Ela e ele moravam numa casa minúscula, melhor dizendo, acanhada. A divisão maior era o quarto com a cama, que o ocupava quase todo, tapada com uma colcha espanhola e, junto às almofadas, um boneco sentado: um polícia sinaleiro. Ela era portanto possuidora de dois sinaleiros: um de carne e osso e outro de papelão pintado, com capacete e bastão. Um bom trabalho de miniaturização, já que as suas faces tinham duas rosetas vermelhas e os olhos bolbudos e pouco listos tal como o Tio Abílio.
A Tia Rita era uma santa criatura. Solidária, fraterna, amiga de toda a gente. Atendia a todas as pequenas com aflições, aconselhava e adinheirava. Ajudava a vestir as que iam para festas e, quando se deslocava aos armazéns da Calçada dos Cavaleiros, ali à esquerda de quem sobe, comprava sapatos para elas e para todos nós. Por estas e não por outras, levava uma tareia todos os meses quando dizia ao marido que já não tinha dinheiro do salário que ele lhe depositava religiosamente nas mãos, guardando um muito pouco quase nada para ao seus gastos pessoais que, na verdade e segundo ela, eram insignificantes.
À chuva, vento, sol abrasador, frio de tremer os ossos, aquele homem cumpria o seu mister compenetrado e uma vez eu vi-o a trabalhar. Saia da escola 64 em São Mamede e ele lá estava a dirigir o trânsito naquele cruzamento. Fiquei parado a vê-lo gesticular. Era impressionante. Enorme, braços para um lado, braços para o outro, apito de partida de comboio, e os carros a gasolina e a electricidade a obedecer. Disse ao colega da escola que estava ao meu lado:
- Aquele é meu tio.
- Ó tio!!! – berrou logo ele irreverente. Era o Bernardo, claro. O maior bronqueiro da turma a quem o professor, o senhor Júdice, passava largos raspanetes, mas nunca lhe bateu. Aliás, nunca bateu a ninguém.
Fosse pelo berro do Bernardo, fosse por qualquer outra razão, o meu Tio Abílio olhou para a nossa esquina e viu-me. Continuando a comandar o trânsito, sorriu e disse-me adeus. Ele sabia que todos gostávamos mais dela do que dele, mas não se importava. Era um homem pachorrento. Só perdia esta característica quando a mulher lhe gastava a féria a uma velocidade supersónica, que ela também não era assim tão gorda que durasse por aí além.
Com pena das tareias que ela levava, a minha avó, sua irmã, um dia disse-lhe para ela lhe entregar a féria e que lhe daria um tanto por semana para governo da casa. A Tia, limpando a lágrima que lhe escorria do olho negro, disse que estava bem, que era melhor, lá isso era.
E o trato fez-se. No começo do mês seguinte foi lá a casa a Tia Rita e entregou à avó o dinheiro do mês. Ficámos todos contentes. A nossa querida Tia ia começar a saber governar a casa e não apanhava mais do Tio.
No sábado da semana seguinte, lá passou por casa aos beijos aos “meus meninos” e levou a parte salarial combinada. Mas, no sábado seguinte não apareceu. Especulou-se muito sobre o que teria acontecido, especulação que terminou logo no domingo de manhã, quando abrimos a porta da rua e lá estava o Tio Abílio, enorme mas acanhado, não queria entrar mas entrou e disse logo à minha avó e cunhada dele, que vinha buscar o dinheiro remanescente.
- A senhora não a está a ajudar. Ela arranjou dívidas até ao pescoço, por todo o bairro. O dinheiro que a senhora me vai dar não chega para as liquidar. – e via-se no olhar que a tinha já tosado.
Por isso sempre gostei muito da minha Tia Rita e esta é uma maneira simples de o dizer. Amo-a e admiro-a desde criança. Se não fosse assim, como poderia estar aqui a escrever sobre ela com lágrimas nos olhos?

Álvaro Belo Marques

(In TempoLivre – Inatel)

Monday, April 07, 2008

LAVAGANTE - de José Cardoso Pires - Ed. Nelson de Matos

Com a devida vénia, transcrevemos hoje a crónica de Fernando Paulouro das Neves no "Jornal do Fundão", sob o título "Agora, José!"

NÃO foi sem um frémito de emoção que fui à leitura das páginas de José Cardoso Pires (Lavagante – encontro desabitado) que o editor Nelson de Matos, amigo do autor, retirou do esquecimento para nos oferecer como breve compensação da ausência de dez anos que já levamos do grande criador de O Delfim e de tantas outras inesquecíveis obras de ficção. À distância do tempo, e quando o lemos, mais se grava a compreensão de que poucos escritores marcaram, como Cardoso Pires o fez, o ofício de uma escrita moderna, depurada na exigência da palavra certa e definitiva, que por isso se torna luminosa, avessa a tudo aquilo que é espúrio ao chão verbal da realidade que se transfigura na narrativa ficcional. Esse fascínio, que percorre toda a estrutura formal do acto literário de Cardoso Pires, tantas vezes cinematográfico pelo pulsar dinâmico da narrativa, que faz o leitor mergulhar na densidade dramática do texto, é um contributo de modernidade que o autor de Balada da Praia dos Cães trouxe a uma ficção tradicionalmente enredada em naturalismos paroquiais, ainda que às vezes disfarçados de arcaísmos líricos, ou em propósitos documentais que nem sempre escapam à contingência do panfleto. Em José Cardoso Pires, tudo é diferente. No lavrar fundo da palavra adivinha-se o drama existencial da procura essencial, até ao osso, desse Portugal que a poesia de Alexandre O’Neill configura na denúncia de um tempo vivido ao contrário dos ponteiros do relógio da história, ou no trabalho oficinal, à volta do texto, sempre na procura de uma dimensão criadora que foi também angústia de autores como Aquilino ou Carlos de Oliveira. José Cardoso Pires percorreu essa aventura como um compromisso permanente. E essa inquietação primordial, comum ao acto da sua escrita, é a sua grande modernidade. É estranho, por isso, que nestes dez anos se tenha abatido sobre a sua obra tanto silêncio. O facto da obra de Cardoso Pires tipificar, com grande argúcia e sobriedade, persistências ideológicas de cariz reaccionário e, ao mesmo tempo, reflectir tão fundamente sobre a realidade portuguesa – nos seus tiques de bafienta sacristia ou de provincianismo urbano envernizado pelo convencionalismo – o que a torna incómoda, contribuirá decerto para o assassinato do silêncio. Lavagante encontro desabitado é uma pedrada nesse esquecimento e, só por isso, devemos estar gratos a Nelson de Matos. A narrativa, cuja versão final Cardoso Pires não chegou a dar à estampa – é um belíssimo reencontro com a arte de contar uma história, como só ele sabia fazer. Ainda por cima com aquela dimensão simbólica da parábola (a alusão à vida dos lavagantes e de como eles alimentam as presas conduzindo-as ao destino de uma prisão dourada, para as devorar depois, é notável) que em Cardoso Pires é um recurso de significado excepcional em muitas obras escritas, como esta, antes do 25 de Abril! A própria história, a prisão do amigo político, a figura do Sapo, a duplicidade de Cecília, ligando-se ao repressor do amante para salvá-lo (“mas eu não podia suportar por mais tempo a ideia de estares fechado numa prisão, tu que tanto gostas de viver”) o quotidiano sórdido da comarca portuguesa com vidinha entre grades. A descrição de Lisboa a seguir a um Primeiro de Maio sangrento, é magistral: “Mas nesse dia 2 de Maio, a multidão da Baixa andava aos céus e às águas luminosas do Tejo: olhava as fachadas dos edifícios salpicados de balas; operários dos subúrbios e casais de vida repousada desceram, curiosos, dos seus bairros para visitarem as ruas onde se tinham dado os motins da véspera”. Leio e releio as páginas. É o meu velho Cardoso Pires a bater-me à porta da memória. Evoco a sua enorme coragem cívica, o seu compromisso de sempre com a Liberdade. Olho para antigamente, recordo conversas e palavras que ficaram para sempre. Vou à procura delas. Num dos seus últimos textos, escrito por sinal nestas páginas. Cardoso Pires despedia-se de José Rabaça e dizia: “Saudades de mim”. É o que eu agora sinto ao regressar ao pulsar criador do meu Amigo José.

Thursday, March 27, 2008

GUEBUZA NÃO


Do jornal "Canal de Moçambique" de hoje, publico com a devida vénia, uma crónica póstuma do jornalista Carlos Cardoso, assassinado barbaramente a rajadas de metralhadora.

Via Ripua, mais uma vez passamos a
conhecer assuntos intestinais do partido
Frelimo, discutidos, em surdina lá dentro.
Desta vez, é a sucessão de
Chissano. Ripua quer Guebuza. Já o tinha
proposto Primeiro-Ministro.
Na nossa opinião Guebuza não. O
nosso parecer assenta em dois factores:
1. As pessoas têm medo de Guebuza.
2. Ele foi, talvez por uma razão de
causa e efeito, o primeiro factor, um dos
ministros mais incompetentes a passar
pela governação da Frelimo. Onde tocou,
estragou.
Vamos à questão do medo.
É verdade que Chissano tem gerido
a presidência com um grau de hesitação, por
vezes prejudicial para o país. Mas com
ele na presidência desde 1986
Moçambique foi praticando níveis de
liberdade de expressão. E hoje está bem
evidente quanto melhorou na governação,
a pauta aduaneira por exemplo, fruto do
uso crescente dessa liberdade.
Via debate, o país foi encurtando o
caminho para consensos e assim se
arranjaram algumas soluções.
Moçambique precisa, pois, de um
presidente, cuja personalidade, ainda que
menos hesitante do que a de Chissano
seja pelo menos tão aberta ao diálogo
como a dele.
Guebuza tem sido o contrário
disso. As pessoas calam-se por causa
dele. Não tem nem um décimo da postura
de Chissano no tocante a aceitação de
crítica contra ele.
A governação do país ficaria
Guebuza não
seriamente prejudicada com um presidente
inspirador de-temor-e revolta-entre os
cidadãos.
Em segundo, mas não menos
importante, lugar, a questão da
incompetência. Armando Guebuza tem
sido mau gestor da coisa pública. Como
Governador de Sofala pôs em perigo o
relacionamento com Portugal.
Como ministro do Interior, adoptou
para a operação produção, um método que
anulou qualquer hipótese para a
concretização das intenções que lhe deram
vida (pese as responsabilidades do
presidente Samora Machel numa
conceptualização apressada do programa).
E nos transportes Guebuza cruzou
os braços perante o alastramento
impetuoso do roubo e da corrupção,
levando entre outros males, a uma quebra
terrível do tráfego via porto de Maputo e
ao desmoronamento quase irreversível da
LAM.
No partido Frelimo há outros
sucessores possíveis para Chissano, apesar
de nenhum deles, depois da morte de
Samora Machel, ter defendido o país,
contra a pilhagem desenfreada das nossas
riquezas, tem no seu CV muitos mais
méritos do que Guebuza para o cargo do
PR.
Por outras palavras, a transição pós-
Chissano pode ser pacífica. Mas, a escolha
final é a dos eleitores. Pelo menos enquanto
Guebuza não for PR.
(In «Metical» de 15 de Julho de 1997,
Carlos Cardoso) (*) Publicação a título
póstumo. O autor foi assassinado a 22 de
Novembro de 2000

Monday, March 24, 2008

ESPÍRITO SANTO DE ORELHA

O Fiat 500 decrépito estava sempre estacionado no mesmo sítio, no largo fronteiro ao Convento de Mafra. Sabia que era o do padre e, soube-o mais tarde também, que ele parava sempre ali não por gostar daquele local, mas sim por falta de gasolina.
Aliás, qualquer observador mais atento veria que as suas vestes eram incrivelmente pobres, russas, passajadas e, sem querer fazer humor, de ver a Deus. Este padre, por minha bondade monsenhor, talvez primo do D. Quixote de Graham Green tinha, no jogo do bilhar francês, um vício vigoroso, que o deveria fazer sofrer mas do qual, aparentemente, não se conseguia livrar, ou era semanalmente absolvido em confissão. Mas isto, claro, na hipótese de ele o considerar um vício e, mesmo que sim, desejar livrar-se por feiura e irrespeito pela profissão. Especulações que nós os seis, milicianos sanguíneos guelrosos e esquerdistas em Mafra, às vezes colocámos como tema de desfastio, à mesa do café.
Pois muitas noites chegava monsenhor, passava por entre as mesas sem que alguém desse por ele, sentava-se na primeira cadeira livre que ao caminho se lhe oferecia e, bebendo um café, punha-se a ver os jogos que se desenrolavam na mesa de bilhar, completamente absorto em tudo o mais que o rodeava para além de Deus.
Por qualquer motivação para nós desconhecida, mas não muito distante da alegria e barulho que caracterizava todas as noites a nossa mesa, monsenhor foi-se colocando cada vez mais próximo de nós. Isso notámos. Ele olhava para o bilhar mas deixava descair um ouvido orientando-o para o nosso lado, por certo necessitando um pouco da nossa juventude e irreverência. Mas não era velho; parecia, isso sim, velho, acabado, estafado, esgotado. Quarenta e tal anos, talvez, para fazer a pé, como soubemos pela empregada da pensão, as diversas freguesias dando a extrema-unção e outros carinhos de seu mister, a qualquer hora do dia ou da noite, ao sol e à chuva e ao frio. Por certo um santo homem com o vício do bilhar e sem dinheiro para o alimentar.
Tinha outro vício ainda que já me esquecia de vos referir: o santo fumava. Muito. Talvez ele poupasse na gasolina para o tabaco e para o bilhar, mas isto já pode ser considerada uma opção maldosa de um ateu, mas a sua fama de bom padre (há padres maus?), dedicado, fraterno, amigo e confidente dos seus paroquianos, fazia a empregada contadora arredondar os olhos negros e aumentar a beleza da sua expressão louçã. “Um santo, é o que lhes digo, meninos! Um santo!”
Uma noite acabei uma partida de bilhar e fiquei sem parceiro. Perguntei a monsenhor se queria jogar mas com uma condição, e ele que sim que sim e qual. Irreverente, talvez deseducado, mas certamente por defesa, disse-lhe que nem ele me falaria de religião nem eu a ele de política. Um trato entre cavalheiros de diferentes credos. Olhou-me bem no fundo dos olhos, talvez procurando-me a alma que, naquelas idades, sei hoje ainda estarem em formação cubista e disse-me com simplicidade: “Está bem.”
Nunca assombrei ninguém a jogar ao bilhar, mas conseguia fazer umas coisas com jeito se estivesse aplicado. Obviamente que lhe propus que fosse “ao perde-paga”. E também obviamente que perdi e que passei a ser o seu parceiro favorito. Entrava no café e já me procurava com os olhos; eu era, bem observadas as coisas, o seu dealer.
E fomos mantendo o nosso trato, poucas frases trocando que não fossem de circunstância, de tabelas, de meteorologia, de efeitos bolísticos, e coisas assim.
E uma noite, na pensão, combinámos ajudar o padre.
Um de nós perguntou se já tínhamos reparado que o Fiat já estava há mais de quinze dias a dormir à sombra protectora do Convento. Alguns que sim. Fomos então comprar uma lata de cinco litros de gasolina e vertê-mo-los no respectivo depósito, enquanto outros vigiavam, não fosse monsenhor ter Espírito Santo de orelha.
O miliciano que verteu a gasolina para o fanado Fiat, ficou com a mão direita molhada, pelo que a todos, espargindo o combustível sobre as nossas fardas enodoadas, nos benzeu: “Eu vos abençoo, meus bons malandros” – disse. Um irreverente acto após uma boa acção.
No dia seguinte à noite, todos queríamos observar o imaculado rosto de monsenhor e, por falta de clareza mental, nos calámos quando ele chegou ao café. Veio, cumprimentou e sentou-se, olhando para a mesa de bilhar. Mas sorria. Ele tinha mesmo Espírito Santo de orelha.

Álvaro Belo Marques

Monday, March 17, 2008

EM BUSCA DO ADAMASTOR

No tempo em que ainda se aprendia Português na Instrução Primária, o nosso livro de leitura para a 4ª. Classe era da autoria de Manuel Subtil, Cruz Filipe, Faria Artur e Gil Mendonça.
Pois não é que ontem a minha irmã, mais velha que eu nove anos e agora com mais de meio século de existência, me saiu a dizer Camões depois do almoço?!
Recordava ela o livro por onde tinha estudado, citando o “Apólogo das Cotovias”, do P. Manuel Bernardes, “A Chegada do Correio”, aquele tão belo texto da “Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Diniz, “A ida para a Escola”, dos contos de Trindade Coelho “Os Meus Amores”, naquele parte tão bonita de “a encomendinha era eu”, “O Estatuário”, do P. António Vieira e ainda, não contente, mas comigo ouvinte atento, disse de cor e com o coração:

“Porém já cinco sóis eram passados
Que dali partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Prosperamento os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.”

Ela e Camões falaram novamente do Adamastor.
Foi então que retornámos, de mão dada, a Abril de 1939 quando, assarapantados, embarcámos para a África no António Delfino, uma luxuosa cidade alemã que dava pelo modesto nome de barco.
Tirando aqueles dois dias habituais, em que se prefere morrer a viver em tais agonias baloiçantes, tudo era pasmo encanto, pois de mar só conhecíamos o que se enxerga da Costa da Caparica, lá para as bandas do Pica Galo.
Quando despertámos daquela doença tenebrosa chamada enjoo, estávamos à vista da Madeira. Quer dizer: nós olhávamos para a Ilha e a Ilha olhava para nós.
Depois de termos visto os miúdos a mergulhar para apanhar as moedas que os outros atiravam (nós não, até porque não tínhamos), desembarcámos para, logo no dia seguinte, embarcar noutro casarão a falar inglês, que se chamava Warwick Castle, rumo a Cape Town, como na altura se dizia em português Cidade do Cabo.
Aqui, no Waraick, foi um tempo giro e divertido. O cozinheiro jogava comigo ao pinguepongue, fumava cachimbo e ia-me ensinando algumas palavras que eu, obviamente, esquecia de imediato. Mas numa das primeiras lições, foi-me mostrando tachos, panelas, caixas de comida e dizendo os respectivos nomes em inglês, que eu repetia em português, rapidamente e sem atenção, pois o que eu queria mesmo era jogar pinguepongue. Assim, e não sei como, ficou assente que biscoitos se dizia em português “gelo”. Nem mais. (Infelizmente, penso que ele nunca teve a oportunidade de desfazer esse engano.)
A nossa mãe não regulava bem da saúde, pelo que lhe dava fome nas horas precisas em que não havia refeições – pelo menos na 2ª. Classe, que era o andar onde habitávamos. Mas tal deixou de constituir um problema. Quando lhe dava essas fomes extemporâneas, eu corria à cozinha e pedia "gelo" ao cozinheiro, que logo me atendia com os melhores biscoitos de Sua Majestade.
E lá íamos de vento em popa, que não precisávamos de vento para nada, quando a minha irmã nos disse que nessa noite iríamos ver o Gigante Adamastor.
O entusiasmo do clã foi geral. Ficámos toda a noite a pé, a olhar para o horizonte, à espera do Gigante, que um senhor chamado Imediato tinha prometido que se veria muito bem e que agora estava domesticado por via do desenvolvimento marítimo e da biologia idem. Que estava tão simpático que, por vezes, até se curvava num respeitoso cumprimento aos navegadores, dizia o safado.
Pois cedo nasceu o Sol e de gigante nada. Como nada também aconteceu a um rapaz que catrapiscava de viés a minha irmã e que de português só sabia dizer “caneta de tinta permanente”. Esteve, na conjugação própria, de binóculos assestados para ver ao pormenor a Linha do Equador e de nós se despediu gritando alto “caneta de tinta permaneeeeenteee!”. Tudo gente inteligente, ele e nós, como se depreende.
Tempos depois, já instalados na então Lourenço Marques, soubemos que o Warwick Castle tinha sido torpedeado por um submarino alemão, quase à vista do Brasil e que morrera a quase totalidade da tripulação e dos passageiros.
E foi assim que neste almoço ameno, com base num honesto Bacalhau à Gomes de Sá, eu e a minha irmã recordámos o nosso livro de leitura, a Instrução Primária, Camões e o Adamastor. E a nossa meninice.
Álvaro Belo Marques
(In TempoLivre - Inatel)

Tuesday, March 11, 2008

O AVEJÃO (1)


Um enorme e estranho avejão mira do alto dos céus os homenzinhos cá em baixo. Parece – aos tais homenzinhos –, uma águia gigante, preta e ameaçadora. Mas ela não está totalmente parada, não. Ela caminha lentamente para Sul. Devagarinho. Sinistra na sua quase imobilidade.
Durante a noite o avejão muda de poiso. Podemos acordar com ele sobre o Algarve, albatroz gigante de asas aparadas olhando-nos e lançando os seus malefícios. Por exemplo
Ontem estava sobre S. Sebastião do Escoural. Por acaso cruzei-me com Silva Pinto, que estava na sua rua a apanhar chuva, quando embato no professor Peter, de calções, apesar do tempo, e de boné alentejano sobre a testa. O avejão parou a ver e a ouvir.
- Olá, professor, que faz por aqui?
Sorridente respondeu-me, olhando para cima, para o avejão.
- Estatística, meu caro. Conto pessoas.
Foi assim tal e qual como vos estou a contar. O barco já ia longe quando dou por mim a analisar a cidade vista da barra – tão bonita como qualquer outra, claro. Não havia Sol nesse dia. A sombra do avejão parecia ter aumentado nos últimos tempos e isso notava-se na imprensa e nas notícias da televisão.
- Vai arrancar o Festival da Canção – disse ela toda contente como se lhe tivesse saído o euromilhões.
A dona Margarida voltou-se para a turma, que éramos nós, e disse:
- Sujeito: Festival da Canção. Predicado: arranca. Arranca o quê?
E a turma toda, incluindo o gago do Artur:
- Pregos!
Cinco dias depois o avejão estacionou sobre a capital que ficou mergulhada numa tonalidade cinzenta-clara. Os meteorologistas disseram pela televisão, pois claro, que não era nada, apenas fenómenos atmosféricos sem importância por causa de uma depressão situada no peito dos portugueses continentais, a noroeste do peito dos açorianos insulares.
Os portugueses continuaram a fazer as suas vidinhas, muito preocupados com os respectivos carros enquanto fui dar com o professor Peter sentado com o Fernando Pessoa, os dois a conversar em voz baixa. É evidente que o professor já falava muito bem português, ao contrário do Pessoa. Puxei uma cadeira e sentei-me ao pé deles. Dizia o mestre:
- É como lhe digo meu caro Poeta. Este avejão, esta nuvem negra e enorme, há décadas que esparge o vírus da incompetência. Todos estão aos poucos a atingir esse nível. A democracia virou mediocracia. O Zé Povinho já não faz manguitos e a Amália já morreu.
E o Poeta:
- E o que tenho eu com isso?
- Ó homem, isto é a gente conversar.
Vim-me embora. Que adiantava estar ali a ouvi-los?
Se todos tínhamos atingido já o nível de incompetência, o melhor era comprar casa a 40 anos e, depois de paga e de fome pelo meio, viver nas ruínas. Pois então.

Quando me der na gana escrevo o Avejão (2)

A.B.M.

Monday, March 10, 2008

"PERGUNTAS À LÍNGUA PORTUGUESA"

Com a devida vénia, trascrevemos hoje um delicioso artigo do escritor moçambicano Mia Couto, publicado no semanário "Savana" (Moçambique).

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-daguarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos
simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo.
Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite
em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior
vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.

Thursday, February 28, 2008

DANIEL MAQUINASSE, O FIEL GUERRILHEIRO

Levávamos já algumas semanas de trabalho quando Daniel Maquinasse me deu a sua primeira lição. Lição de respeito e de dignidade.
Tínhamos à nossa frente, numa ampla mesa rectangular, milhares de fotografias a preto e branco, de vários formatos e tonalidades, sobre Moçambique e a sua guerra de libertação. Sob a orientação de um quadro político superior mas também ele um amante da fotografia e um esteta, fazíamos a selecção das fotos que deveriam figurar no livro do III Congresso.
Como é de prever, a maioria das fotos era comentada para meu esclarecimento. Quando não o faziam livremente e a minha curiosidade apertava, não hesitava em perguntar.
As fotos eram divididas por temas, um monte para cada, levando-nos muitas vezes a seleccionar um e voltar a vê-las para segundas e terceiras escolhas. Pois numa dessas passagens, voltei a deparar com uma bonita e elegante enfermeira, impecável na sua bata branca, sob um alpendre que me pareceu camuflado. Não resisti ao comentário pouco feliz:
- O camarada Maquinasse, apesar de todas as dificuldades na guerrilha, tinha boa assistência médica. Muito boa.
Ele, homem alto e entroncado, forte, pegou na foto, mirou-a (saudade?) e disse-me com uma ponta de censura:
- É mamana. De três filhos.
Sabendo já o respeito do moçambicano pelas mães, um título reverenciado e sempre respeitado, apressei-me a desculpar-me pela minha ignorância.
Primeira lição.

Este trabalho para O Livro do III Congresso continuou por várias semanas, de tarde e de noite, fazendo-nos mais próximos e amigos, como é natural. E um dia perguntei-lhe:
- O camarada Maquinasse com que máquina fotografava os objectivos?
Olhou-me por um momento, vendo onde eu queria chegar. Como na esteira do seu olhar não vislumbrasse maldade ou ironia, respondeu:
- Câmara normal com uma lente 50.
Tive autenticamente um sobressalto.
- Uma 50?!
- Sim, uma 50.
- Mas com essa objectiva, tinha de se colocar a poucos metros dos alvos para sair alguma coisa com utilidade militar… Mesmo junto das tropas e dos quartéis dos militares portugueses. Quase um suicídio…
- É verdade, mas eu não tinha outra…
Um herói, de poucas palavras e muita dignidade. Um guerrilheiro assumido e consciente das suas obrigações e tarefas.
Segunda lição.

Em outro momento de conversa, querendo mostrar o meu “africanismo”, sempre lhe fui contando que em miúdo, quando passava todas as manhãs pela Escola Primária na antiga Lourenço Marques, apanhara matacanha.
- Sabe lá, camarada Maquinasse. Aquilo dói e ao mesmo tempo faz uma comichão dos diabos. Era no dedo grande do pé direito. O mainato, com uma agulha, enquanto me explicava a cirurgia, avisava que deveria haver o cuidado de não rebentar a bolsa para que os bichinhos não se espalhassem pelo pé.
Ele sorria com a explicação. Depois emudeceu. (Agora sei que considerava se devia ou não contar-me.)
– Matacanha… O camarada Belo Marques não sabe o que é matacanha. Eu e quase todos os guerrilheiros estávamos com os pés cheios. Não era só num dedo… era em todos! Quando tínhamos tempo e havia petróleo, encharcávamos os pés… - e continuou a recordar muito sério, como era seu hábito – fazíamos dezenas de quilómetros… quarenta, cinquenta…
- Com matacanha nos pés?!
- Sim. Tínhamos de assentar o calcanhar primeiro… andar nos calcanhares…
- Isso era muito doloroso…
- E com um morteiro ligeiro ao ombro…
Abnegação e sofrimento. Em silêncio, sem alardes.
Terceira lição.

Soube que o Daniel Maquinasse todas as manhãs, de fato de treino, corria na marginal e subia a barreira. Era um bom exercício físico para um jovem, não para o Maquinasse. Como já tinha um certo à-vontade com ele, falei-lhe nisso. Calmo e sério, como sempre, respondeu-me:
- Faço isso, sim. Nunca sei se o camarada presidente vai precisar de mim. Não podemos saber, não é? Sou seu guarda-costas em vários momentos. Não sei se haverá outros e quero estar em forma se ele me chamar.
Na verdade, quando o Presidente Samora fazia férias no Bilene, era o Maquinasse que o acompanhava a nadar, um pouco mais atrás e vigilante.
Fidelidade e respeito.
Quarta lição.

No dia 19 de Outubro de 1986 foi assassinado Samora Machel.
Daniel Maquinasse, o fiel guerrilheiro, morreu com ele.

Álvaro Belo Marques
(In Savana, ssemanário de Moçambique)

Wednesday, February 27, 2008

UM POVO IMBECILIZADO E RESIGNADO...

"Um povo imbecilizado e resignado,
humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo,
burro de carga,
besta de nora,
aguentando pauladas,
sacos de vergonhas,
feixes de misérias,
sem uma rebelião,
um mostrar de dentes,
a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante,
não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim,
que eu adoro,
porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso
da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta (...) Uma burguesia,
cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens
que, honrados (?) na vida íntima,
descambam na vida pública
em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia,
da mentira à falsificação,
da violência ao roubo,
donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...) Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do país,
e exercido ao acaso da herança,
pelo primeiro que sai dum ventre
- como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara
ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (...),
sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes (...)
vivendo ambos do mesmo utilitarismo
céptico e pervertido, análogos nas palavras,
idênticos nos actos,
iguais um ao outro
como duas metades do mesmo zero,
e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"

Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896

GLOSSÁRIO:
SEVANDIJA - PARASITA
VENIAGA - TRAFICÂNCIA

Thursday, February 21, 2008

TAL COMO AS TRÍFIDES

O Dia das Trífides é uma história assustadora. Não se pode esquecer mais. Toda ela. Mas o começo… a dona da casa, na cozinha, que olha distraidamente para as traseiras da casa e tem a sensação de que há qualquer coisa que se mexe, que muda de lugar. Mas, quando olha mais atentamente, não vê nada… sente apenas que o cenário mudou.
São as Trífides que se aproximam. Plantas altas e inteligentes, num figurino próximo de um girassol gigante, que irão perturbar o equilíbrio social (se é que ele existe), do Homem na Terra. Começa por o dominar pelo insólito, pelo medo e, finalmente, pela sua força e unidade. Força consciente, precisa, determinada. As Trífides serão os ditadores inflexíveis e sanguinários, os justiceiros cegos, desde o momento em que se unem. Uma história inquietante de John Windham.
Pois, quer eu queira quer não, estou a ver as Trífides. Todos os dias as vejo. À mesma hora. Da minha janela ampla e rasgada vejo, ao final do dia, a chegada das Trífides, em bandos, aparentemente desorganizados. Não vêm marchando marcialmente, como soldados, alinhados pela esquerda, e de passada firme e rítmica. Não vêm subtilmente, suavemente aos poucos, deslizando, cercando, caminhando pedaço aqui, pedaço ali, palmo a palmo. Não, senhores. As minhas Trífides vêm em bandos desorganizados, mas firmes e determinadas. E não se ocultam, não disfarçam a presença.
Quando o sol começa a recolher-se, entre belos clarões vermelhos, aí chega o bando de crianças rotas, esfarrapadas e, obviamente, esfomeadas, percorrendo o bairro e investigando o conteúdo dos caixotes do lixo. Esqueletos mal cobertos, ventres amplos, olhar astuto (próprio do esfomeado ou do assaltante), miram de longe as vivendas importantes deste meu bairro. Depois disputam aos cães aquele osso de costeleta e, a mim, aquele pedaço de paz consciencial que a todos nos parece assistir, aquando das antigas e remotas sinadas das Trindades. Dominus…
Lá estão elas agora no meu caixote do lixo. Olha a minha lata de cerveja vazia! Olha como a casca do meu queijo de ontem, é alimento daquela pequenina Trífide hoje.
O lixo das pessoas é coisa íntima, recatada. Ninguém gosta de ver o seu lixo devassado. Quando estas Trífides de palmo e meio e barriga inchada mexem no meu lixo, sinto-me nu, roto também e muito vulnerável.
Olha agora a lata vazia de leite condensado! Olha o arroz velho que foi embrulhado num jornal que dizia haver muita fome em África. Era um restinho de arroz de fundo queimado. Mas foi dividido à força pelas Trífides.
E cerro cobardemente as cortinas. Mas oiço-as ainda. Murmurando, discutindo, dividindo aos gritos, raspando, comendo. Com as cortinas fachadas continuo a vê-las, com o seu famélico aspecto, invadindo esta cidade que é menos minha que delas.
É que delas será totalmente um dia, sem benevolências, sem compaixão, sem um sorriso. Tomarão em breve conta desta cidade, não através dos caixotes de lixo, mas através da sua nudez, com fome de uma certa justiça social que, não sabendo o que é, mesmo assim a imporão. Implacavelmente. Quem tem razão, fere. Por vezes mata.
Aguardai, senhores, nos vossos leitos confortáveis e razoavelmente amenos pelas Trífides.
Elas, tal como as de John Windham, estão atentas, à espera.
Agora é o final do dia, em bandos aparentemente desorganizados. Amanhã será logo ao nascer do sol, organizadamente, com a consciência de que têm razão.
É isso.
Senhores dos Acordos, dos Protocolos, das Reuniões, da OUA, dos aviões pessoais, dos diamantes, do gás. Senhores dos fatos feitos em seda italiana, das sociedades anónimas formalizadas à pressa, dos donos dos países partilhados de helicóptero. Senhores das espingardas, das minas pessoais, dos subsídios, dos Gabinetes, dos discursos: durmam agora enquanto não vêm as Trífidas.

Álvaro Belo Marques

Thursday, February 14, 2008

SÃO TÃO BONITOS OS POBREZINHOS!

Do "Jornal do Fundão" de 7 deste mês, transcrevemos a crónica do seu director, Fernando Paulouro Neves.


NA TARDE da última sexta-feira, frente à sede do Millemium BCP, havia um estranho jogo de roda, com cartazes e palavras de ordem. Eram figuras de smoking e cartola, numa “cegada” de solidariedade aos “capitalistas oprimidos”. A acção tinha a assinatura dos jovens do Bloco de Esquerda e os sorrisos dos passantes eram sinais de assentimento à carnavalização da política e às negociatas fabulosas de que “A Visão” dava conta na última edição. Que outra coisa poderemos fazer senão chorar!
Eram vozes condoídas, um coro de protesto, palavras ao vento contra essa grave injustiça do senhor Jardim Gonçalves ter embolçado 28 a 30 milhões de euros de bónus e prémio de fim de carreira, mais 100 mil euros mês de reforma, carro e motorista, e, já agora, viagens de avião, equipa de seguranças (mínimo 10). Mas logo o chorinho comove quando vem à baila o caso do senhor Paulo Teixeira Pinto ter saído do BCP com uma indemnização de 10 milhões de euros e mais a reforma vitalícia (14 meses) de mais trinta e sete mil e quinhentos euros. Coitadinho! Choremos todos pelas dificuldades de sua excelência. E que dizer do senhor Miguel Horta e Costa que ganhou cerca de 2,4 milhões de euros por não renovar o mandato na PT ou de Miguel Cadilhe que também levou 1,75 milhões de euros, de compensação por ter saído do BCP embolsando ainda mais 25 a 30 mil euros por mês de reforma! Havia uma expressão que antigamente se dizia para retratar estas situações: é fartar, vilanagem! Mas num país tão brando de costumes, que aceita todas as cangas e escandaleiras, ainda por cima com aquela filosofiazinha amoral que se compraz na exclamação: os gajos são espertos!, para que outra coisa podem servir estes casos de proveito e exemplo senão para uma boa carnavalada!
Há quem lhe chame país catita, ou choldra. Mas não deixa de ser estranho que ainda nos venham dizer que estes sujeitos (alguns metidos em grossas trapalhadas) são melhor pagos – muito melhor! – do que os congéneres na Alemanha... Que dizer desta imoralidade quando todos (ou quase todos) sabemos que vivem por aí, numa sombra conveniente ao poder, dois milhões de pobres e que todos os dias cresce o número de novos e velhos que se acercam dos caixotes do lixo na vaga esperança de encontrarem qualquer coisa para matar a fome!
Fernando Paulouro Neves

Monday, February 11, 2008

AZAGAIA

RAP MOÇAMBICANO

http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=5616&Itemid=129


E se eu te dissesse
Que Samora foi assassinado
Por gente do governo que até hoje finge que procura o culpado
E que foi tudo planeado
Pra que parecesse um acidente e o caso fosse logo abafado
E se eu te dissesse
Que o Anibalzinho é mais um pau mandado
Que não fugiu da Machava mas foi libertado
Pelo mesmo sistema judicial que o tem condenado
E o mais provável é que ele agora seja eliminado
E se eu te dissesse
Que Siba-Siba,
Coitado foi uma vítima
Da corja homicida
Que matou Cardoso na avenida
Não Aníbal e a sua equipa
Condenados pelos media
Mas a mesma que deixou
Pedro Langa sem vida
E se eu te dissesse
Que Moçambique não é tão pobre como parece
Que são falsas estatísticas
E há alguém que enriquece
Com dinheiros do FMI, OMS e UNICEF
Depois faz o povo crer
Que a economia é que não cresce
E se eu te dissesse
Que a oposição
Neste país não tem esperança
Porque o povo foi ensinado a ter medo da mudança
Mas e se eu te dissesse
Que a oposição e o governo não se diferem
Comem todos no mesmo prato
E tudo esta como eles querem
E se eu te dissesse
Que a barragem Cahora Bassa não é nossa
É dum punhado de gente que ainda vai encher a bolsa
E se eu te dissesse que há jornais
Que fabricam informação
Pra venderem mais papel e ganharem promoção
E que são os mesmos que nos vendem
Aquela imagem de caos
Que transformam simples ovelhas em lobos maus
E se eu te dissesse
Que há canais de televisão comprometidos
Com o governo e só abordam os assuntos permitidos
Que esses telejornais já foram todos vendidos
Vocês só vêm o que eles querem
E eles querem os vossos sorrisos
E se eu te dissesse
Que o Sida em Moçambique é um negócio
ONGs olham pra o governo como um sócio
Refrão: Porque nem tudo que eles dizem é verdade--é verdade
Porque nem tudo que eles não dizem não é verdade--é verdade (2x)
Eles fazem te pensar que tu sabes-- mas não sabes
Cuidado com as mentiras da verdade--é verdade

II
Se eu te dissesse
Que a historia que tu estudas tem mentiras
Que o teu cérebro é lavado em cada boa nota que tiras
Que a revolução não foi feita só com canções e vivas
Houve traição, tortura e versões escondidas
E se eu te dissesse
Que antigos combatentes vivem de memorias
Deram a vida pela pátria e o governo só lhes conta historias
Quantos nos dias de hoje dariam metade que eles deram?
Em nome de Moçambique, nem os que vocês elegeram
E se eu te dissesse
Que o deixa andar não deixou de existir
Veja os corruptos a brincar de tentarem se impedir
Comissões de anti-corrupção criadas por corruptos
A subornarem-se entre eles pra multiplicar os lucros
E se eu te dissesse
Que as vagas anunciadas já tem donos
Fazemos bichas nas estradas mas nem sequer supomos
Que metade das entradas pertencem a esquemas de subornos
Universidades estão compradas mas que raio de merda somos?
E se eu te dissesse
Que o teu diploma de engenheiro não é pra hoje
Enquanto saem 100 economista, engenheiros saem 2
Lares universitários abarrotados de gente
Vai ver as pautas a vermelho e os docentes indiferentes
E se eu te dissesse
Que neste país os estrangeiros é que mandam
Tem o emprego e o salário que querem ainda mandam
Meia dúzia de nacionais pra rua
É o neocolonialismo da maneira mais crua
E se eu te dissesse
Que a cor da tua pele conta muito
Quanto mais clara, mais portas que se abrem é absurdo
Os critérios de selecção pra emprego
Vais pra empresas tipo bancos e não encontras nem um negro
E se eu te dissesse
Que a policia da republica é uma comédia
São magrinhos, sem postura e se vendem por uma moeda
Agora matam-se entre eles traição na corporação
Afinal de contas quem é o policia, quem é ladrão?
E se eu te dissesse
Que há bancos que financiam partidos
E meia volta aparecem com os cofres falidos...
Refrão (ate ao fim)...

Thursday, February 07, 2008

MOÇAMBIQUE

Do blog de Manuel de Araújo, transcrevemos, com a devida vénia e apreço, a sua "Carta Aberta"


CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPUBLICA A PROPOSITO DA REVOLTA POPULAR EM MAPUTO!
Sua Excia Senhor Presidente da Republica,Excia,Dirijo-me a si, na sua qualidade do mais alto magistrado da nacao!
Excia,Um acontecimento sem precedentes registou-se ontem na capital do país. Pela primeira vez depois da independência nacional a população de Maputo saiu à rua com um único propósito- dizer de forma clara e inequívoca de que já esta farto das instituições estatais e que pelo menos desta vez, iria resolver os seus problemas, usando as suas próprias mãos! Trazendo para si, a solução dos seus problemas! E para surpresa de todos, RESOLVEU!Excia,
como deve se recordar os manuais da teoria do Estado, dizem que o Estado nasceu quando o povo decidiu passar parte da sua soberania para uma entidade própria, em troca de bens públicos -seguranca, estradas, justica entre outras. E que tal entidade exerceria o poder e a soberania 'emprestada' em nome desse povo, estabelecendo assim uma espécie de contrato social, com direitos e deveres de ambas as partes!Só que no nosso caso Excia, parece que o contrato social se rompeu, ou está em vias de se romper. Uma das partes, o povo, cansou-se da ineficiência da outra. Cansou-se e parece que quer recuperar se não toda pelo menos uma parte dos poderes 'emprestados'. Só que Excia, a história mostra-nos que quando o poder cai na rua, as consequências podem ser catastróficas, porque muitas as vezes ao inves de usar a razão o povo pode decidir baseado em emoções, com consequências catastróficas para ele próprio e para o Estado.
Excia, dizia eu que um acontecimento sem precedentes se registou ontem. Um acontecimento que a seu ver pode parecer minusculo, uma pequena ranhura no edificio da democracia. Mas essa ranhura pode ser apenas a ponta do iceberg!Este acontecimento deve ser analisado de forma franca e fria pela sociedade moçambicana. Pela classe académica, empresarial e política, porque pode vir a ter consequencias graves para a legitimidade e sobevivencia do estado mocambicano.Uma coisa é a população de um bairro fazer justica pelas próprias mãos atirando um pneu na rua ou no corpo do suspeito ladrao ou assassino. Outra coisa é a populacao de varios bairros, quase que de forma espontanea sair às ruas e dizer nao a uma medida social.Criou-se um precedente. E o 'recuo' do governo ou de quem quer que tenha tomado a decisao, mostrou inequivocamente e feliz ou infelizmente, que a solucao, por mais racional ou irracional que pareca , FUNCIONA!Ora funcionando entao, a logica dita que pode vir a ser re-activada! E ao ser reactivada quando as circunstancias assim o obrigarem, estará consumada a des-legitimizacao do Estado, que iniciou há anos, mas que ontem atingiu um ponto sem retorno!Excia,Os sinais de uma possivel convulsao social nao sao de hoje. A justica pelas proprias maos, a nao participacao nos actos eleitorais ou seja o elevado numero de abstencoes em momentos eleitorais, o crescimento da criminalidade, sao sinais inequivocos de uma sociedade amordaçada que clama em ser ouvida. Ou, de uma sociedade que no minimo nao tem mecanismos para ser ouvida e influenciar decisoes. E isso é grave. Nao é por acaso que as tampas das panelas tem furos, que permitem que parte da energia proveniente do calor se vá libertando aos poucos. Infelizmente parece que a tampa da nossa panela social tem tais furos entupidos. E cabe a si, enquanto magistrado mais alto da nacao ordenar a limpeza de tais 'furos sociais' para que a força, a energia se vá libertando.Este aspecto deve ser analisado. Recordemo-nos dos varios estudos sobre a situacao social e a possibilidade de erupcao de conflitos violentos em Mocambique feitos por entidades quer nacionais quer internacionais(DfID, Swuiss Peace e outros).
Excia,Gostaria de chamar a sua atencao para um outro ponto. O grau de violencia das manifestacoes, que nao pouparam as suas vitimas fossem elas agentes do estado ou privados. Ou seja a panela estava tao quente (e a populacao tao 'aborrecida') que nao lhe interessavam as consequencias dos seus actos. Foram partidas montras, partidos vidros de carros publicos e particulares, e mesmo um posto de abastecimento de combustivel nao foi poupado! E responsabilidade por estes danos cabe a estado pois é o estado que detem o monopolio da violencia e tem o dever de garantir a seguranca quer dos bens como dos individuos.Mas para mim acima de tudo isto ficou, uma mensagem clara para a sociedade Mocambicana e para a comunidade internacional. O velocimetro que estamos a usar para medir a nossa velocidade nacional; o termometro que estamos a usar para medir a temperatura do nosso corpo nacional, nao é nosso e nem foi feito para seres humanos da nossa especie! A medida para os nossos problemas, o juiz do nosso progresso social nao é e nao deve ser o Banco Mundial! Explico-me Excia,Os disturbios acontecem um dia depois de o presidente do Banco Mundial em pessoa ter visitado o pais (Maputo, Sofala e Inhambane) e ter dado nao apenas uma nota positiva ao governo, mas sim uma nota de despensa!Entao Excia, como é que se explica que depois de despensar com nota de luxo, menos de 24 horas passadas temos a convulsao que temos?Para mim Excia, o povo, esse 'animal' soberano chumbou nao apenas a despensa dos senhores do mundo como dos seus colaboradores nacionais, que V. Excia representa, dizendo com voz propria e bem audivel-BASTA!Reflictamos pois mocambicanos sobre os caminhos a seguir! Tenhamos a coragem e destreza necessaria para longe de emocoes momentaneas ou Mandraianas, discutirmos a sombra da mafurreira ou da mangueira o pais real- o nosso pais real e nao o pais deles. Sim o pais real e nao o ficticio ou das aritimeticas de Bretton Woods.Ja dissemos em varios foruns para quem nos quis ouvir que 'crescimento economico nao e igual a desenvolvimento'!Nao permitamos que o nosso estado se des-legitimize ao ponto de nao servir para resolver os problemas mais elementares da sobrevivencia humana! O povo soberano falou, falta sabermos se os detentores do poder, a classe academica, empresarial e sobretudo a politica tem ouvidos para ouvir! Falta saber se havera destreza necessaria para diagnosticar o mal pela raiz ou entao se uma vez mais esconderemos a cabeca deixando o rabo de fora, dizendo que o 'povo foi instrumentalizado', que o povo foi 'usado' que as manifestacos foram 'organizadas' por forcas externas, os tais e eternos 'inimigos do povo e da nacao mocambicana'Excia,Chega de Quenias, chega de Chades, chega de Liberias, chega de Serra Leoas, Eritreias, Congos!Defendamos a nossa sobrevivencia entanto que NACAO mocambicana! O senhor, como o mais alto magistrado da nacao, tem uma palavra a dizer na forma como é gerida a 'coisa publica'!Aguardamos o seu pronunciamento e quiça o cachimbo da paz social! Sabemos que recentemente fez anos. Tambem sabemos que acaba de celebrar tres anos do seu mandato. Seria de mau tom terminarmos esta carta sem lhe desejamos parabens e 'bom apetite' no consumo da prenda que o povo de Maputo lhe ofereceu ontem!E mais não disse!
Manuel de Araújo
www.manueldearaujo.blogspot.com
"MAXIMIZE HAPPINESS, minimize suffering!"
Tel. +44-(0)-7944733143

Thursday, January 31, 2008

SOMOS IMUTÁVEIS

O meu amigo Rui mandou-me este texto... bem actual.

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.(...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.(...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda duma lotaria. A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto defazer dela saca-rolhas;Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...), vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de estar. (...)"
Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896

Thursday, January 17, 2008

UM CÃO CHAMADO SAUDADE

Quando fomos para o quintal naquela manhã, o cão saltou de contente e lambeu-nos as mãos. Nunca nos tínhamos visto. Chamámos pela mãe e, quando ela viu o bicho, disse que ainda era novinho, que estava bem tratado e completou:
- Deve ter vindo com o vosso pai. Os boémios e os cães dão-se bem.
Resolvida a origem, tratámos de lhe arranjar um nome. Vários foram ditos mas, quando a mãe referiu que o bicho era um fox-terrier, ele levantou a cabeça. Tentámos mais vezes e ele reagia sempre à palavra Fox. Ficou Fox.
Resolvidos a origem e o nome, havia que resolver a co-habitação com dois gatos residentes: o Dom Fuas Roupinho e o Espadinha-até-à-última. Este, de aspecto asqueroso, cheio de pinceladas de amarelo no corpo e com os pêlos do rabo cortados em forma de um raio celeste, terminando em ponta de cauda de diabo, uma ignomínia efectuada por um dos rapazes. Éramos três, com uma menina mais velha a aquietar-nos.
Os gatos residentes, bem novinhos também, fizeram a sua parte encarquilhando a espinha eriçada e bufando. O Fox riu-se para eles bem-disposto. Passados poucos dias já os gatos dormiam, sem qualquer respeito, sobre o seu dorso.
O Fox, como todo o mundo, tinha coisas boas e coisas divertidas. As boas eram as suas maneiras, gostar de nós, ir connosco para a praia, brincar connosco ao “faz de conta que te agarro o rabo”; as divertidas eram as cenas dele a correr atrás dos gatos da vizinhança, ladrando furioso e depois regressar olhando para nós e dizendo: “Vêem como defendo o quartel?” Outra curiosidade do Fox: quando ia com a mãe às compras, era a de não se sentar no chão, fosse ele de que matéria fosse: mármore, alcatrão, madeira. Nenhuma era suficientemente nobre para acolher o seu rabo. Entrava em qualquer loja com a mãe e procurava imediatamente um papel, um bilhete de eléctrico, o que fosse, para se sentar. Um dia, no talho, não encontrando nada para o efeito, sentou-se na biqueira do sapato da mãe. Um cão divertido.
Aos sábados, domingos e feriados, íamos todos com o Fox para a praia da Polana. Tomávamos banho na área protegida contra os tubarões e às vezes os meus irmãos nadavam para a prancha de saltos, montada numa plataforma, com o Fox atrás. Ainda estou para saber por que razão não batiam todos os recordes pois o Fox a nadar, em sua perseguição, arranhava as costas que tinha à sua frente. A mais velha, a menina, tinha as costas dignas de figuração em qualquer filme de romanos contra os cristãos. Um dia ela fez-lhe uma partida: saltou da prancha e, submersa, nadou para a traseira da plataforma. O Fox corria de um lado para o outro, olhando o mar, ladrando e ganindo aflito. Pobre bicho preocupado.
No regresso da praia, cheios de fome e sede, fazíamos, por hábito, escala no “Paraíso” uma quinta abandonada com várias laranjeiras enxertadas em limoeiros. O Fox via-nos a comer limão e também queria. Dávamos-lhe pequenos pedaços que ele enrolava na boca, desgostoso, olhando para nós numa aflição, mas mesmo assim engolindo-os. Valente cão.
E um dia aconteceu o inimaginável: o Fox desapareceu. Corremos os arredores, perguntámos. Ninguém vira. Ninguém sabia. Nem o dono da mercearia. Percebemos que sofria por ter perdido o seu melhor cliente. À porta da loja prantava-se uma lata grande com azeite e chouriços e ele punha sempre alguns na conta da mãe dizendo ter sido o Fox a roubá-los.
Passaram-se dois dias e nada de Fox, para nosso desespero e também para desgosto do Dom Fuas e do Espadinha.
Até que telefonou uma senhora à mãe dizendo que o Fox estava em sua casa, que era afinal a casa do Fox, aliás Peludo. A senhora era casada mas não tinha filhos. Contou que, quando o cão lhe desapareceu, ela e o marido foram perguntando até que descobriram onde aquele figurão se aboletara. Perceberam também que tratávamos bem do bicho e que ele era feliz com as crianças. Disse à mãe que, assim como ele fora à sua antiga casa, o mais certo seria qualquer dia regressar à nossa, para matar saudades dos meninos. E assim foi. Quase passou a rotina: quando lhe dava a saudade, vinha Fox por três meses para o pé de nós. Depois, quatro ou cinco meses vividos, chamava-se Peludo e ia viver com os antigos e verdadeiros donos. Quando a mãe nos dizia de manhã, “Há uma surpresa agradável para vocês”, já sabíamos. Íamos a gritar por ele até lá fora e sujávamo-nos todos nas brincadeiras de rebolar no chão.
Neste momento, o cão não se chama Fox nem Peludo. Apenas saudade.

Sunday, January 13, 2008

A MESA ONDE OS RICOS SE SENTAM

À minha caixa do correio chegou esta bela short story da autoria de Byrd Baylor a qual, com a ajuda de Luís Lemos, consigo fazê-la publicar neste blog. Espero que gostem.
Esta iniciativa de enviar histórias pela Net partiu do
Clube dos Contadores de Histórias
contamoshistorias7@gmail.com


Se nos vissem sentados na nossa mesa de cozinha, feita à mão e toda arranhada, saberiamlogo que não somos ricos.Mas o meu pai está a tentar fazer-nos ver que somos. Será que não vê os meus sapatos gastos? Ou que o meu irmãozinho tem remendos nascalças que leva para a escola?E como explicará ele aquela carrinha a desfazer-se, estacionada à nossa porta?
─ Não consegues enganar-me ─ digo-lhe. ─ Somos pobres. Será que os ricos se sentariam a uma mesa como esta?
A minha mãe, como que acariciando a mesa, diz:
─ Bem, nós somos ricos e sentamo-nos aqui todos os dias.
Às vezes, penso que sou a única pessoa sensata na família. Diga-se de passagem que os meus pais fizeram esta mesa com madeira que outras pessoas deitaram fora. Até festejaramquando a terminaram. Não me interpretem mal: eu gosto desta mesa. Só digo que se vê logo que não veio de uma lojade mobílias. Não tem ar de ser uma mesa à qual os ricos se sentariam. Mas a minha mãe pensa que, se todos os governantes do mundo se sentassem em redor deuma amigável mesa de madeira na cozinha de alguém, resolveriam os seus diferendos emmetade do tempo. E o meu pai diz que não fazia mal se houvesse um lindo prato azul com muitos bolinhos empilhados, que todos pudessem tirar, mesmo sem ter de pedir. Hoje, porém, trata-se da nossa cozinha, da nossa discussão, da nossa reunião familiar, dosnossos bolinhos de gengibre com especiarias, empilhados no melhor prato de flores azuis da minha mãe, colocado exactamente no centro da mesa.
Fui eu que convoquei a reunião, cujo tema é dinheiro; o meu ponto de vista é que nãotemos dinheiro que chegue. Digo aos meus pais que devem ambos arranjar empregos melhores, para podermos comprarmuitas coisas novas e boas. Digo-lhes que faço má figura na escola diante dos outros.
─ Não gosto de ter de falar disto, mas era bom que fossem ambos mais ambiciosos.
Ficam surpreendidos. Vê-se bem que nunca pensam nas coisas de que necessitamos. Devo dizer desde já que os meus pais têm umas ideias estranhas acerca do trabalho. Pensam que os únicos empregos que interessam são empregos ao ar livre. Querem terrochedos, desfiladeiros, desertos ou montanhas em redor deles, onde quer que estejam atrabalhar. Até querem ver bem o céu.Trabalham sempre juntos e a sua ocupação favorita é procurar ouro. Enfiam-nos naquela carripana e lá vamos nós em direcção às montanhas rochosas e desertas ou em direcção aalguma ravina estreita, onde todas as estradas se assemelham a trilhos de coiotes. Adoram caminhar pelas amplas margens de rios agora secos, onde se podem encontrar pequenos salpicos de ouro. Costumavam dizer-nos que a carrinha sabia exactamente que tiposde estrada bater, e que os coiotes lhes indicavam onde procurar ouro, mas eu nunca acrediteineles. Depois de passarem lá um mês ou dois, traziam sempre um pouco de minério para vender, mas vê-se bem que nunca enriqueceram. Pelo que me é dado ver, tratava-se apenas de umpretexto para acampar de novo num lugar selvagem e belo. Não se importam de plantar campos de milho doce ou de alfalfa. Gostam de apanhar pimentão-de-cheiro, abóbora e tomate. Conseguem construir vedações fortes ou domar potrosselvagens. Mas dizem que não aguentam ficar engaiolados em casa. Por isso, o meu pai pergunta:
─ Quantas pessoas há que sejam tão afortunadas como nós? Mas como fui eu quem convocou esta reunião, respondo:
─ Aposto que fariam mais dinheiro se trabalhassem num escritório na cidade.
─ Lembra-te da nossa regra número um ─ insiste o meu pai.─ Temos de poder ver o céu.
─ Podiam vê-lo através de uma janela ─ sugiro. Mas eles nem querem ouvir falar disso. Já percebem porque digo que sou o único membro sensato da família?Finalmente, a minha mãe diz:
─ Está bem, Filha da Montanha. Vamos explicar-te como fazemos contas. Hoje, vais ser a nossa contabilista.
Distribui um lápis e uma folha de papel amarelo por cada um de nós, o meu irmão incluído, embora ele só finja que escreve enquanto nós escrevemos, ou desenhe pessoas a dançar no céu.
Já agora, o meu nome não é Filha da Montanha. Chamam-me assim porque nasci numa cabana na encosta de uma montanha, no Arizona, num Verão em que os meus pais tinham idoem busca de ouro. Dizem que era um lugar mágico, a mais bela montanha que alguma vez escalaram. Talvez fosse, mas sabemos bem o quanto eles gostam de exagerar. Como queriam que a primeira coisa que eu visse fosse aquela encosta, quando tinha apenasoito minutos de vida levaram-me a ver o nascer-do-sol. A verdade é que ainda gosto muito do nascer-do-sol. Quanto ao meu irmão, chamam-lhe Filho do Oceano. Como eu tinha tido a melhormontanha como primeira paisagem da minha vida, acharam que deviam encontrar o oceanomais belo para quando ele nascesse. Penso que percorreram o México todo para encontrar um lugar onde o oceano e a selva se encontrassem. Queriam que o céu estrelado fosse azul-púrpura e que as ondas do mar fossem da cor verde que eles preferem. Ergueram-no bem alto, para que aquelas ondas fossem a primeira paisagem da sua vida. Havemos de voltar um dia àquele oceano verde e à minha montanha alta. Por ora (emboraos meus pais digam que são ricos), não há dinheiro para irmos a lado algum. Por isso, não admira que eu tenha tido de convocar esta reunião. Acreditam que o meu pai me olha bem nos olhos e me diz:
─ Mas, Filha da Montanha, eu estava persuadido de que sabias o quanto somos ricos.
Respondo-lhe:
─ Esta conversa só vai resultar se admitirmos que somos pobres.
O meu pai continua:
─ Vou provar-te agora mesmo o que disse. Façamos uma lista do dinheiro que ganhamos por ano.
─ Quanto é? ─ pergunto.
─ Preciso de anotar.
─ Calma aí ─ adverte o meu pai.
─ Temos de pensar em montes de coisas antes de somarmos tudo.
─ Que coisas? - A minha mãe contribui:
─ Sabes que não recebemos o nosso salário apenas em papel-moeda. Temos um planoespecial que nos permite ser pagos em pôres-do-sol, em tempo para escalar desfiladeiros eprocurar ninhos de águia. Não desarmo: ─ Não podem dar-me uma quantia só para que eu possa anotar?Começamos com vinte mil dólares. É quanto o meu pai diz que vale poder trabalhar ao ar livre, ver o sol durante todo o dia,sentir o vento e cheirar a chuva, uma hora antes de ela cair realmente. Diz que é quanto vale estar num sítio onde pode cantar alto quando lhe apetece, semincomodar ninguém. Mal escrevo vinte mil, a minha mãe acrescenta:
─ É melhor escreveres trinta mil, porque poder ouvir coiotes a uivar nas colinas vale, pelo menos, mais dez mil dólares.
Escrevo trinta mil. A mãe lembra-se de que também gostam de viagens longas e de montanhas distantes que mudam de cor dez vezes ao dia.
─ Para mim, isso vale mais cinco mil dólares.
O que não me surpreende, já que a minha mãe afirma ser uma especialista em sombras demontanha no deserto. Diz que consegue saber as horas pela forma como as cores das sombras variam do nascer ao pôr-do-sol. Apago o que escrevi antes e escrevo trinta e cinco mil dólares. O meu pai lembra-se, então, de outra coisa.
─ Quando um cacto floresce, temos de lá estar porque podemos não voltar a ver aquela cor em mais dia algum da nossa vida. Quanto pensas que vale essa cor?
─ Cinquenta cêntimos? ─ pergunta o meu irmão.
Decidem-se por acrescentar cinco mil à lista. Já vamos em quarenta mil dólares. Mas eu tinha-me esquecido do quanto o meu pai gosta de imitar os sons dos pássaros. Consegue imitar qualquer um, mas a sua melhor imitação são as pombas de asas brancas, os corvos, os falcões de cauda ruiva e as codornizes. Também é bom a imitar águias e corujas de grandes bicos. Por isso, lá temos nós de acrescentar mais dez mil por termos a sorte de conviver com aves diurnas e nocturnas.
Risco a soma que tinha escrito e assento cinquenta mil dólares.
─ Agora vejamos quanto vale a nossa Filha da Montanha.
Decido entrar no jogo e sugiro que valho dez mil dólares, embora o meu irmão tenha começado a rir-se.
─ Não te subestimes ─ diz o meu pai. ─ Lembra-te daquelas listas fabulosas que nos fazes.
Tem razão. Faço listas dos melhores livros que cada um de nós leu, e dos que cada um denós quer ler de novo. Também fiz uma lista de todos os animais que cada um de nós viu e daqueles que mais queremos ver ─ ao ar livre, não num jardim zoológico.O animal que eu mais gostava de ver é o leão da montanha. Já sonhei com ele quatro vezese também já lhe vi o rasto. O meu pai escolheu o urso-pardo da América. A minha mãe quer ver um lobo e ouvi-lo uivar. O meu irmão hesita entre um golfinho e uma baleia. Lembro-me de todos porque sou eu que faço as listas. Acabam por achar que valho um milhão de dólares. Protesto, mas anoto a soma. Acabamos por decidir que cada um de nós vale um milhão de dólares. A soma de toda a nossa riqueza totaliza agora quatro milhões e quinhentos mil dólares. Dou-me conta de que quero adicionar cinco mil dólares pelo prazer que me causa vaguear pelo campo, sozinha, livre com um lagarto, sem ter de seguir trilhos, sem ter um plano, apenas pelo prazer de andar ao sabor do vento. A minha família acha que isso vale cinco mil. O que totaliza quatro milhões e cinquenta e cinco mil dólares. Por fim, o meu irmão quer ainda juntar sete dólares por todas as noites em que adormecemos ao ar livre, sob as estrelas. Pensamos que sete dólares são insuficientes e convencemo-lo a arredondar para cinco mil. A minha folha regista agora quatro milhões e sessenta mil dólares ─ e ainda nem sequer começámos a contar o nosso dinheiro em papel-
-moeda. Para ser franca, esse tipo de riqueza já não conta muito neste momento. Sugiro que nem faça parte da nossa lista de riquezas. E, assim, a reunião chega ao fim.
A família foi até lá fora ver o novo quarto de lua. Mas eu fiquei sentada à nossa querida mesa feita à mão, sobre a qual o prato de flores azuis da minha mãe conserva ainda um bolinho, e escrevo este livro sobre nós. Acaricio a mesa e fico contente por a termos. Acho que o título deste livro vai ser A Mesa do.
Byrd Baylor
The Table Where Rich People Sit
New York, Aladdin Paperbacks, 1998

Friday, January 04, 2008

HISTÓRIA DO ARCO-DA-VELHA

Quando o António de Sousa Mendes, passeando na floresta, encontrou dona Florinda Dos Santos, quedou-se espantadíssimo. Todos sabiam que dona Florinda dos Santos tinha sido promovida a bruxa de segunda, com equivalência a mágico de terceira.

Alegre com a sua nova categoria (quem o não estaria?!), pegou no saco dos desejos e disse a António de Sousa Mendes que retirasse três. Ele que não, que não, por quem era, tantos também não, que não merecia, não senhora. Tirou três.

Contente como um passarinho (1), António de Sousa Mendes chegou a casa, um espectacular apartamento de duas divisões – uma para dormir, outra para se lavar de pé, comer de pé, descansar de pé e sonhar de pé – e guardou dois desejos num saquinho de plástico o qual, meticulosamente, alfinetou ao forro do blusão.

1º. DESEJO

Com o primeiro desejo muito direitinho na mão e concentrado como convém a um aprendiz de feiticeiro, disse em voz alta, clara e quase imperiosa:

– Desejo habitar uma casa idêntica à maior parte das pessoas!

Imediatamente, entre duas explosões e três nuvens de fumo branco com estrelas azuis, António de Sousa Mendes viu-se confortavelmente instalado numa barraca counstruída com bidões da Standard Oil e bonitas janelas feitas de caixas de televisores Siera. Uma única divisão, sem latrina nem sanita, sem chuveiro, sem água, sem fogão nem chaminé.

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(1) – Os passarinhos nunca estão contentes porque não são mamíferos. Há mamíferos que também nunca estão contentes contudo, a expressão é muito bonita, não é?


2º. DESEJO

António de Sousa Mendes quedou-se triste com a sua primeira experiência e, maldosamente, sempre foi pensando se dona Florinda dos Santos não o estaria a desfrutar. Mas não. Arredou logo essa ideia da mente. Ela sempre se mostrara bondosa para com ele. Bondosa quando, em menino, lhe deu duas laranjas. Bondosa quando, em adulto, lhe deu os três desejos. Dona Florinda dos Santos não era péssima, se bem que as más-línguas se referissem, censurando, ao facto de ter transformado o marido em réptil anfíbio da ordem dos anuros e família dos buforídeos. Por raiva ou por outras razões, chamavam ao marido da dona Florinda dos Santos, após a transformação, de o sapo.

Bem, adiante.

António de Sousa Mendes, triste com a sua nova casa (1), retira o saquinho de plástico e espreita, atento. No fundo, a um cantinho, dois desejos saltitantes e bem frescos aguardavam. Com todo o cuidado pega no segundo desejo, coloca-o na mão estendida e diz:

– Daqui para o futuro quero ser feliz!

O desejo desapareceu, mas sem nuvens de fumo, nem explosões. Houve silêncio apenas. Quietude no seu lar. António olha em redor e vê, sentada num monte de listas amarelas, dona Florinda dos Santos. No bolso da blusa, aos pulos, o seu marido, o sapo.

– António de Sousa Mendes... és parvo!

– Sou, minha senhora.

– E, por seres parvo, já não ficas com o terceiro desejo. Dá cá!

Ele deu lá.

– Querias então ser feliz?!

– Bem... querer, queria.


– Não contes mais comigo. Isso não são coisas que se desejem. Creio mesmo que, por tua causa, já não serei promovida a bruxa de primeira, que me daria equivalência, nas coisas oficiais, a mágico de segunda.

Dona Florinda dos Santos desaparece levando o marido no bolso da blusa. António de Sousa Mendes vê-se com o saco de plástico vazio e naquela casa alatada. Desesperado, vai até à entrada, senta-se numa pedra e começa a uivar.

Felizmente, nesse momento, passa o Gustavo Picão, ferrador de profissão, que se comove e da lancheira retira um osso enorme que lhe oferece, gentil.

António de Sousa Mendes agora já sorri. No fundo, é tudo uma questão de hábito.

(1) – Que possuía, à entrada, um quadrinho bordado à mão, dizendo: “Tinbox, sweet tinbox.”