Tuesday, August 31, 2010

Friday, August 27, 2010

A CRISE

Por certo inúmeras pessoas têm soluções para se acabar com a crise em Portugal e eu sou uma delas. Nem foi preciso muita imaginação ou esforço intelectual, bastou pensar em “O Rato Que Ruge”, de Leonard Wibberley. Um livro que se lê e relê logo em seguida, tal é a delícia que proporciona. A pensar nos que não sabem ler ou não gostam, a Colombia TriStar fez um filme que é um assombro (com Peter Sellers, Jean Seberg, etc.) que as pessoas, mesmo alguns políticos, compreendem.
A história é simples: O Grão-Ducado de Fenwick, estando a perder na exportação de vinho, declara guerra ao seu principal concorrente, os Estados Unidos da América do Norte. A Duquesa e o PM encontram, neste plano, a genial solução para os seus problemas, na condição do Grão-Ducado perder. Mas o Grão-Ducado ganhou!
Mas este esquema não é inédito nos dias actuais: o Irão e a Coreia do Norte estão prestes a segui-lo.
Encontrada a solução, há que escolher o país a quem Portugal declara guerra. (Aceitam-se sugestões, mas poucas). A Áustria vem à cabeça pois tem o mais baixo índice de desemprego da União Europeia. É de pensar. O seu poder bélico é tão mau como o nosso, se bem que já tenhamos um submarino, ou seja, o submarino, e cerca de 200 tanques com defeito feitos pela Steyer. Enfim… até gostamos um pouco deles por nos terem dado Schubert, Richard Strauss, Johan Strauss e o festival de Salzburgo.
Outra hipótese é declarar guerra, ajustando contas antigas, à Inglaterra. Eles ficavam encantados por possuírem todo o vinho do Porto (agora só têm 95%) e, já que em devido tempo não lhes demos Moçambique, como o desejavam desesperadamente e com gana (como pão para a boca), agora vingávamo-nos e oferecíamos-lhes o Arquipélago da Madeira (com o sr. A. João Jardim incluído, não negociável).
Mas o melhor mesmo é seguir o guião do Gão-Ducado: declarar guerra aos EE.UU. E, quando o Pentágono mandasse os aviões, imediatamente nos rendíamos ficando como prisioneiros de guerra, situação que os obrigava, pela Convenção de Genebra, a dar-nos comida, tratamentos médicos, roupas e, evidentemente, pocket money. Como prisioneiros as dívidas podiam assobiar-nos às botas. As criancinhas que já estão a estudar o idioma na Instrução Primária ficavam todas contentes, passando o Português, com uma gramática horrível, para segunda língua e o abaixamento de custo das pastilhas elásticas proporcionaria muita alegria aos treinadores de futebol. Os Portugueses, neste momento só unidos pelo Braga, passavam a unir-se também pela libertação do ocupante, coisa que bem tratada, com calma e inteligência, poderia demorar 200 anos. Um regabofe durante duzentos anos – melhor que quando o ouro e a prata vinham à fartazana de Minas Gerais.
Eu sei que estão a perguntar “por que não à Espanha?”. Pela simples razão de que esta Monarquia não nos ligaria nenhuma. Olhava para o lado e assobiava, como os Romanos quando vêem o Obelix e o Asterix. Só fizeram o erro uma vez e logo outro acrescentaram (que nem parece deles), de não deslocar a capital da Península Ibérica para Lisboa, pelos menos durante uns 100 anos.
Bem. Este fimdesemana não contem comigo pois vou ao Alfeite ver o submarino.
(Abaixo o hífen! Abaixo!!!!)

Monday, August 23, 2010

O COISO ORTOGRÁFICO

Chamo-lhe assim pois não é um acordo. Acordo é quando concordamos em caminhar no mesmo sentido. No Brasil mais de metade da população desconhece o Coiso Ortográfico e, os que conhecem, não lhe ligam nenhuma. Aqui não sei. O que sei é que Portugal, ciclicamente, mete o pé na argola. Já cá tardava. Depois do embaixador Vasco Garin afirmar, nas Nações Unidas, que Portugal não concordava com o desarmamento mundial pois ninguém poderia afirmar que os ET’s não andavam por aí e, se ficássemos desarmados, só nos poderíamos defender com fisgas e facas de cozinha. O Mundo riu.
Esperava que a Ota fosse mais uma argolada da regência política portuguesa. Mas arrepiou-se caminho, provocando a barafunda (sururu para o Coiso Ortográfico – (CO)) que todos conhecemos.
Mas falta-nos falar da fiscalização (de que Portugal não gosta nada – veja-se o caso do Banco de Portugal e do seu desgovernador) e das coimas (tão queridas aos legisladores portugueses).
Para a fiscalização, deverá constituir-se um gabinete, de sete membros, em cujas primeiras reuniões elegerá o respectivo presidente. Depois encarregar-se-á dos Estatutos, da CP (campanha de publicidade, que esperará paciente a dotação da verba), e a selecção dos fiscais, que deve recair não nos professores de Português, mas sim nos revisores das editoras (cuidado com as meninas licenciadas em Letras).
Depois, o gabinete fará uma hierarquia de faltas ao CO. Atendendo a que o “Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências, levou 18 anos a ser concebido, a tabela das faltas deverá demorar uma década e, entretanto, cada um vai escrevendo como lhe apetece, sabe ou dá mais jeito. Eu já estou a escrever fimdesemana sem hífenes, que são, como todos sabem, um atraso de vida e fakto com kapa para indispor os brasileiros (minha ex-mulher é brasileira).
As coimas poderão ser de duas espécies: primeira – obrigar o faltoso a escrever 100 vezes a palavra segundo o CO, numa escola de Instrução Primária da área do malandro, aos sábados e a horas marcadas pela direcção escolar. Todas as crianças da escola assistem, de pé, cantando o Hino Nacional. Alguns residentes brasileiros serão convidados para cantar, em seguida, o Hino Nacional brasileiro. Se o prevaricador for director de um Órgão de Comunicação Social, oferecerá, no final, um churrasco a toda a galera (ver Aurélio ou Houaiss); segunda – o malandrim é obrigado a saber de cor, no prazo de 30 dias, todas as alíneas do Coiso Ortográfico e as biografias de Vasco Pulido Valente e de João Ubaldo Ribeiro. Ficará sem registo da falta na Polícia e no SEF, se recitar ainda um poema de Luiz Pacheco, no programa da RTP-2 “Câmara Clara”.

Thursday, August 19, 2010

ESCOLAS...

É profunda convicção nossa, já de muitos anos estabelecida, que urge seguir rumo diverso do que se tem seguido na organização dos livros de leitura para as escolas primárias.
Tem a escola obrigação de desenvolver a criança física, moral e intelectualmente.
A leitura é um grande elemento para o desenvolvimento intelectual, quando deste exercício se tira o conveniente e necessário partido. Para isso se conseguir, precisa-se de que o pequeno leitor compreenda. A fim de compreender é indispensável:
1.º que a linguagem seja actual, simples, clara e precisa; 2.º que o assunto seja comezinho, familiar, compreensível para as crianças; 3.º que os períodos sejam curtos, as orações bem-dispostas, os termos sejam os mais simples e usuais.
(…)

In “Selecta das Escolas” – Livro de leitura para as aulas de Instrução Primária - 1886

Monday, August 16, 2010

APESAR DAS GUERRAS

Ao contrário da minha filha Alexandra, para quem a época ideal para viver seria aquela em que Dartagnan ou Lagardère a convidaria para dançar no baile da rainha, gosto de ter nascido no século XX. Apesar das guerras.
Ao que eu tenho assistido! Quase não dá para contar. Uma vez, estava eu a estudar, com o Rádio Club Português em fundo, eram quase onze da noite, quando oiço o professor de Aerodinâmica no IST, doutor Varela Cid, dizer que o Sputnic era uma invenção propagandística dos russos e que era impossível lançar no espaço um satélite artificial. Logo em seguida, falou Henrique Galvão, pela Aeronáutica Civil, dizendo que, para pôr um satélite em órbita, bastava ter tecnologia e cérebros. Dá as onze e o RCP anuncia que o Observatório Nacional acabava de assinalar a passagem do Sputnic e que o seu bip-bip se poderia ouvir na frequência tal e tal, a dos crédulos. O professor, se tivesse esperado cinco minutos, não teria caído no ridículo. Isto apesar das guerras.
Depois, a rainha do nosso mais antigo desaliado, resolve vir ver os seus súbditos mais escurinhos devido ao sol. E passámos todos a ver televisão a cores. Os ditos televisores a cores depressa se esgotaram nos importadores, já que se sabia de fonte segura que a rainha só gostava de se mostrar policromaticamente. Ao que eu assisti… apesar das guerras.
Rapazinho de dezassete anos, adorava a rádio e fiz uma galena, coisa que hoje ninguém sabe o que é. Depois assisti a uma das maiores conquistas científicas da história: o transístor. (Que muito veio acudir e ajudar nas guerras, incluindo a das estrelas.) Na altura andava eu às voltas com a 117L7, uma válvula de funções múltiplas, para construir o meu emissor-receptor, indispensável ao radioamadorismo.
De repente, estava eu muito sossegado a ler, casado e pai de filhas, veio a minha mulher a correr, a chamar-me, excitada, que estava um homem na Lua. E fiquei toda a noite a ver o homem na Lua. Apesar das guerras, ou por causa delas.
O transístor, voltamos a ele, foi um sarilho: permitiu realizar o sonho de todos os autores de FC, desde Azimov a Ray Bradbury, passando pelos Clarks e companhia: a miniaturização. Diminuíram de tamanho os rádio-receptores e os aparelhos de televisão. Entretanto já tinha comprado um kit americano com as peças todas e construí o primeiro amplificador estéreo que entrou lá em casa. Entrou digno pelo seu pé e por lá ficou, após trinta noites a montá-lo. Era um encanto. Ficávamos a ouvir estereofonia e a babarmo-nos de prazer. Olha este canal… olha agora este… O jazz era mais jazz mas, para Beethoven, estéreo ou monoral era-lhe indiferente. Feitios. E quanto aos discos, fomos passando do 78 r.p.m., em massa, para o de 45, depois o de 33 e um terço em vinil, e agora o compacto. Comum a todos eles, o buraco no meio.
Ao que eu assisti, leitor! Estava eu muito distraído a fazer a tropa e o Fleming a exportar Penicilina para todo o mundo… para bem da guerra. E por causa da guerra também veio o DDT, o insecticida em pó que se dava aos soldados por causa dos bichinhos. Testado antes pelos soldados americanos. Na guerra. E também por causa dela, o sonar e o radar.
Tinha lido num periódico acerca do concurso da BBC para um minicomputador. Um concorrente importante mas que não ganhou, chamava-se Clovis Sinclair, um génio a quem mais tarde, por culpa da rainha, se chamou depreciativamente Lord. Ora o Clovis, com um menino tão bonito nas mãos, apesar de recusado pela BBC, resolveu fabricá-lo às toneladas e vendê-lo em todo o mundo. Foi assim que eu recebi o meu primeiro ZX Spectrum, um miniprocessador que, acoplado a um gravador de fita magnetofónica, fazia maravilhas. Depois veio o QL, depois o Philips, depois o… e o… e o… e o Hyundai agora a olhar para mim e eu desgostoso de ver este maldito aparelho ter mais memória que eu.
Uma noite deu-me na cabeça e fui fazer o meu 25 de Abril. Por dentro dele. Inolvidável madrugada em que os redactores, chamados a meio ou no começo do sono, não se apresentaram contrariados ou reclamantes. Vieram a rir e a abraçarem-se uns aos outros. Alguns vertiam lágrimas felizes. Alguns trouxeram mais cinco. E isto por causa das guerras. Não posso esquecer ter andado quarenta dias na clandestinidade, a dormir no chão, tendo por almofada uma resma de papel para duplicador. Depois do 25 de Abril.
Mas o que realmente tem sempre estragado tudo, estimado leitor, é esse estúpido flagelo humano: a guerra, ou seja, o homem.

Álvaro Belo Marques

(in TempoLivre, revista do Inatel)

Monday, August 02, 2010

Razões técnicas obrigaram-me a tão grande ausência.