Tuesday, January 31, 2006

10 - O caso da mulher com um olho de vidro (Cont.)

6.
Bone morava na Avenida Iorque, perto da Ponte Queensboro,
num luxuoso apartamento de solteiro. Eram já nove e meia da
noite quando chegou, mas sabia exactamente o que o esperava.
Sentados em cadeiras e almofadas, vários jovens conversavam,
alguns fumavam e todos bebiam Coca-cola.
Muito bem educadinhos, saudaram em coro:
- Muiiito boooa noiiite, senhooor Cheeefe!
- Hoje tenho muita pressa. Vamos rápido às contas.
O mais velho, talvez 14 anos registados na igreja do bairro,
adiantou-se.
- Está tudo aqui - e entregou a Bone um saco de plástico. -
Fornecemos os clientes habituais e o Sigesmundo Freud engatou
mais três: uma professora de instrução primária, uma lésbica
contorcionista e um dos adjuntos do Mayor. A semana rendeu quase
o mesmo: oito mil cento e trinta e dois.
- Muito bem. Freud vai ser promovido a Intermediário de
Primeira. Retirem a vossa percentagem e levem da cozinha as
Colas, as pastilhas elásticas e os Playboys. Há um exemplar para
cada. Amanhã não há distribuição. Venham cá na sexta buscar as
doses habituais para o fim-de-semana, mais as dos três novos clientes.
Freud estava nervosíssimo. Tinha doze anos muito louros e uma
fisionomia que lembrava um apito. Adiantou-se e disse:
- Estou com um problema, Chefe.
- Qual é? - Perguntou Bone, distraído com mais altos assuntos.
- Um adjunto do Mayor quer ter relações comigo.
- Isso é contigo e com ele. A América é um país livre e democrata.
- Pois, Chefe.
Quando as encantadoras crianças saíram, Bone, sem ligar ao saco
com o dinheiro, pegou no telefone. Na dúvida, consultou as Páginas
Amarelas. Sim, lá estava a empresa Tom & Jerry, Limitada. Marcou.
Uma suave voz feminina respondeu:
- Tom and Jerry Killers, Limitada. Uma empresa ao seu serviço a
qualquer hora do dia ou da noite.
- Boa noite, Ofélia.
- Alooouuuu.... ossinho querido.... (1)
- Liga-me ao Hamlet.
- Sim... amoooor...
Esperou apenas três segundos.
- Tá?! Hamlet?
- Sim...
- Preciso falar-te. Tenho um problema. Aliás, explica-se em poucas
palavras.
- Palavras... palavras... palavras...
- Ouve, porra! Ouve!
- Ouvir e encontrar o infinito das coisas...
- Tá bem. Quero comprar uma gargantilha para uma pequena
deliciosa.
- E o rei, fazendo o câmbio com cuidado, disse: "Dez mil dólares."
- Espera, Hamlet. Vais fazer essa encomenda de borla, percebes?
Nem um cêntimo.
- Era o que eu previa. Lastimável! E quem é a tua querida?
- A mulher com um olho de vidro.
- Tá... bem, mas é a última cena do último acto. Já paguei o
suficiente em dor e sacrifícios, como diria a rainha, ao ver Polónio
trespassado.
- Adeus, Hamlet.
- Ofendeste gravemente a minha honra.
Click.
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(1) - No original "dear little bone".
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1 comment:

Dario Marques said...

Oi Pai.
Era só para te mandar um grande abraço e dizer que tenho orgulho e gosto na tua escrita.